terça-feira, 23 de outubro de 2018

Relatório de reconhecimento da mina da Corga das Negras n.º 1 em 1951


MINA DE WOLFRAMIO, ESTANHO E MOLIBDÉNIO 

“CORGA DAS NEGRAS nº 1”


RELATÓRIO DE RECONHECIMENTO

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SITUAÇÃO, VIAS DE COMUNICAÇÃO E MORFOLOGIA DO TERRENO

A mina fica situada no local do mesmo nome, freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, a cerca de 22 km da povoação Gerez (estancia termal), para Nordeste.

Está-se em plenas alturas geresianas, a altitudes entre 1250 e 1450 metros da nossa serra mais rude e áspera. Granitos em caprichosos e gigantescos afloramentos sucedem-se numa avalanche de múltiplas e variadíssimas feições topográficas, com ascendência característica da serra com profundas e íngremes ladeiras, encaixando tortuosos ribeirinhos, separados por altos picos. Por toda a parte uma vastidão de fantásticos blocos rochosos ora irregularmente distribuídos por altos e ladeiras, ora como que metodicamente sobrepostos simulando ciclópicos muros de insuperável protecção a baixios, por onde irrequietas e velozes águas se escapam a caminho de sossegadas regiões. Quando a erosão forçou à deposição de espessos depósitos nos baixios, constitui-se o que lá se chama “lamas” (extremamente frio, com neves mais ou menos duradouras). A este conjunto desolador acrescenta-se o imenso e profundo silêncio da inactividade, da quase total esterilidade nestas alturas onde em extensas áreas não existe uma árvore nem se vê uma ave.

Paira o nada, mas numa leveza e subtilidade tais, que não nos suscita impressão de pequenez ou insignificância, pelo contrário, a paisagem é tão bela no seu conjunto, esbatido em profundas extensões, que nos dá a impressão de estarmos num maravilho (embora tosco) pedestal, denominado, em soberbo miradouro, este cantinho de Portugal.

Da mina a Braga (centro importante mais próximo) são cerca de 72 km, sendo: 22 km da mina ao Gerez, por estrada em parte municipal (1º troço a partir do Gerez), outra parte florestal (troço seguinte) e, finalmente, mineira, construída pela requerente (último troço).

Braga (já de si um centro importante) tem fáceis ligações com os principais centros industriais e de exportação do país.

GEOLOGIA

Granitos de vários tipos, são as rochas da região. Vimo-las de grão grosso, médio e fino, de duas micas ou só de uma delas. Predominam, no entanto, os granitos biotítos de grão médio e grosso, estes frequentemente porfiróides, Regra geral são granitos róseos, cujo tom varia com a percentagem dos feldspatos dessa cor. Alguns autores vêm nesta coloração dos granitos um indício favorável, quase certo, da existência de minerais uraníferos. Infelizmente, na Serra do Gerez ainda não foram identificados e, quanto a nós, supomos que tal regra não seja confirmada nesta região, a não ser por possíveis ocorrências raras. Aliás não encontramos explicação de qualquer dependência genética entre aqueles minerais (feldspatos róseos e minerais uraníferos).

São nítidos os planos de disjunção sobre duas direcções principais normais entre si: cerca de N-S e E-W.

É de crer que, a avaliar pela grande extensão dos afloramentos graníticos e pela rudeza da estrutura da serra, a erosão tenha aqui penetrado profundamente. A abundância de grandes blocos soltos e espalhados por quase toda a serra é disso um testemunho. A intensa arenização representada por grossos grãos de quartzo e feldspatos, filiam-se nos mesmos fenómenos.

Ainda notória escassez de formações filoneanas, denotando, evidentemente, uma fraquíssima acção tectónica no sentido da profundidade, parece sugerir que houve grandes deslaces dos níveis superiores primitivos, rebaixados até ao presente nível topográfico, inicialmente muito afastado do campo daquelas acções.

Um interessantíssimo sistema de filetes, sensivelmente paralelos, mineralizados por volframite, cassiterite e molibdenite parecem representar os únicos vestígios de jazigos deste tipo, tão comuns na bordadura deste maciço granítico. Tais filetes, com andamento de muitas centenas de metros, são nitidamente visíveis próximo das alturas de Carris, Castanheiro, etc. Visto de plano superior dão a ideia de longos cordões, cingindo os afloramentos graníticos, em malha mais ou menos apertadas. Essas alongadas protuberâncias marcam, em escala reduzida, as cristas filoneanas de grandes elevações. O seu material, mais duro e resistente á erosão, persiste, impondo as leis desta microrogenia.

Os depósitos modernos são raros, sendo os elementos clásticos muito heterogéneos. As pequenas áreas aluvionares cobrem normalmente, apertados leitos evidenciando, em mais ou menos extensa desnudação, grandes blocos graníticos. Noutros casos, nos meandros de suaves dobras das alturas, sempre de extensão reduzida (nesta serra não se vêem áreas planálticas), também há alguns retalhos aluvionares.

TRABALHOS

A lavra nesta mina foi reduzida e irregular. Todos os trabalhos nos filões interessam pequenos volumes. São a céu aberto, constituídos por cortas e pequenos poços. A parte aluvionar foi mais intensamente trabalhada, mas, mesmo assim, cremos que, devido à desorganização desta exploração, ainda há bastante minério perdido em áreas tidas por exploradas e noutras, então dadas sem valor.

DESCRIÇÃO DO JAZIGO

1º) Parte filoneana

Há um sistema de filetes com características médias próximas de:

d = N-S
i = ± 90º
p = ± 0,01 m.

Seguem-se ao longo de centenas de metros. O conjunto conta mais de uma dezena de unidades, ora juntas com estreita faixa, ora dispersas em grandes volumes. Quando caminham cerrados, dentro de uma secção inferior a um metro, tudo se passa como se o conjunto representasse um único filão com possança igual à soma da possança dos filetes. À medida que tal largura vai aumentando os inconvenientes da dispersão aumentam até constituírem, só por aí, motivo impeditivo a uma lavra económica. Na área da concessão ambos os casos se verificam.

A mineralização útil é essencialmente constituída por volframite.

A cassiterite e a molibdenite ocorrem em muito menor quantidade. A percentagem destes minerais deve ser cerca de: volframite 80%, cassiterite + molibdenite, 20 %.

A volframite ocorre disseminada em toda a matriz filoneana. A cassiterite e a molibdenite encontram-se, normalmente, junto e nos encostos, constituindo, por vezes, conjuntamente com feldspatos, quartzo e alguma mica, em forro, como que almofadando o granito.

O calibre dos respectivos agregados cristalinos são variáveis, mas predominam os superiores a 0,5 cm para a volframite e cassiterite; a molibdenite ocorre em lâminas, em que os agregados de aspecto tabular (micáceo), por vezes, agrupam-se sob conjuntos estrelados. São vulgares placas com mais de 0,5 cm de diâmetro. 

Em facturas com 1 cm (e menos, quantas vezes) foi fácil o enchimento total, ou quase, por volframite. Isto, porém, não representa mais do que o condicionamento especial da cristalização da volframite (e dos outros minerais) às especiais características da estrutura das fracturas. Assim se explicam as tais “bolsadas em placas” das minas do Gerez.

O teor da mineralização das substâncias úteis é bastante variável nos filetes. No entanto, até aos níveis atingidos pela exploração, de um modo geral os seus valores devem situar-se acima dos habituais, tomados relativamente ao material filoneano. Tomados, porém, relativamente ao tout-venant ou m2 de superfície de filete, tais valores são, regra geral, muito baixos para cada filete, de modo a tornar proibitiva a sua exploração individual.

Já dissemos, os filetes armados em estreitas faixas, tem andamento mais ou menos paralelo. Quando são vários a entrar na secção de um trabalho mineiro (secção de galerias, altura de desmontes) tudo se passa como se houvesse redução do conjunto a um só. Portanto, o que determina o valor industrial do sistema é a malha de distribuição dos diferentes filetes.

Embora por vezes a distância entre traços horizontais dos filetes, por vezes, não ultrapasse os 5 cm, não são muito vulgares os cruzamentos por mudanças de direcção. Pelo contrário, verificam-se muitas vezes as intercepções por variação de inclinação. Claro que em tais casos verificam-se, correntemente, apreciáveis enriquecimentos, não só por aumento do teor como também por aumento de possança (superior ao somatório das individuais). A maior parte dos belos exemplares de minério do Gerez são provenientes de cruzamentos.

Simplesmente como nota ocasional informamos que num local de exploração da mina “Salto do Lobo” (mina dos Carris, mais conhecida) que visitamos nesta altura, apesar de o rendimento operacional ser relativamente baixo, o rendimento da produção era elevado, representado por cerca de 2 kg de concentrados por homem – relevo. Tal sucesso deve-se exclusivamente ao facto de o teor de mineralização nessa parte do jazigo ultrapassar, seguramente, os 15 kg/m2. Numa secção com menos de 0,60 m de largura corta 10 filetes.

Já, atrás, denunciamos a nossa escassa esperança de o jazigo se continuar em profundidade, mas simples dezenas de metros abaixo dos níveis de exploração actuais com as mesmas características. Em nossa opinião, justifica-se, mesmo, um certo pessimismo sobre este assunto. No entanto, o futuro o dirá e mais uma vez fazemos votos pela injustificação da nossa previsão.

Nesta mina identificamos um sistema de filetes com as características gerais indicadas, mas em que se nota certa dispersão de filetes e uma possança média talvez inferior á citada.

2º) Parte aluvionar

Resultantes deste tipo de jazigo são muito vulgares os depósitos aluvionares de apreciável valor. Compreende-se que do desgaste de muitos filetes, bem mineralizados, mesmo sem interesse individual por dispersão (caso mais vulgar) do sistema, resulte um depósito rico.

Explorações da última guerra mundial provaram tal facto, pois houve explorações com rendimento superior a 20 kg/ton nos sítios ricos e rendimento superior a 2 kg/ton no restante da maioria dessas lamas.

Apesar da extensão destas explorações quer pelo primitivo dos métodos utilizados, quer por carência de meios e principalmente devido à manifesta desorganização de serviços, cremos que ainda restam apreciáveis áreas cobrindo interessantes depósitos aluvionares.

No caso desta mina, precisamente, somos de opinião de que tem mais valor a parte aluvionar do que a filoneana.

GENESE

A génese do jazigo está ligada à intrusão do batólito granítico que aflora na região.

Na última fase de consolidação do magma, durante o arrefecimento dar-se-ia a fracturação, talvez por contracção. Tais fracturas, seriam de reduzida amplitude e interessariam pequenos volumes, circunscritos a zona periférica da massa granítica (outros factores poderão explicar a origem das fracturas), magmas residuais graníticos do tipo pegmatítico penetrariam as fissuras, em especial cristalizando sobre as paredes. A estreita parte central seria essencialmente preenchida por um núcleo quartzoso. As soluções hidrotermais mineralizadas de volframite entrariam no venulo central, ao passo que a cassiterite cristalizaria junto dos encostos, num meio tipicamente pegmatítico. Em fase mais adiantada soluções hidrotermais penetrariam junto dos encostos e aí cristalizariam molibdenite. Deste modo teríamos uma secessão pegmatítica: cassiterite, volframite e molibdenite.

A cassiterite pertenceria à fase mais quente, substituindo os primeiros elementos magmáticos (especialmente feldspatos); a volframite seria uma fase seguinte substituindo também elementos de matriz pegmatítica ou fazendo parte de um enchimento hipotermal de uma finura não totalmente preenchida ainda. A molibdenite seria a última, conduzida segundo linhas de penetração fácil, encostos, etc.

O aspecto especial das ocorrências de molibdenite dá vem a ideia de uma pigmentação das superfícies em contacto dos filetes e rocha encaixante (tanto o granito como os filetes apresentam-se mineralizados nessas superfícies de contacto).

Da destruição dos filetes e posterior concentração natural resultaria os depósitos aluvionares.

VALOR INDUSTRIAL

Do exposto se deduz que somos de parecer que a parte do jazigo contida nesta mina tem valor industrial para ser objecto de concessão definitiva.

PLANO DE LAVRA

O plano de lavra aprovado para a concessão provisória ainda se adapta á parte do jazigo que interessa (parte aluvionar). Se a concessionária pretender estender a exploração à parte filoneana, deverá apresentar o respectivo plano de lavra.

DEMARCAÇÃO

Modificou-se a demarcação provisória de modo a fazer um melhor aproveitamento do jazigo.

CONCLUSÃO

Atendendo a que somos de opinião que:
1º O jazigo tem valor industrial para ser objecto de concessão definitiva;
2º O plano de lavra aprovado ainda se adapta às características da parte do jazigo que interessa;
3º Tudo quanto interessa à conversão em definitiva da concessão provisória está em ordem;

Somos de parecer favorável ao pedido do requerente.

O alvará de concessão n.º 4992 é publicado no Diário do Governo a 20 de Dezembro de 1952.

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Esta é uma transcrição integral do Relatório de reconhecimento da mina da Corga das Negras n.º 1 em 1951 extraída do livro "Minas dos Carris - Histórias Mineiras na Serra do Gerês" (Rui C. Barbosa, Dezembro de 2013).

Fotografia: © Rui C. Barbosa (todos os direitos reservados)

Previsão meteorológica para Nevosa / Carris (23 a 31 de Outubro)


Com a incerteza de uma previsão a sete dias, o primeiro nevão nas Minas dos Carris nesta época poderá acontecer a 30 de Outubro.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Previsão meteorológica para Nevosa / Carris (22 a 30 de Outubro)


E começo hoje mais uma época de previsões meteorológicas para a zona do Pico da Nevosa e Minas dos Carris, com as primeiras previsões de neve! 

Paisagens da Peneda-Gerês (CCLXXX) - Mosteiro de Sta. Maria das Júnias


Mistérios do Mosteiro de Sta. Maria das Júnias, Pitões das Júnias.

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

domingo, 21 de outubro de 2018

Pisões e Tradições, O ciclo da lã


A oficina do dia 11 de Novembro em Tourém será orientada pela Senhora Maria do Padre e pela Senhora Maria Paneira, duas mestras octogenarias, verdadeiras embaixadoras da Cultura Tradicional de Barroso.

Mais informações aqui.

sábado, 20 de outubro de 2018

Ânsia da montanha


A ânsia da montanha surge cada vez mais intensa quando na cidade onde vives, a coisa mais inclinada que tens são as escadas para o teu apartamento...

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Uma menina chamada Gerês


Por vezes, há coisas que acontecem e que nos fazem ter um pequeno sorriso e passar por um momento em que parece que todos os problemas desaparecem. Quase que parece que as coisas acontecem com um propósito... Que acontecem para, no meio das nossas vidas que complicamos, surgir este mesmo sorriso que não é compreensível para quem está junto de nós, mas que para nós é muito importante e nos ajuda com um alento para o resto do dia.

Qual é a probabilidade de alguém que é apaixonado pelas paisagens Geresianas e que está a trabalhar a milhares de quilómetros de casa, encontrar alguém com um apelido tão peculiar como "Gerês"? Aconteceu hoje, comigo, na Guiné Bissau, ao fazer uma consulta a uma menina Guineense de 9 anos com o apelido de "Gerês".

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)


Trilho das Bruxas - Aventura no Gerês


No próximo dia 03 de Novembro, com organização da responsabilidade da associação empresarial Gerês Viver Turismo, vai realizar-se a quinta edição do evento “Trilho das Bruxas”.

A aventura e a surpresa serão os principais “ingredientes” da caminhada nocturna proposta aos participantes. Percorrerão um trilho em autonomia, sendo que em pontos estratégicos existirão elementos orientadores. Pelo caminho, será de esperar a presença do inesperado.

Junto ao Núcleo Museológico de Campo do Gerês, no concelho de Terras de Bouro, local de partida e chegada da caminhada, vai estar instalada a “Feirinha das Bruxas” com diversos produtos, incluindo comes e bebes. Também nesse local acontecerá o esconjuro e será oferecida a típica queimada aos participantes. Também típico, é o caldo no pote que será servido gratuitamente a quem se inscrever. A acompanhar, muita animação.

A inscrição no evento, no valor de 2,50€ para crianças até aos 12 anos (inclusive) e de 7,50€ para os restantes, inclui seguro, malga para o caldo e copo para a queimada.

São motivos suficientes para que a noite de 03 de Novembro no Gerês seja de aventura e diversão.

Horários:

Abertura da Feirinha das Bruxas: 18:30
Secretariado (registo de presenças): das 19:30 às 20:30
Animação: 20:30
Início da caminhada: 21:00
Fim da Caminhada: 23:00 (aproximadamente)
Animação: 23:15
Esconjuro + Queimada: 23:45
Animação: 00:00

COMO SE INSCREVER

Enviar email para tbruxas2018@gmail.com com o seguinte:

Nome completo + Data de nascimento + Concelho de residência + Email (de cada uma das pessoas a inscrever)
Comprovativo de transferência do valor total correspondente às pessoas a inscrever
NIB para transferência: 0045 1291 40219997712 71
Data limite para inscrições:  31 de Outubro 2018 (18:00)

Barbacana "La huella del lobo"


Carlos Evaristo refere na página da AMO Portugal - Parque Nacional da Peneda-Gerês (no facebook), que este é "um filme que estreia nos cinemas (...) em Espanha. Segundo me inteirei estão a fazer contactos para passar nos cinemas em Portugal.

Transcrevo: "Hola Carlos. Estamos trabajando para poder proyectar la película en cines en Portugal y en otros países de Europa. También se podrá ver en televisión, Un cordial saludo.""

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Paisagens da Peneda-Gerês (CCLXXIX) - Olhando para trás a caminho das Minas dos Carris


Muitas vezes esquecemo-nos de olhar para trás quando caminhamos em direcção a um objectivo. Esquecemo-nos que o verdadeiro momento pode estar a acontecer atrás de nós e muitas vezes é necessário parar e olhar para trás. Nunca sabemos quando o deveremos; apenas sentimos que temos de o fazer e naqueles três segundos do momento somos assombrados pela magnificência da paisagem que se revela e que desperta em nós a fonte dos sentimentos que nos farão recordar aquele momento, tal como nesta fotografia do Vale do Alto Homem, Serra do Gerês, olhando para Poente.

Mais tarde faremos (ou não) um trabalho nessa fotografia que é, ele mesmo, um outro reflexo do momento que vivemos no presente e daquilo que nos completa e tolda a nossa diferença na personalidade humana. Assim, a fotografia (um rascunho de uma prosa poética de sensações visuais) torna-se numa prosa poética que se consolida neste preciso instante onde o vento uiva e a saudade dos dias frios faz crescer a vontade do regresso a casa.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Magusto Convívio 2018 Germil

Domingo, 18 de Novembro 2018 pelas 15:00, a associação Péd`Rios irá organizar na sua sede em Germil  "Magusto Convívio 2018".

O convívio esta aberto a todos os sócios, amigos Péd´Rios e aos habitantes da aldeia de Germil e das freguesias do município de Ponte da Barca. 

No nosso convívio à volta da fogueira teremos castanhas, jeropiga, vinho, sumos, salgadinhos, bolos e uma apresentação multimédia onde iremos mostrar fotos das actividades Péd´Rios e festividades em Germil durante o ano 2018. 

Vem conviver com a gente de Germil e conhecer a nossa sede! 

Mais informações aqui.

Paisagens da Peneda-Gerês (CCLXXVIII) - "Eu sou as ruínas que resistem"


Minas dos Carris, Serra do Gerês, a 4 de Fevereiro de 2015.

Mas...
...estarei ao teu lado na sombra que te acompanha...
Na brisa que te percorre o rosto...
No último raio de sol, na gota da chuva, no charco ao lado do teu reflexo...

Irei olhar o infinito vazio...
Procurar a paz, o silêncio que nos penetra a alma...
O prazer que me vai alimentar o espírito...

A vontade de um dia regressar... só...

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (CCLXXVII) - Louriça, ou um cruel vislumbre do Inverno


Para sentir a poesia da paisagem, tens de sentir o frio no teu corpo e a dor na tua alma. A Louriça, píncaro granítico da Serra Amarela, surge nesta fotografia como um cruel vislumbre do Inverno.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Histórias dos povos do Gerês: a extinção do Ibex-Português ou Cabra Pyrinaica Lusitanica e a Serra do Gerês descrita como um lugar de cabras bravas com ferozes cabrões


A cabra brava ou pyrinaica que agora abunda nas altas montanhas e fragas da Serra do Gerês, é uma reintrodução feita com sucesso, mas a verdadeira cabra da Serra do Gerês foi declarada extinta a 17 de Setembro de 1908. Era o Ibex-Português, conhecida em Portugal apenas por cabra montesa. A cabra pyrinaica lusitanica é uma subespécie extinta da ibex Espanhola que habitou as grandes penedias da Serra do Gerês. 

Era uma espécie que na coloração e tamanho era bastante semelhante à espanhola, embora as manchas fossem mais para o castanho do que para o preto. As hastes eram diferentes de qualquer subespécie Ibérica. Eram apenas metade do comprimento das ibex-dos-pireneus cerca de 50 cm, mas eram o dobro em largura. 

A última foi capturada pelo pessoal florestal em 20 de Setembro de 1890, na Albergaria, sendo enviada à Direcção Geral de Agricultura no dia 23 do mesmo mês. 

No dia que foi apanhada chovia torrencialmente e na Albergaria trabalhava-se na preparação de terreno para viveiros e a cabra veio de cima do Rio Forno, caminhando sossegada e atravessou a terra cavada, os trabalhadores estavam recolhidos da chuva e ao a avistarem começaram a gritar e cercaram o animal, chegaram a disparar um tiro que não a atinge, porém a cabra sobe a terra amolecida acabou por se enterrar e permitiu desta forma que os trabalhadores lhe deitassem a mão, apanhando assim a última cabra pyrinaica lusitanica que foi vista na serra do Gerês. 

O conhecido naturalista e geógrafo alemão, Link que passou e estudou a serra do Gerês teve um exemplar adquirido pelo seu companheiro, o conde Hoffmansegg, que depois ele descreveu minuciosamente. 

Finalmente a 17 de Setembro de 1908 no terceiro e último dia da grande expedição em busca das últimas cabras do Gerês organizada pela "Ilustração Portuguesa" e que contou com duzentos caçadores e cem acompanhantes entre os quais se contava um grupo de cientistas convidados, regressavam da serra com a certeza que a cabra pyrinaica lusitanica estava extinta. 

Os incêndios e a caça desregulada terão sido as principais causas do desaparecimento desta espécie, que durante séculos foi das mais presentes na região do Gerês. 

Exemplo disso é um relato do século XVII ,onde o padre Carvalho da Costa descreve a serra do Gerês como um lugar diferente de "CABRAS BRAVAS COM FEROZES CABRÕES "

Texto de Ulisses Pereira

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Um nada bruxuleante


Lentamente vai chegando tomando conta de mim enquanto o horizonte anuncia um novo dia...
Contemplo o último nascer do Sol como sendo a beleza dos dias que não tive
A aurora transmuta-se numa paleta de cores em dias cinzentos
E o corpo adormece, finalmente em paz
Não mais sinto o cheiro da terra molhada
Ou o leve toque das folhas d'Outono
Não mais sinto o frio da montanha
Ou o clamor das luas d'Inverno
Não mais escuto o som do rio
Ou o uivo do lobo solitário
E pela aurora a eterna noite vai chegando
Com os seus lençóis de terno veludo
Ela toca-me com dedos de cetim
Sinto o seu ternurento aconchego
E nos seus braços, à luz do seu doce sorriso
Adormeço embalado pela sua secreta melodia
Penumbra e escuridão
Teias de solidão nascem por todos os lados
A eterna noite chega... em paz.
Silêncio...
Entre a passagem do tempo
Navego nas colinas ondulantes da saudade
Desagrego-me em folhas de escrita e palavras açoitadas pela leve brisa dos dias... fui a ruína que resistiu
E nas memórias do tempo surge uma pausa... de novo, silêncio!
...levo as minhas mãos ao rosto e sinto o frio e áspero passar dos anos nas rugas da minha pele
Algo transcende a luz e todas as outras coisas
E a sua própria existência
Fui...
...como a primeira luz da manhã
...como o luar numa noite de Inverno
...como uma brisa numa noite quente de Verão
...como a água que me saciou a sede
O último pensamento, todos os dias... desde sempre.
Sou...
...um nada bruxuleante...

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)