O Cabeço do Redondelo, Serra do Gerês, é aqui visto a partir do início da passagem da Cascalheira na entrada para o Covelo.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
O Cabeço do Redondelo, Serra do Gerês, é aqui visto a partir do início da passagem da Cascalheira na entrada para o Covelo.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
A explicação que logo nos surge para o topónimo "Mourinho" ("Curral do Mourinho", "Corga do Mourinho", "Manga do Mourinho"), que encontramos na Serra do Gerês (freguesia de Campo do Gerês), é que este esteja ligado a um nome de família.
No entanto, no seu livro "A Região do Gerês e a Estrada da Geira" (2025), Fernando Cosme, dá-nos (págs. 216 e 217) a explicação para a origem de topónimos semelhantes (Moure, Mouro, Mourêlo, Mourigo, Moura, Mouréla, Mourilhe, Mouros, Mourós, Mourisca, Mouriscal, Mourisqueiro, Mourrejal), referindo-se também a "Mourinho".
Fernando Cosme refere, "Estes topónimos têm origem remota no latino MAURU "originário da Mauritânia", província romana do Norte de África; porém, excetuando o primeiro, Moure (lugar da Balança), nome romano de cidadão da Mauritânia, os nomes mouro e derivados só terão aqui chegado a partir da invasão muçulmana, no início do século VIII." Para a restante explicação, consultar o referido livro.
Gostava, no entanto, de abrir academicamente uma outra hipótese, isto é, que estas designações possam ter origem na mitologia galega (ou galego-portuguesa). Segundo o blogue Breviario de Mitoloxia Galega, na sua publicação de 25 de Maio de 2014 (Mouros e Mouras), os mouros e mouras (traduzido do original em galego), "São seres lendários e sobrenaturais que vivem em La Mourindad, uma nação subterrânea que não pertence ao mundo visível. São os construtores dos fortes, mamblas, torres, catillos, petróglifos, cavernas, cavernas, e também trabalharam e moldaram as rochas ciclópicas, sob as quais escondem os seus tesouros, embora não lhes dêem grande importância.
As suas ferramentas de trabalho, arados, tesouras, foices, cangas e outras, são todas de ouro.
Mantêm uma relação com os humanos a quem pedem favores, oferecendo-lhes ouro, mas com a condição de que o segredo será sempre guardado.
Vivem sob as suas construções, sob os fortes e, por vezes, também em poços e grutas.
No folclore galego abundam as histórias e as lendas em que intervêm os "Mouros" e as "Mouras". São geralmente representados em frente às grutas, penteando os cabelos com um pente de ouro."
O Curral do Mourinho encontra-se numa zona onde abundam os grandes blocos graníticos e formações graníticas perto das vertentes que se despenham no Vale do Rio Homem.
Como referi, trata-se apenas de uma hipótese académica...
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
A paisagem vista das Minas dos Carris na tarde do dia 9 de Agosto de 2026, com o Pico da Nevosa e a Garganta das Negras.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados) via Carlos Araújo / EMC
A mancha verde delimitada pela linha branca corresponde, aproximadamente, à Reserva Biogenética da Mata da Albergaria, uma extensa área de floresta autóctone, com mais de 1.500 hectares, que acompanha parte das margens do rio Homem e do seu afluente, o rio Maceira. Enquadrada pelo anfiteatro montanhoso da serra do Gerês, esta floresta chegou aos nossos dias relativamente intacta, na sua estrutura e composição naturais.
É por isso que Albergaria foi classificada como Reserva Biogenética do Conselho da Europa, integrada na Rede Natura 2000, incluída na Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, reconhecida pela UNESCO, e abrangida pelo mais elevado nível de protecção previsto no Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Não recebeu estas classificações por ser bonita. Nem por atrair visitantes. Nem pelo seu valor económico. Recebeu-as porque constitui um património natural insubstituível, cuja degradação representaria uma perda irreversível para o concelho de Terras de Bouro, para Portugal e para o património natural da Europa.
É precisamente por isso que custa compreender o silêncio e a aparente passividade do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas perante a degradação progressiva deste espaço único.
A entidade responsável pela conservação da natureza em Portugal conhece melhor do que ninguém o valor da Mata da Albergaria. Conhece o regime jurídico que a protege, as obrigações de conservação que dele decorrem e conhece igualmente a realidade que ali se repete, Verão após Verão: milhares de visitantes, trânsito motorizado intenso, ruído constante, poluição, acumulação de resíduos, destruição da vegetação pelo pisoteio e o atropelamento de inúmeras espécies de fauna selvagem, entre elas martas, corços, ginetas e tantas outras.
Todos os anos, uma área que deveria constituir um exemplo de conservação transforma-se, durante os meses de maior afluência, num preocupante retrato da incapacidade de proteger aquilo que a lei determina preservar.
O ICNF deve uma explicação aos portugueses. Deve esclarecer por que motivo continua a permitir níveis de pressão manifestamente incompatíveis com o estatuto de protecção da Mata da Albergaria. E deve dizer, de forma clara, se considera aceitável que um dos mais notáveis remanescentes de floresta autóctone da Europa continue a degradar-se perante a inércia da própria entidade que tem o dever legal de o defender.
A Mata da Albergaria atravessou milénios. Resistiu às oscilações climáticas, às guerras, às profundas transformações da paisagem e à destruição que fez desaparecer grande parte das florestas primitivas europeias. Sobreviveu porque as montanhas a resguardaram e porque, durante séculos, a acção humana nunca conseguiu subjugá-la.
Seria uma ironia trágica que aquela mancha verde começasse agora a perder-se, não por falta de conhecimento científico nem por ausência de leis que a protejam, mas por incapacidade e falta de vontade para as cumprir.
O comunicado da FAPAS pode ser lido aqui.
"Lamenta-se a falta de respeito da Volta a Portugal pelo território que lhe serve de cenário, e a falta de capacidade do ICNF para, em diálogo com a Federação Portuguesa de Ciclismo, encontrar alternativas que salvaguardassem os interesses em conflito."
Um dos marcos que assinalam o Alto da Pedrada, cume da Serra de Soajo, foi vandalizado por um grande imbecil, não há outra maneira de classificar o energúmeno que praticou este acto de vandalismo.
Não é a primeira, e certamente não será a última, vez que vemos actos deste tipo a acontecer nas serras portuguesas e nas serras do Parque Nacional da Peneda-Gerês.
O marco altimétrico foi ali colocado com esforço, carinho e dedicação pelas gentes de Soajo que merecem respeito e que se orgulham do seu território.
Não precisamos deste tipo de "turismo" e muito menos deste tipo de gente!
Fotografia © Miguel Salgueiro Meira (Todos os direitos reservados)
A Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS), através da sua Equipa de Busca e Resgate em Montanha do Gerês, participou, durante a tarde e noite do dia 6 de Agosto, numa operação de socorro a uma vítima que sofreu uma queda na zona do Poço Azul do Rio Arado, em Vilar da Veiga, Terras de Bouro, no Parque Nacional da Peneda-Gerês.
A intervenção foi desenvolvida em estreita articulação com a Equipa de Busca e Resgate em Montanha e Grande Ângulo dos Bombeiros Voluntários de Terras de Bouro, na sequência de um alerta encaminhado pelo Comando Sub-Regional do Cávado da ANEPC.
Devido à orografia acidentada, ao difícil acesso e à necessidade de transportar a vítima por um percurso pedestre exigente, a operação requereu o recurso a técnicas especializadas de resgate em montanha, bem como uma estreita coordenação entre todos os operacionais envolvidos, garantindo uma evacuação segura e eficaz.
Texto e Fotografia © GNR - Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (Todos os direitos reservados) via Facebook
As quedas nas lagoas são notícia recorrente no estio apesar de todos os avisos e chamadas de atenção.
Segundo a Associação dos Bombeiros Voluntários de Salto, no inídio da tarde do dia 6 de Agosto "a pedido do INEM - Instituto Nacional de Emergência Médica, socorremos um cidadão de nacionalidade Francesa, com 24 anos, vítima de queda numa das Lagoas.
Para o local, foi mobilizada a nossa ambulância todo terreno e uma equipa de resgate, apoiados por dois militares da UEPS - Grupo de Resgate e Montanha do Gerês estando ainda no local a equipa de Sapadores Florestais de Cabril que se encontrava em missão de vigilância e prontamente apoiou as operações, num total de quatro veículos e 13 operacionais.
Após recuperação e estabilização da vítima, a mesma foi transportada ao Hospital de Braga por inspirar alguns cuidados."
Fotografia © Associação dos Bombeiros Voluntários de Salto (Todos os direitos reservados) via Facebook
Há gente que deveria conhecer o território e a sua História.
Os textos serão um pouco longos, mas ajudam a compreender a História e a incepção do Parque Nacional da Peneda-Gerês desde 1888.
São boas leituras para as manhãs de praia ou então pela fresca numa lagoa algures na Serra do Gerês.
Boas leituras!
Uma nota: peço desculpa não ter tido tempo para fazer vídeos do tik-tok para que alguns compreendam os factos descritos no texto.
- Breve Nota Sobre a História do Parque Nacional da Peneda-Gerês
- Os Serviços Florestais nas serranias do Parque Nacional da Peneda-Gerês
- Auto de Posse da Serra do Gerês pelos Serviços Florestais
- O Regulamento Provisório dos Serviços de Arborização da Serra do Gerês em 1888
- A chegada dos Serviços Florestais à Serra do Gerês (Agosto - Dezembro de 1888)
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês (1889)
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1890-1891
- A crise dos Serviços Florestais na Serra do Gerês (1891 a 1896)
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1896-1897
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1897-1898
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1898-1899
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1899-1900
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1900-1901
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1901-1902
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1902-1903
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1903-1904
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1904-1905
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1905-1906
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1906-1907
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1907-1908
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1908-1909
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1909-1910 (parte I)
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1909-1910 (parte II)
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1910-1911 (parte I)
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1910-1911 (parte II)
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1910-1911 (parte III)
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1911-1912
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês em 1912-1913
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês 1913-1914
- Os trabalhos dos Serviços Florestais na Serra do Gerês 1914-1915
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
A opinião de Miguel Dantas da Gama para ler aqui.
"A decisão do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) relativa ao percurso da sétima etapa da Volta a Portugal em bicicleta, visando atravessar áreas ecologicamente sensíveis no interior do Parque Nacional da Peneda-Gerês, é ilegal e contraria o respetivo Plano de Ordenamento, nomeadamente o seu artigo 14. Neste contexto, seria interesssante conhecermos em que se baseia o parecer jurídico emitido pelo ICNF, que contraria uma disposição aprovada em Conselho de Ministros depois de muitos anos de trabalho técnico e científico para a justificar."
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Notícia d'O Amarense para ler aqui.
"O presidente da Câmara Munivipal de Terras de Bouro, Manuel Tibo, afirmou (...) que as populações residentes são "os maiores guardiões" do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), reagindo às críticas levantadas em torno da passagem da 7.ª etapa da 87.ª Volta Portugal em Bicicleta pela Mata de Albergaria."
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A opinião de Henrique Miguel Pereira, Ex-Director do Parque Nacional da Peneda-Gerês (2006-2009), professor catedrático no iDiv/Universidade de Halle-Wittenberg e investigador convidado no BIOPOLIS/Universidade do Porto, para ler aqui.
"A passagem da Volta a Portugal no PNPG junta três características: ser uma decisão de legalidade duvidosa, abrir um precedente arriscado, e enviar uma mensagem confusa ao público."
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Notícia do jornal PÚBLICO, pela jornalista Andrea Cunha Freitas para ler aqui.
"Na corrida entre promoção turística, espectáculo desportivo e protecção da natureza, os valores naturais do único parque nacional português arriscam terminar entre os últimos do pelotão."
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Segundo noticia a edição online do jornal Terras do Homem (Passagem da Volta a Portugal em bicicleta pela Mata da Albergaria no Gerês sem público diz ICNF, pelo jornalista Pedro Antunes Pereira), "o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) condiciona a passagem da Volta a Portugal em bicicleta na Mata da Albergaria, no Gerês, 'a fortes medidas de proteção da biodiversidade'”, tais como a interdição ao público, não referindo no entanto qual a zona interditada.
Contrariando pareceres emitidos e cedendo a óbvias fortes pressões politicas, a autorização para a realização da etapa “foi acompanhada por um conjunto de medidas específicas destinadas a minimizar qualquer eventual perturbação”. Destas medidas, encontram-se "a limitação da circulação de veículos de apoio ao estritamente indispensável, a interdição da permanência de público em todo o trajeto que atravessa os setores ecologicamente mais sensíveis do percurso, a exclusão de meios aéreos em áreas de ambiente natural e outras medidas de gestão consideradas necessárias para proteção das espécies, habitats e restantes valores naturais.”
Segundo indica o Terras do Homem, citando o parecer emitido pelo ICNF, "foi igualmente recomendada a integração, por parte da organização, de ações de comunicação e sensibilização ambiental, em articulação com o ICNF, que contribuam para a divulgação dos objetivos de conservação do Parque Nacional e do património natural que este alberga.”
O ICNF refere que irá acompanhar a realização da prova, certamente destacando o seu numeroso corpo de 12 Vigilantes da Natureza, "em articulação com as restantes entidades competentes, de forma a verificar o cumprimento integral das condições estabelecidas e a garantir a salvaguarda dos valores naturais do Parque Nacional da Peneda-Gerês.”
O ICNF, que cobra uma taxa de acesso a veículos motorizados à Mata de Albergaria, refere que a decisão tomada “resultou de uma análise técnica e jurídica cuidadosa e aprofundada, realizada no quadro dos procedimentos legalmente previstos, num processo em que a proteção da natureza, dos habitats e das espécies presentes no Parque Nacional constituiu sempre a principal prioridade”.
Este Instituto Público, sem um pingo de vergonha na cara, jamais de importou com a verdadeira preservação dos valores ecológicos e naturais presentes na Mata de Albergaria. Como já foi amplamente referido neste blogue em anos anteriores, a arrecadação da taxa de acesso não tem efeitos práticos e visíveis na protecção da Mata de Albergaria, havendo sim uma percepção de desleixo e abandono do coração ecológico do Parque Nacional. O ICNF nunca demonstrou uma verdadeira vontade de limitar os danos ali provocados em época onde a afluência de visitantes é massiva.
Havendo gente de Lisboa - e talvez outra gente em Braga - que nunca deve ter visitado o PNPG, o ICNF refere que a sua análise concluiu, que o percurso proposto para a etapa coincide exclusivamente com uma via pavimentada já existente, e durante um período muito limitado, fazendo notar (apoiando-se em antecedentes que nunca deveriam ter ocorrido) que “o troço em causa corresponde a uma estrada onde existe circulação motorizada regular, sem que daí tenha resultado, até à data, qualquer impacte negativo significativo conhecido sobre os habitats naturais, as espécies ou os valores ambientais presentes”, lê-se ainda na resposta.
Não deixa de ser interessante esta declaração por parte do ICNF tendo em conta que há vários anos o PNPG esteve em risco de ser desclassificado devido precisamente ao facto de haver uma estrada a cruzar a sua zona mais importante.
Cerca de um mês após terem sido solicitados esclarecimentos oficiais sobre a passagem de uma etapa de uma prova desportiva pela Mata de Albergaria, o coração ecológico e a razão de ser do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), o silêncio de quem deveria esclarecer torna-se ensurdecedor para a alma e para o coração.
Torna-se assim óbvio - ou se calhar, mais óbvio ainda - que não há anuncios oficiais sem que tudo estivesse já garantido e acordado entre as partes. Ao abrigo de uma vã promoção do território, sacrifica-se a preservação tendo como justificação precedentes que nunca deveriam ter acontecido. O mal já feito não pode e nunca deveria ser justificação para outro mal maior.
A Mata de Albergaria, todos os estios vilipendiada pela maralha humana que por lá deixa lixo e conspurca a pouca água que tem, sofre os efeitos de más decisões de gestão a todos os níveis. Perpétuam-se maus hábitos e exemplos num território que se esvai aos poucos. Os remendos vão surgindo ao abrigo de dinheiros que vão chegando, descuidando-se um plano que tem de ser obrigatoriamente a muito longo prazo para mudar o velho paradigma da promoção de um território baseada em alicerces que se vão desgastando.
A prova desportiva irá trazer o típico visitante do território: aquele que vem cá passar o dia, traz a sua geleira, não deixa riqueza e apenas deixa lixo. Além do mais, vai trazer os meios dos seus patrocinadores que pouco irão deixar para o comércio local que verá as ruas fechadas numa altura de romaria que por si só atrai milhares de visitantes.
Zona frágil e onde o menor descuido pode significar o seu fim, a Mata de Albergaria ver-se-á invadida por uma orda que nada respeitará, que deixará lixo, irá pisotear a vegetação, fará ruído e mais ruído, que fará pic-nics e trará os óbvios perigos em dias de calor intenso.
Autorizada a prova devido a um intenso trabalho de lóbi, desautorizando os técnicos que certamente se calam com a mordaça política, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas perde por completo a cara, deixando cair a máscara, e deixa de ter a mínima postura moral para gerir o PNPG. Os seus vigilantes no terreno acabam por ser meros figurantes numa encenação que se repete todos os anos e todos os anos o PNPG definha a olhos vistos ao sabor de interesses e egos pessoais e políticos.
É óbvio para toda a agente que a prova de bicicletas deve passar no Gerês! Aliás, estranha-se é que somente agora venha por estes lados ao fim de quase 100 anos de prova. Terras de Bouro e a sua parte do Gerês há já muito tempo que merecem e devem ter a prova de bicicletas, mas como referiu Miguel Brandão Pimenta, "cada lugar tem a sua função e (...) nem todos os espaços são compatíveis com eventos desta natureza."
Apenas uma teimosia e um grande ego insistem em que a prova de bicicletas passe no coração, centro essencial, do nosso único Parque Nacional. A promoção do território de Terras de Bouro seria muito melhor conseguida com, passando as Pontes de Rio Caldo, uma subida através da estrada da Ermida, seguindo por Pala Freita em direcção à Pedra Bela, descendo depois ao Vidoeiro (com o tão desejado piso empedrado para relembrar o "Portugal de outros tempos" tão desejado para alguns) e atravessando a vila termal até à rotunda da Assureira que lhe daria acesso à Chã da Ermida, Zanganho e através da estrada panorâmica das Curvas de S. Bento / Lamas até Covide, Chamoim, Carvalheira e Paredes, chegando então ao Campo do Gerês e prosseguindo pela Barragem de Vilarinho das Furnas, tomando a vertiginosa estrada para Brufe e depois, através de uma das mais magníficas estradas sobre o Vale do Homem, seguindo então para Germil. As opções seriam várias, teria apenas de se deixar para trás "o quero, posso e mando!"
De novo parafraseando Miguel Brandão Pimenta, "Ninguém perderia por respeitar a Mata da Albergaria. Pelo contrário: ganharia a Federação Portuguesa de Ciclismo e a Volta a Portugal, demonstrando sensibilidade para com o património natural; ganhariam as populações locais, que veriam a prova passar mais perto das suas localidades; e ganharia o Parque Nacional, preservando o seu espaço mais sensível. Ganharia também o ICNF, se tivesse a coragem e a sensibilidade de explicar por que razão a Mata da Albergaria merece uma protecção tão rigorosa e porque existe, afinal, um Parque Nacional."
“Só é possível apostar no turismo exatamente porque conseguimos preservar a natureza, as paisagens e o Parque Nacional [da Peneda Gerês]. Se isto deixar de ser sustentável, perdemos as galinhas dos ovos de ouro. A natureza e a sua preservação são o tesouro desta região. (...)" Declarações do Vereador António Cunha ao jornal O Minho, 21 de Novembro de 2023 (Turismo cresce cada vez mais em Terras de Bouro graças a uma “fórmula mágica”)
A alma e o coração devem estar com os interesses de Terras de Bouro, mas também com os interesses superiores do país.