quinta-feira, 31 de julho de 2014

Currais do PNPG (XXXIII) - Curral do Cambedo


Para além dos carreiros de montanha que marcam a paisagem da Serra do Gerês, os currais são a outra característica que atesta a presença milenar do Homem nas serranias.

Com o passar dos tempos e com a alteração de costumes, alguns destes currais acabam por ser abandonados e a vegetação faz o seu trabalho ao reclamar o que em tempos foi dela (nunca tendo deixado de o ser!)

Inúmeros são estes lugares que eram utilizados para guardar o gado pela noite e para a plantação de centeio. Muitos destes currais são usualmente visitados pelo caminhante na Serra do Gerês; outros estão esquecidos e só lembrados nas memórias dos pastores. Faz falta um trabalho sistemático que faça a recolha desta valiosa informação e este é um trabalho urgente, correndo-se o risco de se perder (mais uma vez) uma parte importante da memória das populações da Serra do Gerês.

Recentemente tive a oportunidade de «descobrir» mais um destes currais através do conhecimento de dois pastores da aldeia de Pincães que me indicaram a localização do Curral do Cambedo. Este curral, há muito abandonado, localiza-se junto do Sobreiral à sombra das Quinas de Arrocela e mesmo ao lado da ponte que permite a passagem da ribeira da Corga de Valongo. O seu forno está totalmente coberto pelas giestas, mas facilmente se nota a sua delimitação. O curral era utilizado pela vezeira de Pincães.

A sua localização é 577452E 4623404N a uma altitude de 896 metros.

Fotografias © Rui C. Barbosa

Dia Segundo: Minas dos Carris - Bicos Altos


A noite passada nas Minas dos Carris foi ventosa o que levou a que despertasse por diversas vezes. Por outro lado, o fogo de artifício largado às quatro da manhã e a insistente música que por demais perceptível inundava a montanha, fazia com que o sossego esperado fosse recortado por uma dúbia insónia misturada com o cansaço do dia.

O sono acabaria por chegar aconchegado pelo sabor quente de um chá e pelo som do vento numa sinfonia disforme. Mergulhado numa quase escuridão com a ausência de luar, o contorno da montanha era facilmente perceptível em todo o horizonte. Procurava incessantemente o limite entre o azul escuro e o negro da serra longe da visão fantasmagórica das dezenas de pontos vermelhos que poluem as serras em redor. Dizem que é o desenvolvimento... digo que é a usura e o gozo dos grandes!

De repente o despertador tocava e era hora de o ver chegar, uma vez mais. Porém, o constante despertar da noite levou-se a adormecer por breves, mas irrecuperáveis minutos. Ele não esperou e quando olhei pela rede da frágil tenda que mal se aguentou à noite, já ia alto para lá do horizonte. Aquela bola de fogo cedo iria tornar o ar quente. Apressei-me a registar os momentos seguintes enquanto que o espectáculo de cores não se diluía no azul do céu que chegaria dali a pouco.

O resto do grupo ainda dormia o confortável sono dos guerreiros que haviam enfrentado os quilómetros do dia anterior. Este dia levar-nos-ia para outras paragens na Serra do Gerês. No entanto, e enquanto não chegava a hora de levantar campo, ia aproveitando a paisagem matinal dos píncaros serranos que numa lenta metamorfose se ia transformando na visão a que nos habitua durante as fugazes visitas.

Aos poucos o grupo foi despertando pelo calor que ia inundando o interior das tendas. Dali a pouco seria hora de partir e as Minas dos Carris ficariam, de novo, para trás.

Abastecidos de água para a longa jornada, esta levou-nos até ao Curral das Abrótegas e dali para o Curral de Lamas de Homem. Seguindo pelo Quelhão, a passagem faz-nos imaginar a travessia para outra montanha, como que uma porta para outro mundo. A paisagem mostra-nos uma diferente perspectiva dps Chamiçais, da Lagoa do Marinho e da Lagoa, tudo para lá do Couce. Descendo pelo velho carreiro passamos o velho circo glaciar dos Cocões do Coucelinho e dali tomamos o velho trilho mineiro até à Mina do Borrageiro.

A caminhada foi-se fazendo célere e em pouco tempo estávamos a caminhar no estradão que nos conduziria até ao Porto da Lage. Porém, antes, o almoço teria lugar no Sobreiral e na companhia de pastores que ali descansavam da jorna em busca dos gados pela serra. Este foi uma excelente oportunidade de saber um pouco mais e o ganho deu-se logo aos primeiros minutos com a revelação do Curral de Cambedo ali a poucos metros. Foram histórias de minas, de pastores e de carvoeiros que levavam o carvão através do Corgo de Valongo até ao Teixo. Tempos duros e difíceis que esta gente serrana teve de enfrentar e que os fez moldar a serra, tornando-a o mais habitável possível.

Era chegada a hora de apear caminho. Depois das despedidas, voltamos a enfrentar o Sol e o calor seguindo pelo estradão até ao Porto da Lage que nos serviu para refrescar o corpo em meia-dúzia de mergulhos. Mais à frente, chegávamos ao Curral da Touça que deveria ser o nosso local de pernoita. No entanto, chegáramos ali muito cedo e a tarde ainda ia a meio o que nos permitia adiantar caminho para o dia seguinte (onde deveríamos dormir nos Prados da Messe). No entanto, decidimos adaptar a caminhada à nossa necessidade e rumamos para o Curral dos Bicos Altos após vencer o convidativo desnível entre a Touça e o Lagarinho. Infelizmente, o carreiro deixou de ser cuidado e o caminho acabará por se perder caso não volte a ser aberto pelas gentes de Fafião. Parte do seu percurso é já imperceptível e muitas das mariolas encontram-se escondidas pela vegetação. Porém, apesar da dificuldade foi com bravura que o grupo conquistou o desnível e no alto contemplou a distância e a paisagem até ao já longínquo Borrageiro por onde havíamos passado de manhã.

Do Curral de Lagarinho até aos Curral dos Bicos Altos o percurso fez-se sem grandes problemas e à sombra da montanha, dormiríamos o sono dos guerreiros... não fosse o chão ser tão inclinado!


























































Fotografias © Rui C. Barbosa