segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O "Abrigo do Vale do Teixo": os abrigos pastoris - e outros que tais - no Vale do Alto Homem

 


Em "Para um estudo da ocupação humana do Vale do Alto Homem" fiz um registo de uma série de abrigos toscos que encontrei ao percorrer as duas margens do Vale do Alto Homem.

Em tempos referi que "De todas as vezes que percorri aquele vale, a margem direita do Rio Homem sempre constituiu um mistério para mim. Nos nossos dias, o percurso que fazemos até às minas no topo da montanha percorre sempre a margem esquerda do rio até às alturas das Abrótegas. Em tempos assim não foi. Iniciando na Portela de Leonte, o caminho florestal descia até à Albergaria e depois de passar o chalet dos Serviços Florestais e o Rio do Forno, seguia pelo fundo do Peito de Escada, bordando a encosta até entrar no Vale do Alto Homem, aproximando-se do rio junto da cascata que nos nossos dias faz as delícias veraneantes de milhares de visitantes. Neste ponto o caminho dividia-se em dois percursos distintos, com um deles a atravessar o rio sobre uma frágil ponte de madeira para mais adiante se juntar ao caminho das legiões de César a passar a Portela do Homem. O outro caminho subia pelo vale e acedia aos currais e pastagens de altitude. Porém, a ocupação daquele território não se limitava somente à pastorícia. Nas alturas serranas fazia-se o carvão (Teixo, etc.) e plantava-se também centeio (Abrótegas, Couce, etc.), sendo também local de passagem (quando as neves desapareciam) entre as terras do Barroso e o Minho (para não falar nos «escondidos» carreiros do contrabando)."

A montanha supostamente selvagem como nos quiseram impôr com a negociata do Pan Parks, era um espaço que acabava "por fervilhar de vida". Para além das típicas actividades que por lá se praticavam, "em princípios do século XX uma nova actividade veio marcar o dia-à-dia de muitos homens, mulheres e crianças. De parca economia e com uma luta diária pela sobrevivência, a busca daquelas pedras negras e pesadas tornou-se num afazer diário para muitas famílias. Aqui e ali, o volfrâmio aflorava à superfície e esses locais tornavam-se pequenas explorações clandestinas de onde saía o sustento de alguns dias. Não faltam na Serra do Gerês os sinais dessas actividade que por vezes abrangia uma área de maiores dimensões (Lomba de Pau) ou uma área mais pequena (Cabeço da Cova da Porca ou Torrinheira), para lá das grandes explorações (Salto do Lobo, Lamalonga, Garganta das Negras, Cidadelhe, Borrageiro, Arrocela, etc.)."

Se o abrigo pastoril de falsa cúpula é o exemplo clássico do abrigo do montnhês geresiano, outros abrigos foram sendo criados à medida das necessidades imediatas. A carvoaria e o contrabando foram actividades que sustentaram aldeias e comunidades inteiras (sendo a galega Salgueiro um dos bons exemplos). Porém, com a extinção destas actividades, muitos das abrigos foram abandonados e esquecidos.

Não vou dizer que este é um património único que recorda a vida na Serra do Gerês (mas, de facto, até o é!) e que deveriam ser feitos esforços para o preservar, mas o seu registo seria uma dádiva única para a preservação da memória colectiva deste espaço (felizmente, há quem o faça ao longo de horas e horas calcorreando as serranias).

Aqui e ali, e ao fim de tantas vezes de se passar num lugar, um vislumbre de um pequeno muro leva-nos à (re)descoberta de um «novo» abrigo. Foi o que aconteceu na mais recente incursão às Minas dos Carris quando, no Vale do Teixo e não muito longe do alagado curral com o mesmo nome, surgiu mais uma destas estruturas. Tirando partido de um bloco granítico e composto com uma parede de pedra solta, assenta na margem direita do Rio Homem. Não creio que este deva ter sido um abrigo pastoril, devendo ter sido utilizado nos dias da carvoaria ou então, por alturas das primeiras explorações mineiras na área dos Carris. Decidi denominá-lo de "Abrigo do Vale do Teixo"; ficou registado em coordenadas e fotograficamente para memória futura... de quem se quiser recordar e dar mais valor a isto do que uma passagem de bicicleta.



Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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