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sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Terá existido um curral em Ponte Feia?

 


De novo, irei levantar uma hipótese sobre a possível existência de um curral e abrigo pastoril numa zona onde não existem relatos de tal ter ocorrido.

O cenário que hoje vemos na zona junto da Milha XXXIII na Geira, em Campo do Gerês - Terras de Bouro, é certamente muito diferente do cenário que poderíamos encontrar há 50 anos. Chegando a 1972, o mesmo poderíamos dizer daquele local recuando mais 50 anos: em 1922 não existia a Casa Abrigo do Clube Académico e nem mesmo as actuais casas dos serviços florestais, por outro lado, da mesma forma, o coberto vegetal seria muito diferente e possivelmente mais escasso, exceptuando, claro está, os seculares carvalhos e azevinhos que por ali existiam. Aquela zona era de passagem, sendo, no entanto, um ermo distante tanto do Campo do Gerês e de Vilarinho da Furna, como das Caldas do Gerês.

Tendo por base o mapa disponível no livro "Caldas do Gerez - Guia Thermal" da autoria de Ricardo Jorge (1891), aquela zona estava inserida no 3.º Cantão do Perímetro Florestal do Gerês que havia sido estabelecido em 1888. Não muito afastado, havia já sido estabelecido o primeiro edifício dos Serviços Florestais (um dos três já criados na Serra do Gerês, os outros localizados na Bouça da Mó e no Vidoeiro).

Com a chegada dos Serviços Florestais, a área em questão altera-se de forma significativa. Há a necessidade de se preservar a Mata de Albergaria e Palheiros, procedendo-se à criação de novas estruturas de apoio. É assim necessário recuar ainda mais no tempo. Vamos dar então um salto de 100 anos e chegamos a 1788. A Serra do Gerês é então uma das zonas mais selvagens e desconhecidas do reino, sendo então estudada por Joaquim Vicente Pereira Araújo que, em 1782 e com Maia Coelho, expediciona nas serranias a mando do então arcebispo de Braga, surgindo então o "Diario Philosophico da Viagem ao Gerez" onde se extasia com o pitoresco panorama alpestre, recolhendo rochas e plantas, estudando os monumentos romanos e tomando nota dos hábitos selvagens da gente geresiana... Por seu lado, é em 1798 e 1799 que o naturalista alemão Heinrich Friedrich Link visita Portugal, acompanhando pelo conde de Hoffmansegg. Desta visita resulta o livro "Viagem em Portugal", afirmando que o atravessamento do Rio Cávado foi como atravessar o Lethes, com as florestas da Serra do Gerês a fazerem esquecer as da sua pátria e até as da Inglaterra!

Em princípios do Século XIX, a serra e os acessos ao seu interior eram uma aventura, mesmo para aqueles que ali moravam. As vezeiras iam marcando os ciclos anuais da transumância que encontrava nos currais serranos o abrigo para as noites frias do Verão. Memória das tribos nómadas que milénios antes haviam ocupado o território, os movimentos dos animais pela serra eram geridos consoante a disponibilidade das pastagens e estas iam existindo tanto em altitude (Prados da Messe, Rocalva, etc.), como mais próximo das aldeias (Bostelo, Lameirinho, etc.). O ciclo era estabelecido dependendo do território ocupado por casa aldeia.

Sendo visitantes relativamente usuais das paisagens da Mata de Albergaria, é-nos difícil tentar imaginar aqueles espaços há 200 anos. Como seria o Vale do Rio Homem na sua passagem pela Ponte Feia e pela destruída Ponte de S. Miguel, ou que tipo de ocupação e utilização dos espaços fariam as gentes do Campo do Gerês ou de Vilarinho da Furna? Nos nossos dias, sabemos ali existir um bem definido curral - o Curral da Albergaria - pertencente a Vilarinho da Furna que alargava as suas pastagens para parte da Serra do Gerês (Prados Caveiros e Curral de Absedo) e mesmo para lá dos actuais limites de fronteira (Curral Onde Morreu Martinho, Curral de Costa de Negrelos e outros).

Tendo uma subsistência agropastoril, todas as pastagens e zonas que pudessem ser utilizadas para tal, seriam aproveitadas, podendo-se assim explicar a proximidade entre muitos currais (Curral das Abrótegas e Curral de Cabanas Novas, por exemplo). Assim, não me parece descabido poder ter existido um outro curral não muito longe do Curral da Albergaria, localizado a poucas dezenas de metros da Ponte Feia.

Especulando sobre as possíveis evidências da existência deste curral, encontramos por entre o coberto arbóreo da Albergaria uma peculiar disposição de rochas que nos fazem lembrar a base de um típico forno pastoril com as dimensões usuais deste tipo de edificado. A zona seriam óptima para apascentamento dos animais, sendo relativamente plana e estando naturalmente protegida quer pela vertente do Peito de Albergaria (a Nascente), quer pelo Rio Homem (a Poente). Para os pastores de Vilarinho da Furna, seria uma zona de fácil acesso, ficando no caminho para as suas pastagens de altitude (Prados Caveiros) e mesmo junto da Geira.






Mas, poderia ter mesmo ali existido um curral e que memórias ou relatos orais existem sobre tal? Bom, de facto nenhuns! Na sua obra "Vilarinho da Furna - Uma aldeia Comunitária" (1948), Jorge Dias faz a listagem dos muitos currais daquela aldeia, vários abandonados já nessa altura. Por outro lado, ao consultar velhos mapas, noto a existência de outros currais (ou cabanas) não referidas por Jorge Dias (tais como a Cabana da Volta da Devesa).

Não muito afastado do que penso ser os restos de um forno pastoril, existem as bases em alvenaria de outros edifícios que em tempos ali existiram (a pouco metros da Casa Abrigo do Clube Académico), podendo ser estes os restos das primeiras construções dos Serviços Florestais ou mesmo edifícios de apoio ao «parque de campismo» que em tempo ali existiu.



Com tudo isto, e tendo em conta o que observámos no local, podemos concluir que algo ali terá existido. Estando perto dos marcos miliários (que se desconhece estarem na sua posição original), poderia até sido algo muito mais antigo. No entanto, podemos concluir que a existir ali um curral, este terá sido abandonado há já muitos anos - mesmo antes da chegada dos Serviços Florestais em 1888 - e que a sua memória esteja somente perpetuada naquele conjunto de rochas em disposição peculiar.

Antes de terminar, gostava de vos deixar de novo a transcrição de um texto de Hermenegildo Capelo que é um excerto de um relatório escrito na revista da então Sociedade de Geographia e que relata uma visita à Serra do Gerês realizada em Setembro de 1882 por Hermenegildo Capello e Leonardo Torres - sócios ordinários dessa Sociedade. Durante a sua permanência no Gerês, os dois homens participaram numa caçada realizada a 20 e 21 de Setembro:

"Na Serra do Gerez ha uns abrigos que chamam fornos, provavelmente por causa das portas que só se pode entrar engatinhando, e dentro d'essa cubata podem dormir nove ou dez homens, deitados em palha e muito unidos.

A pulga e muitas vezes o ganau enxameam aquelles domicilios, que servem de casa aos guardas do gado que á noite o reunem junto d'estes fornos em uns pequenos planos mais abrigados que chamam vezeiros. Vimos dois d'estes cacifres ou casebres, um mesmo na Portella de Leonte e outro em Albergaria; n'este ultimo estava um velho guardador de extensa barba branca, e pelo tempo, local e aspecto fazia sem grande difficuldades a felicidade de um sebastianista ferrenho.

Estavamos condemnados a estacionar e pernoitar no forno de Albergaria, porque a chuva continuava e continuou durante a tarde e durante a noite, quando um dos guias lembrou que era mais limpo o abrigo do Penedo da Palla, no sítio do Ranhado, que nos ficava a uns duzentos passos de distancia; podem lá dormir dez homens e cinco debaixo do penedo que fica logo ao pé, e os sete seguiram logo para o dito forno. Foram dez para o forno, e por esse motivo no abrigo da Palla apenas dormimos sete, perfeitamente abrigados e aquecidos pela constante fogueira que durou toda a noite, sendo alimentada com lenha de carvalhos, que ali se encontram derrocados e não aproveitados."

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

terça-feira, 29 de outubro de 2019

A Villegiatura e a Serra (III)


A terceira e última parte deste fabuloso texto de Ricardo Jorge do seu livro "Caldas do Gerez - Guia Thermal" editado em 1891.

Esta obra aborda vários temas relacionados com o termalismo geresiano, as suas águas termo-medicinais, a sua acção hidro-termal, a clínia hidrotermal, etc. Um dos capítulos mais interessantes está relacionado com a denominada "villegiatura", isto é a "temporada que se passa fora da terra, a banhos, no campo ou viajando, para descansar dos trabalhos habituais."

Ricardo Jorge fala-nos de paisagens conhecidas e das sensações que elas proporcionam.

A primeira parte deste texto pode ser encontrada aqui e a segunda parte aqui.

O texto transcrito abaixo é mantido na sua forma original e com o Português que era escrito em finais do Século XIX.

"(...)

Diremos apenas das excursões mais tentaveis e mais frequentadas.

Das Caldas á Portella d'Homem (11 kilometros, 3 horas de caminho). Distam as Caldas 11 kilometros da fronteira gallega. O trajecto sempre por valles e gargantas figura uma linha quebrada em forma de N no sentido vertical; sobe-se o valle até ao desfiladeiro, que na onomastica montanhosa tem sempre o nome de collada ou portela, Portella de Leonte (875 metros); desce-se o outro thalweg até á Ponte-Feia (659 metros); sobe-se novamente ao longo do valle do Homem e d'um dos seus ramos até á garganta da estrema, a Portella d'Homem (822 m).

Do Gerez á Preguiça, estrada districtal de que está a findar a construção; d'hai por diante um excellente e bem cuidado caminho, aberto e entretido pela regencia florestal, com boas pontes de carvalho lançadas sobre os rios. Até Leonte costea-se o rio Gerez, que desce espumenta no fundo das ravinas, precipitando-se a miudo, em grandes cachoeiras.

Veem-se pequenos prados, assombrados de carvalhos e escalheiros com a sua cabana de pedras - são as chãs ou curraes, onde os pastores conduzem as manadas do gado; a do Seixello, Lage e Mijaceira. Do alto da Preguiça (720 metros) gosa-se um explendido panorama por todo o valle, onde se destacam das Caldas, e no fundo as faldas do Penedo e Caniçada.

Eis-nos na famosa matta de Leonte, com o seu arvoredo cerrado que se ergue de frondes entrelaçadas cobrindo as eminencias - um erriçado de verdura deslumbrante; quasi tudo carvalhos seculares. Por toda a parte jorra a agua nos seus corregos pittorescos que confluem um inumeros regatos; a admirar uma cascata delgada e alta de algumas dezenas de metros, a Fexa de Leonte (Cascata Ricardo Jorge).

Na garganta, uma ampla chã de pastagem; ruínas d'uma casa militar e d'uma trincheira lançada de monte a monte, contemporanea dos nossos factos da rastauração.

Desce-se suavemente por entre os cumes da Bargiella e da Corneda e ao lado da ribeira de Leonte até Albergaria; a estrada florestal atravessa em pontes os affluentes da Maceira, Cagademos, e Forno que brotam de fundos reintrancias da serra, emmaranhadas d'arvoredo.

Em Albergaria um posto de guardas com seu viveiro. Estamos nas margens do Homem, que offerece a mais bella e imponente das cascatas, jorrando por uma especia de escadaria de granito, a sumir-se no fundo intersticio de duas altas moles, que servem de pegões á Ponte Feia.

Ao encanto da queda d'agua juntam-se aqui formosos relances de paisagem; a intersecção dos dois valles de Leonte e do Homem, e os agrupamentos exquisitos de rochas. Proximo da Ponte Feia vai a Geira, a via romana; grupos de marcos milliarios se divisam, já com as inscripções quasi sumidas; no termo do rio do Forno e de Leonte, ainda os pegões das pontes, derruidas por defeza nas guerras da independencia.

Mais meia hora, e chega-se á Galiza; a estrada levaram-na a meia encosta para atravessar o Homem, junto da bella cascata de S. Miguel; o verde das aguas que juntam no remanso tem a cambiante da melhor esmeralda. Novo desfiladeiro, Portella do Homem; um grupo de marcos, e entre estes o mais conservado de todos; um renque de pedras brutas separa os dous paizes; para alem montanhas escalvadas e um valle alongado, onde se enxergam os povoados de Lobios e Interime, as aldeias fronteiriças da Galiza.

Das Caldas á Ponte-Feia pela Geira. Contorce-se a estrada florestal pela falda d'oeste, rodeando o monte da Pereira até ao planalto da Chã de Lamas. De caminho relances de vistas magníficas sobre o valle.

Da Chã quem se desviar para a direita sobe ao Cabeço da Pereira, - o melhor panorama das Caldas, que d'aqui se afigura uma villa. Para a esquerda uma vereda que conduz a um curral de gado e a uma matta frondosa de carvalhos e escalheiros, sobrepujada pelo pincaro da Calcedonia; rsetos de construções romanas, reliquias de ceramica e uma gruta talhada entre dois fragões gigantescos. Quem se atrever a galgal-a, chega ao pinaculo; panorama da vertente sul do Cavado, da serra da Cabreira, dos cumes do Borrageiro, Rocalva, e a poente as aldeias de Covide e Carvalheira.

A partir da Chã, a via declina rapido até á planura cultivada de S. João do Campo; á entrada um crucifixo, sob um alpendre, em cima d'uma peanha feita d'um marco romano.

O caminho florestal entronca com a Geira que vem de Covide, e passa a distancia de S. João do Campo e Villarinho das Furnas. Para visitar as duas aldeias muito pittorescas sobretudo a ultima, é preciso fazer o desvio pelos atalhos que lá conduzem, atravessando as pontes d'arco lançadas sobre os rios que banham os dois povoados.

A Geira ondeia pelo alto, passando proximo das ruinas d'uma Fabrica de vidros, destruida por odio aos francezes que a levantaram, na occasião da guerra peninsular. Ainda hoje possuem amadores exemplares dos seus productos; e é fácil por lá encontrar escorias vitreas. Defronte de Villarinho depara-se um dos mais bastos e variados macissos florestaes, o da Bargiella.

A Geira conduz á Albergaria, atravessando os rios do Forno e de Leonte , e margina o Homem até á Portella; das tres pontes restam apenas os pégões.

Estas duas excursões inolvidáveis podem fazer-se no mesmo dia, indo por Leonte e voltando pela Chã de Lamas.

Ascensões. A mais fácil e rapida é a da Pedra Bella (876m), a collina imminente ás Caldas. Uma simples vereda ondula em diagonal desde as Caldas até ao formoso morro de granito; vai ser alargado em via florestal. A subida leva hora e meia e póde fazer-se em grande parte a cavallo. Lá em cima uma grande moita de grossos medronheiros.

Vista admiravel do apice. Muralha aprumada sobre o valle; defronte a Chã de Lamas, ao sul o costado da serra da Cabreira; divisa-se ao longe a ermida do Sameiro; por leste o Borrageiro e o seu sequito d'emminencias.

O Borrageiro (1433m) é considerado como o pincaro de maior altitude do Gerez; só Carris já no extremo das nascentes do Homem é que o sobrepuja. A ascensão começa por Leonte, pela vertente de leste; chaga-se à clareira do Vidoeiro, de lá atravessa-se o valle da Teixeira, a melhor séde futura de um sanatório alpino.

No cume do Borrageiro em dias claros ostenta-se um panorama magestoso; a toda a volta accumulos de serranias; a vista estende-se pela Galliza dentro, pelas alturas de Barroso, bacias do Cavado e do Homem, serras do marão, da Cabreira, do Suajo, e todo o littoral do Minho até ao mar que listra o horisonte do poente.

O Cabril, (1235) que aguça o seu duplo pincaro face a face com o Borrageiro, é d'uma ascensão mais penosa; ataca-se tambem por Leonte, lado de poente.

Mas a subida mais aspera, e mais seductora para os bons andarilhos de montanha, é a do Cantarello (1425) que soergue o seu bloco terminal circulado por um friso sobre o valle do Homem."

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

A Villegiatura e a Serra (II)


A segunda parte deste fabuloso texto de Ricardo Jorge do seu livro "Caldas do Gerez - Guia Thermal" editado em 1891.

Esta obra aborda vários temas relacionados com o termalismo geresiano, as suas águas termo-medicinais, a sua acção hidro-termal, a clínia hidrotermal, etc. Um dos capítulos mais interessantes está relacionado com a denominada "villegiatura", isto é a "temporada que se passa fora da terra, a banhos, no campo ou viajando, para descansar dos trabalhos habituais."

Ricardo Jorge fala-nos de paisagens conhecidas e das sensações que elas proporcionam.

A primeira parte deste texto pode ser encontrada aqui.

O texto transcrito abaixo é mantido na sua forma original e com o Português que era escrito em finais do Século XIX.

"(...)

Nas Caldas. A povoação das Caldas do Gerez, cuja história e vicissitudes já traçamos, era ha 40 annos apenas habitada na temporada balnear. Hoje tem habitantes proprios, de numero computavel em 240. No apogeu da quadra chega a conter mais de 800 pessoas; e mesmo fóra da estação, tem sempre uma população adventicia d'operarios, por causa das obras publicas e particulares.

O lugar das Caldas pertence à freguezia de Villar da Veiga, de que dista 7 kilometros, e ao concelho de Terras de Bouro que tem a sua séde em Cóvas. Hoje pela sua concorrencia e desenvolvimento é a terra mais importante do concelho.

Jaz a estancia á altitude de 468m na aresta do valle, engastada entre as duas cordas de serrania, que limitam a profunda garganta. Sobranceiam-n'a d'um lado e d'outro os empinados alcantis; de nascente o cume da Pedra-Bella e as vertentes do Varejeiro e Junco; do poente o cabelo da Pereira e Outeiro-Rubio.

As casas occupam apertada faxa entre o morro do spé da montanha e a margem esquerda do rio Gerez, que se despenha n'um leito inclinado de calhaus rolados: apenas algumas casas começam d'edificar-se na escarpa aprumada da margem direita. Grande parte das primitivas edificações do seculo passado foram apeiadas, a bem do aformosamento e da hygiene; subsistem ainda algumas, defronte dos antigos poços, com as suas longas varandas e as escadas exteriores de patamar.

A estrada atravessa as Caldas de lado a lado, dilatada em avenida. Passa rente da fieira dos Poços, que co o seu tecto pyramidal semelham capellas, e facejam-n'a os Hoteis, os edificios que mais avultam. São nada menos d'oito. Estrema-se entre elles o Grande Hotel Universal, vasta edificação em quadra, com o seu claustro ajardinado e jogos d'agua, grande sala de jantar, salão, gabinetes de leitura e jogo, illuminado a luz electrica, com todos os requisitos emfim d'um estabelecimento de primeira ordem, de que o Gerez póde ufanar-se. Mesa excellente, d'uma culinaria apurada, e sujeita à prescripções dieteticas mais meticulosas - serviço d'hospedagem desvelado - pharmacia e serviço pharmaceutico - consultorio medico - casa de banhos frios e thermaes, - tudo alli se congrega para a maior commodidade do hospede e do cliente.

O Gerez tem uma Estação telegrapho-postal de serviço completo, e Correio duas vezes por dia, pela manhã e de tarde. É a sede d'uma secção a guarda-fiscal e da circumscripção florestal do Gerez.

Em torno das Caldas ha bellos passeios. O da estrada até á volta do tortullo, donde se disfructa a veiga do Villar, é o clássico dos passeiantes d'aguas, que por elle medem chronometricamente o intervalo das doses. O antigo era o do Castanheiro, muito pitoresco, que vai até próximo do elegante chalet florestal dos guardas, ao norte da povoação, d'onde se desce, pelo prolongamento da estrada. De tarde, a mais apreciada volta de passeio é a dos Viveiros, parque florestal de creação, dividido em alfóbres, e cortado por um bello trecho de rio, contiguo á estancia dos banhos de rio na grande piscina do Poço-Verde, assim chamado pelo tom esmeralda-vivo das aguas, que se precipitam em lindissima cascata do alto de tres enormes blocos despenhados. A arte veio alli completar as bellezas naturaes sem as deformar.

Logar d'encanto é ainda a matta, que circunda o Chalet Tait, um pedaço de floresta virgem, com quedas de agua, cerrada d'ervedeiros, carvalhos, asereiros e castanheiros.

O caminho florestal do ponte, que se dirige a S. João do Campo, é também um passeio aprasivel; trepa pela encosta até á Chã de Pereira, offerecendo a melhor vista das Caldas, e abraçando todo o valle desde o collo de Leonte até á Veiga de Villar. A meio passa pela Cascata das Caldas, e por uma chapada, sobre que paira amorosa lenda, a Cova do Castelhano.

A SERRA, A Serra do Gerez; que de tradições de bellezas naturaes, afamadas pela recordação viva dos viajantes e pelos trechos enthusiastas dos naturistas! Se todo o Portugal é um paiz pitoresco, o Gerez realça como o mais formoso trecho do seu solo abençoado.

Arrancar exclamações de transporte, aos que possuem a mais delicada esthesia dos quadros de montanha, aos que se dedicaram na digressão pela nossa provincia mais encantadora, e sobretudo áquelles que d'outras terras nos visitam, que se extasiaram perante as serras florestadas mais celebras da Europa, é um titulo d'ufania para a nossa serra. O recorte exquisito dos seus macissos e cumiadas, as suas mattas virgens alastradas por valles e alturas, os mananciaes abundantissimos d'agua que por toda a parte jorra do seu ventre e joga em cascatas pelos fraguedos, o typo especial da flora e a curiosidade da fauna, imprimem-lhe um caracteristico de superior encanto para todos os que commumguem no culto da montanha.

Bem o disse Link, que ao transpor o Cavado se passou o Lethes mythologico. Empolga-se o espirito da sugestão cultural da montanha; como que nelle se concentra aquela grandeza immensa, a enormidade das alturas, a enormidade das massas. E toda aquella vida eshuberante e liberrima, independente e nova, incute uma sensibilidade vigorante á alma alquebrada nos embates rasteiros da lucta social. O cultualismo da montanha, que tem alli um dos altares sagrados, possue uma sensualidade mystica, um poder roburante, como nada mais, na indestructivel idolatria da natureza.

Ao attentar no mapa orographico da provincia, vê-se que a sua estrema de leste é orlada por uma cordilheira no meio da qual se destaca o macisso do Gerez, abraçado pelos rios Homem e Cavado, e pegado pelo sul á serra da Cabreira e pelo norte á de Lindoso e Suajo.

Quem encarar da riba sul do Cavado o perfil do Ferez, imaginará vêr a extranha corporatura d'um monstro que alli dorme e somno profundo da natureza; o espinhaço afestoado d'apophyses caprichosas recorta-se numa direcção sensivelmente leste-oeste; cauda e flancos encosta-os por nordeste e nascente ás alturas de Barroso e ás montanhas gallaico-asturianas; a cabeça ligada ao corpo pelo collo de Leonte e coroada pelos dois tentaculos do Pé do Cabril, vem descançar entre os dois rios Homem e Cavado (Gerez Thermal).

A estes rios correspondem dois grandes valles de confluencia, formando os dois lados d'um triangulo; o Gerez propriamente dito tapa a base d'este triangulo, e depois baixa de eminencia em eminencia, declinando até ao vertice do angulo em contra-fortes successivos. De bacia a bacia vão dois valles parallelos, transversalmente rasgados; um, o de poente, mais largo e acessivel, vem de Vilarinho das Furnas, por S. João do Campo, até Rio-Caldo; outro, mais estreito e mais fundo, em ravina, parte d'Albergaria, sobre até ao desfiladeiro de Leonte e desce depois até á Foz do Caldo, passando pelas Caldas. A se paral-os uma lombada de serra que vai empinando de sul a norte até ao Cabril, acabando pela escarpa da Bagiella na confluencia do rio de Leonte com o Homem; esta cumiada dilata-se a partir do Escuredo num planalto de dois kilometros de largo, a Chá de Lamas.

A grande massa de montanha contorna o angulo aobtuso formado pelos dois thalwegs do Homem e de Leonte; em declive pelo lado do Cavado talha-se em escarpa abrupta desde as Lamas d'Homom até á Pedra Bela; uma chapada immensa se estende até Pitões á vista de Montalegre e d'ella emergem innumeras culminancias entre as quaes se destacam o Borrageiro (1433m), Cantarello (1425m) e Carris (1507m).

Por todo este ambito de valles e montanhas digressam os excursionistas. Ha quem dias e dias por lá volteie, acoitado á noite nas lapas dos rochedos ou nas tendas de campanha; principalmente caçadores e naturalistas. Vindo pernoitar ás Caldas podem em dias diversos visitar-se as partes mais notaveis da serra. Os bons andarilhos excursionam a pé; os menos validos ou menos avezados ás grandes marchas recorrerão aos muares, que se alugam nas Caldas, animaes de pouca apparencia, mas muito seguros para as asperezas da viação de montanha. Não faltam também guias, que conhecem a serra palmo a palmo.

(...)"

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

domingo, 27 de outubro de 2019

A Villegiatura e a Serra (I)


Em 1891 era editado o livro "Caldas do Gerez - Guia Thermal" da autoria de Ricardo Jorge. Esta obra aborda vários temas relacionados com o termalismo geresiano, as suas águas termo-medicinais, a sua acção hidro-termal, a clínia hidrotermal, etc. Um dos capítulos mais interessantes está relacionado com a denominada "villegiatura", isto é a "temporada que se passa fora da terra, a banhos, no campo ou viajando, para descansar dos trabalhos habituais."

Assim, Ricardo Jorge fala-nos de paisagens conhecidas e das sensações que elas proporcionam começando por uma viagem entre Braga e as Caldas do Gerês...

O texto transcrito abaixo é mantido na sua forma original e com o Português que era escrito em finais do Século XIX.

A Villegiatura e a Serra, por Ricardo Jorge

"Para as Caldas. A pittoresca e antiga Braga, estação terminus da via férrea, é ponto forçado de transito para a grande maioria dos forasteiros gerezianos. Tres comboios por dia se offerecem á opção do viajante; ha duas carreiras diarias de diligencia para o Gerez; mas o transito mais commodo e rapido nos trens fretados da Companhia Carris de Braga, que tem montado um serviço perfeito, com mudas a meio caminho, de modo a não exceder a jornada quatro horas.

Raro é aquelle que por distracção e até conveniencia hygienica não pousa á ida ou á volta na bella estancia do Bom-Jesus, a formosa collina do sanctuario, erriçada de carvalhos e capellas, com os seus parques frondosos, as suas fontes perennes, encaixilhada em soberbos panoramas. Sagrada pelo culto religioso e pela opulencia da natureza, a arte moderna do conforto veio completal-a; quem gozar da ascensão no elevador funicular e se alojar no Grande Hotel, terá com que contentar o seu orgulho nacional. D'alli saúda o viajante a serra do Gerez que lhe estendera em face a espinha anfractuosa, d'onde preminam as culminancias do Cabril e Borrageiro, como a giba d'um dromedario.

O trajecto para as caldas tem uma variante que custa apenas meia-hora, para o que desejar vêr a confluencia do Homem e Cavado na Ponte do Bico e atrevessar o sítio d'Amares. Em geral prefere-se a via mais curta, que galga o Cavado, na archi-secular Ponte do Porto, obra dos romanos.

Paysagem estreme do Minho derredor da estrada até meio-caminho, até á aldeia de bouro, onde se faz a étape de rigor. A enquadrar o largo da paragem, onde se encontra uma rasoavel locanda, ergue-se nas suas linhas de cantaria o vasto mosteiro cistercense de Santa Maria de Bouro, flanqueado pelo templo de dois campanarios. Merece uma visita o abandonado convento, construido no seculo passado, mas fundado com a nacionalidade portugueza, uma ruina vergonhosa agora. Só a egreja se mantem em regular conservação; o resto cahiu aos pedaços, soalhos e tectos; as hervas ruins tapetaram a ampla quadra do claustro; mais uns annos e até os pannos das espessas muralhas se rasgarão. Lá dentro, pela capella e sachristia, ha ainda preciosidades de talha, mobiliario rico, e azulejos panoramicos, sobre que todo o amador de bibelot passeará os olhos cubiçosos.

A estrada desenrola-se a partir d'alli pela encosta, serpenteando sobranceira ao Cavado, que espuma lá em baixo no seu leito apertado de granito.

O panorama transfigura-se; ao campo arroteado de milhaes, ao quadro agricola caracteristico do Minho, substitui-se quasi de salto a lombada agreste  da montanha; apenas socalcos cultivados invadem os corregos aqui e além. Só na chapada do valle estende os taboleiros dos seus campos a aldeia de Parada do Bouro, povoados de casaes, onde se destaca a pyramide acuminada do campanario.

O principal povoado que a estrada atravessa no seu trajecto pela encosta é o de Valdozendo, com os seus socalcos em amphitheatro até ao rio. Do lado d'além continua a desfilar a lombada da serra da Vieira; a sua extensa vertente é agora um painel monstruoso de verdura, encimado pela aldeia do Penedo, antiga estação dos peregrinos do Gerez e cortada pela estrada de Chaves.

De repente ao dobrar uma arseta da montanha surge em cheio toda a cordilheira de Gerez nitidamente destacada pelos seus recortes e pela tonalidade acinsentada, coroada d'espigões em planos sucessivos, como cortinas colossaes descidas sobre o horisonte, afestoadas na franja em tintas peroladas. Lá está o Borrageiro, e o seu cortejo de collinas, a Pedra Bella a encimar a profunda ravina que descahe do desfiladeiro de Leonte e aloja a meio o casario das Caldas que mal de enxerga, e emfim o espigão bifido do Pé de Cabril, o pharol da serra.

A estrada decliva agora depressa até ao Cavado, como que a buscar a base do cone regula do monte de S. Miguel. Chegada ao rio, deixa á direita uma bella ponte sobre o Cavado, ainda desprovida da competente estrada, e corta sobre outra ponte d'um só arco o rio Caldo na sua embocadura.

Estamos na primeira aldeia gereziana, o Villar da Veiga, de casaes escalonados, entresachados d'espigueiros, dominando um plaino verdejante, que o rio fertilisa, ora represado em lagos, ora despenhado em açudes.

É o rio Caldo ou rio Gerez, nascido no alto de Leonte, que cahe em cachoeira permanente na aresta pedregosa do valle, onde forma as mais encantadoras cascatas. Costeia-o sempre a estrada pelo lado esquerdo, subindo lentamente para as Caldas. Defronte do Villar, na margem d'além, a freguezia do Rio-Caldo com a ermida do S. Bento da Porta-Aberta, uma das romagens mais concorridas do Minho.

O tom alpestre do panorama accentua-se cada vez mais; as montanhas denticuladas, arregoladas e fendidas, crescem sobre a viandante, o valle angustia-se; ouvem-se os mugidos da torrente e dos jactos d'água que por todos os lados se precipitam.

Resaltam os primeiros chalets e as cumiadas dos hoteis; estamos nas Caldas - a estação das águas milagrosas para o enfermo - centro d'excursões para o touriste, a Chamounix d'este retalho alpino.

(...)"

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sábado, 26 de outubro de 2019

Para uma história das Caldas do Gerês, pelo Dr. Ricardo Jorge (VII)


Termino hoje a reprodução dos textos do Dr. Ricardo Jorge com os quais pretendia em 1891 traçar uma história das Caldas do Gerês. Estes textos foram publicados nesse ano na obra "Caldas do Gerez - Guia Thermal" e são uma primeira aproximação para um traçado histórico da vila termal.

Para manter o rigor do texto, decidi não o adaptar ao português actual mantendo assim as características da nossa língua mãe em finais do Século XIX.

"(...)

A Hydrochimica do Gerez estaca a pedir trabalhos rigorosos de laboratorio; em 1885 executavam-se nada menos de duas analyses completas das aguas.

E emquanto medicos e chimicos se ocupavam das nascentes thermaes, os naturalistas exploravam a fauna e a flora. O illustre zoologista Barbosa do Bocage descrevera já a famosa cabra-montez, que só no Geres tem o seu habitat; o eminente botanico Julio Augusto Henriques, depois de muitos annos de trabalhos, oredenava a Flora gereziana na sia memoroa - A vegetação da serra do Gerez (1885); e Alfredo Tait, o destincto amador, de continuo fas as suas inextimaveis colheitas, e acompanha ao Gerez os grandes naturalistas extranhos, que atrahidos pela fama historico-natural da serra a teem visitado curiosamente, como Corder de Norwich, Gadow de de Cambridge, e Semproth de Leipzig.

Na haute-volée thermal teem perpassado representantes illustres da aristocracia, da politica, da finança e da magistratura, do prefessorado e da imprensa; e todos os annos, ou em artigo de periodico ou capitulo de livro, veem a lume impressões e notas sobre o Gerez.

Este movimento attractivo da villegiatura gereziana teve a sua alta consagração na visita da familia real em Outubro de 1887. Nunca nos recessos do Gerez pizaram principes; honras reaes só agora as conquistava. O mallogrado monarcha e todos os seus, depois de treze dias de festas, excursões e caçadas, sahiram extasiados e saudosos da encontadora montanha. D. LUIZ I tomava sob a sua protecção decidida a estancia thermal, resgatando gloriosamente uma divida secular, em aberto desde o seu terceiro avô.

A romagem d'excursionistas e enfermos ás caldas seria uma purgação cruel ao longo dos carreiros prehistoricos. Do Penedo, até onde se aproveita a estrada de Braga a Chaves, descia-se ainda ha poucos annos por uns empinados carroxos ás cavalleiras de machos , fazendo susto e ecchymoses no pobre viandante. Protectores do Gerez empenharam-se em dotal-o com vias de comunicação; em 85 findava, com os seus lacêtes caprichosos e uma successão de formosos panoramas das ribas do Cavado, o ultimo segmento da estrada das caldas, agora prolongada pelo valle acima até entestar na floresta de Leonte.

Já não fazia mingua a hospedagem infernal nos pessimos albergues onde as cabras eram commensaes, onde cada freguez tinha a sua panella de barro e comprava os desappetitosos comestiveis; desde 82 que se abriam hoteis, e nenhuma estancia thermal possue tantos e tam vastos, em relação com a sua extrema frequencia.

As espeluncas balneares essas continuavam a affrontar os engulhos do banhista. Trazia-as de renda a camara de Terras do Bouro. De mão em mão andaram as miserandas aguas, qual d'ellas mais decaroada. A cargo do desembargo do Paço antes da reforma constitucional, pertenciam de direito á secretaria do estado dos negocios do Reino. Mas a cama do extincto concelho de Ribeira de Soaz solertemente sem mais forma de processo apoderou-se dos mnanciaes; succedeu-lhe a camara de Vieira na herança, até que a junta geral do districto de Braga, sempre com o mesmo direito leonino a desapossou em 1844, tomando o Gerez sob a sua gerencia.

Tão carinhosa e desvelada foi ella, que Rodrigo da Fonseca Magalhães, ministro do reino, censurou e annullou as deliberações da junta; e por portaria de 18 d'Agosto de 1853, salvaguardando os direitos inalienaveis do estado, conferia a administração das Caldas á camara de Vieira até que o governo entendese dever assumil-a. Quando se engendrou o concelho de Terras do Bouro, á sua camara passou o encargo e o beneficío das thermas.

Sempre os mesmos antros, sempre a mesma miseria, sempre a mesma vergonha!


Mercê dos perseverantes esforços d'aquelles que com sacrificio proprio tomaram a peito o valer e estas multiplas desgraças, o governo resolveu empregar medidas salvadores. Em 88, o ministro das obras publicas d'então o conselheiro Emygdio Navarro assumia para o estado a posse da serra, abandonada até então ao vandalismo ignaro dos povos gerezianos, e installava nas Caldas um posto florestal que tem procedido com louvavel zêlo á conservação e replantação das matas, apezar das investidas barbaras da populaça. Ao mesmo tempo o ministro do reino o conselheiro José Luciano de Castro, tendo préviamente retirado á camara de Terras do Bouro a superintendencia thermal, abria concurso para adjudicação das aguas medicinaes, impondo a edificação de thermas condignas das famosas nascentes. De honra lhes seja aos dois estadistas, o terem firmado os decretos que promoveram a grande reforma do Gerez.

D'esta novissima phase, apenas iniciada atraves dos mais espinhosos obstaculos, perante os quaes só não sossobra uma força excepcional de vontade, não nos compete a nós sermos chronistas. Que d'essa crise beneficia o Gerez se volvana «hygeia dos enfermos e no eden da villegiatura portugueza» é nossa firme esperança."

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Para uma história das Caldas do Gerês, pelo Dr. Ricardo Jorge (I)


Em 2009 fiz uma série de publicações neste blogue nas quais fiz a reprodução dos textos do Dr. Ricardo Jorge com os quais este pretendia em 1891 traçar uma história das Caldas do Gerês. Estes textos foram publicados nesse ano na obra "Caldas do Gerez - Guia Thermal" e são uma primeira aproximação, que chamarei de académica, para um traçado histórico da vila termal. Aqui estão de novo...

Para manter o rigor do texto, decidi não o adaptar ao Português actual mantendo assim as características da nossa língua mãe em finais do Século XIX.

"Nem por documento escripto, nem por achado archeologico, se póde deparar indicio de que gentes fizessem paragens nas asperezas do Gerez, antes da dominação romana. Da passagem da serra pelos grandes conquistadores do mundo, dizem os livros e fallamcom eloquencia os monumentos que, affrontando a desfeita dos seculos, ainda hoje surprehendem quem transita por aquellas solidões agreses.

Ao longo do valle que corre por poente, parallelo áquelle onde brotam as caldas gerezianas, desenrola-se um caminho meandroso, chamado pelos naturaes a Geira. É o único lanço que remanesce, atravez dos tempos demolidores, da grande via militar, que, partindo de Braga, transpunha o Cavado na Ponte do Porto, affrontava os desfiladeiros do Gerez, e depois de galgar o Homem nas voltas solidas dos arcos romanos, endireitava para Astorga, anastomosando-se com a via transpyrenaica que conduzia á capital do mundo.

Aqui e além, ao longo da estrada legionaria de Vespasiano, erguem-se ainda os marcos milliarios, truncada já a columna e meio delidas as epigraphes; veem-se na Portella do Hommem e na Ponte Feia, no caminho de Villarinho e á entrada de S. João do Campo. Num cabeço sobranceiro á Geira, no extremo da Chã de Lamas, jazem os destroços d'um presidio militar; são as ruinas da chamada cidade de Calcedónia."

Que no angusto valle thermal penetrasse o romano, tão apaixonado frequentador de caldas, nada o comprova; entre as nascentes e o seu caminho interpunha-se o quase inacessivel espinhaço da serrania. Apenas d'esse tempo piedosa lenda reza do martyrio d'uma santa, que por aquellas quebradas despenharam os pagãos; é a Santa Euphemia, a padroeira das Caldas, dona da capellinha mandada erigir por D. João V.

A descoberta das Caldas, segundo consta dos depoimentos dos primeiros gerezistas, foi casual; attribuem-n'a a uns pastores, que deram um dia pelas fontes vaporosas a jorrar da penha. O certo é que, como todos contestes o asseveram, o verdadeiro descobridor das Caldas, foi o cirurgião da aldeia gereziana de Covide, Manoel Ferreira d'Azevedo. O humilde clinico do sertão instigou os enfermos tolhidos a buscarem nas fontes thermaes o remedio d'achaques rebeldes, bebiam da agua, banhavam-se em pôças abertas no chão, e alojavam-se em cabanas improvisadas. Mas a penosa peregrinação era bem compensada pelas milagrosas curas.

Estas levas annuaes d'enfernos devem ter começado com toda a probabilidade em 1699; esta a grande data inicial d'um descobrimento therapeutico que honra a memoria do ignorado cirurgião de Covide, um benemerito da humanidade enferma."

(...)

Fotografia retirada do livro "Caldas do Gerez - Guia Thermal"

domingo, 10 de maio de 2015

A Serra do Gerês em exclamações de outros tempos


As actividades de montanha são para muitos uma fuga ao rebuliço das cidades e aos dias mundanos das praias nacionais. Na montanha encontramos o nosso lugar no mundo, sendo reduzidos à nossa verdadeira escala, numa comovente insignificância perante titânicas forças que moldaram aqueles espaços.

As palavras de Ricardo Jorge, no seu livro "Caldas do Gerez - Guia Thermal", de 1891, descrevem com todo o rigor e de uma forma única aquilo que move muitos a procurar este isolamento retemperador ao caminhar pela Serra do Gerês:

"A serra do Gerez; que de tradições de bellezas naturaes, afamadas pela recordação dos viajantes e pelos trechos enthusiastas dos naturalistas! Se todo o Portugal é um paiz de pitoresco, o Gerez realça como o mais formoso trecho do seu solo abençoado.

Arrancar exclamações de transporte, aos que possuam a mais delicada esthesia dos quadros de montanha, aos que se deliciaram na digressão pela nossa provincia mais encontadora, e sobretudo áquelles que d'outras terras nos visitam, que extasiaram perante as serras florestadas mais celebres da Europa, é um titulo d'ufania para a nossa serra. O recorte esquisito dos seus macissos e cumiadas, as suas mattas virgens alastradas por valles e alturas, os mananciaes abundatissimos d'agua que por toda a parte jorra de seu ventre e joga em cascatas pelos fraguedos, o typo especial de flora e a curiosidade da fauna, imprimem-lhe um caracteristico de superior encanto para todos os que communguem no culto da montanha.

Bom o disse Link, que ao transpor o Cavado se passou o Lethes mythologico. Empolga-se o espirito da suggestão cultual da montanha; como que nelle se concentra aquela grandeza immensa, a enormidade das alturas, a enormidade das massas. E toda aquella vida exhuberante e liberrima, independente e nova, incute uma sensibilidade vigorante á alma alquebrada nos embates reateiros da lucta social. O culturismo da montanha, que alli um dos altares sagradis, possue uma sensualidade mystica, um poder roburante, como nada mais, na indestructivel idilatria da natureza."

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

terça-feira, 26 de março de 2013

Ricardo Jorge, o Pé de Salgueiro, o Junco e a busca pelo Laspedo

Ontem publiquei uma parte de uma mapa de Tude Sousa que faz parte da sua obra "Serra do Gerez, Estudos - Aspectos - Paizagens" editada em 1909 e no qual são bem visíveis as localizações do Pé de Salgueiro e do Junco.

O mapa que hoje aqui publico (isto é, parte dele) faz parte do livro "Caldas do Gerez - Guia Thermal" de Ricardo Jorge, editado em 1891. Tal como o mapa de Tude de Sousa, este «novo» mapa não faz qualquer referência ao Laspedo (e tão pouco se encontra qualquer referência no texto). No entanto, e tal como o mapa de Tude de Sousa, é um instrumento importante na localização do Pé de Salgueiro e do Junco. Estes dois picos estão localizados na vertente Oeste do Vale de Teixeira.

Assim, serve este mapa como mais uma forma de tentar esclarecer a localização do Laspedo baseado em dados do século XIX que nos ajudam a estabelecer uma relação com aquilo que hoje observamos no terreno em comparação com mapas de então e as actuais cartas topográficas. Mais uma vez, não quer isto significar que a localização que hoje nos é transmitida de forma oral esteja errada, quer sim ajudar na localização e na preservação de topónimos que ajudam a enriquecer a Serra do Gerês.

Fotografia: © Rui C. Barbosa (extraída de "Caldas do Gerez - Guia Thermal" de Ricardo Jorge, 1891)