A Chã de Susana por terras de Xertelo, Serra do Gerês.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
A Chã de Susana por terras de Xertelo, Serra do Gerês.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Caminhada em dia frio açoitado por um vento que se enraivecia à medida que as horas foram passando.
Comecei esta caminhada pelos carreiros silenciosos do profundo Gerês com a subida pela Corga da Abelheira, ladeada de um lado com o caos granítico da Teixeirinha até chegar a Entre Caminhos, uma verdadeira varanda natural para as serranias selvagens e pouco caminhadas do Parque Nacional.
Desde Entre Caminhos o horizonte é limitado pelas serranias graníticas e nuas, a verdadeira essência da Serra do Gerês. Horizonte atravessado por pequenos ribeiros em profundas corgas numa paisagem cortada por vertentes alcantiladas, salpicada por prados verdejantes e atravessada por carreiros de história e memórias de tempos idos, onde a pastorícia, a carvoaria, o contrabando e a exploração mineira escreveram as linhas da História destes locais.
A paisagem vê-se também polvilhada de grandes blocos graníticos em tempos arrastados pelas forças dos glaciares que moldaram aqueles vales. De facto, na Serra do Gerês podem-se encontrar formas de relevo e zonas sedimentares que são memória das acções da glaciação que afectaram aquelas montanhas há centenas de milhares de anos. No vale de Compadre, por onde acabaria de passar, surge a oportunidade de observar acumulações de blocos graníticos (moreias) criadas pelo movimento dos glaciares. Destas, destaca-se a moreia lateral de Compadre, a mais extensa do Norte de Portugal, com cerca de 1 km de extensão, e noutros sectores do vale, tais como a Ribeira da Biduiça e vertente ocidental dos Cornos de Candela, ocorrem sedimentos (denominados till subglaciário) que permitem estimar uma espessura de gelo de cerca de 150 metros, durante o máximo da glaciação.
Deixando então para trás aquela magnífica varanda em Entre Caminhos, inicia-se uma curta descida para os currais de Biduiça (Biduiças) e seguindo a Norte, chega-se ao Curral das Rocas de Matança situado na margem do Ribeiro da Biduiça. Lá ainda se encontram os vestígios alagados do velho forno pastoril, um património esquecido nas paragens serranas.
Seguindo a margem direita da Ribeira de Biduiças, atravessei-a umas centenas de metros mais adiante já perto da embocadura da Corga de Lamelas e segui até encontrar o carreiro que nos ajuda pausadamente a vencer a encosta e que eventualmente nos levará às imediações dos Currais de Matança, vistos do alto da margem esquerda da Ribeira das Negras. Daqui, avista-se ao longe, a parede da Represa dos Carris e algumas cicatrizes deixadas na paisagem pela mineração na concessão mineira da Corga das Negras I, com a sua escombreira e boca-mina.
Caminhando através da penedia, o carreiro leva-nos até à Mariola Forcada. Aqui, tomei o carreiro que me levou a passar no Alto do Moreira e ladear o Castanheiro. A paisagem que se vislumbra é uma verdadeira obra-prima da Natureza. A partitura da ópera natural que se desenrola perante os nossos olhos, transforma-se num assombro da Natureza, um grito ímpar que ecoa pelos píncaros geresianos. Naquele lugar, o panorama leva-nos desde a forma suavemente matemática da Roca Negra e do Iteiro d'Ovos até aos espigões da Fonte Fria, mergulhando no vale do Compadre.
O velho carreiro da vezeira passa à direita do Alto das Eiras e pela margem direita do Ribeiro da Fecha do Castanheiro, ladeando depois o Alto das Portas do Castanheiro e o Espigão das Lamas de Pau, bordejando a Corga do Gargalão, descendo à Chã de Suzana onde entramos no velho estradão florestal da EDP. Este, levar-nos-ia ao ponto de partida passando pela Corga de Trás-da-Meda até chegar à estrada municipal e Corga da Abelheira.
Ficam algumas fotografias do dia...
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Desde a primeira vez que tive nas mãos uma carta topográfica da Serra do Gerês, e mais precisamente a Carta n.º 31, que fiquei fascinado com a variedade toponímica existente neste território. Não só o saber a razão dos topónimos, mas por vezes chegar ao de mais fácil acesso, foi um objectivo traçado desde então. Não um daqueles objectivos de vida, mas um objectivo que quando pudesse ser atingido, o seria.
Alguns pontos foram visitadas há já muitos anos, outros passaram-se anos a dizer "da próxima vez, subo até ali!" E os anos foram passando, e os altos ali têm ficado sem serem visitados. Desta vez chegou a hora de subir ao Compadre, passando pela sua extensa moreia.
A caminhada iniciou-se junto da conduta que leva a água da Corga do Sobroso para a Barragem de Paradela, subindo a longa Corga da Abelheira até chegar a Entre Caminhos. À vista do Alto do Bezerral, desci para a margem direita do Ribeiro Dola percorrendo-a até entrar no Corgo das Lamas do Compadre.
O carreiro ali existente passa pelo caos granítico da Moreia do Compadre. Situadas no sector Oriental da Serra do Gerês, estas acumulações de blocos graníticos, designadas por moreias, são originadas pelo movimento dos glaciares. A moreia lateral do Compadre, a mais extensa do Norte de Portugal, tem uma extensão de cerca de 1 km.
A certa altura, e com os caminho já pouco pisoteados pelo abandono daquelas paragens, iniciei a subida para o alto do Compadre que nos proporciona uma paisagem ímpar sobre os vales adjacentes. No seu topo, uma curiosa forma circular marca o local da existência de um velho marco geodésico, agora desaparecido.
Após a descida do Compadre, passei pelo Curral de Lamelas de Baixo e segui pelo Corgo de Lamelas na direcção do Curral das Rochas de Matança. Curiosamente, existirá aqui alguma confusão relativamente à designação destes currais. Se a Carta n.º 31 dos Serviços Cartográficos do Exército assinalam o topónimo como "Corgo de Lamelas", as cartas dos Serviços Florestais designam aquela zona como "Valongo" e o estreito vale por onde desci como "Corgo de Valongo". Assim, seria também legítimo designar os dois currais ali existente como "Curral de Valongo de Cima" e "Curral de Valongo de Baixo". As designações são pertinentes, pois de facto o alto de Lamelas fica muito mais a Norte e a designação de "Lamelas" é dada ao pequeno vale entre o alto do mesmo nome e o Pico da Nevosa. De facto, o Ribeiro de Lamelas tem a sua nascente nessa chã de pastoreio e corre afastada dos currais que surgem designados como "Lamelas de Baixo" e "Lamelas de Cima".
Antes de chegar ao Curral das Rochas de Matança, tomei um carreiro que fez a ligação com outro que, vindo dos Currais das Negras, fez-me seguir na direcção do Castanheiro. Não subindo ao marco geodésico do castanheiro, segui pelo Alto das Eiras e passei a nascente da Ribeira da Fecha do Castanheiro em direcção ao Espigão da Lama de Pau, descendo depois para a estrada florestal na Chã de Suzana que segui até ao ponto de partida.
Ficam algumas fotografias do dia...
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)