Terceiro dia de visita ao Parque Nacional dos Picos de Europa com o ponto alto das caminhadas: a subida a Peña Vieja.
Após dois dias de caminhadas duras, os efeitos fizeram-se sentir, combinados com a noção pessoal de cada um dos participantes. Se uns decidiram que a caminhada seria dura - e foi - outros foram tentando vencer os receios (ou medos?) que iam surgindo.
Já anteriormente, principalmente na «simples» subida à Torre de Horcados Rojos, havíamos testemunhado como os caminhos se alteram por diversos efeitos, sendo um deles (e o mais egoísta) a forma como muitos "montanheiros" na sua pressa de subir ou descer, acabam por «desmontar» os velhos caminhos, tornando-os mais frágeis e criando outras vias menos seguras. Parece-me que o egoísmo e o umbigo cada vez maior de alguns, acaba por - mais cedo ou mais tarde - prejudicar aqueles menos acostumados a aventuras mais arriscadas.



O grupo subiu num dos primeiros teleféricos (já aqui nas filas que se formam, parece que muita gente fica menos diminuída mental ao saber que a sua entrada deverá ocorrer a certa hora, mas insistem em tentar passar à frente de quem tem reserva numa hora antes da sua). Em El Cable, o nosso guia Marcos González Salces, foi introduzindo o grupo às dificuldades que poderiam ir surgindo (já no dia anterior, havia feito o percurso para verificar o estado de algumas passagens como forma de preparar a jornada) e no pouco tempo de caminhada ia avaliando juntamente comigo a possibilidade de um ou outro elemento poder ter mais dificuldade.
De facto, a dificuldade do percurso e o cansaço das caminhadas anteriores, fariam que um ou outro elemento viesse a decidir não prosseguir depois do desvio que se toma para enfilar para a Canalona - o vertiginoso corredor de acesso à secção final para Peña Vieja. Enquanto o grupo prosseguia até ao início desta secção, regressei com quem tomava a decisão de não prosseguir, colocando-os em zona de fácil progressão para um regresso mais confortável.
Voltando para junto do grupo, e após alguns pertinentes conselhos do guia local, outros elementos decidiram não desafiar a Canalona. A montanha pode ser intimidatória e estas decisões nunca são tomadas de ânimo leve por quem as toma. São fracassos? É claro que não! Nunca o são. São decisões conscientes na origem das quais está a avaliação que cada um faz das suas capacidades físicas e anímicas para decidir prosseguir ou não!



Nas lides de montanha encontramos vários tipos de pessoas que caminham. Se por um lado temos os novatos motivados - com o seu entusiasmo, curiosidade e alegria no percuso que fazem, estes têm o «defeito» de se cansarem demasiado rápido; são o contrário do montanhista veloz com grande condição física e determinação, mas que acaba por avançar demasiado rápido sendo quase um farol apagado para o guia. O excesso de confiança molda o "montanhista confiante" com a sua «vasta experiência prévia em montanha», mas que lhe traz os pequenos problemas que, mais cedo ou mais tarde, lhe causam problemas na caminhada (e eventualmente trazer alguma ansiedade ao resto do grupo). Outros levam tudo e algo mais para a montanha, transportando uma mochila com todo o equipamento necessário e desnecessário, transportando demasiado que peso que lhe trará um cansaço muito antecipado. Depois existe um grupo interessante de pessoas que se desafiam na montanha e que procuram o máximo da sua experiência: apreciam a paisagem e os seus detalhes (mas descuidando a segurança pelo que querem registar nas suas fotografias), aqueles que são observadores silenciosos e que procuram uma conexão mais profunda com o ambiente que os rodeias (mas que, em grupo, se isolam em demasiado) e finalmente o "montanhista sofredor" que é aquele que, não se rendendo e tendo muita força mental, não está de facto bem preparado fisica e mentalmente.
Com a evolução de uma sociedade cada vez mais egoísta e onde um certo elan ou espírito de montanhista se vai diluindo na vaidade das redes sociais, é cada vez mais difícil encontrarmos o "montanhista consciente". Este entende que a montanha o pode ensinar e que, acima de tudo, exige "respeito". E este respeito escrevo entre aspas porque não se trata de um respeito da mesma forma que respeitamos o outro, mas sim o respeito a nós próprios.
Este montanhista consciente observa de forma constante e aprende, avalia. Sabe como gerir as suas capacidades físicas, conhecendo os seus limites físicos e mentais. Toma decisões baseadas no clima que se prevê, respeita as indicações de quem conhece a montanha e não toma decisões que ultrapassam essas indicações e que podem colocar em perigo o grupo. O montanhista consciente pensa antes de actuar e (como guia, por exemplo) analisa os efeitos e consequências das suas decisões no resto do grupo. Estas decisões são tomadas tendo em conta o seu estado e o ambiente que o rodeia.
Como guia contratado e responsável, assume que as decisões difíceis também são para ser tomadas mesmo que essa decisão seja a de volta para trás! A montanha está sempre lá.
Assim, em montanha o ritmo inteligente vale mais do que a velocidade, e acaba por premiar a perseverança e não a impulsividade. Da mesma forma, a experiência que vamos acumulando nas caminhadas não elimina os riscos que estão sempre presentes, mas a atenção a estes previne-os sempre, daí que a comunicação seja sempre parte da segurança de TODO o grupo. Muitos criticam que a desistência por cansaço físico ou ânímico é um sinal de fraqueza: pergunta-se que prazer se tira de uma caminhada em montanha quando o nosso corpo grita por ajuda? Desfruta-se da montanha quando o corpo (e a mente) está preparado e não há que provar nada a ninguém, apenas a nós próprios com as decisões conscientes que tomamos acerca dos riscos que estamos dispostos a desafiar.
A experiência real em montanha começa quando aprendes a «escutar» o que ela tem para te dizer!
Voltamos à nossa «conquista» de Peña Vieja... Somo então chegados ao início da Canalona e o grupo debate, juntamente com o guia, quem vai prosseguir ou não? A Canalona é uma secção que liga o final de um velho caminho mineiro à zona plana que antecede a subida final para o cume de Peña Vieja. Composta por um "caminho" de pedra solta onde a cada passo, mais solta fica, a visão de pequenas pedras a rolar pela encosta e a escorregadela de um ou outro montanhista que entretanto vai passando, fez que com alguns elementos do grupo decidam não prosseguir: eu fui um deles.
O resto do grupo inicia o desafio da Canalona; o passo é lento sobre a direcção do Marcos, mas aos poucos a passagem vai sendo vencida. A parte inicial é um ziquezague por entre a cascalheira que ecoa nas paredes calcárias aprumadas que se aproximam no final do percurso. Passados «longos» minutos, e após desapareceram numa volta da montanha, o grupo atinge, feliz, a parte final da subida. Extaseados pela paisagem, Peña Vieja eleva-se já no horizonte como o prémio final. Porém, antes, surge novo desafio! Se os dias tinham sido de calor, fazendo com que parte da neve que resta do Inverno (e na verdade da Primavera) se tenha derretido, uma extensão do caminho apresenta um grande "nevero" cuja passagem tem de ser feita com extremo cuidado para evitar uma longa queda. Neste ponto, alguns elementos decidem que o prémio está conquistado para eles e não passam o carreiro quase gelado; do grupo que passa, outros decidem ficar na outra extremidade e não prosseguir para o cume.
Neste dia, Peña Vieja é encimada por quatro elementos do grupo (juntamente com o guia). A paisagem é arrebatadora e o momento surge como o culminar de um desafio que a RB Hiking & Trekking quis oferecer a quem participou nesta aventura. E o desafio não se limitou a subir a montanha: superou-se o desafio de vencer as viagens no teleférico; superou-se o desafio que observar a paisagem desde o abismo; superou-se o desafio de subir a encosta inclinada e depois descê-la com a necessária calma e cuidado; superou-se o desafio de uma longa caminhada de regresso onde os pés já gritavam por descanso; superou-se o desafio de uma subida onde o ponto inicial ficava cada vez «mais lá em baixo»; superou-se o desafio de parar e apreciar o que nos rodeia; superou-se o desafio dos momentos em que estamos sós por entre o grupo; superou-se o desafio da preserverância na descida descomposta decaminhos e canais onde a queda de pedras ecoa por entre a penedia; superou-se o desafio de tornar a pequena queda e um momento de angústia num momento de convívio depois de passar a «raiva»; e aprendeu-se que cada mau momento ou que cada «falhanço», são na verdade vitórias pessoais que nos constroem como pessoas e como montanhistas.


















Fotografias © Carlos Araújo (Todos os direitos reservados)