A aldeia acordou mergulhada no silêncio da neve que a cobriu durante a noite. A claridade através das vidraças embaciadas, denunciava o cenário que nos esperava lá fora com os telhados brancos e as goteiras que, já pela manhã, marcavam o compasso da neve que lentamente derretia.
A caminhada levou-nos pela Estrada da Geira através do Vale do Rio Homem até à Albergaria, percorrendo a secular mata, ela também engalçanada de Inverno. Na Guarda, o vislumbre de parte da Serra Amarela e a memória dos dias de neve de Vilarinho da Furna. O Vale do Ribeiro da Furna surgia coberto com um manto branco e um lento véu deslocava-se serra acima num movimento quase imperceptível.
Começamos a caminhar de manhã cedo. Gosto de percorrer os caminhos por estas horas quando o reboliço que sabíamos chegar (e como chegaria!) ainda estava a dormir. Assim, os passos sucediam e em breve estávamos perante o incrível cenário da Fraga do Sarilhão pulvilhada de neve. Aqui, a estrada vence a Ribeira de Sarilhão através de uma ponte que a leva para a Costa do Sarilhão antes de enveredar pela Bouça da Mó. Nesta altura, esparava que o cenário fosse mais invernal, mas até parecia que não havia nevado ali.., mais adiante seria diferente.
Chegavamos então à Milha XXX da Geira Romana, em Berbezes. Quando as águas da albufeira da barragem descem, é possível aqui ver-se os restos de uma mutatio. Estamos a chegar à Bouça da Mó onde em tempos existiu uma Casa Florestal e onde ainda pode ser vista uma velha cavalariça do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). A estrada aqui já percorre uma paisagem de arvoredo: estamos a entrar na Mata de Albergaria.
A Mata de Albergaria é uma extensa área florestal e localiza-se na zona central do PNPG), ocupando uma área superior a 1.500 hectares, ao longo do vale do rio Homem. Tendo resistido a séculos de desflorestação por incêndios frequentes e pastorícia, a Mata de Albergaria é hoje um testemunho único dos bosques que outrora cobriam o noroeste da Península Ibérica: o carvalhal galaico-português. Representa o único carvalhal maduro de carvalho-alvarinho (Quercus robur) existente em Portugal. Os restantes bosques de carvalho existentes em Portugal são de menor dimensão e, sobretudo, muito mais jovens. O carvalhal é a floresta clímax da região, isto é, a última de um longo processo de sucessão natural em que a vegetação vai evoluindo. É aquela que melhor se adapta ao clima e às características do solo e, como tal, aquela que sem intervenção humana se desenvolve espontaneamente.
A estrada em terra batida e que em breve irá sofrer obas de reabilitação (Terras de Bouro investe cerca de 800 mil euros na reabilitação da Estrada da Mata de Albergaria) cobre no resto do seu trajecto, parte da via romana e lança-se sobre pequenos riachos que se despenham encosta abaixo. A caminhada faz-se ligeira, ataé porque a chuva começa a marcar a sua presença e chegamos a Rabaças. Do outro lado do vale, já imperceptível nas encostas da Serra Amarela e inundada pelas águas da albufeira, encontra-se a Ínsua da Fábrica, local onde se encontrava a Real Fábrica dos Vidros de Vilarinho da Furna.
A história desta fábrica inicia-se em princípios do século XIX, mais precisamente a 20 de Março de 1805, quando príncipe regente D. João concedia a Feliz Jozé Pereira Lima a autorização para a criação de uma fábrica para a produção de "...diversas qualidades de vidros, na planície de Linhares." Aparentemente, Feliz Jozé Pereira Lima não conseguiu concretizar os seus objectivos de imediato, mas a 9 de Outubro de 1805 era criada a Real Industria de Vidro de Vilarinho da Furna, que era propriedade de Feliz, Gomes, Mattos, Araújo e Companhia.
A fábrica poderia utilizar "...sem reserva, embarcação ou ónus algum as lenhas, giestas e mais lenha, que lhe forem preciso de todos os bosques e matas, maninhos, seja qual for a distância." Localizada nas proximidades da mancha florestal da Albergaria e tirando partido do abundante quartzo e feldspato existentes na serra, a fábrica teria o fornecimento de combustível assegurado para a sua laboração.
Segundo Pereira Caldas na obra "O Vidro em Portugal" (Vasco Valente, 1950), citado por Rosa F. Moreira da Silva em "O Gerês de Bouro a Barroso - Singularidades patrimoniais e dinâmicas territoriais" (Outubro de 2011), a Real Fábrica dos Vidros de Vilarinho da Furna produziu "variados artefactos de nítida vidraria com auspiciosos prelúdios de longo alcance industrial, sendo só mal vista sempre de refalsados portugueses, para quem nada era a indústria pátria, ao passo de ser tudo para elles a indústria inglesa".
No entanto, e devido à sua ligação com a influência francesa, o destino deste investimento estava traçado. São apontadas duas datas para a sua destruição pelo fogo: 29 de Junho de 1808 e 11 de Julho de 1808. A 20 de Novembro de 1807 forças francesas e espanholas invadem Portugal, chegando a Abrantes a 24 de Novembro. Localizada não muito longe da fronteira da Portela do Homem, e numa zona de difícil acesso na época, "...a situação política criada pelas invasões napoleónicas foi aproveitada para o desenrolar de graves tensões sociais locais..." No seu livro "Serra do Gerez. Estudos, Aspectos, Paisagens" (1909), Tude de Sousa refere que "(...) a ignorância e a má vontade dos povos próximos que não viam com bons olhos a sombra de tão poderosa vizinhança, cuja importância e benefícios não sabiam medir, e a intriga que intensamente se forjou dispuseram mal pelo futuro da fábrica; e assim foi que, com o pretexto da entrada dos franceses pela Portela, e capitaneados pelo abade de Carvalheira, seduzido por influências inglesas, que odiavam os progressos industriais do país, os povos assaltaram e saquearam a fábrica lançando-lhe fogo a 11 de Julho de 1808. Destruída, não mais pensaram os seus possuidores em a relevantar, caindo-lhe os últimos restos da parede, que ainda podiam ver-se em 1855/56".
A existência da Real Fábrica dos Vidros de Vilarinho da Furna é um aspecto importante na história do concelho de Terras de Bouro que por vezes nos passa despercebida e que deveria merecer um pouco mais de atenção.
Após uma pequena paragem para nada descortinar na outra margem e apreciar os jogos de sombras produzidos pela neve a encosta oposta, somos chegados ao Bico da Geira onde se situa a Milha XXXI. Aqui, apresentan-se "magnificas evidências da forma como os miliários eram extraídos dos afloramentos graníticos, distinguindo-se num deles as marcas rasgadas para a implantação das cunhas em madeira, tendo o trabalho sido abandonado já depois de terem sido abertas as cunheiras. Ainda hoje se observa um esboço de miliário que nunca chegou a ser completado. Neste local, para além da pedreira de onde foram retirados os miliários, foi exumado um conjunto de 21 miliários, dos quais sete conservam as inscrições: Adriano (117-138), Décio (249-251), Caro (282-283), e Licínio (308-324). De realçar que aqui foi também encontrado um pequeno miliário semi-enterrado, que conserva traços de pintura a ocre. Perante esta evidência é possível que também os outros miliários fossem, regularmente, pintados. Para além dos miliário e da pedreira, observam-se restos de uma calçada com pedras bem fincadas, de forma a facilitar a passagem de uma ribeira que desce da montanha. Nesta zona a via já transcorre a Mata de Albergaria, um imponente carvalhal, onde também se notam inúmeros azevinhos."
Com o cenário a compor-se, a estrada percorre transpõe o Ribeiro do Pedredo e segue pela encosta da Pedra Furada, continuando para o Concelo não muito longe do desaparecido Caminho do Meio, inundado pela albufeira. O olhar mais atento, vai vislumbrar Pena Longa por entre o arvoredo despido antes de passar a Fonte do Vale dos Porcos e chegar, mais adiante, à Volta do Covo onde encontramos mais um magnífico conjunto de miliários que assinalam a Milha XXXII. Aqui, "conservam-se 23 miliários, dos quais 16 são anepígrafes. A bibliografia refere 7 miliários com epígrafes. Um de Adriano (117-138), datável do ano 135; dois de Maximino e Máximo (235-238), datáveis do ano 238; um de Décio (250); um de Caro (282-283); um de Magnêncio (350-353) e outro de Decêncio (351-353). Não é possível afirmar que os miliários se encontrem in situ, já que teriam sido agrupados, provavelmente, quando se abriu a estrada florestal, tanto mais que parte deles estão junto a uma estrutura muito tardia, já referida por Mattos Ferreira. No trajecto entre as milhas XXXII e XXXIII conservam-se vestígios de duas pontes romanas, que permitiam transpor as ribeiras da Maceira e do Forno. Da Volta do Covo à zona de confluência das duas ribeiras mantém-se a estrada florestal. No local onde se juntam as ribeiras observa-se cerâmica romana de construção o que nos leva admitir que neste local terá funcionado uma mutatio, tal como na Bouça da Mó."
Logo a seguir à Volta do Covo, surge-nos a paisagem de Albergaria e das montanhas que lhe servem de pano de fundo. O cenário é único com a paisagem invernal do carvalhal com as suas ramadas retorcidas tingidas de neve. A Costa de Sabrosa surge coberta com um céu branco, mas facilmente se imagina o cenário serra acima.
O Rio Homem faz-se escutar com toda a sua força e as fontes debitam água como nunca. Finalmente somos chegados aos antigos Viveiros das Trutas logo após passar o Rio Maceira e seguimos para a pequena pinte que nos permite passar o Rio do Forno. Estamos num ambiente que apela a todos os sentidos: o cheiro a terra humida e da vegetação molhada, os diversos sons originados pelas torrentes da montanha e pelo pingos da chuva neve que enche o cenário, o ar frio que nos faz acomodar a roupa que já se sente humida e um paladar que nos surge de um ambiente que se regenera.
Chegamos a Ponte Feia e assistimos ao precipitar das fechas criadas no Poço de Ponte Feia pelas águas tumultuosas do Rio Homem antes de enveredar na direcção de Palheiros. O ar enche-se de flocos de neve que se precipitam, uns mais apressados, outros serenos em direcção ao chão da floresta.
Caminhamos na Mata de Palheiros, a continuação natural da Mata de Albergaria, através de um decrépito caminho que em tempos conduziu há já desaparecida Casa Florestal de Palheiros, um lugar com uma história ainda por contar. O caminho ladeia o Cabeço de Palheiros e leva-nos a passar junto do antigo Viveiro Florestal de Palheiros. Nos tempos dos Serviços Florestais, a Mata de Palheiros era «guardada» por uma casa florestal da qual apenas restam pedras amontoadas após um incêndio que a destruiu em principios dos anos 70 e posterior demolição possivelmente já nos anos 80. Local ermo, isolado e perdido nas profundezas de um bosque, foi cenário de histórias bizarras e possivelmente local de reunião da contra-revolução que no quente Verão de 75 tentava fazer voltar Portugal para uma idade das trevas das quais ficaram sombras que hoje nos assombram.
O caminho prossegue então para a Ponte de Palheiro e daqui para a Estrada da Geira, que percorremos no sentido contrário para regressar ao Campo do Gerês.
Antes de terminar, não posso deixar de comentar algo que vimos acontecer nesta via neste final de manhã. Por nós passram dezenas de veículo todo-terreno a alta velocidade naquela via toda esburacada e muitos deles sem diminuir a velocidade à vista de quem por ali caminhava tentando desfrutar de um cenário único do nosso país. Parece-me que a cada dia que passa há mais gente com direitos do que com deveres e principalmente sem terem o mínimo de empatia pelo outro.
Espanta-me também, ao longo das horas que por ali caminhamos, não termos visto qualquer veículo do ICNF, da GNR ou de alguma autoridade que pudesse impor algum respeito naquilo que se passava.
São estes casos que tornarão perigosa a reabilitação daquela via se não se colocarem sistemas de controlo de velocidade tal como o ICNF impõe.
Ficam algumas imagens do dia...
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)














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