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sábado, 11 de julho de 2026

A Conquista do Inútil (2): A subida ao Borrageiro

 


A subida ao alto do Borrageiro é uma caminhada relativamente fácil, apesar de exigir um esforço de ascensão quase desde o princípio. A paisagem da Serra do Gerês, inicialmente escondida nos pequenos vales, revela-se a cada passo através dos carreiros seculares que nos levam às relativas planuras graníticas.

De desespero para alguns, estes pequenos percursos ajudam-nos a revelar a essência de um mundo que se pode tornar uma paixão. As grandes jornadas exigem um sacrifício a que muitos não estão dispostos; as pequenas jornadas podem tornar-se gramdes desafios. De facto, e em todas estas jornadas longe do rebuliço sazonal - e parafraseando Edmund Hillary, "não é a montanha que conquistamos, mas a nós mesmos." Esta satisfação da «nossa própria» conquista tem ainda uma maior dimensão quando vemos os mais novos a saborear em pleno os prazeres da Natureza e onde o "Imenso" se torna nas suas conquistas.





"O cume é para o ego, a jornada para a alma"

A nossa jornada começou na Portela de Leonte. Manhã tépida e a prometer um desafio quando as resteas de orvalho se evaporarem ao Sol, iniciamos a subida da Costa do Murjal seguindo pela velha calçada que nos ajuda a ir ganhando altitude até à Chã do Carvalho (ou Chã do Carvalho de Leonte).

Caminho inumeras vezes calcorreado, o Pé de Cabril serve de guardião da paisagem que se revela a cada passo por entre a vegetação a contar os dias para a chuva (que, espante-se, até nos iria brindar mais tarde). O caminho ziguezagueia (en)costa acima por entre uma infinidade de arvoredo de onde espreitam os pequenos carvalhos, medronheiros, azevinhos e os tímidos teixos, além de outras árvores que prenunciam, noutras direcção, a entrada no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Quando nos habituamos a ter por derto aquilo que nos é próximo, não nos apercebemos que um mais pequeno descuido pode, em poucos minutos, destruir o que levou  séculos a criar. É esta a sensação que eu tenho sobre as considerações de muita gente acerca do valor do património natural que nos banha a retina quando, passados a Chã do Carvalho, se nos abrem os vales tapeteados da Mata de Albergaria. Muitas vezes são «os de fora» que valorizam aquilo que vemos, numa tomada de consciência sobre algo que não esperavam ver.





Em 1792, Link comparava os arvoredos da Albergaria à grandes florestas da sua Alemanha natal "e até mesmo às da Inglaterra," tal como nos relata Ricardo Jorge no seu "Guia Thermal" (pág. 10, 1891).

Antes da chegada ao Prado do Vidoal, a paisagem presenteia-nos com o Vale do Rio Maceira coroado pelo Pé de Medel, Carris de Maceira e pelo Cabeço da Cantâra, numa paisagem enrugada que nos leva desde o Pé de Cabril, Cancelo, Costa de Bemposta, Colado Seco, navegando pelo mar verde da Albergaria, Corneda, Roca d'Arte, Cabeço de Lavadouros e Outeiro Moço. Isto é Natureza e História em toda a sua planitude.

A passagem no Prado do Vidoal dá-nos o testemunho da ocupação secular do território pelas vezeiras. O olhar atento irá certamente descobrir os diferentes abrigos que por ali foram utilizados ao longo de inumeros verões; nos nossos dias, resta o abrigo pastoril que terá sido edificado com a ajuda dos Serviços Florestais para dar abrigos aos seus trabalhadores e aos pastores que nas vezeiras velavam os animais.





Com o dia a aquecer, mas com uma brisa a ajudar pela manhã, a jornada continuou em direcção ao Colo da Preza, ladeando-se o Outeiro Moço com a sua forma característica que lhe dá o nome. Com um céu azul e uma refrescante brisa, a chegada à Preza maravilhou-nos com a paisagem do Vale de Teixeira - nosso eventual destino. Até lá, faltava ainda uma légua que nos faria passar pelo alto do Borrageiro, com o seu decrépito marco geodésico e os restos de uma velha antena de comunicações que há muito já deveria ter sido dali removida.

Tomando um carreiro que se inicia pouco depois do velho marco delimitador do perímetro da Mata Nacional do Gerês, as pernas sentem o esforço da subida que se faz de forma pausada. A cada passo, a paisagem afunda-se na profundidade do olhar que já abarca os limites castrejos da área protegida. Passando a Chã da Fonte, continuamos a subir com o objectivo de chegar à Fonte da Borrageirinha cuja água fresca já nos acalma a pele e dá-nos o alento para conquistar o inútil.

Estamos agora nas proximidades da Portela de Sineiros e seguimos em direcção ao Arco do Borrageiro. Esta estrutura natural é resultante dos efeitos da erosão natural e era já um ex-líbris do Gerês clássico, surgindo em alguns velhos postais. Curiosamente, existe uma estrutura que eventualmente poderá dar origem a um novo arco após eras de erosão... já não será para os nossos olhos.





Sendo denominado "Arco do Borrageiro" - o nome vem certamente da sua atribuição nos tais postais de finais do século XIX, princípios do século XX -, este encontra-se um pouco afastado do alto do Borrageiro. Assim, será que em tempos a sua designação teria sido outra? É algo para reflectir em algum momento...

Deixando o Arco do Borrageiro, segue-se então para o pináculo altimétrico da nossa jornada: o cume do Borrageiro. No grupo, dois valorosos montanhistas de 8 e de 12 anos. A partir de certo ponto no caminho, foram eles que seguiram na frente, orientados pelo guia da RB Hiking & Trekking. Conquistando cada declive, salvando cada salto, seguindo cada mariola, a subida fez-se de desejo da conquista. A jornada até lá estava já na alma, faltava saciar o ego! O cume foi vencido às 12h37 quando o velho marco geodésico testemunhou a alegria da conquista e a satisfação e plenitude da ânsia de tudo abarcar com o olhar. A sensão do imenso envolve os irmãos e as montanhas não têm já limites para os seus desejos e conquistas.

Esta parte da jornada estava feita! Faltava o resto, e que resto seria. Iniciando a descida do Borrageiro, seguiu-se em direcção à Chã de Roca Negra, antigo curral à sombra do duplo cume que ainda guarda os restos do seu curral alagado. Dali, a visão da Meda de Rocalva, do colosso de Iteiro d'Ovos e do cume de Borrageiros, altivo à distância.





Caminha-se através do silêncio e até o restolhar da carqueja parece silenciar-se ao raspar nas botas. Por vezes, surge o eco das vozes na penedia e o vislumbre de velhos muros mostra que até os lugares mais recônditos tiveram a sua utilidade nos dias em que as noites de Verão se transformavam em infernos de Inverno ou na vertigem da fuga do contrabando.

Seguindo a Sul, começamos a calcorrear as vertentes altivas do Vale do Cando encimado pela Roca Negra com as suas paredes aprumadas. As vertentes mergulham no vazio em vertiginosas exclamações de espanto e olhar calcorreia a paisagem em busca de vida no vislumbre de uma cabra-montês que vigia a imensidão, marcando o seu território. O cenário compõe-se e vai-se alterando a cada passo com a perspectiva dos cumes que se deslocam em cenários de imensidão onde a montanha do Gerês - de Bouro a Barroso - ganha a pujança dos grandes espaços e que em nada fica trás das suas primas europeias. 

Mariolado, o carreiro leva-nos a passar junto do Cabeço do Cando (erradamente designado como "Chã de Pinheiro" no OSM) e Eira Bonita, onde flectimos à direita para seguir para a vasta vertente granítica que nos levará à Chã de Pinheiro e daqui seguir para a Corga de Fitoiros Negros que nos dá passagem para o Vale de Teixeira, local do já merecido descanso e repasto.

Entretanto, os céus haviam-se trasmutado de um azul puro para uma amalgama de nuvens carregadas de água e furiosas de electricidade. A nossa próxima passagem seria o Curral de Camalhão. Já ao longo do dia, havíamos testemunhado o efeito dos dias secos na serra: os regatos estão exangues de água, as pequenas fontes estão há muito secas e as árvores começam a sentir o stress de falta de água... em alguns sítios, parecia Outono ao caminharmos em tapetes de folhas secas. De facto, e com o calor que se faz sentir, não tarda teremos os sinais de um Outono antecipado, mas que ainda estará longe, quando os quitamerendas começarem a decorar a paisagem mais cedo do que é usual.





A passagem pelo Curral do Camalhão foi presenteada por um aguaceiro que acalmou o ambiente do calor abafado que se fazia sentir e alguns preferiram os espaços abertos ao abrigos dos carvalhos. As pesadas gotas de chuva surgiam como um alívio na pele quente. Porém, a chuva era efémera e depois de dois ou três trovões, voltou o calor e o desejo da água.

Passando o Camalhão de Baixo e chegado ao Curral de Camalhão, esvaiu-se a vã esperança de ali haver água. Os regatos estão secos e a fonte recorda com saudade a água fresca que nos oferece. Nestes dias, saber onde obter água nas jornadas serranas é um conhecimento valioso. Entravamos na Garganta da Preza por onde escorre, lamacento e ludoso, a triste memória do ribeiro que mais adiante alimentará o Rio Arado. Restam os chagos estagnados onde os pequenos anfíbios vivem na esperança de dias de chuva.

A subida era já penosa pelo cansaço que o calor da tarde infligia nos corpos. A água nos cantis era quente, boa para acalmar a sede, mas má para dar-nos a sensação de alívio de algo refrescante. Seguíamos então em direcção ao Curral do Junco onde sabia existir uma pequena zona alagada e um velho tanque que em tempo idos serviu o velho forno pastoril ali existente. Ora, havendo o pequeno tanque, seria uma questão de procurar a nascente que alimenta o charco e a zona húmida. Desviando alguma vegetação e brotando da rocha-mãe, a visão da água fresca a escorrer nas fendas graníticas deu-nos a mesma sensação da descoberta de ouro. Pacientemente, os cantis e pequenas garrafas foram cheias com a água que criava condensação e os corpos, finalmente, encontravam a satisfação e o prazer da frescura por entre o ambiente tórrido e abafado que se sentia.

Passando o Curral do Junco, chegavamos de novo ao Caolo da Preza e iniciavamos a descida que nos levaria de volta à Portela de Leonte passando o Prado do Vidoal e a Chã de Carvalho.

Ficam algumas imagens do dia...

















Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Trilhos seculares - Da Portela do Homem à Cigarra, Premuinho e Messe

 


Com os dias de Primavera e Verão, chegou a época das grandes jornadas nas quais podemos ficar mais tempo na montanha ou então alongar um pouco mais os nossos percursos, tendo em conta as condições que a meteorologia nos oferece. Se por um lado, os dias de calor nos permitem as caminhadas mais longas, o calor excessivo traz desafios que podem ser mais complicados numa paisagem onde as fontes de água escasseiam. 

O meu objectivo nesta incursão na Serra do Gerês era fazer um «grand tour», passando por Borrageiros e Curral de Premoinho, este na continuação do percurso para atingir o primeiro. Assim, e aproveitando os dias que se vão encurtando - mas que ainda começam cedo - enveredei pela familiar paisagem do Vale do Alto Homem que já tantas vezes percorri para atingir as Minas dos Carris. Este é um local que nos permite os grandes espaços, antecipando horizontes de longas e largas distâncias e perspectivas únicas. Não que fosse a primeira vez, certamente não será a última, mas é sempre uma experiência única.





O percurso ao longo do Vale do Alto Homem inicia-se a uma altitude de 720 metros e rapidamente nos apercebemos que não será um caminho fácil para os mais desprevenidos. A sua dificuldade vai aumentando ao longo do percurso não tanto pela inclinação, mas mais pelo estado do próprio caminho. Em quase toda a sua extensão o caminho é na sua maioria composto por pedra solta que dificulta a progressão. São escassas as extensões em que o terreno é suave, uma vã memória dos tempos em que era percorrido por carros e camiões que serviam o complexo mineiro dos Carris nos anos 40, 50 e 70, do século passado.

Na sua totalidade o caminho segue a margem esquerda do Rio Homem e o seu rumor por entre as rochas acompanha-nos quase sempre, silenciando-se, porém, nestes dias em que o calor vai tornando o seu leito mais exposto.

Este percurso está inserido num vale de extrema importância para o Parque Nacional da Peneda-Gerês e que está integrado numa das duas áreas de protecção total existentes naquela área protegida, logo convém solicitar uma autorização ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para o percorrer.

No início dos anos 90 ainda era possível observar ao longo do Vale do Alto Homem uma linha de postes de madeira sobre os quais assentava o cabo metálico do telefone, que permitia as comunicações com o complexo mineiro. Os vestígios destes postes já despareceram quase na sua totalidade, mas ao longo do caminho vamos observando um ou outro pequeno muro, ou um ou outro alinhamento de pedras que nos podem sugerir a existência, em tempos, de uma rude estrada serrana. O primeiro sinal sólido da existência de algo mais complexo na serra, surge-nos junto da zona que dá pelo nome de ‘Água da Pala’. Aqui, e já coberta pela vegetação, observamos à nossa esquerda uma área delimitada por um pequeno e baixo muro. Em tempos terá servido de curral para abrigo dos rebanhos. Do lado direito podemos observar, também por entre a vegetação, uma pequena construção com tijolos de cimento que nos dá a ideia de ser uma pequena guarita, mas que já foi referenciada como um pequeno abrigo dos cantoneiros que mantinham o estradão em estado de circulação. 





Na Água da Pala iniciava-se um carreiro de pé posto que atravessava o Rio Homem e subia ao longo do rio pela sua margem direita no sopé da Encosta do Sol até atingir o topo do Cabeço do Modorno, algumas centenas de metros após atravessar novamente o Homem sensivelmente à cota de 1050 metros de altitude. Não havendo registos cartográficos deste trilho em direcção à zona dos Carris, documentos fotográficos atestam a sua continuação para as zonas mais elevadas da serra. Quem observa a Encosta do Sol a partir da Água da Pala, terá a sensação de ainda poder vislumbrar o traçado deste pequeno trilho que, sem dúvida, nos proporcionaria uma visão distinta do vale.

Após passar a Água da Pala, o percurso entra numa zona mais plana. Até aqui, e olhando para a nossa direita, temos a oportunidade de observar os picos escarpados que delimitam os Prados Caveiros. Esta fase mais plana do trilho segue pela Ponte do Cagarouço (Cagarrouço) sobre a Ribeira do Cagarouço, um pequeno afluente do Rio Homem que parece surgir das escarpas da Ravina do Cabeço da Porca. É nesta fase que o caminho se volta a inclinar ligeiramente e ouvimos o rugido do jovem rio a poucos metros de distância. Por entre a vegetação é por vezes fácil ter um olhar sobre lagoas que no Verão são sempre uma forma de retemperar forças.





O trilho ultrapassa a cota dos 1000 metros de altitude, a poucos metros de entrarmos numa fase do caminho onde vamos superar vários metros de altitude em pouca distância, ultrapassando assim um bom declive. Em Carvalhas Vrinhas, o percurso flecte para a direita no que são conhecidas como as ‘Curvas do Febra’ e em pouca distância subimos 30 metros em altitude antes de flectir para a nossa esquerda. Nesta parte do caminho podemos ter uma imagem do Vale do Homem só superada pela paisagem que nos aguarda poucos metros após a passagem da Ribeira do Modorno. Poucos metros mais à frente entramos numa parte do caminho que é ladeado, à direita, por uma parede sólida de granito e, à esquerda, por uma queda de 50 metros que termina no Rio Homem. O declive aqui é notório, mas o esforço para chegar à meia distância merece a pena.

Somos chegados a meio do caminho e o descanso na Ponte do Modorno é merecido. A água da ribeira é sempre fresca e corrente, mesmo no Verão. Ao entrar neste pequeno vale temos a visão de uma pequena queda de água por debaixo da ponte e são poucos os que resistem a uma fotografia. Situados na ponte em direcção ao final do vale, por onde vemos o Rio Homem, temos à nossa direita o imponente Cabeço do Modorno, uma escarpa granítica que atinge os 1317 metros de altitude. Conheci todas as pontes até ao Modorno já em cimento, mas o meu fascínio por estes espaços começou a ser despertado pelas velhas pontes de madeira que antigamente permitiam a passagem célere e um tanto ou quanto aventureira.

Logo após abandonar a Ponte do Modorno e seguindo o velho caminho mineiro, vamos encontrar uma das mais fantásticas paisagens que a Serra do Gerês e o Parque Nacional têm para nos oferecer. É com deslumbre que observamos o Vale do Alto Homem e a forma como este se projecta no céu. O seu delimitar pelos picos serranos leva-nos a imaginar, sonhar um mundo antigo. É aqui que nos começam a faltar as palavras... Ao longe vemos a Serra Amarela e com bom tempo facilmente se vislumbram as antenas do Muro localizadas no Alto da Louriça, bem como o Alto das Eiras e a Cruz do Touro, já nos extremos geresianos, ou a magnificência da Quelha do Palão e da Água dos Vidos.




Saindo do pequeno vale da Ribeira do Modorno entramos novamente no Vale do Alto Homem e logo ali à nossa frente observamos uma estreita queda de água com uma altura superior a 110 metros, a Água da Laje do Sino. Toda este zona nos dá paisagens deslumbrantes em, ou após, dias de chuva com as paredes rasgadas pelos cursos de água que se precipitam no vale, ou então nos frios dias de Inverno com a imagem das quedas de água geladas que se amarram às paredes graníticas.

Prosseguindo ao longo do vale vamos ganhando altitude, atingindo os 1200 metros de forma suave. Nesta fase o trilho chega a complicar-se devido ao estado do «pavimento». O Rio Homem é, nesta fase, constituído por uma série de pequenos ribeiros que têm origem nos inúmeros vales que se rasgam do topo da serra. Aos 1200 metros de altitude, na zona do Teixo, o trilho flecte ligeiramente para a direita seguindo um dos pequenos cursos de água que, juntamente com o ribeiro do Corgo dos Salgueiros da Amoreira, dá volume ao Rio Homem. O caminho segue a base da Rocha da Água do Cando, passando pela Ponte das Águas Chocas (1285 metros) e entrando nas Abrótegas até atingir a Ponte das Abrótegas (1325 metros). As Abrótegas definem, juntamente com o Outeiro Redondo, um pequeno planalto que é atravessado pelo caminho até atingir e seguir ao longo da base do contraforte dos Carris.

Foi nesta chã onde esteve montado entre 17 e 19 de Setembro de 1908 o acampamento da primeira expedição venatória levada a cabo na Serra do Gerês. Neste planalto têm origem vários carreiros de pé posto, sendo o mais interessante aquele que segue para as Mina Mercedes As Sombras (Galiza, Espanha) e para os Cocões do Coucelinho (através das Lamas de Homem) e, mais tarde, Mina de Borrageiros e Lago Marinho.

Foi este mesmo caminho que segui nesta incursão. Entusiasmado pela brisa fresca que facilitava a progressão, segui em direcção a Lamas de Homem, tendo a companhia de vários cavalos semi-selvagens que por ali pastavam juntamente com os animais das vezeiras da região. Em pouco tempo chegava aos Currais das Lamas de Homem, - o Curral do Roquinha (designação atribuída a dois deles, tendo um deles um abrigo pastoril) e o Curral do Freiria. 





Entrando no Quelhão, iniciava a descida para as faldas dos Cocões do Coucelinho tendo como paisagem distante, a zona do Lago Marinho e de Lagoa. É por aqui que a Serra do Gerês adquire o estatuto dos grandes espaços e os adjectivos tornam-se menores para classificar o que os nossos olhos abarcam. Por entre outras paisagens Geresianas, aqui é o Gerês em toda a sua pujança. É nestas alturas onde a Serra Mãe enche os pulmões de ar e grita a sua beleza única e inigualável!

Caminho em direcção aos Cocões do Coucelinho e a paisagem é notável! Os Cocões do Coucelinho, com as suas paredes quase a prumo, abrigam um curral (Curral do Colástica ou "Coucões do Coucelinho") juntamente com outras áreas muradas (sestas). Característica do local, é a presença de diversas moreias glaciares que povoam a paisagem de forma caoticamente ordenada.




No Quaternário, mais precisamente no Plistocénico (há cerca de 1.8 Ma a 10 000 anos), ocorreram importantes variações climáticas à escala do globo que se caracterizaram pela alternância de períodos glaciários (muito frios) e interglaciários, com glaciações a atingirem, inclusivamente, as latitudes médias. Nas serras da Peneda e do Gerês foram identificados vestígios dessas glaciações, dos quais merecem especial destaque o Alto Vale do Vez e zona de Cocões de Coucelinho - Lago Marinho (vales com perfil em U; moreias; circos glaciários; superfícies de granito polidas, estriadas e com sulcos; e depósitos glaciários).





Seguia agora na direcção da Mina de Borrageiros, mas a certa altura, decidi deixar o carreiro - passando «ao largo» do secular complexo mineiro - e seguir pelas paredes granítica fraturadas, chegando ao carreiro que me levaria em direcção à Cigarra já a Norte de Borrageiros. O carreiro entre na parte superior da Corga das Mestras que vai-se fechando até se alargar novamente já na sua parte superior no que parece ter sido um velho curral. Estamos na Cigarra e na margem oposta, vemos o tronco seco do Pinheiro da Cigarra.

Em tempos, Ulisses Pereira, de Cabril, escrevia sobre o Pinheiro da Cigarra, "O Pinus Sylvestris L., é uma árvore que está em regressão desde o final da glaciação de Würm, É uma espécie documentada desde o século XVIII com os núcleos de Biduiça e Matança a verem o seu carácter de árvore autóctone da Serra do Gerês na sequência de recentes estudos genéticos, sendo assim as únicas populações autóctones conhecidas em Portugal. 

São árvores com cerca de 40 metros de altura e é muito comum ultrapassar em termos de longevidade os 250 anos, em Portugal só prósperam acima dos 700 metros. 

Além dos núcleos de Biduiça e Matança, existem alguns pinus sylvestris l. isolados na serra do Gerês como é o caso dos de Lamalonga e da Cigarra que serão provavelmente os mais antigos. O Pinheiro da Cigarra sempre foi aquele que junto das populações mais admiração causou, sendo muito comentado e quase todos o conhecem. Sempre causou estranheza essa árvore sozinha no meio do nada, um pinheiro grande, que sempre se lembram de ser assim, nem maior, nem mais pequeno, já os avós e bisavós assim o conheceram. A Cigarra e o seu pinheiro sempre foi um dos lugares mais místicos da serra do Gerês, sempre foi olhado pelos pastores e populares como um lugar diferente, um lugar onde existiam encantamentos e grandes tesouros que era necessário quebrar o encanto, dizem que para esses encantos quebrar é necessário um padre e o livro de S. Cipriano (livro muito famoso nestas populações) e acima de tudo não ter medo!!! Os mais velhos contam que alguns já tentaram, mas sem sucesso, e os grandes tesouros por lá continuam. É na Cigarra que também existe o penedo que tem uma viola desenhada, também ela uma pedra encantada, era também na Cigarra que começava a Serra dos Bois, para as populações locais era o começo da serra alta, um lugar reservado só aos bois, as vacas não poderiam pastorear por estas bandas, era-lhes proibido."

De facto, o Verão de 2017 foi fatal para o Pinheiro da Cigarra que acabaria por morrer devido à passagem de um incêndio. Curiosamente, a zona é agora populada por dezenas que pequenos pinheiros que continuam a fama do Pinheiro da Cigarra que, sendo isolado e único no local, se procriou em inúmedos descendentes.





O carreiro, assinalado por grandes mariolas, vai-nos levar a entrar na Corga de Valongo (ou Corrego Cambeiro) para chegarmos ao Curral de Premuinho. Pelo caminho, um vislumbre à velha exploração mineira de Valongo e uma passagem pela Fonte de Valongo, valiosa como ouro num dia que começava já a aquecer. 

Tendo como pano de fundo os altos familiares de Porta Roibas, Iteiro d'Ovos, Rocalva e Roca Negra, o meu caminho apontava às Albas que já elevavam sobre os Prados da Messe. Antes, uma passagem pela Fonte de Premuinho sempre abundante mesmo nos dias de calor. O carreiro percorre pequenas corgas e vales, oferecendo múltiplas perspectivas da paisagem deste Gerês profundo, levando-me a passar pelo Rendeiro já com a vista das Velas Brancas e do Vale de Fechinhas. Passando o Rendeiro, chegava então aos silenciosos Prados da Messe, local do já mais do que merecido descanso e repasto.

Com o calor já a ocupar o lugar central no dia, restava a descida final pela Costa de Sabrosa. A saída dos Prados da Messe fez-se junto das ruínas da valha casa dos Serviços Florestais, seguindo em direcção à Lomba de Burro. O caminho passa então pela Corgas dos Vidros e segue para a Lameira das Ruivas antes de passar sobre a Sabrosa. Um pouco adiante, inicia-se a descida da Costa de Sabrosa que nos levará até às proximidades da velha Casamata dos Serviços Florestais na Mata de Albergaria.

A parte final da jornada fez-se pela confortável sombra da mata, percorrendo os quilómetros finais através da Geira Romana que me levaria ao ponto de partida na Portela do Homem.

Ficam algumas fotografias do dia...























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)