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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Trilhos seculares - Da Portela do Homem à Cigarra, Premuinho e Messe

 


Com os dias de Primavera e Verão, chegou a época das grandes jornadas nas quais podemos ficar mais tempo na montanha ou então alongar um pouco mais os nossos percursos, tendo em conta as condições que a meteorologia nos oferece. Se por um lado, os dias de calor nos permitem as caminhadas mais longas, o calor excessivo traz desafios que podem ser mais complicados numa paisagem onde as fontes de água escasseiam. 

O meu objectivo nesta incursão na Serra do Gerês era fazer um «grand tour», passando por Borrageiros e Curral de Premoinho, este na continuação do percurso para atingir o primeiro. Assim, e aproveitando os dias que se vão encurtando - mas que ainda começam cedo - enveredei pela familiar paisagem do Vale do Alto Homem que já tantas vezes percorri para atingir as Minas dos Carris. Este é um local que nos permite os grandes espaços, antecipando horizontes de longas e largas distâncias e perspectivas únicas. Não que fosse a primeira vez, certamente não será a última, mas é sempre uma experiência única.





O percurso ao longo do Vale do Alto Homem inicia-se a uma altitude de 720 metros e rapidamente nos apercebemos que não será um caminho fácil para os mais desprevenidos. A sua dificuldade vai aumentando ao longo do percurso não tanto pela inclinação, mas mais pelo estado do próprio caminho. Em quase toda a sua extensão o caminho é na sua maioria composto por pedra solta que dificulta a progressão. São escassas as extensões em que o terreno é suave, uma vã memória dos tempos em que era percorrido por carros e camiões que serviam o complexo mineiro dos Carris nos anos 40, 50 e 70, do século passado.

Na sua totalidade o caminho segue a margem esquerda do Rio Homem e o seu rumor por entre as rochas acompanha-nos quase sempre, silenciando-se, porém, nestes dias em que o calor vai tornando o seu leito mais exposto.

Este percurso está inserido num vale de extrema importância para o Parque Nacional da Peneda-Gerês e que está integrado numa das duas áreas de protecção total existentes naquela área protegida, logo convém solicitar uma autorização ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para o percorrer.

No início dos anos 90 ainda era possível observar ao longo do Vale do Alto Homem uma linha de postes de madeira sobre os quais assentava o cabo metálico do telefone, que permitia as comunicações com o complexo mineiro. Os vestígios destes postes já despareceram quase na sua totalidade, mas ao longo do caminho vamos observando um ou outro pequeno muro, ou um ou outro alinhamento de pedras que nos podem sugerir a existência, em tempos, de uma rude estrada serrana. O primeiro sinal sólido da existência de algo mais complexo na serra, surge-nos junto da zona que dá pelo nome de ‘Água da Pala’. Aqui, e já coberta pela vegetação, observamos à nossa esquerda uma área delimitada por um pequeno e baixo muro. Em tempos terá servido de curral para abrigo dos rebanhos. Do lado direito podemos observar, também por entre a vegetação, uma pequena construção com tijolos de cimento que nos dá a ideia de ser uma pequena guarita, mas que já foi referenciada como um pequeno abrigo dos cantoneiros que mantinham o estradão em estado de circulação. 





Na Água da Pala iniciava-se um carreiro de pé posto que atravessava o Rio Homem e subia ao longo do rio pela sua margem direita no sopé da Encosta do Sol até atingir o topo do Cabeço do Modorno, algumas centenas de metros após atravessar novamente o Homem sensivelmente à cota de 1050 metros de altitude. Não havendo registos cartográficos deste trilho em direcção à zona dos Carris, documentos fotográficos atestam a sua continuação para as zonas mais elevadas da serra. Quem observa a Encosta do Sol a partir da Água da Pala, terá a sensação de ainda poder vislumbrar o traçado deste pequeno trilho que, sem dúvida, nos proporcionaria uma visão distinta do vale.

Após passar a Água da Pala, o percurso entra numa zona mais plana. Até aqui, e olhando para a nossa direita, temos a oportunidade de observar os picos escarpados que delimitam os Prados Caveiros. Esta fase mais plana do trilho segue pela Ponte do Cagarouço (Cagarrouço) sobre a Ribeira do Cagarouço, um pequeno afluente do Rio Homem que parece surgir das escarpas da Ravina do Cabeço da Porca. É nesta fase que o caminho se volta a inclinar ligeiramente e ouvimos o rugido do jovem rio a poucos metros de distância. Por entre a vegetação é por vezes fácil ter um olhar sobre lagoas que no Verão são sempre uma forma de retemperar forças.





O trilho ultrapassa a cota dos 1000 metros de altitude, a poucos metros de entrarmos numa fase do caminho onde vamos superar vários metros de altitude em pouca distância, ultrapassando assim um bom declive. Em Carvalhas Vrinhas, o percurso flecte para a direita no que são conhecidas como as ‘Curvas do Febra’ e em pouca distância subimos 30 metros em altitude antes de flectir para a nossa esquerda. Nesta parte do caminho podemos ter uma imagem do Vale do Homem só superada pela paisagem que nos aguarda poucos metros após a passagem da Ribeira do Modorno. Poucos metros mais à frente entramos numa parte do caminho que é ladeado, à direita, por uma parede sólida de granito e, à esquerda, por uma queda de 50 metros que termina no Rio Homem. O declive aqui é notório, mas o esforço para chegar à meia distância merece a pena.

Somos chegados a meio do caminho e o descanso na Ponte do Modorno é merecido. A água da ribeira é sempre fresca e corrente, mesmo no Verão. Ao entrar neste pequeno vale temos a visão de uma pequena queda de água por debaixo da ponte e são poucos os que resistem a uma fotografia. Situados na ponte em direcção ao final do vale, por onde vemos o Rio Homem, temos à nossa direita o imponente Cabeço do Modorno, uma escarpa granítica que atinge os 1317 metros de altitude. Conheci todas as pontes até ao Modorno já em cimento, mas o meu fascínio por estes espaços começou a ser despertado pelas velhas pontes de madeira que antigamente permitiam a passagem célere e um tanto ou quanto aventureira.

Logo após abandonar a Ponte do Modorno e seguindo o velho caminho mineiro, vamos encontrar uma das mais fantásticas paisagens que a Serra do Gerês e o Parque Nacional têm para nos oferecer. É com deslumbre que observamos o Vale do Alto Homem e a forma como este se projecta no céu. O seu delimitar pelos picos serranos leva-nos a imaginar, sonhar um mundo antigo. É aqui que nos começam a faltar as palavras... Ao longe vemos a Serra Amarela e com bom tempo facilmente se vislumbram as antenas do Muro localizadas no Alto da Louriça, bem como o Alto das Eiras e a Cruz do Touro, já nos extremos geresianos, ou a magnificência da Quelha do Palão e da Água dos Vidos.




Saindo do pequeno vale da Ribeira do Modorno entramos novamente no Vale do Alto Homem e logo ali à nossa frente observamos uma estreita queda de água com uma altura superior a 110 metros, a Água da Laje do Sino. Toda este zona nos dá paisagens deslumbrantes em, ou após, dias de chuva com as paredes rasgadas pelos cursos de água que se precipitam no vale, ou então nos frios dias de Inverno com a imagem das quedas de água geladas que se amarram às paredes graníticas.

Prosseguindo ao longo do vale vamos ganhando altitude, atingindo os 1200 metros de forma suave. Nesta fase o trilho chega a complicar-se devido ao estado do «pavimento». O Rio Homem é, nesta fase, constituído por uma série de pequenos ribeiros que têm origem nos inúmeros vales que se rasgam do topo da serra. Aos 1200 metros de altitude, na zona do Teixo, o trilho flecte ligeiramente para a direita seguindo um dos pequenos cursos de água que, juntamente com o ribeiro do Corgo dos Salgueiros da Amoreira, dá volume ao Rio Homem. O caminho segue a base da Rocha da Água do Cando, passando pela Ponte das Águas Chocas (1285 metros) e entrando nas Abrótegas até atingir a Ponte das Abrótegas (1325 metros). As Abrótegas definem, juntamente com o Outeiro Redondo, um pequeno planalto que é atravessado pelo caminho até atingir e seguir ao longo da base do contraforte dos Carris.

Foi nesta chã onde esteve montado entre 17 e 19 de Setembro de 1908 o acampamento da primeira expedição venatória levada a cabo na Serra do Gerês. Neste planalto têm origem vários carreiros de pé posto, sendo o mais interessante aquele que segue para as Mina Mercedes As Sombras (Galiza, Espanha) e para os Cocões do Coucelinho (através das Lamas de Homem) e, mais tarde, Mina de Borrageiros e Lago Marinho.

Foi este mesmo caminho que segui nesta incursão. Entusiasmado pela brisa fresca que facilitava a progressão, segui em direcção a Lamas de Homem, tendo a companhia de vários cavalos semi-selvagens que por ali pastavam juntamente com os animais das vezeiras da região. Em pouco tempo chegava aos Currais das Lamas de Homem, - o Curral do Roquinha (designação atribuída a dois deles, tendo um deles um abrigo pastoril) e o Curral do Freiria. 





Entrando no Quelhão, iniciava a descida para as faldas dos Cocões do Coucelinho tendo como paisagem distante, a zona do Lago Marinho e de Lagoa. É por aqui que a Serra do Gerês adquire o estatuto dos grandes espaços e os adjectivos tornam-se menores para classificar o que os nossos olhos abarcam. Por entre outras paisagens Geresianas, aqui é o Gerês em toda a sua pujança. É nestas alturas onde a Serra Mãe enche os pulmões de ar e grita a sua beleza única e inigualável!

Caminho em direcção aos Cocões do Coucelinho e a paisagem é notável! Os Cocões do Coucelinho, com as suas paredes quase a prumo, abrigam um curral (Curral do Colástica ou "Coucões do Coucelinho") juntamente com outras áreas muradas (sestas). Característica do local, é a presença de diversas moreias glaciares que povoam a paisagem de forma caoticamente ordenada.




No Quaternário, mais precisamente no Plistocénico (há cerca de 1.8 Ma a 10 000 anos), ocorreram importantes variações climáticas à escala do globo que se caracterizaram pela alternância de períodos glaciários (muito frios) e interglaciários, com glaciações a atingirem, inclusivamente, as latitudes médias. Nas serras da Peneda e do Gerês foram identificados vestígios dessas glaciações, dos quais merecem especial destaque o Alto Vale do Vez e zona de Cocões de Coucelinho - Lago Marinho (vales com perfil em U; moreias; circos glaciários; superfícies de granito polidas, estriadas e com sulcos; e depósitos glaciários).





Seguia agora na direcção da Mina de Borrageiros, mas a certa altura, decidi deixar o carreiro - passando «ao largo» do secular complexo mineiro - e seguir pelas paredes granítica fraturadas, chegando ao carreiro que me levaria em direcção à Cigarra já a Norte de Borrageiros. O carreiro entre na parte superior da Corga das Mestras que vai-se fechando até se alargar novamente já na sua parte superior no que parece ter sido um velho curral. Estamos na Cigarra e na margem oposta, vemos o tronco seco do Pinheiro da Cigarra.

Em tempos, Ulisses Pereira, de Cabril, escrevia sobre o Pinheiro da Cigarra, "O Pinus Sylvestris L., é uma árvore que está em regressão desde o final da glaciação de Würm, É uma espécie documentada desde o século XVIII com os núcleos de Biduiça e Matança a verem o seu carácter de árvore autóctone da Serra do Gerês na sequência de recentes estudos genéticos, sendo assim as únicas populações autóctones conhecidas em Portugal. 

São árvores com cerca de 40 metros de altura e é muito comum ultrapassar em termos de longevidade os 250 anos, em Portugal só prósperam acima dos 700 metros. 

Além dos núcleos de Biduiça e Matança, existem alguns pinus sylvestris l. isolados na serra do Gerês como é o caso dos de Lamalonga e da Cigarra que serão provavelmente os mais antigos. O Pinheiro da Cigarra sempre foi aquele que junto das populações mais admiração causou, sendo muito comentado e quase todos o conhecem. Sempre causou estranheza essa árvore sozinha no meio do nada, um pinheiro grande, que sempre se lembram de ser assim, nem maior, nem mais pequeno, já os avós e bisavós assim o conheceram. A Cigarra e o seu pinheiro sempre foi um dos lugares mais místicos da serra do Gerês, sempre foi olhado pelos pastores e populares como um lugar diferente, um lugar onde existiam encantamentos e grandes tesouros que era necessário quebrar o encanto, dizem que para esses encantos quebrar é necessário um padre e o livro de S. Cipriano (livro muito famoso nestas populações) e acima de tudo não ter medo!!! Os mais velhos contam que alguns já tentaram, mas sem sucesso, e os grandes tesouros por lá continuam. É na Cigarra que também existe o penedo que tem uma viola desenhada, também ela uma pedra encantada, era também na Cigarra que começava a Serra dos Bois, para as populações locais era o começo da serra alta, um lugar reservado só aos bois, as vacas não poderiam pastorear por estas bandas, era-lhes proibido."

De facto, o Verão de 2017 foi fatal para o Pinheiro da Cigarra que acabaria por morrer devido à passagem de um incêndio. Curiosamente, a zona é agora populada por dezenas que pequenos pinheiros que continuam a fama do Pinheiro da Cigarra que, sendo isolado e único no local, se procriou em inúmedos descendentes.





O carreiro, assinalado por grandes mariolas, vai-nos levar a entrar na Corga de Valongo (ou Corrego Cambeiro) para chegarmos ao Curral de Premuinho. Pelo caminho, um vislumbre à velha exploração mineira de Valongo e uma passagem pela Fonte de Valongo, valiosa como ouro num dia que começava já a aquecer. 

Tendo como pano de fundo os altos familiares de Porta Roibas, Iteiro d'Ovos, Rocalva e Roca Negra, o meu caminho apontava às Albas que já elevavam sobre os Prados da Messe. Antes, uma passagem pela Fonte de Premuinho sempre abundante mesmo nos dias de calor. O carreiro percorre pequenas corgas e vales, oferecendo múltiplas perspectivas da paisagem deste Gerês profundo, levando-me a passar pelo Rendeiro já com a vista das Velas Brancas e do Vale de Fechinhas. Passando o Rendeiro, chegava então aos silenciosos Prados da Messe, local do já mais do que merecido descanso e repasto.

Com o calor já a ocupar o lugar central no dia, restava a descida final pela Costa de Sabrosa. A saída dos Prados da Messe fez-se junto das ruínas da valha casa dos Serviços Florestais, seguindo em direcção à Lomba de Burro. O caminho passa então pela Corgas dos Vidros e segue para a Lameira das Ruivas antes de passar sobre a Sabrosa. Um pouco adiante, inicia-se a descida da Costa de Sabrosa que nos levará até às proximidades da velha Casamata dos Serviços Florestais na Mata de Albergaria.

A parte final da jornada fez-se pela confortável sombra da mata, percorrendo os quilómetros finais através da Geira Romana que me levaria ao ponto de partida na Portela do Homem.

Ficam algumas fotografias do dia...























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCXXXI) - Sorveira em Lamas de Homem

 


Uma magnífica sorveira (Sorbus aucuparia) em todo o seu esplendor em Lamas de Homem, Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sábado, 3 de junho de 2023

Trilhos seculares - Pelo Vale do Homem a Borrageiros e Prados da Messe

 


Este foi daqueles dias que nasceu com ar pesado e zangado, como se viesse logo de manhã a avisar que os bombos do céu iriam troar de forma violenta. Pela manhã sabia que a volta iria ser comprida: a subida do Vale do Homem e a viragem para Borrageiros estavam já previsto, o resto logo se veria.

Assim, como de costume, manhã cedo calcorreávamos já o caminho pedregoso que em tempos foi uma estrada mineira que levava aos altos serranos do Gerês. A manhã compunha-se por entre a brisa e a passagem das nuvens, com o calor pesadamente tropical a instalar-se de mansinho. O que começara com um céu quase limpo, era agora uma tela azul onde as nuvens se acastelavam e garantiam o seu lugar no palco do espectáculo que mais tarde iria ter lugar.


Eram também os dias dos lírios estes apareciam de forma tímida aqui e ali pelo vale, engalanando-o como se um fosse um apressado príncipe atrasado para um baile de poucos dias. A floração e a sua beleza é efémera perante o imparável correr da água na clepsidra. 

Percorrido o Vale do Alto Homem, tomamos o carreiro que nos levou pelas Lamas de Homem até aos vários currais que antecedem a chegada ao Quelhão. Mais uma vez, junto dos Currais de Lamas de Homem, deparei-me com os restos de uma enigmática construção que ali existiu há muitos anos e da qual não existe qualquer registo escrito ou falado. Um mistério para ser resolvido!

Descendo o Quelhão, o horizonte abre-se para o Curral de Maceira e para o largo vale do Couço (Couce) com os seus inúmeros currais. Impera a tranquilidade e o silêncio por estas partes da Serra do Gerês à medida que descemos de forma periclitante para as chãs que antecedem os Cocões do Couçolinho (Coucelinho, Concelinho). Estes são velhos caminhos das vezeiras que nos levam a abrigos pastoris já quase esquecidos entre o mato.


Os Cocões do Couçolinho são um verdadeiro testemunho histórico das glaciações na Serra do Gerês. No Quaternário, mais precisamente no Plistocénico (há cerca de 1,8 Ma a 10.000 anos), ocorreram importantes variações climáticas à escala do globo que se caracterizaram pela alternância de períodos glaciários (muito frios) e interglaciários, com glaciações a atingirem, inclusivamente, as latitudes médias. Embora sejam poucas as formas claramente glaciárias, nas serras da Peneda e do Gerês foram identificados vestígios dessas glaciações, dos quais merecem especial destaque os do Alto Vale do Vez e zona de Cocões do Couçolinho - Lagoa do Marinho (vales com perfil em U; moreias; circos glaciários; superfícies de granito polidas, estriadas e com sulcos; depósitos glaciários).

Depósitos fluviais, torrenciais e glaciários constituem as formações geológicas mais recentes na área do Parque e encontram-se presentes em diversos pontos, sendo de destacar os de origem glaciar na Ribeira de Couce, Lago Marinho e no Alto Vale do Rio Vez.


Os Cocões do Couçolinho abrigam um curral - Curral do Colástica (ou Curral dos Cocões do Coucelinho) - com outras áreas muradas (sestas). Característica do local, é a presença de diversas moreias glaciares que povoam a paisagem de forma caoticamente ordenada.

Deixando a zona de Cocões do Couçolinho, tomava o carreiro que me levaria à Mina de Borrageiros, ladeando o Alto do Caçador e Candoz. Apesar de próximas e de compartilharem o mesmo veio filoneano, nunca houve uma relação entre os trabalhos realizados na Mina de Borrageiros e nas Minas dos Carris. No entanto, as histórias destes dois complexos mineiros vão-se cruzar em finais dos anos 70 e princípio dos anos 80 quando acabam por ser consideradas como um único campo mineiro.


Para lá dos registos oficiais disponíveis do Instituto Geológico e Mineiro e no arquivo da Circunscrição Mineira do Norte, é difícil escrever a história desta mina devido à ausência de testemunhos pessoais.

O manifesto mineiro para a mina de ‘Borrageiros’ foi entregue na Câmara Municipal de Montalegre a 18 de Setembro de 1916 por José Frederico Lourenço da Cunha, de 32 anos e residente em Caminha, que descobriu naquele local por inspecção de superfície uma mina de volfrâmio e outros metais. O ponto de partida para a demarcação da concessão mineira 949 ficou definido a 300 metros a partir do alto dos Borrageiros medidos no rumo nascente, seguindo até ao Penedo Redondo, daqui até ao Ribeiro do Couce e o curso do mesmo ribeiro até à sua nascente, confrontando pelo nascente com o marco geodésico de Chamições (Chamiçais), do poente com Carris, do Norte com Matança e do Sul com Cidadelha (Cidadelhe). Por endosso, a mina seria cedida a Paul Brandt, cidadão suíço de 37 anos residente no Porto, e a António Lourenço da Cunha, de 43 anos residente em Caminha e gerente da Empresa Hidro Eléctrica do Coura, Lda. Em Outubro os vários filões são estudados pelo Professor F. Fleury, do Instituto Superior Técnico, o qual procede à recolha de amostras que submete para análise pelo Professor Charles Laspierre. Em Novembro, Paul Brandt e António Lourenço da Cunha, requerem o reconhecimento oficial do jazigo. O Engenheiro Chefe de Repartição de Minas, Manuel Roldan y Pego, emite os éditos de concessão a 17 de Novembro, sendo publicados no Diário do Governo a 22 de Novembro de 1916.

Sem meios de acesso para viaturas, os trabalhos na mina sempre foram rudimentares e inicialmente executados à superfície. O minério obtido no Verão de 1917 era transportado por muares para a casa do juiz de paz de Cabril, José Maria Afonso Pereira, onde ficava depositado. No local da mina não existiam habitações confortáveis e capazes de resistir aos rigores invernais da Serra do Gerês. Após os primeiros trabalhos no Verão de 1917 onde terão sido obtidos cerca de três toneladas de minério, os dois detentores do registo mineiro solicitam a 26 de Dezembro que lhes fosse permitida a transferência do minério para Frades do Pinhedo.

A Mina de Borrageiros tem assim uma história mais antiga do que as Minas dos Carris, porém, infelizmente, parte dela perdida para sempre.


Passada a exploração mineira abandonada (será que também é uma lixeira como os papagaios dizem?), fizemos a paragem para descanso e retemperar forças à sombra do colosso granítico. Borrageiros não passa despercebido na paisagem da Serra do Gerês, erguendo-se majestoso acima dos seus pares, é sempre uma guia na imensidão da imensa paisagem. Por definição, define-se um 'borrageiro' como um cabeço granítico já erodido.

Continuando a nossa marcha, até porque os céus se zangavam e o ribombar dos trovões já se escutava ao longe, dirigimo-nos para a Cigarra no topo da Corga das Mestras agora adornada com os pequenos pinheiros que surgiram após a morte do Pinheiro da Cigarra. Daqui, seguimos pelo topo da Corga da Arrocela, enquanto a chuva fazia o seu aparecimento e os céus se escureciam. A Sul, a trovoada era já violenta e os relâmpagos riscavam o céu cor de chumbo. Percorrendo a imensa Corga de Valongo, maravilhámo-nos com o quadro natural que a certo ponto surgiu e onde um campo de Lírios-do-Gerês contrastava com a negritude do céu ao mesmo tempo que os cabeços de Rocalva e Roca Negra eram ainda iluminados pelo Sol.


Seguiu-se o Curral de Premuinho (Premoim) e mais adiante a visão do Curral de Bezerros e de Porta Roibas, chegando já perto do Rendeiro que nos daria passagem para os Prados da Messe. O vale do Ribeiro do Porto de Vacas com o Cocão das Quebradas e os píncaros de Velas Brancas formam uma das paisagens mais fabulosas da Serra do Gerês.

Nos Prados da Messe a chuva daria, após um descanso e um café, as tréguas necessárias para a parte final da jornada. Enquanto os céus resmungavam, percorremos os altos da Lomba de Burro e descíamos para a Lameira das Ruivas através da Água dos Vidros, passando então a Sabrosa e descendo a encosta para a Mata de Albergaria.

A parte final do percurso foi feita pela Geira Romana entre o velho Curral da Ponte Feia e a Portela do Homem, passando na Ponte de S. Miguel e através do Vale de S. Miguel.

Ficam algumas imagens do dia...




























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)