terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Memória descritiva e plano de lavra da Mina do Borrageiro


A 20 de Novembro de 1918 era emitido o parecer pelo qual poderia ser atribuído à Empresa Mineira dos Borrageiros Lda., constituída por António Lourenço da Cunha e Paul Brandt, a concessão da Mina de Borrageiros. Com a atribuição da mina, o seu Director Técnico, Alberto Augusto Pinto Vieira, elabora em Fevereiro de 1919, a memória descritiva e o plano de lavra da mina.

(Na imagem em cima, a Mina do Borrageiro a 16 de Abril de 1993)

A mina era descrita como "situada na Serra do Gerez na vertente oriental do “ALTO DOS BORRAGEIROS” no limite da freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, distando a 8 quilómetros aproximadamente a N. da povoação de Cabril." As vias de comunicação eram quase inexistentes ou muito rudimentares, referindo que "entre a povoação de Cabril, situada a 8 quilómetros ao Sul, e o Alto dos Borrageiros existem uns caminhos de serra de fácil transito para peões e cavalgaduras e que poderão ser transformados em caminhos de carro. A povoação de Cabril está ligada a Ruivais por caminhos de carro até à margem direita do Rio Cávado, devendo neste fazer-se a travessia em barco, seguindo-se novamente o caminho na extensão de 3 quilómetros até Ruivais d’onde parte uma estrada nacional até Braga." Por seu lado, os transportes de e para a mina seriam feitos "utilizando o transporte a dorso de cavalgaduras entre a mina e a povoação de Ruivais e desta até Braga será feito em carros tirados por muares."

Os filões do jazigo eram descritos como se encontrando "(...) nas fendas das fracturas duma injecção de granulite no granito grosseiro de grandes cristais de feldaspatho que domina em toda a serra. Há duas séries de filões, um na direcção N.S. e outra fazendo com esta um ângulo de 35º a 40º. A Iª série na direcção N.S. é constituída por três e em alguns pontos por quatro e cinco filões paralelos e rectilíneos formando uma faixa de 2 e em alguns pontos 3,5 metros de largura; a pussança média destes filões, 2 a 4 centímetros. A 2ª série cruzando com a Iª sob um ângulo de 35º a 40º é constituída por 4 a 5 e em alguns pontos 6 e 7 filões paralelos, mas bastante estreitos, formando uma faixa de 5 metros de largura, são inclinados 55º a 65º para oriente. Não se conhece ainda o ponto de cruzamento destas duas séries que provavelmente terão formado uma coluna rica. Na Iª série que é a mais rica, o wolfram aparece tanto em bolsadas, raras e pouco importantes, como mosqueando o quartzo ou em placas encastradas neste. É esta série de filões que tem sido pesquisada e que é objecto do plano de lavra que passaremos a descrever. Os detritos da erosão da cabeça do filão formaram na encosta uma pequena aluvião wolframifera cuja espessura varia entre alguns decímetros a 1,00 e 1,50 metros."


A Mina do Borrageiro a 11 de Abril de 1995

O plano de lavra previa que o filão fosse "atacado a 50 metros de profundidade por meio dum travers-banc aberto na vertente orienta e na direcção aproximada de Leste a Oeste e na extensão de 175 metros. No encontro do banco dos filões será aberta neste uma galeria em direcção para norte e para sul, formando o 3º piso; desta galeria partirão chaminés verticais no sentido ascendente até 20 metros acima do nível desta galeria donde partirá uma nova galeria em direcção – o 2º piso; simultaneamente será aberto o poço de ventilação até à profundidade de 10 metros, a cujo nível partirá para norte e sul uma galeria em direcção – formando o 1º piso; desta galeria partirão de cima para baixo chaminés verticais até ao encontro da galeria do 2º piso; nesta poderá simultaneamente trabalhar-se na perfuração de baixo para cima até ao encontro das chaminés que descem da galeria do 1º piso. As galerias em direcção ficarão a 20 metros do afastamento vertical e as chaminés a 30 metros d’eixo a eixo. A largura das galerias será 2 metros e onde o banco de filões atinja 3 ou 3,5 metros terá a galeria excepcionalmente esta largura para permitir o desmonte completo dos filões. O desmonte será feito pelo processo das testeiras ou degraus investidos atacando os maciços pelos dois vértices inferiores das chaminés. O entulhamento será feito simultaneamente com os estéreis de sheidagem na mina e com entulhos vindos do exterior; este mesmo entulhamento servirá d’apoio aos mineiros para atingir os testeiros. Os entulhos do exterior entrarão quer pelo travers-banc quer pelo poço de ventilação devendo de preferência entrar por este poço para evitar os transportes verticais no interior da mina."

A extracção e transporte na mina do material seria "(...) abatido depois de sofrer na estação de desmonte uma sheidagem grosseira descerá pelas chaminés até à galeria do 3º piso, que será a galeria de rolagem, caindo na caixa do carretilho donde seguirá até ao exterior. Nos 1º e 2º pisos o transporte entre duas chaminés será feito por meio de carretilhos conduzidos por rapazes."

A ventilação e o esgoto seriam feitos de forma natural com comportas nas galerias e chaminés a conduzir o ar para a estação de desmonte. Por outro lado, valetas abertas de um e de outro lado nas galerias conduziriam as águas para o exterior. As galerias teriam um pendor de 0,6% para o escoamento da água.

A Mina do Borrageiro em Agosto de 1999

A entivação e revestimento seriam empregados "toros de pinho encascado com diâmetro médio útil de 0,18 a 0,22 formando quadros completos e incompletos afastados 1,00 m a 1,50 m d’eixo a eixo (em alguns pontos empregaremos apenas chapéus); longarinas postas com intervalos de 0,06 m a 0,10 m farão o revestimento do céu das galerias e tabuleiro dos entulhamentos. Chaminés terão quadros e revestimento nos quadros se apoiarão as escadas e a um dos lados os canais de descarga dos materiais."

O minério seria então recolhido e tratado mecanicamente na estação de desmonte onde o material abatido sofreria "uma escolha grosseira saindo o tout-venant para o exterior onde sofrerá uma sheidagem preliminar, numa barraca de madeira de 4 X 4 metros com o pavimento ao centro de lajedo de pedra. Nesta o material vindo da mina será despejado no solo e aqui sofrerá uma escolha: os calhaus francamente estéreis serão quebrados para se verificar se contêm minério no interior, os calhaus grandes com pequenas quantidades de minério serão igualmente quebrados para separar a ganga; os estéreis serão lançados na entulheira e os mistos e ricos conduzidos para a lavaria. Esta operação será feita por quatro mulheres, duas com martelo de cabo comprido e duas com pás ou rodos para arrastar e separar os materiais. O produto da sheilagem preliminar seguirá imediatamente para a LAVARIA, onde será submetido à triagem e trituração, feita a primeira operação por menores e a trituração por mulheres, posto isto projectamos a instalação duma mesa de triagem com 5 ou 6 lugares, com pequenas placas de ferro e martelos de 1 a 1,5 kg e 6 britas com placas de ferro largas, e martelos de 1,5 a 2 kg e dois pisões de pedra com maço de ferro."

A lavaria seria composta por "1 mesa de triagem e 6 de brita, já citadas; um crivo oscilante classificador, 3 classes e 1 bac-à-piston duplo e de coluna filtrante – 1 spizskasten de 3 pontas – seguido de caixa de sachlamms e serpentina com 10 metros de comprimento. O crivo e o bac-à-piston serão de funcionamento mecânico recebendo movimento duma roda hidráulica. A potência consumida por estes dois aparelhos é inferior a 1,5 HP. O consumo d’água é para p bac-à-piston de 1,5 litro por segundo e para o spizskasten de 1,7. Esta água é lançada na origem dos canais respectivos à saída do crivo. Esta LAVARIA, com a sheilagem preliminar, está calculada para 12 a 18 toneladas de tout-venant por dia de 12 horas de trabalho."
A lavaria da Mina do Borrageiro (Imagem © Rui C. Barbosa)




Esquema da lavaria da Mina do Borrageiro (Imagem © Rui C. Barbosa)

Apresentado ao Conselho Superior de Minas, o plano de lavra foi considerado incompleto devido ao imperfeito conhecimento do jazigo, porém foi aprovado a 15 de Agosto de 1920 após informação por parte da Circunscrição Mineira do Norte. O despacho que aprovação foi exarado a 30 de Setembro pelo Ministério do Trabalho sendo posteriormente publicado no Diário do Governo a 6 de Outubro.

Porém, a exploração da Minas de Borrageiros não iria decorrer por muito mais tempo com a Empresa Mineira dos Borrageiros Lda. a abandonar a exploração no ano seguinte. O Director Técnico apresentava a sua desistência do cargo a 19 de Setembro de 1924. A mina ficaria abandonada durante os anos seguintes.

Texto adaptado de "Minas dos Carris - Histórias Mineiras na Serra do Gerês", Rui C. Barbosa - Dezembro de 2013

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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