sábado, 21 de outubro de 2017

"Sombras na noite", de Rui C. Barbosa - uma análise de Luís Vendeirinho


Se há forma de expressão, no domínio das artes, que faz jus ao desnudar da alma humana, ela será por excelência a da poesia. A poesia, ao recorrer às palavras – e porque as palavras são a comunicação universal -, dá-nos a dimensão do homem nas suas contradições, na sua plenitude e em todo o sonho que possa alimentar. O olhar da poesia é um comprometimento com a subversão de dogmas, reflecte o mundo sensível num gesto de ruptura com o trivial, logra ver onde se impõem muros e as trevas habitam.

As palavras de Rui Barbosa casam por inteiro, neste seu livro Sombras na Noite, com as imagens que as ilustram. Porém, “o sítio” do Rui Barbosa, que é ponto de chegada em todos os momentos, e será homenagem e muito mais, constitui nesta obra uma experiência do discurso cujos significados só podem ser apreendidos pela experiência do caminho, literalmente.

As ruínas de Carris serão pretexto para uma compreensão pessoal do tempo, do tempo de Carris que será o de todos nós. “Irei esperar por ti onde as coisas começaram”, diz-nos o autor de jeito eloquente, e logo somos tentados a ali nos encontrarmos com ele, ou a revermos o significado do seu testemunho. As ruínas de que nos fala são escombros da história, o “monumento à solidão”, símbolo de uma Era em que no ventre dos saberes perdemos a noção da identidade.

E o caminho do autor faz-se da sua antítese, da angústia e do consolo, das trevas e do calor, do silêncio e dos ecos com que a Natureza nos brinda. As Sombras na Noite são meio caminho entre a desistência que a realidade nos propõe e a entrega a um universo, “o sítio” do autor, onde só aqueles que o conhecem entendem o alcance das respostas que ali nos são dadas.

Esta obra deve ser interpretada, ainda, como um documento sobre a vida do autor, que logra, na demanda da sua jornada, dar-nos a conhecer os recantos da Serra onde poucos desvendam o íntimo da própria pessoa. É na aridez do chão que caminhamos, nas galerias das minas que perscrutamos, nos céus estrelados que nos aventuramos.

As Sombras na Noite dão abrigo àqueles que ousam.


___

Nota biográfica

Luís Vendeirinho nasceu em Lisboa, a 20 de Setembro de 1957.

Foi funcionário do Ministério da Educação entre 1972 e 1976, e do Ministério da Justiça desde então até 2003. Desde jovem tentou algumas incursões no domínio poético, publicando tardiamente, em 1981, o primeiro livro de versos. Depois de alguns opúsculos dedicados ao conto e a reflexões várias, o rumo essencial da escrita levou à publicação dos romances Requiem, Cátedra de Mármore e Uma Farpa na Clareira. Tem visto publicados, em algumas colectâneas e em periódicos, tanto alguns contos como crónicas.

A formação académica fê-la – desde o liceu – sempre de par com a actividade na administração pública; formação essa dedicada aos Estudos Portugueses, aos Estudos Europeus e ao Jornalismo. Desde adolescente que o convívio com a realidade social, sobretudo a rural, o tem cativado, e coabitado com o montanhismo (q.b. entenda-se).

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

"Sombras na noite" em Braga a 21 de Outubro


O livro "Sombras na noite" será apresentado em Braga, na Livraria Centésima Página, no dia 21 de Outubro de 2017 numa sessão que terá início pelas 15h30. A sessão será apresentada pelo escritor Luís Miguel Vendeirinho.

Diferente do seu primeiro livro, esta é a primeira incursão na prosa poética por parte de Rui C. Barbosa, num livro onde abundam os sentimentos gerados pelas paisagens de montanha, em em especial pelas paisagens da Serra do Gerês, e pela personalidade saudosista, além da irreverência do Amor.



O tema deambula entre as serranias Geresianas, a maior das paixões deste escritor, que já nos habituou imenso às suas palavras fortes que nos deixam a sonhar com noites nevadas, ventos frios à lareira, entre o crepitar do fogo e o uivar dos lobos.

O livro é publicado pela Artelogy e a sua apresentação oficial teve lugar no dia 23 de Setembro de 2017 e decorreu no Pólo de Fafião do EcoMuseu de Barroso.

Este livro está disponível em papel bem como em versão ebook.



Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Programa do Magusto Celta de Pitões das Júnias - 2017

Foi divulgado o programa do Magusto Celta de Pitões das Júnias que terá lugar a 11 de Novembro de 2017.

O programa da edição de 2017 do Magusto Celta é o seguinte:

15h00 – Apresentação do Livro do autor Rui Barbosa "Sombras na noite".

17h00 até às 18 h00

- Batismo Celta Galego (utilizando nomes dos celtas)

- Entrega de fitas da Sorte (cor azul em 2017)

18h30 – Apresentação do filme de etnografia da Raia Galego Portuguesa “Em companhia da morte ou mulheres da Raia”, apresentado por Eduardo Sanches Maragoto – Presidente da Associação Galega da Língua (AGAL).

19h15 – Concentração no Largo do Eiró para assistir ao Pregão do Magusto.

19h30 – Despedida do verão seguido do Magusto convívio no Largo do Eiró com animação dos Gateiros.

A não perder!!!

"Sombras na noite" no Magusto Celta de Pitões


É com grande satisfação que a apresentação do livro "Sombras na noite" está incluída no programa do Magusto Celta de Pitões das Júnias que terá lugar a 11 de Novembro.

A apresentação do livro irá abrir o programa da edição de 2017 deste evento naquela aldeia transmontana, estando prevista para as 15h00.

Paisagens da Peneda-Gerês (CCXXIX) - Pé de Cabril desde o Peito de Escada


O Pé de Cabril, o farol da Serra do Gerês, visto durante a subida do Peito de Escada em direcção aos Prados Coveiros.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Previsão meteorológica para Nevosa / Carris (20 a 27 de Outubro)


A chuva mantém-se nos próximos dois dias e o Sol irá voltar a partir de dia 22 de Outubro. As temperaturas mantêm-se normais para a época, porém de sublinhar os 2ºC previstos para dia 21.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Em devoção a Trebaruna e Ataegina


Em antecipação de uma tarde de poesia na apresentação do meu livro "Sombras na noite" no dia 21 de Outubro na Livraria Centésima Página, Braga, faço uma republicação de um dos textos que me deu mais prazer a escrever. Conta a curiosa história de um guerreiro Celta na sua jornada pelo Vale do Alto Homem, passando por nomes conhecidos em ambientes de fantasia. E o texto é isso mesmo, uma fantasia para ser lida e, acima de tudo, saboreada...

____

Latrono caminhava ao longo do vale. As suas forças eram já escassas e a visão das nuvens negras no fundo do Homem traziam um sentimento de receio. Havia deambulado por muitas luas em busca do vale e finalmente o encontrara para lá do bosque de carvalhos, azevinhos e medronheiros. O rio, esse corria com a força das prematuras neves, abrindo o seu caminho até ao já longínquo mar.

Ao longe, o uivo do lobo marcava a direcção a seguir. Algumas gotas gélidas de chuva caiam-lhe no rosto. O frio era a celebração da morte simbolizada pela nuvens negras que se aproximavam. Sendo de manhã, o momento trouxe-lhe recordações da noite que eventualmente iria chegar. Matou a sede na velha Fonte da Abelheirinha e continuou a sua jornada, vale acima.

She brought the Night hidden in her sad Wolf eyes
The perfume of a twilight, her strongest scent
Half Wolf, Half female - what a strange wedding
Mother Nature has offered us to see...

O caminho fora já muitas vezes trilhado pelos guerreiros de outrora carregando os seus pensados escudos e espadas de bronze. Naquela altura, Latrono rogava forças a Trebaruna e prometera-lhe um nicho no alto da montanha. No seu pensamento lembrava-se da sua longínqua casa e pelo rosto corriam-lhe as recordações da sua amada. Trebaruna iria proteger a sua casa e a sua família, afastando-o da morte escondida naquelas montanhas e dando-lhe força para as batalhas que iria travar com os demónios do Velho Mundo.

Chegado à Água da Pala, Latrono contemplou os píncaros rochosos que formavam o vale que se abria para Poente e iluminada pela ténue luz da manhã, vislumbrou entre as nuvens os resquícios da neve que se depositava no topo da deusa Louriça. Ali, Latrono descansou abrigado pelas folhagens de um velho azevinho e adormeceu por momentos reconfortado com a protecção da deusa. O seu pensamento andou tresmalhado pelo espaço e pelo tempo, visitando as estrelas e a Lua Cheia que em breve iria reinar no céu frio. 

Her mask lays lost in a fatal dawn
Closed were the eyes of the Sun. He sleeps.
And in the name of Her Father.
She will kill. My child kills.

Por entre os seus pesadelos, Latrono chorou pela morte à medida que as premonições lhe percorriam os sonhos. Viu a sua aldeia em chamas e a morte de Trebaruna, a decadência dos Homens e a ruína do mundo. Acordou sobressaltado pelo uivo que agora estava mais perto. Em seu redor, formara-se um círculo de sangue trazido pelos demónios do Velho Mundo. Parecia encontrar-se no meio de um ritual que não compreendia, pois na realidade não acordara. Latrono estava no estranho limbo que antecipa a realidade e do qual por vezes é difícil fugir pois a fronteira entre a realidade e a fantasia é muito ténue por aquelas paragens.

Um relâmpago!... ou pelo menos parecera como tal. Porém, as nuvens escuras haviam já clareado. O vento frio cortava-lhe a pela como lâminas mal afiadas. No seu rosto o vento gélido fazia-se sentir de forma peculiar. Levando as suas mãos à sua pele, Latrono notara que havia chorado e por momentos, por entre o torpor do despertar, lembrou-se do seu sonho. A cabeça latejava e o corpo ainda estava cansado. De facto, mais cansado parecia...

You nightly birth. A requiem God can't forget.
For your life is just a celebration of his death
Without his thorns in her heart. She wears a shadow as face.
A werewolf masquerade. In her eyes the wolfshade.

Era hora de retomar a caminhada. Porém, antes de reiniciar a jornada e deixar para trás a Água da Pala, retirou do seu alforge uma pequena flauta pastoril e cantou uma música a Trebaruna...

Trebraruna filha da Dor
Guerreira sagrada, Deusa do Amor
Trebraruna teu leito semente
Acolhe-nos agora num muy doce abraço
Trebraruna és Vida és Morte
da Lua és filha, dos Lobos consorte
Trebraruna pagão é teu ventre
Ansiado refugio de quem ainda te sente
Viva!

Trebraruna és tu quem nos gera
Alimento teu seio d'Amor e de Guerra
Trebraruna a tua voz é
a melodia mais doce da nossa Terra
Trebraruna nós tuas crianças
Beijamos teus olhos cerrados com fervor
Trebraruna cantamos para ti
Somos teu eterno, fiel trovador

Do alto do vale, no topo das suas paredes graníticas alcantiladas onde a coragem dos Homens se transforma no choro de uma criança, um lobo escutava a sua voz que ecoava por todo o vale. Trebaruna ficaria satisfeita e sem dúvida que a jornada seria agora menos penosa, pois o caminho ainda era longo e apresentava-se cheio de medos e pavores...

Ajustando o seu alforge e aconchegando as suas roupas, Latrono caminhava agora em direcção à Ribeira do Cagarouço. Do outro lado do vale, vislumbrou os velhos abrigos que serviram de refúgio aos Homens, esconderijo e protecção dos velhos demónios que em outros tempos dominaram aquele vale. Em certos dias do ano, quando a Lua se escondia da Terra, os espíritos que vagueiam a mente do Homem caminham sobre a Terra, matando e esventrando os homens sós. Era uma maldição deixada pelos derrotados das velhas histórias que ainda hoje se contam em baixa voz e por detrás de portas nas noites de eclipse. Nessas noites, espectros de medo percorrem as colinas e baixam às aldeias, batendo às portas em buscas dos mais desprevenidos. Nos seus olhos queima a chama dos Infernos, desafiando a luxuria daqueles que dormem profundamente enquanto vivem. O desejo é assim o túmulo, um sepulcro onde os malditos se aprisionam, envoltos numa mortalha de horror e prazer, os seus corpos eternamente torturados.

She brought the Night and by the night was brought
We are but children of the powers she had set free
Strange are the ways of the wolfhearted...

Ao passar a Ponte do Cagarouço um vento forte surgiu do profundo de onde a ribeira emerge. O vento trazia o pessonhento bafo da morte. Acoitado pelo fedor, Latrono desembainhou sua espada rapidamente, mas no momento tropeçou num ramo caído e desequilibrado, caiu no chão. A ribeira transformou-se numa malaria de vísceras e sangue. Foi então que a sua atenção foi aprisionada pelos gritos dos animais sacrificados em nome do Deus cristão, a praga da Terra. Em nome da fé, o Homem havia-se corrompido a caminho da sua inevitável destruição. Sozinho perante tamanho horror, Latrono viu o seu coração encher-se de raiva e ódio, e ali jurou vingança por todos os animais em nome de Ataegina, sua deusa da fertilidade, da Natureza, da cura e do renascimento, pois a sua jura faria renascer um Mundo Novo onde Homem e animais viveriam em paz e harmonia.

Nesta altura, muitos bode e cabras se abeiraram de Latrono e formaram a sua guarda por entre o silêncio e a paz que na altura inundou o vale. Assim, ficou Latrono por longos minutos, numa contemplação da Natureza que o rodeava.

Um a um os animais foram-se embrenhando nos bosques e nas matas que cobriam o vale com as cores de Outono. O guerreiro prosseguiu a sua jornada vale acima e depois de passar as Curvas do Febra, chegava ao abismo do Modorno. A paisagem idílica da neve nos altos cumes e as cores das faias na pequena corga, davam um toque especial àquele lugar. Um pouco mais adiante, Latrono contemplava já o vale que ficara para trás.

Latrono cantou então a Ataegina e o seu cantar foi acompanhado pelos uivos dos lobos...

Na Ara da Vida jaz uma morte
A ti te lanço a minha sorte
Ataegenia triade fatal
Pálida Deusa, doce e teu mal

Centenas de corvos sobre o rochedo
Cantam em coro historias de Medo
De Primaveras que a morte abraça
Em ti encontram a sua desgraça

Devotio Ver Sacrum
Devotio Consecratio
Capitis Dirae
Rainha da Noite, Rainha Natura
Saudoso berco primaveril

Já se choram filhos perdidos
Para terras amargas sem retorno
Onde a voz dos Deuses Perdidos
Bebe o povo o sangue do corno

Corças alvas trazem esperança
Lembram destinos, a vitoria
Nobre Guerra, furiosa dança
Do po sai um rumor de gloria

Devotio Ver Sacrum
Devotio Consecratio
Capitis Dirae
Rainha da Noite, Rainha Natura
Saudoso berço primaveril

Rogando a Ataegina, Latrono desejava a vingança e a morte àqueles que traziam o mal da Cruz e que adoram um instrumento de morte. 

Quando a sua voz se perdeu nos recantos escondidos do vale, fez-se o silêncio somente rasgado pelo som do vento vindo de Nascente. Latrono sabia que o final da sua jornada estava perto, porém, as suas botas tornavam-se já pesadas no caminho pejado de rochas afiadas. De repente...

The Majestic horns of Baphomet
are indeed our occult banners proudly up in the air!
The androgenious light of Lucipher
is our noble passion, most dear and rare!

Oh! Faustian spirit of conquest
May be thy allied in this infimious battle
Against the Arauts of Desrespect
Those who step with muddy feet the sapient inscriptions of our
cradle.

To our strenghtening I proudly confess:

I worship thee, for they are my weapons to hurt god.

No topo da montanha erguia, rasgando os céus, uma cruz em chamas. Homens vestidos de negro sacrificavam crianças em devaneios orgásmicos corrompendo a Mãe Natureza!

Oh! Great wings of Beelzebuth
Will you honour me and lay the head
of a son of caym, in the soft sands of Manitou
Where I'll sleep under this neophyth Sky of Anxiety.

For the dawn of Knowledge has a Southern Sign
Delfos will once again desveil its light
And those with eyes will drink this precious wine
But for the blind, Ignorance shall be the only sight!

To our strenghtening I will re-affirm:

I worship thee. They are my Shield.
And their message I shall reveal.

Latrono viu então que por todo o lado se ergueram templos de devaneio. Homenagens a um Deus menor. A sevícia e a avareza daqueles que em nome do 'bem' desgraçam a Humanidade. A morte e a ruína do mundo!

Because: "Quod sciptum, Scripsi!"

And this Southern blend of esoteric sapience
This sensual Mediterranic Philosophy
Will be the only and holy science
And these lines both dream and prophecy!

"Ecce Homo!" - Those you'll call the Wise
Who will destroy this pitful hole of common sense
of desrespect for the true occult devise
Those who from, the lambs, shall feel the sharpened spears of
Intelligence!

I worship thee. "Quod sciptum, Scripsi!"
I worship thee. "Consummatum est!"

Latrono viu a miséria do Homem. Hordas de guerreiros combatiam em nome de Cristo, a personificação do verdadeiro mal! O massacre de inocentes em nome de Cristo...

As I undress you of Pagan beauty
Who embrace my Sex with all your passion and strenght
The lost chimera of Virginity will be your true purity
And thy Crownleyian erotic laws will rule at last!

Latrono lutava então com os demónios vindos das profundezas da Terra e na ruína do mundo, derrotou os mais fortes no topo da montanha que chorava, com as suas lágrimas despenhando-se pela Água da Laje do Sino. No Teixo esventrou o último demónio cristão, livrando a Humanidade do medo e do horror. 

Latrono estava porém ferido de morte. Arrastando o seu corpo, superou, cambaleante, as agruras das Águas Chocas e chegando às Abrótegas teve o vislumbre do seu destino. Perante si, o véu das nuvens abrira-se e o alto da montanha surgira perante o fundo negro que começava a envolver toda a imensidão em torno de si. Pesava-lhe agora o seu escudo e abandonava a sua espada... Ferido de morte, o cheiro do seu sangue atraiu os lobos. Porém, estes não lhe queriam mal, pois este é um sentimento que não existe no animal. Os lobos formaram um cortejo, o cortejo fúnebre de Latrono que então desmaiou, caindo na neve fria que já adornava aquelas paragens. Os lobos levantaram então o corpo do guerreiro e levaram-no para o alto dos Carris. Ali, Latrono despertou por breves momentos do seu torpor.

Estava agora mais frio, mas o vento gélido já não soprava. A neve começara a cair e do fundo do vale uma névoa começava a elevar-se. A sua visão tornara-se turva e o mundo à sua volta mais torpe. No limite da sua existência, Latrono viu duas figuras femininas que se aproximavam. O seu silencioso caminhar parecia como que levitar sobre o chão... Trebaruna e Ataegina acompanhavam agora o velho guerreiro a caminho do seu descanso final. No seu último pensamento, uma lágrima caiu no chão... a memória do seu Amor perdido.

Oh, quão eterna é agora a noite de Latrono. Um coração que se aperta no peito e se deixa levar na veluda ternura do medo. Um leve canto ressoa por todo a montanha vindo das profundezas medievais dos nossos medos, adornado de palavras vãs e sentimentos vazios. Na noite, cada sombra é companheira do amor na escuridão que nos arrasta para a profundeza do abismo... afasta-nos das garras de um deus menor e nos leva para um inferno gelado que nos cria uma nuvem de vapor na respiração do ar frio que nos corta a pele como mil lâminas mal afiadas.

São demónios do passado, temores dos tempos antigos.

Perante a imensidão da eterna escuridão em tons de negro, são as noites frias dos nossos sonhos.

____

Textos em itálico de Moonspell retirados de "Wolfheart" (1993): "Wolfshade (A Werewolf Masquerade)", "Trebaruna" e "Ataegina"; "Under The Moonspell" (1994): "Tenebrarum Oratorium (Andamento I / Erudit Compendyum)" e "Tenebrarum Oratorium (Andamento II / Erotic Compendyum)".

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Caminhada guiada às Minas dos Carris a 21 de Outubro


Parque de Campismo de Cerdeira vai levar a cabo uma caminhada guiada às Minas dos Carris.

Designada por "Caminhada aos Carris", esta actividade tem como objectivo realizar uma visita guiada às minas com explicação dos aspectos mais importantes da actividade mineira na altura da II Guerra Mundial. A caminhada é feita ao longo do Vale do Homem.

Para mais informações e datas, consultar aqui.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Memórias do incêndio em Calvos


Algumas imagens do que ficou após o incêndio que assolou a zona de Calvos, Serra do Gerês.








Fotografias © Leitor devidamente identificado (Todos os direitos reservados)

Memórias do incêndio em Porta Ruivas


Algumas imagens do incêndio do dia 14 de Outubro que assolou Porta Ruivas, Serra do Gerês.






Fotografias © Júlio Marques (Todos os direitos reservados)

"Arrancou a obra do futuro Parque Biológico do Mezio"



Começou, recentemente, a execução da Fase II do Plano Operacional de Gestão da Área de Intervenção Específica da Porta do Mezio, que diz respeito ao Parque Biológico do Mezio. A empreitada arrancou com cerca de 12 meses de atraso em relação às projeções iniciais, que apontavam para outubro de 2016.

Fotografia: Soajo em Notícia

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"Sombras na noite", "Cada montanhista é, por definição, um poeta"


"Cada montanhista é, por definição, um poeta", Rui C. Barbosa.

Diferente do meu primeiro livro, esta é a minha primeira incursão na prosa poética onde abundam os sentimentos gerados pelas paisagens de montanha, em em especial pelas paisagens da Serra do Gerês, e pela personalidade saudosista, além da irreverência do Amor.

O tema deambula entre as serranias Geresianas, a maior das paixões deste escritor, que já nos habituou imenso às suas palavras fortes que nos deixam a sonhar com noites nevadas, ventos frios à lareira, entre o crepitar do fogo e o uivar dos lobos.


Este é um livro de fotografia e textos de prosa poética inspirado nas serranias Geresianas, na saudade e no Amor.

O livro "Sombras na noite" já pode ser adquirido on-line no sítio da editora Artelogy.


Para a versão em papel pode aceder aqui.

Para a versão em e-book podem aceder aqui.

O livro também está acessível através do facebook aqui.

Se desejarem o livro autografado devem fazer o pedido através do email.



Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (CCXXVIII) - Pátria


Serra!

e qualquer coisda dentro de mim se acalma...

Qualquer coisa profunda e dolorida,

Traída,

Feita de terra

e alma.


Uma paz de falcão na sua altura

A medir as fronteiras:

_ Sob a garra dos pés a fraga dura,

E o bicho a picar estrelas verdadeiras...


Pátria, Miguel Torga

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Trilhos seculares - Até ao Cabeço da Cova da Porca e Lagoa


Ainda era noite quando cheguei à Portela de Leonte e Orionte dominava os céus quando a Lua estava semi-escondida pelos farrapos de nuvens que tolhavam, aqui e ali, o céu que aos poucos se ia pintando com o rubor da alvorada.

Por instantes, e entre o silêncio recortado pela brisa matinal, o cantar de uma coruja ou o temperano chilrear dos pássaros anunciavam a aurora que por aí vinha. Depois de fotografar as estrelas que se iam rapidamente desvanecendo, iniciei esta jornada solitária com o objectivo de visitar o cabeço da Cova da Porca, também conhecido por 'Torrinheira' (segundo as cartas militares) ou 'Estorrinheira', nos dizeres das gentes de Fafião. São estas vicissitudes toponímicas que tornam fascinantes as jornadas serranas. É como caminhar num mapa mental e tentar descobrir o significado e o sentir das coisas por onde passamos.

Encosta acima, logo tive de arremessar a mochila das costas perante a dúvida se havia trancado a viatura ou não. A dúvida era forte, o que me fez regressar encosta abaixo... Ainda bem que assim o fiz. Reiniciando o percurso, em breve estava na Chã do Carvalho e o Gerês já se iluminada com a pálida luz do Sol. No entanto, os velhos carvalhos e as carcaças das velhas árvores marcavam silhuetas bem definidas perante o pálido céu que se azulava. Para Nascente, o rubor laranja das nuvens talvez anuncia-se um dia quente. Temia a falta de água e a mochila ia bem resguardada do preciso líquido.



A passage pelo Vidoal mostrou um prado seco e amarelado. O verde o carvalho estava pálido com a falta de água e as pretensas cores outonais não passavam de um grito de agonia pela falta de água. Não chovia há já muitos dias na serra e a paisagem reflectia isso mesmo.

Com os Cântaros mergulhados na sombra e o Cabeço de Lavadouros iluminado pela luz matinal, o Pé de Medela e Carris de Maceira reflectiam o laranja do amanhecer. O dia não estaria assim tão quente e uma brisa fresca tornava o caminhar mais fácil e ligeiro. A passagem pela Preza e o vislumbre de Teixeira e do Cambalhão, antecipou a subida para a Chã da Fonte. Se nos esquecêssemos da falta de água, a erva seca e o ramos quebradiços da vegetação rasteira fariam os possíveis para nos lembrar, ou então, o silêncio que envolvia as penedias seria o suficiente para recordar que a água já não corria há muito nos pequenos regatos que mais no fundo do vale alimentam os grandes rios.

Deixando a Chã da Fonte para trás, segui através da seca turfeira das Gralheiras em direcção à Lomba de Pau e daqui ao portelo antes da descida para o Curral do Conho. Nesta altura, tive o primeiro vislumbre da catástrofe que se ia desenrolar perante os meus olhos nas horas seguintes. As nuvens de fumo já se elevavam na encosta de Porta Ruivas e o Porto da Laje encontrava-se a ser consumido por um fogo criminoso e cruel que cicatrizou a paisagem nos anos vindouros.




Uma pequena paragem no Curral do Conho para trocar a água (felizmente da nascente ali existente ainda brotava água) e segui caminho em direcção ao Porto das Vacas onde atravessei o pequeno ribeiro, agora seco e uma triste imagem dos seus dias de água em abundância. Ladeando o Curral da Pedra na direcção da Messe, atravessei entre os dois, seguindo para Oeste para entrar no 'meu' sempre Gerês selvagem.

O carreiro surge oculto por entre as pedras assinalado pelas típicas mariolas Geresianas. Depois de passar a turfeira, o vislumbre atento mostra-nos o caminho a seguir por entre o pequeno vale. Há já muitos anos que por ali passo e em determinada altura, havia sempre uma alagada mariola que me chamava atenção. Sendo ainda cedo e com a adrenalina a pedir novos caminhos, desta vez decidi optar por trepar a íngreme encosta em busca de «novas» mariolas e «novos» caminhos. E de facto, foram surgindo, ora escondidas pela vegetação, ora só vistas em pontos estratégicos, fazendo a ligação visual umas com as outras. A certo ponto, o carreiro torna-se visível ao percorrer a encosta e foi por aí que eu segui. Sabia que me levaria ao meu objectivo!

Se a paisagem era magnificente como era de esperar, as espessas nuvens de fumo que se iam erguendo a Sul não traziam nada de bom. A cinza começara já a cair para os meus lados e o vento ia trazendo folhas e cascas de árvores queimadas que se iam depositando aqui e ali, como sementes de uma desgraça. O cenário era dantesco! Toda a encosta Nascente de Porta Ruivas estava envolvida por um fumo espesso, aterrador. Por momentos, todo o vale de Fichinhas e das Sombrosas até ao Curral da Touça era um mar de fumo alimentado pelos fogos que consumiam o Porto da Laje. Dos locais altos por onde ia passando, via que outras nuvens de fumos se pareciam erguer para os lados do Fojo de Alcântara e Palma, ao mesmo tempo de a Corga de Lamego e as Quimas de Arrocela já estariam em chamas. A tragédia ia-se desenrolando perante a minha impotência e os olhos lacrimejavam pela miséria dos homens... e pelo fumo que por vezes se tornava presente. O cheiro a queimado ia tomando conta do meu entorno.



O Cabeço da Cova da Porca estava já visível e ao meu alcance e foi ligeiro que percorri os últimos metros até ao seu alto. Não sei explicar a origem do topónimo e este estará certamente relacionado com a presença do javali por aquelas paragens em tempos mais amenos. Por seu lado, o topónimo 'Torrinheira' virá certamente da má compreensão do topónimo 'Estorrinehria' usado pelas gentes de Cabril. De facto, só em duas fontes descobri o termo 'Cabeço da Cova da Porca' sendo uma delas um mapa do princípio do século XX e outra um registo mineiro efectuado em 1943 e que corresponde a uma pequena exploração mineira que se encontra a Norte do ponto mais elevado do alto granítico. Infelizmente, o topónimo 'Cabeço da Cova da Porca' acabou por se «perder» no vocabulário serrano.

A paragem no cabeço foi curta, somente para o registo fotográfico do que acontecia a Sul. Desci então para o Curral de Bezerros e, tomando o carreiro entre a Messe e Borrageiros, segui em direcção à Corga de Arrocela e depois à Corga das Mestras. Ambas sem água e agora ameaçadas pelo fogo que ia trepando as encostas empurrado pelo vento que, apesar de não ser muito forte, era constante. Ao passar pela Corga das Mestras, uma língua de fogo já trepava a encosta Poente de Borrageiros e subia em direcção ao pequeno Curral das Mestras e ao Curral de Premoinho. Felizmente, mais tarde, soube que o secular Pinheiro da Cigarra, na Corga das Mestras, foi somente «chamuscado» pelo rápido incêndio que eventualmente acabaria por ali passar.

A minha jornada terminou no Abrigo de Lagoa onde fui encontrar velhos amigos de Cabril e falar com outros que conheci através das deambulações do facebook e do blogue.

Apesar da tristeza provocada pelo vislumbre de mais uma catástrofe «sem culpados» na Serra do Gerês, a jornada foi retemperadora e marcou o tão desejado regresso às alturas Geresianas.

Ficam algumas fotografias do dia e o restante álbum aqui.























































Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)