Mostrar mensagens com a etiqueta Ponte Feia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ponte Feia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de abril de 2026

(Uma incursão n)"A Serra do Gerez"

 


A 11 de Março de 1886, a revista O Occidente publicava um artrigo da autoria de J. Henriques que faz uma maravilhosa decrição da Serra do Gerês.

O autor percorreu as paisagens naturais de um mundo que há 140 anos nos brindava como sendo uma das zonas mais selvagens de Portugal. Ao ler o texto, nota-se que a escolha das palavras pelo autor não se limitou à sua satisfação de percorrer matas luxuriantes e picos graníticos agrestes; o texto transporta-nos para algo de verdadeiramente único no nosso país tanto naquela data, como nos nossos dias.

Se bem que passados 140 anos a realidade deste espaço natural seja diferente, o texto de J. Henriques ajuda-nos a perceber um pouco da História deste território para o qual se deveria olhar com mais atenção e cuidado. A sua preservação é imperiosa para que as expressões de exclamação nos encham de orgulho por termos algo comparável com o que existe noutros países. Valorizar este território é uma obrigação de todos!

(No texto a seguir, decidi manter a ortografia original)

A Serra do Gerez

Por J. Henriques

Não conheço em Portugal serra mais pittoresca do que esta e por isso bem digna de ser visitada.

Vao lá, porém, só aquelles a quem um mau fígado ou um estomago alterado incommoda, e esses não sobem á serra; não procuram as frondosas florestas, a agua limpida e fria, que cahe em cascatas de rochedo em rochedo, ou o ar puro da montanha. Contentam-se com as aguas mineraes, com os passeios nas Caldas. Vêem a serra de longe. Aos altos vão os caçadores, procurar cabras e gamos.

Não vão lá os artistas, pois ahí teriam mina inexgotavel.

É sabido que a serra do Gerez fiva não longe da capital do Minho e que faz parte do grande grupo de montanhas que limitam Portugal e Hespanha pelo norte. É menos alta que a serra da Estrela, pois que o morro do Borrageiro - que é o ponto culminante da serra - fica apenas a 1:1442 metros d'altitude. Dois rios a limitam, d'um lado o Cavado, d'outro o Homem, e ambos, depois de banharem as ferteis terras de Bouro e outras, vão reunir-se perto de Braga, junto á ponte do Bico.

Hoje uma boa estrada partindo de Braga e seguindo as margens do Cavado, bella como quasi todas as estradas do Minho, permite que o viajante vá commodamente até ás Caldas. A accidentação do terreno, a vegetação das terras cultivadas, Bouro com o seu velho convento, tudo interessa. Se o passeio é dado ao domingo, a cada passo a paisagem é animada por grupos de camponezes com os seus vestidos caracteristicos.

Poder fazer-se a viagem pela bacia do Homem. É porém mau o caminho e monotona a paisagem.

De Braga é facil ir também até ao Penedo. D'aqui, porém, ao Gerez a jornada não é comoda.

Sigamos a estrada do Bouro. Admiremos de passagem a paisagem da ponte do Porto, o mosteiro de Bouro com as estatuas d'alguns reis portuguezes. Não será fóra de proposito comprar algumas laranjas, que já foram elogiadas pelo professor Link.

Desde que se sae de Bouro a estrada sobe consideravelmente. O rio Cavado, a grande profundidade, mostra-se raras vezes. Para elle desce mais tarde a estrada e n'uma volta, quasi de repente, se depara com a serra do Gerez, cujo perfil se observa admiravelmente.

Em pouco tempo o carro passa junto da ponte do Cavado, atravessa a ponte do Caldo e segue pela nova estrada que corta os campos de Villar da Veiga. Começam ahi as bellezas do Gerez. Á esquerda da estrada corre o Caldo, e o viajante pode, logo admirar uma das paisagens mais notaveis. Dá d'ella idéia a gravura da primeira página*.

É um quadro completo.

A paisagem só muda de modo sinsivel nas Caldas. O valle é apertado, as encostas da montanha alterozas, o rio torrencial.

Quando em junho alli estive, depois d'uma noite de chuva, que mais parecia noite de dezembro, que admiravel quadro não offerecia de manhã o Caldo, correndo por entre grossos calháos rolados no seu apertado leito, ficando no ultimo plano a serra da qual começavam a levantar-se as densas nuvens!

A pequena povoação das Caldas nada tem que prenda a atenção do viajante. É bom deixal-a aos hypochondriacos. O artista prepara-se e segue para a serra.

É quasi de rigor ter como guia o Rigor. Conhece elle todos os estreitos caminhos e todos os recantos da serra. Tendo-o por companheiro ninguem alli se perderá.

A primeira excursão deve ser ao Borrageiro e para mais commodidade seguir-se ha o caminho de Leonte, caminho quasi só de cabras, mas que é facil subir a pé. Os cavallos das caldas trilham-n'o admiravelmente e os cavalleiros podem fiar-se n'elles. Se as cilhas não rebentam, não ha queda possivel.

Até á Preguiça nada ha de notavel. Mas ahi tudo muda. Em frente ostenta-se imponente a montanha, profundamente cortada, deixando advinhar uma estreita passagem - a portella de Leonte: á esquerda o pé do Cabril, que parece ruinas de enorme castelo. É formado de rochas sobre rochas. Á direita os primeiros degraus do Borrageiro encobrem o resto da montanha. A grande profundidade correm as aguas, que descemd e Leonte e que de todos os lados recebem pequenos affluentes. Vegetação frondosissima cobre a parte da serra que pode d'ahi ser vista.

Da Preguiça até ao Vidoal o caminho segue sempre á sombra de copadas arvores. As margens dos regatos são cobertas de musgos. Uma pequena violeta vive até sobre as pedras que a agua molha.

No meio de tudo isto ha singulares curiosidades. Um carvalho enorme, cahido sobre o pequeno rio, não morreu. Foi vivendo e como a luz lhe era necessaria, foi levantando os ramos. Coberto de espessa camada de musgo assemelha-se agora a um enorme sophá. Pode ahi bem repousar, que se achar cançado.

O caminho de Leonte para cima é aspero. A vegetação diminuie, chegando por fim a ficar reduzida a pequenos grupos de teixos e de elegantes vidoeiros, que vivem nos corregos por onde corre a agua.

Depois só as pedras ornam a montanha. Revestem ellas todas as formas, attingem todas as grandezas, dando á paisagem um aspecto que pela aspereza contrasta profundamente com o que até alli se tinha visto.

As portas são uma das muito singulares formas, que as rochas apresentam. Parecem mais obra do homem do que da natureza. O Borrageiro é terminado por enorme massa de granito, polida pela neve, batida pelas tempestades. Quasi nenhuma vegetação ahi se encontra.

D'este ponto elevado a vista estende-se por largo horisonte. As montanhas de Barroso e de Traz os-Montes simulam ondulações gigantescas de mar enorme.


Serra do Gerez - Um Curral de Leonte (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)

Deixemos os pontos elevados da serra.

De Leonte descamos para os lados de Hespanha por um pessimo caminho, unico que existe. Passemos para além do curral da Albergaria e atravessemos uma pequena ponte que dá passagem sobre um riacho, que vae perto desaguar no Homem. Admire-se d'ahi o aspecto maravilhoso da serra. Recortada profundamente n'uns poucos de sentidos, coberta de espessa matta de carvalhos até grande altura e coroada por massas graniticas de formas caprichosas, não pode ser mais bella.



Serra do Gerez - Rio Homem, junto á Ponte Feia (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)

Continuemos a caminhar. Auxilia-nos a fresca sombra do arvoredo. A pequena distancia tivemos uma paisagem perfeitamente caracteristica e como rara vezes se encontra. O rio Homem apparece quasi por encanto. Mal se perce d'onde vem. Despenha-se em brilhante cascata para seguir por entre grandes muralhas graniticas. Alguns troncos d'arvores lançados de margem a margem forma a ponte feia. D'esta podem contar-se no fundo do leito do rio as mais pequenas pedras, tal é a limpidez das aguas.

Do lado esquerdo do rio admira-se uma espessa floresta terminada em picos graniticos elevadissimos.

Da ponte feia é bom ir ao Villarinho das furnas onde em principios d'este seculo foram hospedados o Conde de Hoffmansegg e o professor Link que da Allemanha vieram a Portugal, contemplar-lhe as belezas e estudar as produções naturaes.


Serra do Gerez - Villarinho das Furnas (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)


O caminho segue sempre a margem do rio Homem. Esta parte da serra é boa para quem meditar na historia da terra ou na historia do homem. 

São aqui bem pronunciados os effeitos das aguas torrenciais. A observação d'elles facilitará de certo a comprehensão de grandes phenomenos naturaes.

A estrada, que se pisa, é obra dos grandes dominadores do mundo - os romanos. Os marcos milliarios, que ainda se encontram aos lados da estrada, fazem pensar nas legiões que n'outros tempos por alli teriam passado.

O vale que o rio corta, apertado em grande extensão, alarga afinal formando uma planicie consideravel, mas monotona até Villarinho. Uma pequena ponte dá passagem para a povoação, pouco importante. Um pequeno rio a atravessa e da ponte gosa-se uma bella paisagem. Alguns morros escalvados de terra foram um fundo admiravel sobre o qual destaca um grupo de casas da povoação. 

Deixando o rio, e não querendo visitar o sitio onde se diz que existira uma antiga povoação importante - Chalcedonia - subamos de novo para a serra, protegidos sempre pelos carvalhos frondosos. A setecentos e tantos metros encontraremos n'uma extensa planicie, cortada em campos bem cultivados, uma povoação alegre. É S. João do Campo.

Um pequeno rio corta as veigas que cercam a povoação. Renques de elegantes vidoeiras vestem as margens em mais d'um sitio.

D'esta povoação até ás Caldas o caminho é horroroso: massas graniticas enormes, umas sobre as outras, formam castellos gigantescos. O terreno é coberto de vegetação rachitica. Depois de subir a grande altura, começa a descida para as Caldas.

Que caminho e que precepicios!

Na serra do Gerez não há só para contemplara paisagem nos seus diversissimos aspectos e da qual esta noticia é apenas um pallido reflexo.

São dignos de exame os costumes, a vida das povoações serranas.

É boa e obsequiadora a gente d'estas terras. Ha aqui restos de costumes antigos, alguns nãp pouco curiosos. Cada povoação tem obrigação de cuidar da conservação dos caminhos. Cada povoação tem um colmeal, onde cada habitante pode ter as suas colmeias.

Geralmente no cultivo das terras empregam vaccas, e como a todos convém que ellas se propaguem, cada povoação tem um touro, que é de todos, porque todos para o comprar dão dinheiro. Como é de todos não tem elle habitação fixa: Vive successivamente em casa dos diversos lavradores e demora-se tantos dias, quantas as juntas de vaccas que cada lavrador tiver.

De verão todo o gado pasta na serra. Divaga livremente de dia, mas ao cahir da tarde todo o gado de cada povoação recolhe ao curral, que é um pequeno espaço um pouco plano, sem guarda ou limites, tendo apenas como distinctivo um forno - pequenissima casa, coberta de telha ou de colmo, na qual dorme o pastor.

(...)

É um bello e completo quadro um curral ao cahir da tarde.

Que lindos animaes, que movimento!

Como os gados são de povoações diversas, para todas ha curraes especiaes e a alturas diversas da serra. Os direitos das povoações são totalmente e mutuamente respeitados de modo que nunca os gados de povoações diversas chegam a reunir-se no mesmo logar.

A guarda é feita d'um modo muito regular e justo. Cada lavrador dá um guarda, que passará no monte tantas noites, quantas forem as juntas de vaccas que possuir.

Estas formas de administração local são dignas de ser conhecidas e estudadas.

É curta e incompleta esta noticia. Outros a poderão completar, se tomarem a boa resolução de passar alguns dias da estação calmosa n'este recanto de Portugal, tão cheio de bellezas.

_____

* Esta frase refere-se à imagem inicial em cima do texto que tem a legenda "Serra do Gerez - Rio Caldo, Junto das Caldas (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)"

Fonte: O Occidente (Volume IX n.º 260, 11 de Março de 1886), O Occidente (Volume IX n.º 263, 11 de Abril de 1886)

sábado, 24 de janeiro de 2026

Serra do Gerês - Albergaria e Palheiros

 


A aldeia acordou mergulhada no silêncio da neve que a cobriu durante a noite. A claridade através das vidraças embaciadas, denunciava o cenário que nos esperava lá fora com os telhados brancos e as goteiras que, já pela manhã, marcavam o compasso da neve que lentamente derretia.




A caminhada levou-nos pela Estrada da Geira através do Vale do Rio Homem até à Albergaria, percorrendo a secular mata, ela também engalçanada de Inverno. Na Guarda, o vislumbre de parte da Serra Amarela e a memória dos dias de neve de Vilarinho da Furna. O Vale do Ribeiro da Furna surgia coberto com um manto branco e um lento véu deslocava-se serra acima num movimento quase imperceptível.

Começamos a caminhar de manhã cedo. Gosto de percorrer os caminhos por estas horas quando o reboliço que sabíamos chegar (e como chegaria!) ainda estava a dormir. Assim, os passos sucediam e em breve estávamos perante o incrível cenário da Fraga do Sarilhão pulvilhada de neve. Aqui, a estrada vence a Ribeira de Sarilhão através de uma ponte que a leva para a Costa do Sarilhão antes de enveredar pela Bouça da Mó. Nesta altura, esparava que o cenário fosse mais invernal, mas até parecia que não havia nevado ali.., mais adiante seria diferente.





Chegavamos então à Milha XXX da Geira Romana, em Berbezes. Quando as águas da albufeira da barragem descem, é possível aqui ver-se os restos de uma mutatio. Estamos a chegar à Bouça da Mó onde em tempos existiu uma Casa Florestal e onde ainda pode ser vista uma velha cavalariça do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). A estrada aqui já percorre uma paisagem de arvoredo: estamos a entrar na Mata de Albergaria.

A Mata de Albergaria é uma extensa área florestal e localiza-se na zona central do PNPG), ocupando uma área superior a 1.500 hectares, ao longo do vale do rio Homem. Tendo resistido a séculos de desflorestação por incêndios frequentes e pastorícia, a Mata de Albergaria é hoje um testemunho único dos bosques que outrora cobriam o noroeste da Península Ibérica: o carvalhal galaico-português. Representa o único carvalhal maduro de carvalho-alvarinho (Quercus robur) existente em Portugal. Os restantes bosques de carvalho existentes em Portugal são de menor dimensão e, sobretudo, muito mais jovens. O carvalhal é a floresta clímax da região, isto é, a última de um longo processo de sucessão natural em que a vegetação vai evoluindo. É aquela que melhor se adapta ao clima e às características do solo e, como tal, aquela que sem intervenção humana se desenvolve espontaneamente.

A estrada em terra batida e que em breve irá sofrer obas de reabilitação (Terras de Bouro investe cerca de 800 mil euros na reabilitação da Estrada da Mata de Albergaria) cobre no resto do seu trajecto, parte da via romana e lança-se sobre pequenos riachos que se despenham encosta abaixo. A caminhada faz-se ligeira, ataé porque a chuva começa a marcar a sua presença e chegamos a Rabaças. Do outro lado do vale, já imperceptível nas encostas da Serra Amarela e inundada pelas águas da albufeira, encontra-se a Ínsua da Fábrica, local onde se encontrava a Real Fábrica dos Vidros de Vilarinho da Furna.





A história desta fábrica inicia-se em princípios do século XIX, mais precisamente a 20 de Março de 1805, quando príncipe regente D. João concedia a Feliz Jozé Pereira Lima a autorização para a criação de uma fábrica para a produção de "...diversas qualidades de vidros, na planície de Linhares." Aparentemente, Feliz Jozé Pereira Lima não conseguiu concretizar os seus objectivos de imediato, mas a 9 de Outubro de 1805 era criada a Real Industria de Vidro de Vilarinho da Furna, que era propriedade de Feliz, Gomes, Mattos, Araújo e Companhia.

A fábrica poderia utilizar "...sem reserva, embarcação ou ónus algum as lenhas, giestas e mais lenha, que lhe forem preciso de todos os bosques e matas, maninhos, seja qual for a distância." Localizada nas proximidades da mancha florestal da Albergaria e tirando partido do abundante quartzo e feldspato existentes na serra, a fábrica teria o fornecimento de combustível assegurado para a sua laboração.

Segundo Pereira Caldas na obra "O Vidro em Portugal" (Vasco Valente, 1950), citado por Rosa F. Moreira da Silva em "O Gerês de Bouro a Barroso - Singularidades patrimoniais e dinâmicas territoriais" (Outubro de 2011), a Real Fábrica dos Vidros de Vilarinho da Furna produziu "variados artefactos de nítida vidraria com auspiciosos prelúdios de longo alcance industrial, sendo só mal vista sempre de refalsados portugueses, para quem nada era a indústria pátria, ao passo de ser tudo para elles a indústria inglesa".

No entanto, e devido à sua ligação com a influência francesa, o destino deste investimento estava traçado. São apontadas duas datas para a sua destruição pelo fogo: 29 de Junho de 1808 e 11 de Julho de 1808. A 20 de Novembro de 1807 forças francesas e espanholas invadem Portugal, chegando a Abrantes a 24 de Novembro. Localizada não muito longe da fronteira da Portela do Homem, e numa zona de difícil acesso na época, "...a situação política criada pelas invasões napoleónicas foi aproveitada para o desenrolar de graves tensões sociais locais..." No seu livro "Serra do Gerez. Estudos, Aspectos, Paisagens" (1909), Tude de Sousa refere que "(...) a ignorância e a má vontade dos povos próximos que não viam com bons olhos a sombra de tão poderosa vizinhança, cuja importância e benefícios não sabiam medir, e a intriga que intensamente se forjou dispuseram mal pelo futuro da fábrica; e assim foi que, com o pretexto da entrada dos franceses pela Portela, e capitaneados pelo abade de Carvalheira, seduzido por influências inglesas, que odiavam os progressos industriais do país, os povos assaltaram e saquearam a fábrica lançando-lhe fogo a 11 de Julho de 1808. Destruída, não mais pensaram os seus possuidores em a relevantar, caindo-lhe os últimos restos da parede, que ainda podiam ver-se em 1855/56".

A existência da Real Fábrica dos Vidros de Vilarinho da Furna é um aspecto importante na história do concelho de Terras de Bouro que por vezes nos passa despercebida e que deveria merecer um pouco mais de atenção.





Após uma pequena paragem para nada descortinar na outra margem e apreciar os jogos de sombras produzidos pela neve a encosta oposta, somos chegados ao Bico da Geira onde se situa a Milha XXXI. Aqui, apresentan-se "magnificas evidências da forma como os miliários eram extraí­dos dos afloramentos graní­ticos, distinguindo-se num deles as marcas rasgadas para a implantação das cunhas em madeira, tendo o trabalho sido abandonado já depois de terem sido abertas as cunheiras. Ainda hoje se observa um esboço de miliário que nunca chegou a ser completado. Neste local, para além da pedreira de onde foram retirados os miliários, foi exumado um conjunto de 21 miliários, dos quais sete conservam as inscrições: Adriano (117-138), Décio (249-251), Caro (282-283), e Licí­nio (308-324). De realçar que aqui foi também encontrado um pequeno miliário semi-enterrado, que conserva traços de pintura a ocre. Perante esta evidência é possí­vel que também os outros miliários fossem, regularmente, pintados. Para além dos miliário e da pedreira, observam-se restos de uma calçada com pedras bem fincadas, de forma a facilitar a passagem de uma ribeira que desce da montanha. Nesta zona a via já transcorre a Mata de Albergaria, um imponente carvalhal, onde também se notam inúmeros azevinhos."

Com o cenário a compor-se, a estrada percorre transpõe o Ribeiro do Pedredo e segue pela encosta da Pedra Furada, continuando para o Concelo não muito longe do desaparecido Caminho do Meio, inundado pela albufeira. O olhar mais atento, vai vislumbrar Pena Longa por entre o arvoredo despido antes de passar a Fonte do Vale dos Porcos e chegar, mais adiante, à Volta do Covo onde encontramos mais um magnífico conjunto de miliários que assinalam a Milha XXXII. Aqui, "conservam-se 23 miliários, dos quais 16 são anepí­grafes. A bibliografia refere 7 miliários com epí­grafes. Um de Adriano (117-138), datável do ano 135; dois de Maximino e Máximo (235-238), datáveis do ano 238; um de Décio (250); um de Caro (282-283); um de Magnêncio (350-353) e outro de Decêncio (351-353). Não é possí­vel afirmar que os miliários se encontrem in situ, já que teriam sido agrupados, provavelmente, quando se abriu a estrada florestal, tanto mais que parte deles estão junto a uma estrutura muito tardia, já referida por Mattos Ferreira. No trajecto entre as milhas XXXII e XXXIII conservam-se vestí­gios de duas pontes romanas, que permitiam transpor as ribeiras da Maceira e do Forno. Da Volta do Covo à zona de confluência das duas ribeiras mantém-se a estrada florestal. No local onde se juntam as ribeiras observa-se cerâmica romana de construção o que nos leva admitir que neste local terá funcionado uma mutatio, tal como na Bouça da Mó."





Logo a seguir à Volta do Covo, surge-nos a paisagem de Albergaria e das montanhas que lhe servem de pano de fundo. O cenário é único com a paisagem invernal do carvalhal com as suas ramadas retorcidas tingidas de neve. A Costa de Sabrosa surge coberta com um céu branco, mas facilmente se imagina o cenário serra acima. 

O Rio Homem faz-se escutar com toda a sua força e as fontes debitam água como nunca. Finalmente somos chegados aos antigos Viveiros das Trutas logo após passar o Rio Maceira e seguimos para a pequena pinte que nos permite passar o Rio do Forno. Estamos num ambiente que apela a todos os sentidos: o cheiro a terra humida e da vegetação molhada, os diversos sons originados pelas torrentes da montanha e pelo pingos da chuva neve que enche o cenário, o ar frio que nos faz acomodar a roupa que já se sente humida e um paladar que nos surge de um ambiente que se regenera.

Chegamos a Ponte Feia e assistimos ao precipitar das fechas criadas no Poço de Ponte Feia pelas águas tumultuosas do Rio Homem antes de enveredar na direcção de Palheiros. O ar enche-se de flocos de neve que se precipitam, uns mais apressados, outros serenos em direcção ao chão da floresta.

Caminhamos na Mata de Palheiros, a continuação natural da Mata de Albergaria, através de um decrépito caminho que em tempos conduziu há já desaparecida Casa Florestal de Palheiros, um lugar com uma história ainda por contar. O caminho ladeia o Cabeço de Palheiros e leva-nos a passar junto do antigo Viveiro Florestal de Palheiros. Nos tempos dos Serviços Florestais, a Mata de Palheiros era «guardada» por uma casa florestal da qual apenas restam pedras amontoadas após um incêndio que a destruiu em principios dos anos 70 e posterior demolição possivelmente já nos anos 80. Local ermo, isolado e perdido nas profundezas de um bosque, foi cenário de histórias bizarras e possivelmente local de reunião da contra-revolução que no quente Verão de 75 tentava fazer voltar Portugal para uma idade das trevas das quais ficaram sombras que hoje nos assombram.

O caminho prossegue então para a Ponte de Palheiro e daqui para a Estrada da Geira, que percorremos no sentido contrário para regressar ao Campo do Gerês.

Antes de terminar, não posso deixar de comentar algo que vimos acontecer nesta via neste final de manhã. Por nós passram dezenas de veículo todo-terreno a alta velocidade naquela via toda esburacada e muitos deles sem diminuir a velocidade à vista de quem por ali caminhava tentando desfrutar de um cenário único do nosso país. Parece-me que a cada dia que passa há mais gente com direitos do que com deveres e principalmente sem terem o mínimo de empatia pelo outro.

Espanta-me também, ao longo das horas que por ali caminhamos, não termos visto qualquer veículo do ICNF, da GNR ou de alguma autoridade que pudesse impor algum respeito naquilo que se passava.

São estes casos que tornarão perigosa a reabilitação daquela via se não se colocarem sistemas de controlo de velocidade tal como o ICNF impõe.

Ficam algumas imagens do dia...























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

domingo, 23 de novembro de 2025

Paisagens da Peneda-Gerês (MDLXXIII) - Milha XXXIII no Outono

 


A paisagem outonal da Milha XXXIII na Ponte Feia, Mata de Albergaria, Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Ponte Feia - a mesma paisagem mais de um século depois

 


Durante um curto passeio pela Mata de Albergaria numa tarde com alguma chuva, lembrei-me de um velho postal que mostra a Ponte Feia em finais do século XIX.

Oportunidade ideal para tentar obter o mesmo enquadramento, apesar de não ter o velho postal comigo. O local foi fácil de encontrar e curiosamente, em tempos, pareceu até existir um carreiro para o sítio onde a velha fotografia havia sido feita.

Chegado ao local, maravilhado com o que via, fiz vários 'cliques'. O enquadramento não é o mesmo, mas está lá perto (será mais uma razão; se é que fosse necessário para lá voltar...). Assim, a fotografia mostra a Ponte Feia e o Rio Homem (num enquadramento semelhante) mais de um século depois. 

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

domingo, 26 de outubro de 2025

Serra do Gerês - Da Portela do Homem à Pala do Ranhado (Natureza e História nos recantos geresianos)

 


A montanha geresiana oferece-nos altos cumes e profundas corgas por onde podemos caminhar e encher o nosso ego. Mas por vezes, a verdadeira riqueza encontra-se mesmo ali ao lado, ao lado dos locais por onde passamos de automóvel e que nem nos chama a atenção. Porém, isto acontece porque não estamos atentos e porque a vaidade é sempre mais importante do que conhecer a montanha a fundo, na sua essência histórica e natural.

Assim, se a caminhada pelos altos cumes e profundas corgas nos pode mostrar resquícios da presença do Homem nesses locais, a visita a outros locais de «mais fácil» acesso leva-nos numa outra viagem: a viagem pela razão de ser do Parque Nacional, a sua Natureza e a sua História.




Foi o que aconteceu nesta curta caminhada de cerca de 7 km através dos carreiros da Mata de Albergaria com início e fim na Portela do Homem.

Deixando o estacionamento pelo carreiro que se inicia junto do placar informativo do Parque Nacional da Peneda-Gerês, abrenhamo-nos no arvoredo da Mata de Albergaria. Estaremos a caminhar na Geira Romana? Na verdade, não é certo se a Via XVIII seguia este traçado ou se percorria o lado esquerdo do Vale de S. Miguel. Sabemos que este troço do Itinerário Antonino ligava a Ponte de S. Miguel, passava junto dos edifícios da Guarda Fiscal e entrava na Galiza pela portela fronteiriça. O seu traçado correcto permanece uma incógnita. A Portela do Homem sofreu muitas e profundas alterações, nomeadamente aquando da construção do primeiro edifício da Guarda Fiscal.

A história da permanência da Guarda Fiscal na fronteira da Portela do Homem, inicia-se em finais do século XIX e vai prolongar-se até Março de 1995, altura em que Portugal implementa a «abolição» das suas fronteiras de acordo com o estabelecido para a livre circulação de pessoas e bens no Espaço Schengen.





De facto, o pedido para a instalação do primeiro edifício da Guarda Fiscal é feito a 23 de Agosto de 1892 pela então Direcção Geral das Alfândegas. Esta, solicita a cedência aos Serviços Florestais de 500 m2 para a instalação de uma casa para o Posto Fiscal, na condição de este terreno reverter para a Mata Nacional quando os serviços alfandegários dele não precisassem. Os Serviços Florestais deferem o pedido por despacho datado de 9 de Setembro de 1896, referindo que todos os trabalhos ali realizados ficariam a pertencer à Mata Nacional e que esta não deveria qualquer indemnização à Direcção Geral das Alfândegas em caso de devolução da área solicitada.

O auto de entrega dos terrenos na Portela do Homem é assinado a 25 de Outubro de 1896 pelo silvicultor António Mendes de Almeida e pelo Chefe de Secção da Guarda Fiscal do Gerês, Albano Augusto Pereira.




Assim, os trabalhos ali realizados vão alterar a paisagem, com a criação de uma estrada e o deslocamento e enterramento de marcos miliários. Os que hoje podemos ver a assinalar a Milha XXXIX terão sido deslocados, tal como é referido em viasromanas.pt: "nesta milha, localizada na Portela do Homem, conserva-se um vasto grupo de miliários, mas nem todos pertencentes à milha XXXIV. O local onde, actualmente, se concentram os miliários não é, por certo, o ponto original da sua implantação. Também não o será a zona onde alguns metros mais a nascente e a uma cota inferior foi desenterrado um miliário coberto de sedimentos modernos, durante a campanha de 1992. De facto, as antigas descrições referem-se a pelo menos treze miliários. Actualmente apenas se observam oito, contando com o que foi recentemente recuperado. Deve, pois, admitir-se a possibilidade de outros miliários ainda se manterem sob os aterros adjacentes à estrada. A bibliografia refere dois miliários de Tito e Domiciano (79-81), datáveis do ano 80; Nerva (96-98); Trajano ou Adriano (117-138?); Caracala (198-217), datável do ano 214; Maximino e Maximo (235-238); Décio (249-251), datável do ano 250; Magnêncio (350-353) e um anepí­grafe."

Caminhando através do Vale de S. Miguel, passamos ao lado do Curral de S. Miguel e seguimos em direcção às ruínas das antigas Casas dos Guardas Fiscais. Nesta altura, a Mata de Albergaria apresenta-se em plena metamorfose: as cores de Outono já surgiram em muitas árvores, mas muitas outras aguardam a sua vez. No chão, começam a surgir os primeiros cogumelos, mas a humidade ainda é baixa e o frio ainda não chegou. O Rio Homem ganhou nova vida após as recentes chuvas e o seu caudal vai aumentar nos dias que se seguem, pois a chuva voltará com maior intensidade. Não fosse o ruído dos carros e motociclos que passam, e a música seria da Natureza com o vento a dançar por entre as ramadas, os restolhar das folhas secas no chão e os pequenos ribeiros a correr para engrossar o «grande» rio.




Minutos passados e chegamos à (nova) Ponte de S. Miguel. A ponte de madeira proporciona uma passagem segura do Rio Homem no local onde se encontrava a velha ponte romana que unia as duas margens do rio complementando a via que foi terminada no ano 80 dC. Segundo a informação disponível no sítio do município terrabourense, "a Ponte de São Miguel era uma ponte com uma certa envergadura, pois possuía dois arcos de volta perfeita e possibilitava ultrapassar o último grande obstáculo da serra do Gerês em direção a Astorga, continuando, durante séculos, a ser corredor militar, caminho de Santiago, linha de transações económicas e de passagem para o interior da Espanha." A velha ponte romana terá sido destruída em 1640, logo após a restauração da independência e alguns dos seus blocos ainda podem ser vistos na margem esquerda do rio logo após a passagem da ponte de madeira.

No livro O Gerês - De Bouro a Barroso (Outubro de 2011), Rosa Fernanda M. Silva refere: "no quadro da Guerra da Restauração, para contrariar a entrada do inimigo, deliberaram destruir as pontes romanas de Monção, do Arco, de S. Miguel e a de Albergaria em pleno bosque caducifólio.

Na notícia de 1736 afirma-se, '(...) Hua destas pontes tem o nome de S. Miguel por rezão de que antigamente, no tempo em que este reyno esteve intredito. os moradores desta freguesia de S. João do Campo no estremo da Galiza levantarão huma ermida de S. Miguel e nella ouvirão missa nos dias santos; depois que se levantou o interdito, mudarão a dita ermida para a Chaam adonde esteve  a dita ponte e dahí por diante ficou com este nome e tambem a Chaam; e finalmente, como a ermida estivesse em ermo e sitio muy dezerto, a demolirão e trouxerão a imagem de S. Miguel para a ermida da Senhora das Merces que está no lugar de Vilarinho. A ponte de Albergaria, dizem, tomou o nome de huma caza que antigamente  ali havia que servia de recolhimento aos passageyros, e a de Monção, por junto della estar huma maravilhosa fonte assim chamada, e a do arco por ser de hum só a ponte (...)." Rosa Fernanda M. Silva refere ainda que "a grandiosidade destas quatro pontes pode avaliar-se pela '(...) despreza que a gente de Terras de Bouro fes de trinta mil reis que derão aos pedreyros no anno de 1640 para lhes demolirem (...)'."  

Seguindo caminho, e após passarmos o Ribeiro de Monção, encontramos os miliários da Milha XXXIII (Ponte Feia) e as ruínas do velho abrigo de montanha. Não muito longe encontra-se a Ponte Feia e o Poço da Ponte Feia, mais tranquilo do que nos dias do estio e com um cenário muito mais apelativo nestes dias de Outono.




Aqui, certamente que caminhamos pelo traçado da Geira Romana que nos leva a Albergaria onde encontramos os restos de duas pontes também destruídas em 1640, o que resta dos velhos tanques de criação de trutas dos Serviços Florestais e alguns edifícios abandonados que também pertenceram a esta instituição. Subindo agora em direcção à estrada seguido a estrada calcetada, repara-se nos restos da trincheira defensiva ali existente. Este local merecia um melhor trato e conservação; aqui respira-se História e Natureza, além dos fumos emanados pelos escapes dos carros que vão passando...

Caminhando mais uma dezenas de metros pela estrada asfaltada, seguimos encosta acima até encontrar a Pala do Ranhado (ou Penedo da Pala). Descrita no relatório da Sociedade Geográfica de Lisboa sobre uma expedição à Serra do Gerês, este foi o local de pernoita de Hermenegildo Brito Capelo, Leonardo Torres, Denis Santiago e Serafim dos Anjos e Silva na noite de 20 de Setembro de 1882.

Em Setembro de 1882, Hermenegildo Capello e Leonardo Torres - sócios ordinários da então Sociedade de Geographia, fizeram uma visita à Serra do Gerês que mais tarde seria descrita na revista desta sociedade. Durante a sua permanência no Gerês, os dois homens participaram numa caçada realizada a 20 e 21 de Setembro, tendo dormido a noite na serra e fazendo a seguinte descrição...

"Na Serra do Gerez ha uns abrigos que chamam fornos, provavelmente por causa das portas que só se pode entrar engatinhando, e dentro d'essa cubata podem dormir nove ou dez homens, deitados em palha e muito unidos.

A pulga e muitas vezes o ganau enxameam aquelles domicilios, que servem de casa aos guardas do gado que á noite o reunem junto d'estes fornos em uns pequenos planos mais abrigados que chamam vezeiros. Vimos dois d'estes cacifres ou casebres, um mesmo na Portella de Leonte e outro em Albergaria; n'este ultimo estava um velho guardador de extensa barba branca, e pelo tempo, local e aspecto fazia sem grande difficuldades a felicidade de um sebastianista ferrenho.





Estavamos condemnados a estacionar e pernoitar no forno de Albergaria, porque a chuva continuava e continuou durante a tarde e durante a noite, quando um dos guias lembrou que era mais limpo o abrigo do Penedo da Palla, no sítio do Ranhado, que nos ficava a uns duzentos passos de distancia; podem lá dormir dez homens e cinco debaixo do penedo que fica logo ao pé, e os sete seguiram logo para o dito forno. Foram dez para o forno, e por esse motivo no abrigo da Palla apenas dormimos sete, perfeitamente abrigados e aquecidos pela constante fogueira que durou toda a noite, sendo alimentada com lenha de carvalhos, que ali se encontram derrocados e não aproveitados."

Evitando a estrada asfaltada, o regresso fez-se em sentido contrário pelo mesmo caminho.











Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)