segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

O vandalismo sem rosto na Serra do Gerês


Já são muitas (uma já era demais) as referências e notícias de actos de vandalismo praticados por pessoas que visitam a Serra do Gerês. Certamente que este local não é o único no país a sofrer a praga desta gente, mas como é óbvio o facto de ser na Serra do Gerês toca mais directamente neste espaço cibernético.

Desta feita, a notícia chega-nos novamente das paragens da Chã de Suzana onde se localiza a grande mariola que assinala o trilho para o Castanheiro. Devido ao facto desta mariola se encontrar junto a uma estrada em terra batida com circulação automóvel, a mariola tem sido por vezes alagada, isto é, destruída.

Eu interpreto estes actos de destruição das mariolas como uma frustração sexual por parte de quem os pratica. O facto de para estes inergumenos verem nas mariolas a projecção de um grande falo faz extrapolar a sensação de incapacidade que certamente lhes deve afligir, levando a que essa frustração os impulsione a destruir algo que representa aquilo que simplesmente não conseguem alcançar.

Este é um vandalismo sem rosto e cobarde. Certamente que um dia um destes tipos será apanhado no acto e pode ser que então a frustração psicológica lhes seja transferida para o corpo...

Fotografia © Caminheiros de Montanha

Minas dos Carris - Histórias Mineiras na Serra do Gerês


Perdidas na imensidão granítica da Serra do Gerês, as Minas dos Carris representam um património de memórias esquecidas pelo Homem.

Reduzido a um belo conjunto de ruínas que têm como companhia a solidão da montanha e os gelos do Inverno, este já foi um lugar de vida de onde se tirava o volfrâmio das entranhas da Terra.

Para lá destas ruínas jazem lutas pela posse da terra, histórias de mineiros, vivências de um dia a dia de sacrifício e imposições que levaram a uma singularidade deste lugar em todo o Portugal.

Infelizmente esta era uma história por escrever e foi esse o desafio que há já vários anos lancei a mim próprio. Aos poucos fui conseguindo juntar as peças de um puzzle e limpando a poeira de um quadro que cada vez se tornava mais fascinante.


A região é áspera e dura, assim como era a vida daqueles que durante muitos anos lutaram por tirar da terra o parco sustento ou a fugaz fortuna para quem nada tinha e que do dia para a noite conheceu a riqueza no alto de um apogeu endinheirado, mas pronto para o mergulho de volta na mais vil miséria.

Nos nossos dias, as Minas dos Carris encontram-se em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, uma área protegida que para além de salvaguardar as riquezas naturais de uma região poderia ter feito mais pela riqueza de um património que se perde a cada dia que passa.

Desde a sua criação em meados dos anos 40 com a presença da Alemanha Nazi, passando pelo seu ponto alto nos 50 com a formação de um complexo mineiro socialmente avançado, passando pelo seu declínio e ressurgimento nos anos 70, até ao seu fecho irrevogável em finais dessa década, o livro ‘Minas dos Carris – Histórias Mineiras na Serra do Gerês’ constituí um esforço individual de investigação de mais de sete anos por entre arquivos, milhares de quilómetros percorridos a pé, contactos pessoais e ligações além mar que me permitiram reunir um vasto espólio de memórias escritas e milhares de fotografias que retratam todas as épocas das Minas dos Carris. Todas elas encontram-se agora neste livro.

Este emocionante trabalho individual pretendeu acima de tudo ir explorando a cada nova descoberta a história daqueles que do nada transformaram a desolação granítica da Serra do Gerês num local de vida, mas também fazer ver com essa história o quanto temos de preservar na nossa memória colectiva.

domingo, 31 de Agosto de 2014

Trilhos seculares - Da Pedra Bela ao Alto do Borrageiro


Foram várias as opções que considerei para este dia. Desde uma incursão sempre adiada a Lamelas, lá nas profundezas da montanha, até a um belo carvalhal que por mim aguarda há já tempo demais. Qualquer uma delas implicava uma «longa» deslocação de automóvel logo pela manhã, e na verdade não me apetecia deslocação tão longa e como tal rumei às Caldas do Gerês... em alguma coisa haveria de pensar entretanto.

O dia nasceu ideal para caminhar. Abastecimento feito quer em casa quem no comércio local, enveredei em direcção à Pedra Bela. É sempre bom começar estas coisas pela manhã... para além de evitarmos o tempo quente que haveria de surgir mais tarde, evita-se o reboliço dos automóveis e dos gritos. Por outro lado, tira-se o máximo prazer da paisagem calma, do matinal chilrear da passarada e alimenta-se a esperança de ver um ou outro bicho mais distraído nas suas andanças matinais.

Carro estacionado, mochila às costas e vamos lá que para todos os efeitos, já se faz tarde. Queria uma «grande volta» pela serra com o caminho a ir-se formando à medida que as botas iam percorrendo estes velhos carreiros. A fase inicial seria muito simples: seguindo o Trilho dos Currais fazer-se-ia a passagem pelo Curral da Espinheira, pelo Varejeiro, Curral da Carvalha das Éguas e Curral da Lomba do Vidoeiro.

O Curral da Espinhira é o local ideal para se escutar a passarada, se bem que naquela altura não havia muitos pássaros para me presentear com um sinfonia. Sim, porque já ali tive a oportunidade de assistir aos melhores concertos naturais que se podem escutar na Serra do Gerês. Será uma questão de sorte então! Após uma rápida passagem pelo forno dos pastores (quase escondido pelos grandes fetos) e de novo pés ao caminho que o Sol já vai alto, mas felizmente o ar ainda é fresco.

Após passar o Varejeiro, o caminho leva-nos ao Curral da Carvalha das Éguas com o seu abrigo renovado, um verdadeiro hotel em plena serra. Na zona do Varejeiro tem-se uma vista especial para Este. Com a manta de nuvens que se criara, as reflexões da luz solar criaram um pano de fundo interessante e no qual valou a pena se «perder» algum tempo a tentar compor uma fotografia que fosse marcar o momento. Dali ao Curral da Lomba do Vidoeiro é um pulo, atravessando uma zona pejada de mariolas ali colocadas como amuletos de boa sorte por quem ali passa. Apesar de ser algo foram do comum e em certa parte um exagero, não deixa de ser peculiar de, naquele local, se assistir a tal paisagem (certamente que não irá confundir o caminho a ninguém).

A partir do Curral da Lomba do Vidoeiro existem duas opções interessante para aceder a diferentes partes da serra. Uma delas leva-nos para o Laspedo e uma outra para o Vale de Teixeira; optei por esta última pois a passagem no Laspedo poderia estar fechada com a vegetação.

Nesta altura abandona-se o Trilho dos Currais e segue-se pelo carreiro bem marcado até se entrar no Vale de Teixeira. Aqui entramos numa das paisagens mais singulares da Serra do Gerês. O longo vale é percorrido em toda a sua extensão pelo Rio do Cambalhão (à sua passagem pelo curral do mesmo nome) e pelo Rio de Teixeira (à sua passagem pelo curral do mesmo nome). A vertente nascente do vale é delimitada por uma paisagem imponente encimada pelo Borrageiro, um dos pontos mais elevados da serra, e por profundas corgas que alimentam o rio no fundo do vale. Muitas destas corgas possuem velhos carreiros que nos permitem um olhar diferente sobre o vale e que infelizmente com o passar dos tempos se vão perdendo por entre a vegetação.


Tal como muitos currais nesta zona da serra, também o Curral de Teixeira foi remodelado sendo-lhe colocado um muro de pedra em torno do abrigo para assim não permitir que os animais se cheguem junto deste. Depois de uma curta paragem no curral, segui para Norte em direcção ao Curral do Cambalhão. Aqui o caminho está bem delimitado quer em virtude da recente limpeza e arranjo por parte da vezeira, quer pela colocação de mariolas que permitem uma boa orientação. Um pouco antes de chegar ao Curral do Cambalhão, uma mariola despertou-me a curiosidade. Naquela paisagem não passa indiferente o elevando promontório granítico que de certa forma parece «guardar» como uma frente avançada o imponente Borrageiro. No seu alto, parecem lá colocadas algumas marcas pelo homem. Serão marcos geodésicos e mariolas, não sei. Aquela mariola no fundo do vale parecia obviamente levar numa direcção e assim, estando disposto sempre a conhecer algo de novo, segui aquele carreiro. Escondido pela vegetação, ele ali está a marcar os passos que em tempos o percorreram com mais frequência. Hoje, tal como muitos outros carreiros na serra, constitui uma memória. Sempre subindo, tornava-se cada vez mais evidente para onde o caminho me levaria. Passando pequenas corgas e grandes lajedos de granito, o promontório granítico parecia deixar-se vencer a cada passo que dava e a paisagem, essa, ia-se tornando uma novidade sobre algo que tão bem conhecia. A certa altura o olhar abarca desde o Curral de Teixeira até ao Curral do Junco, com o Curral do Cambalhão, lá em baixo, e as paredes do Laspedo e o Pé de Salgueiro do outro lado do vale, o topo do Outeiro Moço, o Pé de Cabril e os picos da Amarela lá mais adiante. Não faltaria muito para atingir o cume daquele colosso, porém as mariolas acabavam subitamente! Talvez dali para adiante o caminho ficaria a cargo da decisão e da coragem de cada um; talvez aquilo não fosse um carreiro que um pastor ou se fosse percorria a face Este daquele penedo. Não sei. naquela posição, e enfrentando sozinho a montanha, diz a prudência que tudo tem o seu limite... e de qualquer das formas outros dias virão nos quais a glória de uma nova passagem nos seja concedida. Era tempo de baixar e enfrentar a magnifica subida para a Chã da Fonte pela borda da Preza.


Meia-dúzia de cavalos procurava a sombra nos carvalhos do Cambalhão e pouco se importaram com a minha passagem. Mais à frente o carreiro atravessa o rio e segue pela margem até atravessá-lo novamente. O caminho segue em direcção à Preza depois de passar pelo Curral do Junco. A certa altura, surge-nos do lado direito um carreiro que trepa a encosta em direcção à Chã da Fonte. Perninhas e bons pulmões podem não ser o suficiente para vencer o caminho e é então que o ânimo da subida nos ajuda a vencer o declive! Para trás, vai-se escondendo o vale enquanto que o topo permanece escondido com a volta da montanha. Porém, sem esperar, ali estamos nós a chegar aquela chã que nos permite um descanso antes de voltar a subir em direcção à Lomba de Pau. Não segui na sua direcção e fui procurar a água que deveria brotar na fonte que ali existe. Fiquei espantado por ter pouca água; alguma coisa deve estar a desviar ou impedir a água de correr na fonte, pois esta tem usualmente água todo o ano. 


Depois da fonte dirigi-me ao Arco do Borrageiro, magnífico ex-liris clássico da Serra do Gerês, e depois atingi o ponto mais alto da caminhada aos 1420 metros do Borrageiro. Escusado será dizer o tamanho e a dimensão da paisagem que daqui se avista. Todo o Gerês está a nossos pés e perante tal quadro imponente é difícil encontrar as palavras para o descrever. Perante tal, só há mesmo uma solução... desafiar-vos a lá irem! Mas estejam descansados não vos desafio por uma doação ou por um jantar; desafio-vos por vós próprios e isso chega...


A partir do Borrageiro inicia-se o regresso ao ponto de partida! Obviamente não regressei pelo caminho que acabara de percorrer e assim decidi rumar ao Curral da Rica Negra e depois passar pelo Curral de Rocalva; queria chegar ao Curral do Cando e percorrer aquele magnifico carreiro até à base da Arrocela. À saída do Borrageiro tive a oportunidade de observar «o outro» lado do promontório que havia subido de manhã. De facto, por ali, o caminho é mais «simples» e a passagem torna-se mais óbvia, apesar de dificultada pela vegetação. Será por ali que o caminho deve seguir, mas havendo mariolas de um velho carreiro, haverá que procurá-las com cuidado.


A passagem pela Roca Negra foi fugaz e decidi fazer um desvio para o Cando seguindo um carreiro bem marcado que segue na base do bloco negro de granito. Descendo, o carreiro vai-nos levar direitos ao Curral do Cando com o seu abrigo renovado e daqui inicia-se o percurso por aquele magnífico vale. O carreiro foi recentemente limpo tornando assim fácil a progressão. Por esta altura o calor já se fazia sentir em toda a sua força, mas o ar fresco que de quando em vez lambia a pele suada facilitava o caminho. Deixando o vale para trás, entramos no topo da Corga de Giesteira e vemos a pouca distância o abrigo de Arrocela. O caminho vai-nos levar para o Curral de Curiscada (Ribeira) e em pouco tempo chegamos à rede de estradões que nos podem levar ao Arado. Em vez de seguir pelo estradão, desci directo para o Curral de Giesteira e depois para o Arado.


Passei todo o dia sem ver viva alma no sossego dos píncaros serranos tendo como companhia o vento e as paisagens do Gerês. Ao chegar ao Arado levei com o choque da realidade de um turismo massificado e não planeado; com o choque de falar um português que ninguém compreende (ou o termo 'boa tarde!' é incompreensível para muitos); com o choque de parecer um estranho de mochila às costas e bastão na mão a caminhar de botas sujas e roupa suava; com o choque de ver centenas de automóveis mal estacionados e pouco importados com a passagem de outros; com o choque de ver centenas de pessoas em pequenos charcos de água; e com o choque de comer o pó que alguns automobilistas parecem fazer de propósito. Como dez minutos ali são o suficiente para irritar qualquer um... Tinha o carro na Pedra Bela, mas seria impensável fazer o resto do percurso pela estrada. Refugiei-me de novo na serra perante o olhar incrédulo daquela gente; enganei-me no caminho e caminhei em bosque fechado com fetos pelo pescoço... é mais fácil caminhar agachado, vê-se onde piso! Subi a encosta, fiquei sem água, encontrei um estradão... uma mariola, estava de volta ao caminho por onde passei de manhã... o Curral da Espinheira, Pedra Bela... o carro quente, mais gente a olhar... sou um ET! Chego a casa, atiro-me para cima da cama... abro os olhos, foi um sonho.

Algumas imagens do dia...




































































































Fotografias © Rui C. Barbosa