sábado, 17 de janeiro de 2026

Trilhos seculares - De Leonte ao Borrageiro e Curral da Raiz

 


O dia surgiu cinzento e frio a confirmar as paisagens que viramos no anoitecer: os cumes cobertos de neve e as nuvens que por eles se passeavam, confirmaram os arrepios ao acordar.

Pela noite, o som da chuva - ora mais ou menos intensa, ora mais silenciosa - levava-nos a crer que a neve poderia ter visitado de forma tímida a aldeia que se mergulhara naquele silêncio característico dos dias de neve. Nestes dias, a Natureza parece que faz o tempo parar e somente o vislumbre para os ponteiros do relógio nos arrasta de volta para o lento arrastar dos momentos.

O grupo - e os grupos - já se perfilavam na Portela de Leonte para iniciar as suas caminhadas. Junto da velha casa florestal, iniciavamos a marcha pela Costa do Morujal seguindo o velho carreiro da vezeira que vence o declive em passo tranquilo fazendo com que o coração vá ganhando ritmo. Surpreendentemente, não está muito frio (ou pelo menos aquele 'frio' que cortar os pulmões) o que torna a subida mas confortável à vista da paisage salpicada de tons de branco das encostas elevadas do Pé de Cabril, testemunha silenciosa da nossa jornada.





As nuvens e a neblina passeavam-se calmamente pelo Vale do Rio Gerês, subindo as encostas num esforço pachorrento e lançando farrapos de nevoeiro pelas pequenas corgas. À medida que a paisagem de afundava atrás de nós, os vales escuros da manhã iam-se deixando ver, aqui e ali banhados por lanças de luz que atravessavam as nuvens mais altas. Por vezes, o vislumbre do céu azul dava-nos a esperança de horizontes mais alargados, mas logo de seguida, o capricho dos véus de nevoeiro voltava a tolhar a paisagem, escondendo-a através de uma neblina que criava caprichosos contra-luz.

Subindo o Morujal, entravamos na velha calçada que nos conduziria à Chã do Carvalho (Chã do Carvalho de Leonte) e pouco depois ao Prado do Vidoal. Aqui, a paisagem mergulhara num fantástico ambiente invernal. O velhio carvalho não passava que uma pintura a tinta da China projectadio numa tela branco acinzentada e o Outeiro Moço parecia um esboço de uma ideia de um pintor preguiçoso. Como que envolto numa mortalha de nevoeiro, o prado - tão verdejante nos dias de Primavera - era agora um magnífico cenário de Inverno, uma memória cénica capaz de soltar as mais profundas interjeições de espanto.





Passando o Prado do Vidoal, seguimos então na direcção do Colo da Preza. Por vezes, a caprichosa brisa empurrava as nuvens e a neblina para outras paragens dando o vislumbre do Pé de Medela e Carris de Maceira. A parede aprumada da Roca d'Arte, pontilhada aqui e ali de branco, precepita-se para o Ribeiro de Lavadouros e a profunda corga guarda as memórias olvidadas do esquecido Curral de Lavadouros, agora com o seu abrigo pastoril alagado.

Volteando o Outeiro Moço, passamos os teixos anexos ao carreiro e prosseguimos, já por entre passadas na neve que canta a cada passo. Vencendo o curto declive, chagamos à Preza e olhamos para o Vale de Teixeira com os seus dois prados: Camalhão e Teixeira, levemente cobertos de neve.

Para chegar à Chã da Fonte, optamos por vencer o declive à nossa esquerda (regressaríamos do Borrageiro seguindo a outra opção: o Enfragadouro). A subida faz-se de forma pausada, respirando a cada passo e parando para olhar a Serra do Gerês que aqui já nos leva ao seu extremo com a Serra Amarela.





Muitas vezes tenho visto o erro de associar a Chã da Fonte à fonte que existe um pouco mais acima: a Fonte da Borrageirinha. Esta associação é errada! A denominação de "Chã da Fonte" vem de uma antiga fonte existente no início do carreiro que nos leva à Pegada das Ruivas e cujos restos ainda são visíveis numa pequena chã. Da mesma forma, a designação em nada está relacionada com a recente criação de um bebedouro para animais nas proximidades.

Deixando a Chã da Fonte, seguimos para a Portela de Sineiros e aqui flectimos à direita seguindo na direcção das peculiares formas graníticas existentes nas proximidades. O Arco do Borrageiro é uma formação criada pela erosão natural e que foi um cliché que serviu para vários postais na época do "Gerez Thermal". A chegada ao alto do Borrageiro pode ser feita seguindo outro percurso, mas a passagem por este peculiar lugar é quase obrigatória para que demanda um dos pináculos supremos da Serra do Gerês.

Aqui, já caminhavamos por uma paisagem toda ela coberta de neve e que assim se mantinha em qualquer direcção. A progressão não era difícil, mas nestas situações - e mesmo com uma espessura de neve não muito alta - todo o cuidado é pouco. Caminhando em base de granito, no que parece ser uma plataforma lisa escondem-se pequenos declives que com a cobertura de neve se tornam debgraus escondidos. Assim, a ajuda dos bastões de caminhada é fundamental para ter uma progressão em segurança, mesmo em zonas que já nos habituamos a percorrer em condições mais favoráveis.




Passada a chã que antecede a subida final do pequeno cume, só faltava vencer os metros finais que nos levariam ao velho marco geodésico que assinala os 1.430 metros de altitude, um dos pontos mais altos do Minho, mas não da Serra do Gerês. Segundo o blogue Garcias - Montanhas de Portugal quando escreve sobre o Borrageiro, "muitas pessoas ao olhar o perfil da serra do Gerês julgam erradamente que o Borrageiro é o ponto mais alto da serra, na verdade existem diversos cumes mais altos que o Borrageiro, de facto o cume é apenas o 6º mais alto da serra mas por se encontrar mais a sudoeste que os outros cumes mais altos parece maior para quem observa a serra desde o sul ou o oeste." Do Borrageiro "(...) pode-se admirar uma paisagem majestosa na qual podemos reconhecer o vale do Cávado, as serras da Cabreira, de Fafe Basto, Amarela, do Soajo, da Peneda, do Larouco, do Facho, do Barroso e ao longe as serras do Marão, do Alvão, e do Corno de Bico além da maior parte dos picos principais da serra do Gerês."

Em Julho de 1935, o jornalista Camanho Pereira ("A Serra!", Revista Latina, n.º 4) faz-nos uma descrição da sua subida ao Borrageiro, se bem que seguindo outro trajecto: "depois de uma nova carga sobre a merenda deixamos com saudades o Cambalhão e entramos de novo no Sol, vale acima, passamos por outro currak, o do Junco, mais pequeno e endireitamos à Garganta da Preza. Toda a subida até à Borrageira é monótona, horizonte estrteito de lagedos mas ao atingir o cume, que deslumbramento! Setria fastidioso enumerar todos os altos que se destacam isolados, todas as cumeadas que se sucedem umas após outras sen fim (...). «Que grandiosa tela dentro de formidável moldura! Coroando as eminências, santuários imponentes ou modestas ermidinhas, lembram mamilos de alabastro. Que seriação interminável de montanhas a perder de vista nas corcovas monstruosas.» Assim fala lá no alto Tude de Sousa."





A permanência no cume não foi longa, apesar das condições serem quase óptimas com o horizonte a limpar-se por breves momentos. O frio, na ausência de vento, era suportável, mas os corpos suados da caminhada começavam a tiritar. Enganado o cansaço, e depois da costumeira fotografia de grupo, era hora de baixarmos para local mais aprazível, pois a hora do almoço já passara para quem se despertára antes do galo.

Descendo a encosta a Norte, tomamos o carreiro que nos levaria ao longo das Lamas de Borrageiro para chegarmos à Portela de Sineiros e daqui inicarmos a descida para a Preza e voltar para o Prado do Vidoal onde nos aguardava uma paisagem já um pouco diferente da que havíamos testemunhado umas horas antes e na qual muita da neve presente já havia desaparecido. Porém, o cenário do Pé de Medela e de Carris de Maceira composto com a Corga da Cântara e dos picos encrespados acima da Roca d'Arte, era um repasto para quem aprecia as paisagens dre montanha.

Com a meteorologia a prometer chuva (ou neve) para a tarde, retomamos a caminhada seguindo a Sul e saindo do Prado do Vidoal em direcção ao Mourô. Atravessando do pequeno ribeiro por entre o arvoredo, entrávamos então na Corga de Mourô, percorrendo a sua encosta esquerda em direcção ao nosso objectivo seguinte. Pelo caminho, o Pé de Cabril ia-se cobrindo de farrapos de nuvens e os céus escureciam a Norte.

Seguindo o velho carreiro, deixavamos a corga para trás com um último vislumbre das Quinas de Mourô e iniciávamos a descida para o Curral da Raiz com os seus imponentes carvalhos seculares e o seu abrigo pastoril que guarda a data de 1953. Por esta altura, os céus começam a pingar e em breve os frios pingos de chuva transformam-se em suaves flocos de neve que nos acompanharam durante alguns minuitos enquanto iniciávamos a descida da Costa da Cantina. A queda de neve duraria pouco mais de dez ou quinze minutos, mas foi uma agradável surpresa para todo o grupo.

Entrando no bosque, sucederam-se as paisagens de azevinhos, pinheiros, carvalhos e cedros que nos acompanhou - por entre recortes de silêncio e o correr de pequenos riachos, até à estrada nacional que seguimos até passar a vigorosa Fecha de Leonte, tomando então o velho Caminho Real que nosm levaria de volta à Portela de Leonte passando pela Fonte do Escalheiro e terminando assim esta caminhada organizada pela RB Hiking & Trekking.

Ficam algumas fotoghrafias do dia...


























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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