O recente anuncio por parte do Município de Terras de Bouro da assinatura do contrato de empreitada para a reabilitação da Estrada da Mata de Albergaria, fez-me lembrar um texto que escrevi e publiquei a 10 de Janeiro de 2025.
O artigo "Os empertigados" pode ser lido aqui.
Como é usual nestas questões, há gente que lê e compreende; há gente que não lê e dispara opiniões pessoais mal fundamentadas; e há muitos que lêem e não compreendem, mergulhados num analfabetismo funcional de taberna (muito em voga nos dias que correm).
Somente quem tem um umbigo muito grande não compreenderá a necessidade da intervenção que será feita na estrada entre a Guarda (Campo do Gerês) e a Albergaria. Talvez ajudaria passar por lá em duas épocas: nestes dias de invernia (onde o piso tem mais crateras do que a superfície da Lua) e no pico do Verão (para respirar um fino pó).
Há que ter em conta que a interveção que será realizada terá os seus condicionalismos e que não será tudo feito "à vontade do freguês". De recordar que o trajecto em questão integra o domínio do Estado sob gestão do Instituto da Conservação da Natureza, I.P. (ICNF), atravessando a Mata Nacional do Gerês que também é domínio privado do Estado sob gestão do ICNF.
Note-se que a proposta apresentada pelo Município tem como objectivo garantir melhores condições de circulação naquela via, por um lado, e contribuir para a preservação dos valores naturais num território sujeito a uma crescente pressão turística. As intervenções que serão realizadas deverão dotar a via das condições necessárias para permitir a circulação de viaturas prioritárias e residentes em total segurança.
Para além dos óbvios benefícios em termos de preservação, a intervenção irá permitir a utilização da via em segurança, possibilitando a compatibilização das distintas formas de uso e circulação, sendo a manutenção essencial para garantir a circulação de viaturas prioritárias de emergência e socorro ou das equipas de vigilância, bem como beneficiar a sua utilização por parte dos residentes,
Assim, a intervenção ten duas vertentes óbvias: a protecção de um património natural único e o melhoramento das condições de circulação tanto para viaturas prioritárias como para os residentes. Este é um ponto fundamental que deveria ser concisamente explicado tanto pelo ICNF, bem como pelo Município de Terras de Bouro, coisa que até agora não foi feita, pois não basta dizer que as pessoas devem "ir dar a volta para não ficar chateadas com a intervenção"...
O melhoramento da via irá trazer condicionantes, nomeadamente: o condicionamento do fluxo de trânsito no Verão com a colocação de barreiras físicas em pontos determinados, a instalação de sistemas físicos permanentes para a redução da velocidade, limitação da velocidade a 20 km/h devido à coexistência com peões, instalação de sinalética de trânsito e aviso geral sobre a zona percorrida, etc. Por outro lado, e durante a intervenção, estas acções deverão impactar o menos possível na Natureza e ser realizadas em épocas que não afectem a fauna e flora existentes, deverão ser protegidas e devidamente preservadas as linhas de água e respectiva flora ribeirinha, e devem ser preservadas as bordaduras naturais existentes (preservando árvores e espécies arbóreas protegidas; podendo no entanto haver a necessidade de corte ou poda singular).
Esperemos, certamente, que estas condicionantes sejam cumpridas e que a vigilância naquela via (tanto pelo ICNF, como pelos elementos da autoridade) venha a aumentar para evitar abusos quer por visitantes, quer por residentes, caso contrário, a intervenção não tem qualquer sentido.
Tanto com a intervenção que agora será efectuada, como sem ela, o respeito pela Natureza e pelas regras de visitação do Parque Nacional da Peneda-Gerês é basilar em toda esta questão. É sempre fácil dar palpites quando não se sofre as consequências da utilização de qualquer elemento que encontramos no nosso dia-à-dia ou somente quando usufruimos de algo quando este se encontra em boas condições (como é o caso da circulação na Estrada da Geira na época do estio). Seria fácil convidar a NASA a testar os seus veículos de Marte ou as suas sondas de superfície lunar nas condições em que aquela estrada se encontra no Inverno, ou testar fatos de mergulho nas enormes poças que se formam quando chove. Porém, isso não resolveria o problema.
Malditos Romanos que ali abriram uma estrada...
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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