quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Trilhos seculares - Da Abilheira a Céu Rubio, uma incursão num Gerês profundo


Fazer-se uma caminhada na Serra do Gerês e sair de lá com a sensação de que muito mais há para descobrir, é ter um dia de montanha ganho! Pois foi com esta sensação que terminei esta visita à Serra do Gerês, naquela zona mais perto de onde nasce o Sol.

Muitos colegas e amigos dizem que eu conheço bem o Gerês. Respondo-lhes com um sorriso e digo-lhes que cada vez que mais o conheço, aumenta em mim a certeza de que pouco sei. E isto é o suficiente e o segredo de tornar cada caminhada uma nova descoberta. Por muita experiência que possa ter a caminhar pelo Gerês, sei que jamais o irei conhecer... até porque a montanha não se dá a conhecer. A montanha só a conhece quem ela quer, sem folclore...

Estas incursões implicam sempre um acordar antes da chegada do Sol. O dia vai despontando durante a viagem e quando se chega ao «local de partida», o dia ainda se espreguiça. O Sol subia vagaroso e enublado para os lados da Serra do Barroso e aos poucos ia iluminando a Corga da Abelheira, porta de entrada neste Gerês profundo. É no topo desta corga onde temos uma daquelas visões de Holywood nas quais o plano nos mostra a vasta paisagem que vai surgindo no horizonte. É o próprio caminhar que nos proporciona a sensação livre das amarras de uma tela que esconde sempre o que se passa para lá daquela linha onde a luz se perde. Aqui, não! O rodar da cabeça mostra-nos a tela da vida real, ali, no meio daquele nada que é tudo. Naquele silêncio tão profundo quebrado pelo passar do vento e pelo cair desamparado das águas que lá ao fundo vão formando o Ribeiro Dola.


O meu objectivo estava ali, no meio daquela nada que é tudo, encoberto, talvez, pelas nuvens que desciam em cascata a vertente da montanha vinda das terras Galegas. Deixando para trás a Abelheira, segui rumando aos Currais da Biduiça com a sua nova cabana. Esperava poder ali atravessar o Ribeiro de Biduiça, mas a prudência e umas botas demasiado gastas e cansadas de milhares de quilómetros, levaram-me a caminhar na sua margem para montante à procura de passagens mais seguras. Todas as que iam surgindo pareciam relativamente fáceis a certa distância, mas dissuasoras na proximidade.

Decidindo regressar ao carreiro, este levou-me até ao Curral das Rochas de Matança já com o objectivo de prosseguir para o Curral de Lamelas de Cima, mas de soslaio noto que o ribeiro se estreita ali na viragem para o Corgo de Lamelas e dá-me a oportunidade de o atravessar.


O bom destes velhos percursos é que as mariolas ali permanecem para a eternidade, dando-nos a direcção através dos segredos que se escondem nos recortes da serra e por detrás dos grandes rochedos. Ora acompanhado pelos ribeiros, ora mais solitário e silencioso, vou chegando ao Curral de Lamelas de Baixo ao mesmo tempo que lá atrás, para os lados dos bordo do Vale da Ribeira das Negras, se dá a interessante luta entre a névoa que quer resistir ao pouco calor do Sol. Vencendo parte da montanha, a onde vai-se dissipando quando mergulha no relativo abismo.

Tal como em todo Gerês, estes currais são como que oásis no meio do deserto. Isto tem mais significado no pico de um Verão tórrido onde podemos encontrar o conforto das sombras que vegetação que por ali vai-se mantendo. Por esta altura, o solo alagado, faz-nos lembrar que mais dias de chuva e neve estão para chegar. Isolados e longínquos, diz-se que o tempo ali passa mais devagar... assim parece. Estas paragens têm o seu «quê» de mágico e místico, como se estas montanhas fossem habitadas por fadas e duendes, ou parecem um palco onde o profano é sempre mais forte do que qualquer ladainha que se possa murmurar nos momentos de maior aperto. Nunca se sabe o que estará por detrás de uma giesta...


O caminho vai prosseguindo até chegar ao Curral de Lamelas de Cima. Protegido a Norte pelas vertentes que terminam no Alto de Lamelas, este é local de paragem e pernoita. Se o forno do Curral de Lamelas de Baixo estava relativamente bem visível, o forno do Curral de Lamelas de Cima encontra-se todo tomado pela giesta e só um olhar atento o descobre. Faltando ainda um longo percurso na minha jornada, não me demoro muito tempo, apenas o suficiente para aquecer a alma com uma cevada retemperante e para retirar as cartas topográficas da mochila, descobrindo então que a carta mais importante para o percurso teria ficado em casa. Paciência!

E nesta parte da Serra do Gerês onde se encontram muitos percursos esquecidos, encobertos pela vegetação, mas lembrados pelas mariolas cobertas de líquenes, atestando a sua antiguidade. Se em tempos a zona era percorrida pelas vezeiras, nos nossos dias só os animais tresmalhados ou os cavalos semi-selvagens para aqui se refugiam. Isto faz com que por vezes seja um pouco complicado atravessar carvalhais espontâneos ou zonas de maior vegetação. Há sempre que parar e dar lugar ao instinto para ver onde estará a próxima mariola para não corrermos o risco de desvios desnecessários. A mariola que se vislumbra demasiado longe pode ser sempre um efeito natural da rocha ou uma ilusão que vai custar muito «sobe e desce».


Aqui a montanha enruga-se e flecte os músculos pondo à prova as palavras do poeta. Profundos vales e escarpas alcantiladas, trazem-nos o desejo de explorar e aqueles malditos «traços» na paisagem parecem sempre novos caminhos a percorrer. Chegarão os dias, mas agora são demasiado curtos para incursões mais atrevidas.

Depois de passar o Curral de Lamelas de Cima e de ponderar se as nuvens me iam fazer entrar num mundo à parte, prossegui em direcção ao carvalhal que há muito andava para visitar. De facto o local é fascinante com a cores de Outono a contrastar com a rudeza cinza do granito que ali assume a pose de um rei. Encontrando velhos carreiros e em busca de sinais de velhos currais, segui o curso de água até ter a oportunidade de o atravessar. Ali não havia estruturas ou estarão escondidas pela abundante vegetação.

Na realidade procurava dois currais indicados pelo Paulo Costa, o Curral da Fraga do Paul e o Curral de Céu Rubio. Ao primeiro sabia de antemão que seria complicado chegar, mesmo tendo tempo o nevoeiro não me deixaria progredir muito. Assim, segui na direcção do Curral de Céu Rubio. Não faltou muito para chegar a um primeiro curral, do qual não sei o nome. O seu forno está destruído e em parte tomado pela vegetação, mas o espaço é agradável. Na realidade fica no início do pequeno vale que mais tarde me levaria ao Curral de Fornalinho de Cima. Saindo deste primeiro curral, e caminhando poucas centenas de metros, acabaria por encontrar o Curral de Céu Rubio. Na altura tinha dúvidas sobre o seu nome, mas mais tarde ao comparar com outras fotografias, confirmei que de facto aquele era um dos currais que procurava. Alegria!

Já perto do Inverno, foi-me oferecido um dia ameno, apesar do vento frio que por vezes se fazia sentir. Poré, àquela hora e deixando o Curral de Céu Rubio para trás, sentia o calor do Sol na pela suada. Esta sensação acompanhou-me por longos minutos, passando o Curral de Fornalinho de Cima no qual finalmente «descobri» o seu velho forno tomado pelas giestas.

À medida que estes currais iam ficando para trás, começava a surgir a questão de como atravessar a Ribeira de Biduiça quando chegasse a hora. A dúvida surgia pelas mesmas razões que já referi e sem dúvida que esta era a altura de me começar a preocupar com isso, pois se a decisão fosse tomada mais adiante poderia implicar um grande desvio. Sem dúvida que certas decisões devem ser tomadas no momento certo e sem dúvida esta foi uma delas.

Teria então de regressar aos currais de Lamelas e isso implicava ter de ladear o Compadre a Norte. Saindo do Corgo de Candela teria de entrar no Corgo das Lamas do Compadre e daqui encontrar uma passagem para os currais de Lamelas. A certa altura, enquanto procurava um possível carreiro mais no fundo do corgo, reparo numa pequena escombreira. A aproximação confirmou que se tratava de uma antiga exploração mineira da qual já me haviam falado quando não muito longe tinha reparado num pequeno muro de pedra solta que provavelmente esteve em tempos associado aos trabalhos ali realizados. Registo fotográfico feito para a posteridade, comecei a descer a corga procurando um local para atravessar o ribeiro. Na outra margem lá surgiu o que resta de um rufenho carreiro que abandonaria mais adiante quando comecei a subir a vertente Norte do Compadre. Em breve encontraria um velho trilho mariolado que me levaria directo ao Curral de Lamelas de Cima, onde teria um merecido descanso.

Não querendo regressar à Biduiça pelo mesmo trajecto pelo qual havia aqui chegado inicialmente, resolvi não seguir pelo Corgo de Lamelas, mas subir um pouco mais e entrar no vale seguinte já no Ribeiro de Biduiça. Aqui tinha a certeza que conseguiria atravessar o ribeiro e o caminho até ao Curral das Rochas de Matança era já conhecido. Depois deste último curral, os Currais de Biduiça são já ali...

Algumas imagens do dia...
































Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Dia de neve nas Minas dos Carris


Um curto vídeo que mostra um dia de neve nas Minas dos Carris, Serra do Gerês, a 13 de Dezembro de 2014.

Vídeo © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Ainda está a tempo de oferecer História neste Natal


Ainda está em dúvida sobre aquela prenda especial? Porque não oferecer um livro especial?

Este livro, feito de paixão e fruto de um trabalho de sete anos, conta a história da epopeia das Minas dos Carris, na Serra do Gerês, um local místico e apaixonante que todos os anos encanta aqueles que o visitam.

Em final de edição, o livro "Minas dos Carris - Histórias Mineiras na Serra do Gerês" pode ser a sua prenda de Natal especial.


218... Celebrar o 1º aniversário do livro que conta a história das Minas dos Carris (II)

Minas dos Carris, 13 de Dezembro de 2014

Tal como havia acontecido em Novembro, encontramos as ruínas envoltas numa capa branca mas felizmente desta vez o nevoeiro não se fazia sentir. Assim, a visibilidade permitia-nos ter uma abrangência mais ampla das ruínas e o sentimento de ausência que elas transmitiam era tão forte como nunca.

O cenário, envolto num silêncio profundo, era quebrado com o leve som do vento. Por momentos, aquela sensação de frio e desconforto do meio de uma caminhada antes do descanso, desapareceu e o som das máquinas fotográficas foi-se sucedendo numa vã tentativa de capturar, além da imagem, vãs sensações.

Apesar de abandonadas, sozinhas e solitárias, a estranha sensação de presença faz-se sempre sentir por ali e ainda mais num cenário invernal como aquele. Por momentos parece que algo de surpreendente irá surgir de uma esquina, pelo canto do olho ou por detrás de uma ruína mais afastada, o suficiente para nos permitir elaborar uma rabuscada explicação que deixará de fazer sentido num momento mais racional.

Por entre as nuvens que rapidamente lambem a paisagem, o Sol acabaria por espreitar e por momentos transformar, mais uma vez, a paisagem com pinceladas de um azul virgem. Como que farrapos arrastados pelo vento, os restos de nuvens vão também desaparecendo para os lados da Nevosa, deixando perscrutar de forma momentânea o seu perfil enigmático coberto com um lençol de neve.

Dali a pouco tudo se transformaria de novo e o momentâneo calor do Sol daria lugar à melancolia do cinza serrano e ao silêncio das eras que ali lentamente vão passando.

















































Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)