segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A tal prova de bicicletas

 


Cerca de um mês após terem sido solicitados esclarecimentos oficiais sobre a passagem de uma etapa de uma prova desportiva pela Mata de Albergaria, o coração ecológico e a razão de ser do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), o silêncio de quem deveria esclarecer torna-se ensurdecedor para a alma e para o coração.

Torna-se assim óbvio - ou se calhar, mais óbvio ainda - que não há anuncios oficiais sem que tudo estivesse já garantido e acordado entre as partes. Ao abrigo de uma vã promoção do território, sacrifica-se a preservação tendo como justificação precedentes que nunca deveriam ter acontecido. O mal já feito não pode e nunca deveria ser justificação para outro mal maior.

A Mata de Albergaria, todos os estios vilipendiada pela maralha humana que por lá deixa lixo e conspurca a pouca água que tem, sofre os efeitos de más decisões de gestão a todos os níveis. Perpétuam-se maus hábitos e exemplos num território que se esvai aos poucos. Os remendos vão surgindo ao abrigo de dinheiros que vão chegando, descuidando-se um plano que tem de ser obrigatoriamente a muito longo prazo para mudar o velho paradigma da promoção de um território baseada em alicerces que se vão desgastando.

A prova desportiva irá trazer o típico visitante do território: aquele que vem cá passar o dia, traz a sua geleira, não deixa riqueza e apenas deixa lixo. Além do mais, vai trazer os meios dos seus patrocinadores que pouco irão deixar para o comércio local que verá as ruas fechadas numa altura de romaria que por si só atrai milhares de visitantes.

Zona frágil e onde o menor descuido pode significar o seu fim, a Mata de Albergaria ver-se-á invadida por uma orda que nada respeitará, que deixará lixo, irá pisotear a vegetação, fará ruído e mais ruído, que fará pic-nics e trará os óbvios perigos em dias de calor intenso.

Autorizada a prova devido a um intenso trabalho de lóbi, desautorizando os técnicos que certamente se calam com a mordaça política, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas perde por completo a cara, deixando cair a máscara, e deixa de ter a mínima postura moral para gerir o PNPG. Os seus vigilantes no terreno acabam por ser meros figurantes numa encenação que se repete todos os anos e todos os anos o PNPG definha a olhos vistos ao sabor de interesses e egos pessoais e políticos.

É óbvio para toda a agente que a prova de bicicletas deve passar no Gerês! Aliás, estranha-se é que somente agora venha por estes lados ao fim de quase 100 anos de prova. Terras de Bouro e a sua parte do Gerês há já muito tempo que merecem e devem ter a prova de bicicletas, mas como referiu Miguel Brandão Pimenta, "cada lugar tem a sua função e (...) nem todos os espaços são compatíveis com eventos desta natureza."

Apenas uma teimosia e um grande ego insistem em que a prova de bicicletas passe no coração, centro essencial, do nosso único Parque Nacional. A promoção do território de Terras de Bouro seria muito melhor conseguida com, passando as Pontes de Rio Caldo, uma subida através da estrada da Ermida, seguindo por Pala Freita em direcção à Pedra Bela, descendo depois ao Vidoeiro (com o tão desejado piso empedrado para relembrar o "Portugal de outros tempos" tão desejado para alguns) e atravessando a vila termal até à rotunda da Assureira que lhe daria acesso à Chã da Ermida, Zanganho e através da estrada panorâmica das Curvas de S. Bento / Lamas até Covide, Chamoim, Carvalheira e Paredes, chegando então ao Campo do Gerês e prosseguindo pela Barragem de Vilarinho das Furnas, tomando a vertiginosa estrada para Brufe e depois, através de uma das mais magníficas estradas sobre o Vale do Homem, seguindo então para Germil. As opções seriam várias, teria apenas de se deixar para trás "o quero, posso e mando!"

De novo parafraseando Miguel Brandão Pimenta, "Ninguém perderia por respeitar a Mata da Albergaria. Pelo contrário: ganharia a Federação Portuguesa de Ciclismo e a Volta a Portugal, demonstrando sensibilidade para com o património natural; ganhariam as populações locais, que veriam a prova passar mais perto das suas localidades; e ganharia o Parque Nacional, preservando o seu espaço mais sensível. Ganharia também o ICNF, se tivesse a coragem e a sensibilidade de explicar por que razão a Mata da Albergaria merece uma protecção tão rigorosa e porque existe, afinal, um Parque Nacional."

Só é possível apostar no turismo exatamente porque conseguimos preservar a natureza, as paisagens e o Parque Nacional [da Peneda Gerês]. Se isto deixar de ser sustentável, perdemos as galinhas dos ovos de ouro. A natureza e a sua preservação são o tesouro desta região. (...)" Declarações do Vereador António Cunha ao jornal O Minho, 21 de Novembro de 2023 (Turismo cresce cada vez mais em Terras de Bouro graças a uma “fórmula mágica”

A alma e o coração devem estar com os interesses de Terras de Bouro, mas também com os interesses superiores do país.

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