Um dos velhos abrigos pastoris no Vidoal, Serra do Gerês, abriga hoje um azevinho engalanado para os dias frios que vão chegar.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Um dos velhos abrigos pastoris no Vidoal, Serra do Gerês, abriga hoje um azevinho engalanado para os dias frios que vão chegar.
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O Outeiro Moço surge elevando-se sobre o Prado do Vidoal coberto de quitamerendas, um prenúncio da chegada ao Outono à Serra do Gerês.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Caminhada a Porta Roibas em pleno Verão. Enquanto a manhã proporcionou uma boa temperatura para a jornada, o regresso da parte da tarde tornou-se numa caminhada dura por uma serra escassa de água.
A jornada pela Serra do Gerês que nos leva a Porta Roibas, é uma experiência única de montanha em todo o Parque Nacional da Peneda-Gerês. A caminhada leva-nos por largas paisagens, férteis currais e cenários de rocha em vales profundos. Esta é uma caminhada que não é fácil devido à sua extensão e mais difícil se torna nos dias quentes.
Porta Roibas apresenta-se quase como um marco montanhoso em toda a Serra do Gerês e a jornada até lá leva-nos a percorrer uma das zonas mais selvagens da serra, seguindo por um percurso que, iniciado nos Prados da Messe e dirigindo-se para Nascente, nos poderá levar a Borrageiros e à mina que se abriga à sua sombra.
Em Porta Roibas encontramos um pequeno curral, exemplo do aproveitamento dos espaços por parte do homem serrano que viu ali como que uma fortaleza para guardar os seus animais durante os longos dias de vezeira. Se uma parte está defendida pelo promontório granítico que o caracteriza à distância, o curral abre-se para o abismo da Corga de Valongo encimado pelas Quinas da Arrocela. Mesmo ali adiante, o alto de Borrageiros é outro ponto distinto na paisagem, um colosso titânico adormecido e para o qual olhamos com reverência e respeito.
O percurso para chegar a Porta Roibas iniciou-se na Portela de Leonte passando pela Chã do Carvalho (ou Chã do Carvalho de Leonte) após ultrapassar o inclinado caminho que ora nos surpreende pelo ziguezaguear subindo a Costa do Morujal, ora nos surpreende para dimensão de uma «calçada», fruto de um árduo trabalho para facilitar o acesso às pastagens mais altas. Atrás de nós, o gigante farol da serra vai ganhando corpulência e o Pé de Cabril ergue-se majestoso contra os céus que o veneram como um deus adormecido. Para lá da chã, e num declive mais suave, chegamos ao Vidoal contemplando a imponência do Pé de Medela e de Carris de Maceira na continuação de um quadro rochoso que nos assombra ao passar pelas profundezas da Corga da Cântara (e do Cabeço da Cântara), pela verticalidade da Roca d'Arte e pela altivez de Sineiros e Lavadouros.
Deixando o Vidoal para trás, e ladeando o Outeiro Moço por Norte, chegamos ao Colo da Preza para contemplar o longo Vale de Teixeira. Daqui, sobe-se à Chã da Fonte e continua-se para o Curral do Conho passando a Portela de Sineiros, Lamas de Borrageiro, Chã do Caçador e Lomba de Pau, subindo e descendo pequenas corgas.
Antes da descida para o Conho, facilmente se observa o nosso destino logo a seguir à imensa garganta que se abre em Fechinhas e se afunda às Sombrosas. Passando o Curral do Conho e seguindo o percurso da vezeira com as Albas como pano de fundo, passa-se o Ribeiro do Porto de Vacas e segue-se para o Curral da Pedra. Antes de chegar aos Prados da Messe devemos flectir à direita e descobrir as mariolas que nos levarão a entrar no Gerês quase selvagem.
Após entrarmos no pequeno vale que se segue aos Prados da Messe e de seguir pelo Rendeiro com o seu portelo, vamos superar a primeira encosta caracterizada por uma série de mariolas e aqui teremos duas opções para chegar a Porta Roibas. Seguindo o percurso devidamente assinalado por grandes mariolas, vamos chegar perto do Curral de Premuinho. De facto, é mesmo na corga anterior que devemos seguir à direita também por um carreiro marcado com mariolas e recuperado, e que nos levará a Porta Roibas! Ou então, mesmo antes de chegar a uma pequena corga, podemos baixar ao Curral de Bezerros e a partir daqui, olhando com atenção para a vertente que segue em direcção ao nosso objectivo, descortinar as velhas e pequenas mariolas que vão resistindo à passagem do tempo e que nos idos passados marcavam a ligação até às planuras que antecedem Porta Roibas e que nos levam a contemplar o imenso vale glaciar que se abre da Mourisca até Fechinhas.
Seguindo o carreiro em direcção a nascente e virando a Sul, tomamos a direcção do nosso objectivo, caminhando por um carreiro que nos oferece (mais) uma paisagem de assombro ao caminharmos ao longo da Corga de Valongo e com o alto de Borrageiros a dominar a paisagem. O cenário que aqui se cria, colorido de granito e recheado de vazio pelos alcantilados que se projectam desde o fundo dos vales, é digno de um poema, uma jóia cénica que a Serra do Gerês nos oferece e que espanta a cada visita.
O já, mais do que merecido descanso fez-se então à sombra do pequeno carvalho que contempla o Curral de Porta Roibas por entre a imensidão do silêncio que se instala. Ali, domina a tranquilidade e a grandeza dos grandes espaços!
A jornada de regresso foi feita seguindo os mesmos carreiros que me levaram a Porta Roibas.
Por muitas vezes que caminhe por estas paragens, haverá sempre algo que me desperta a curiosidade e me leve a decidir voltar «em breve». Isto pode ser o vestígio de um velho abrigo, um carreiro manhoso ou várias mariolas perdidas por entre paisagem no meio do nada. Compreender os locais por onde passámos e conhecer a sua história, ajuda-nos a sentir a caminhada de modo diferente. Ignorar a sua história e achar que aquilo está ali somente por nossa causa, é apenas egoísmo e pura estupidez de quem não sabe e nem compreende onde está. Não falta gente assim...
Esta caminhada foi organizada pela RB Hiking & Trekking.
Ficam algumas fotografias do dia...
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
A subida ao alto do Borrageiro é uma caminhada relativamente fácil, apesar de exigir um esforço de ascensão quase desde o princípio. A paisagem da Serra do Gerês, inicialmente escondida nos pequenos vales, revela-se a cada passo através dos carreiros seculares que nos levam às relativas planuras graníticas.
De desespero para alguns, estes pequenos percursos ajudam-nos a revelar a essência de um mundo que se pode tornar uma paixão. As grandes jornadas exigem um sacrifício a que muitos não estão dispostos; as pequenas jornadas podem tornar-se gramdes desafios. De facto, e em todas estas jornadas longe do rebuliço sazonal - e parafraseando Edmund Hillary, "não é a montanha que conquistamos, mas a nós mesmos." Esta satisfação da «nossa própria» conquista tem ainda uma maior dimensão quando vemos os mais novos a saborear em pleno os prazeres da Natureza e onde o "Imenso" se torna nas suas conquistas.
"O cume é para o ego, a jornada para a alma"
A nossa jornada começou na Portela de Leonte. Manhã tépida e a prometer um desafio quando as resteas de orvalho se evaporarem ao Sol, iniciamos a subida da Costa do Murjal seguindo pela velha calçada que nos ajuda a ir ganhando altitude até à Chã do Carvalho (ou Chã do Carvalho de Leonte).
Caminho inumeras vezes calcorreado, o Pé de Cabril serve de guardião da paisagem que se revela a cada passo por entre a vegetação a contar os dias para a chuva (que, espante-se, até nos iria brindar mais tarde). O caminho ziguezagueia (en)costa acima por entre uma infinidade de arvoredo de onde espreitam os pequenos carvalhos, medronheiros, azevinhos e os tímidos teixos, além de outras árvores que prenunciam, noutras direcção, a entrada no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Quando nos habituamos a ter por derto aquilo que nos é próximo, não nos apercebemos que um mais pequeno descuido pode, em poucos minutos, destruir o que levou séculos a criar. É esta a sensação que eu tenho sobre as considerações de muita gente acerca do valor do património natural que nos banha a retina quando, passados a Chã do Carvalho, se nos abrem os vales tapeteados da Mata de Albergaria. Muitas vezes são «os de fora» que valorizam aquilo que vemos, numa tomada de consciência sobre algo que não esperavam ver.
Em 1792, Link comparava os arvoredos da Albergaria à grandes florestas da sua Alemanha natal "e até mesmo às da Inglaterra," tal como nos relata Ricardo Jorge no seu "Guia Thermal" (pág. 10, 1891).
Antes da chegada ao Prado do Vidoal, a paisagem presenteia-nos com o Vale do Rio Maceira coroado pelo Pé de Medel, Carris de Maceira e pelo Cabeço da Cantâra, numa paisagem enrugada que nos leva desde o Pé de Cabril, Cancelo, Costa de Bemposta, Colado Seco, navegando pelo mar verde da Albergaria, Corneda, Roca d'Arte, Cabeço de Lavadouros e Outeiro Moço. Isto é Natureza e História em toda a sua planitude.
A passagem no Prado do Vidoal dá-nos o testemunho da ocupação secular do território pelas vezeiras. O olhar atento irá certamente descobrir os diferentes abrigos que por ali foram utilizados ao longo de inumeros verões; nos nossos dias, resta o abrigo pastoril que terá sido edificado com a ajuda dos Serviços Florestais para dar abrigos aos seus trabalhadores e aos pastores que nas vezeiras velavam os animais.
Com o dia a aquecer, mas com uma brisa a ajudar pela manhã, a jornada continuou em direcção ao Colo da Preza, ladeando-se o Outeiro Moço com a sua forma característica que lhe dá o nome. Com um céu azul e uma refrescante brisa, a chegada à Preza maravilhou-nos com a paisagem do Vale de Teixeira - nosso eventual destino. Até lá, faltava ainda uma légua que nos faria passar pelo alto do Borrageiro, com o seu decrépito marco geodésico e os restos de uma velha antena de comunicações que há muito já deveria ter sido dali removida.
Tomando um carreiro que se inicia pouco depois do velho marco delimitador do perímetro da Mata Nacional do Gerês, as pernas sentem o esforço da subida que se faz de forma pausada. A cada passo, a paisagem afunda-se na profundidade do olhar que já abarca os limites castrejos da área protegida. Passando a Chã da Fonte, continuamos a subir com o objectivo de chegar à Fonte da Borrageirinha cuja água fresca já nos acalma a pele e dá-nos o alento para conquistar o inútil.
Estamos agora nas proximidades da Portela de Sineiros e seguimos em direcção ao Arco do Borrageiro. Esta estrutura natural é resultante dos efeitos da erosão natural e era já um ex-líbris do Gerês clássico, surgindo em alguns velhos postais. Curiosamente, existe uma estrutura que eventualmente poderá dar origem a um novo arco após eras de erosão... já não será para os nossos olhos.
Sendo denominado "Arco do Borrageiro" - o nome vem certamente da sua atribuição nos tais postais de finais do século XIX, princípios do século XX -, este encontra-se um pouco afastado do alto do Borrageiro. Assim, será que em tempos a sua designação teria sido outra? É algo para reflectir em algum momento...
Deixando o Arco do Borrageiro, segue-se então para o pináculo altimétrico da nossa jornada: o cume do Borrageiro. No grupo, dois valorosos montanhistas de 8 e de 12 anos. A partir de certo ponto no caminho, foram eles que seguiram na frente, orientados pelo guia da RB Hiking & Trekking. Conquistando cada declive, salvando cada salto, seguindo cada mariola, a subida fez-se de desejo da conquista. A jornada até lá estava já na alma, faltava saciar o ego! O cume foi vencido às 12h37 quando o velho marco geodésico testemunhou a alegria da conquista e a satisfação e plenitude da ânsia de tudo abarcar com o olhar. A sensão do imenso envolve os irmãos e as montanhas não têm já limites para os seus desejos e conquistas.
Esta parte da jornada estava feita! Faltava o resto, e que resto seria. Iniciando a descida do Borrageiro, seguiu-se em direcção à Chã de Roca Negra, antigo curral à sombra do duplo cume que ainda guarda os restos do seu curral alagado. Dali, a visão da Meda de Rocalva, do colosso de Iteiro d'Ovos e do cume de Borrageiros, altivo à distância.
Caminha-se através do silêncio e até o restolhar da carqueja parece silenciar-se ao raspar nas botas. Por vezes, surge o eco das vozes na penedia e o vislumbre de velhos muros mostra que até os lugares mais recônditos tiveram a sua utilidade nos dias em que as noites de Verão se transformavam em infernos de Inverno ou na vertigem da fuga do contrabando.
Seguindo a Sul, começamos a calcorrear as vertentes altivas do Vale do Cando encimado pela Roca Negra com as suas paredes aprumadas. As vertentes mergulham no vazio em vertiginosas exclamações de espanto e olhar calcorreia a paisagem em busca de vida no vislumbre de uma cabra-montês que vigia a imensidão, marcando o seu território. O cenário compõe-se e vai-se alterando a cada passo com a perspectiva dos cumes que se deslocam em cenários de imensidão onde a montanha do Gerês - de Bouro a Barroso - ganha a pujança dos grandes espaços e que em nada fica trás das suas primas europeias.
Mariolado, o carreiro leva-nos a passar junto do Cabeço do Cando (erradamente designado como "Chã de Pinheiro" no OSM) e Eira Bonita, onde flectimos à direita para seguir para a vasta vertente granítica que nos levará à Chã de Pinheiro e daqui seguir para a Corga de Fitoiros Negros que nos dá passagem para o Vale de Teixeira, local do já merecido descanso e repasto.
Entretanto, os céus haviam-se trasmutado de um azul puro para uma amalgama de nuvens carregadas de água e furiosas de electricidade. A nossa próxima passagem seria o Curral de Camalhão. Já ao longo do dia, havíamos testemunhado o efeito dos dias secos na serra: os regatos estão exangues de água, as pequenas fontes estão há muito secas e as árvores começam a sentir o stress de falta de água... em alguns sítios, parecia Outono ao caminharmos em tapetes de folhas secas. De facto, e com o calor que se faz sentir, não tarda teremos os sinais de um Outono antecipado, mas que ainda estará longe, quando os quitamerendas começarem a decorar a paisagem mais cedo do que é usual.
A passagem pelo Curral do Camalhão foi presenteada por um aguaceiro que acalmou o ambiente do calor abafado que se fazia sentir e alguns preferiram os espaços abertos ao abrigos dos carvalhos. As pesadas gotas de chuva surgiam como um alívio na pele quente. Porém, a chuva era efémera e depois de dois ou três trovões, voltou o calor e o desejo da água.
Passando o Camalhão de Baixo e chegado ao Curral de Camalhão, esvaiu-se a vã esperança de ali haver água. Os regatos estão secos e a fonte recorda com saudade a água fresca que nos oferece. Nestes dias, saber onde obter água nas jornadas serranas é um conhecimento valioso. Entravamos na Garganta da Preza por onde escorre, lamacento e ludoso, a triste memória do ribeiro que mais adiante alimentará o Rio Arado. Restam os chagos estagnados onde os pequenos anfíbios vivem na esperança de dias de chuva.
A subida era já penosa pelo cansaço que o calor da tarde infligia nos corpos. A água nos cantis era quente, boa para acalmar a sede, mas má para dar-nos a sensação de alívio de algo refrescante. Seguíamos então em direcção ao Curral do Junco onde sabia existir uma pequena zona alagada e um velho tanque que em tempo idos serviu o velho forno pastoril ali existente. Ora, havendo o pequeno tanque, seria uma questão de procurar a nascente que alimenta o charco e a zona húmida. Desviando alguma vegetação e brotando da rocha-mãe, a visão da água fresca a escorrer nas fendas graníticas deu-nos a mesma sensação da descoberta de ouro. Pacientemente, os cantis e pequenas garrafas foram cheias com a água que criava condensação e os corpos, finalmente, encontravam a satisfação e o prazer da frescura por entre o ambiente tórrido e abafado que se sentia.
Passando o Curral do Junco, chegavamos de novo ao Caolo da Preza e iniciavamos a descida que nos levaria de volta à Portela de Leonte passando o Prado do Vidoal e a Chã de Carvalho.
Ficam algumas imagens do dia...
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)