quinta-feira, 16 de abril de 2026

É para arder?

 


A 2 de Outubro de 2025, o jornal on-line E24 noticiava uma "intervenção inédita na Mata de Albergaria para restaurar floresta autóctone no Gerês."

A intervenção foi realizada em conjunto pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), sendo uma iniciativa da LIFE WILD WOLF e teve como objectivo a remoção de árvores exóticas que foram plantadas pelos «antepassados do ICNF», "preservando espécies autóctones de elevado valor, como teixos e azevinhos."



Tendo sido removido o que "interessava" e publicadas as bonitas fotografias da acção levada a cabo, ficaram na zona os restos das árvores dali retiradas e que agora são verdadeiros focos potenciais de perigo para a Mata de Albergaria, pois com o aproximar do Verão e com as ramadas a ficarem secas, são verdadeiros montes de pólvora à espera de um fósforo mais atrevido.

Não seria mais do que tempo de se fazer a remoção e limpeza do local?



Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

(Uma incursão n)"A Serra do Gerez"

 


A 11 de Março de 1886, a revista O Occidente publicava um artrigo da autoria de J. Henriques que faz uma maravilhosa decrição da Serra do Gerês.

O autor percorreu as paisagens naturais de um mundo que há 140 anos nos brindava como sendo uma das zonas mais selvagens de Portugal. Ao ler o texto, nota-se que a escolha das palavras pelo autor não se limitou à sua satisfação de percorrer matas luxuriantes e picos graníticos agrestes; o texto transporta-nos para algo de verdadeiramente único no nosso país tanto naquela data, como nos nossos dias.

Se bem que passados 140 anos a realidade deste espaço natural seja diferente, o texto de J. Henriques ajuda-nos a perceber um pouco da História deste território para o qual se deveria olhar com mais atenção e cuidado. A sua preservação é imperiosa para que as expressões de exclamação nos encham de orgulho por termos algo comparável com o que existe noutros países. Valorizar este território é uma obrigação de todos!

(No texto a seguir, decidi manter a ortografia original)

A Serra do Gerez

Por J. Henriques

Não conheço em Portugal serra mais pittoresca do que esta e por isso bem digna de ser visitada.

Vao lá, porém, só aquelles a quem um mau fígado ou um estomago alterado incommoda, e esses não sobem á serra; não procuram as frondosas florestas, a agua limpida e fria, que cahe em cascatas de rochedo em rochedo, ou o ar puro da montanha. Contentam-se com as aguas mineraes, com os passeios nas Caldas. Vêem a serra de longe. Aos altos vão os caçadores, procurar cabras e gamos.

Não vão lá os artistas, pois ahí teriam mina inexgotavel.

É sabido que a serra do Gerez fiva não longe da capital do Minho e que faz parte do grande grupo de montanhas que limitam Portugal e Hespanha pelo norte. É menos alta que a serra da Estrela, pois que o morro do Borrageiro - que é o ponto culminante da serra - fica apenas a 1:1442 metros d'altitude. Dois rios a limitam, d'um lado o Cavado, d'outro o Homem, e ambos, depois de banharem as ferteis terras de Bouro e outras, vão reunir-se perto de Braga, junto á ponte do Bico.

Hoje uma boa estrada partindo de Braga e seguindo as margens do Cavado, bella como quasi todas as estradas do Minho, permite que o viajante vá commodamente até ás Caldas. A accidentação do terreno, a vegetação das terras cultivadas, Bouro com o seu velho convento, tudo interessa. Se o passeio é dado ao domingo, a cada passo a paisagem é animada por grupos de camponezes com os seus vestidos caracteristicos.

Poder fazer-se a viagem pela bacia do Homem. É porém mau o caminho e monotona a paisagem.

De Braga é facil ir também até ao Penedo. D'aqui, porém, ao Gerez a jornada não é comoda.

Sigamos a estrada do Bouro. Admiremos de passagem a paisagem da ponte do Porto, o mosteiro de Bouro com as estatuas d'alguns reis portuguezes. Não será fóra de proposito comprar algumas laranjas, que já foram elogiadas pelo professor Link.

Desde que se sae de Bouro a estrada sobe consideravelmente. O rio Cavado, a grande profundidade, mostra-se raras vezes. Para elle desce mais tarde a estrada e n'uma volta, quasi de repente, se depara com a serra do Gerez, cujo perfil se observa admiravelmente.

Em pouco tempo o carro passa junto da ponte do Cavado, atravessa a ponte do Caldo e segue pela nova estrada que corta os campos de Villar da Veiga. Começam ahi as bellezas do Gerez. Á esquerda da estrada corre o Caldo, e o viajante pode, logo admirar uma das paisagens mais notaveis. Dá d'ella idéia a gravura da primeira página*.

É um quadro completo.

A paisagem só muda de modo sinsivel nas Caldas. O valle é apertado, as encostas da montanha alterozas, o rio torrencial.

Quando em junho alli estive, depois d'uma noite de chuva, que mais parecia noite de dezembro, que admiravel quadro não offerecia de manhã o Caldo, correndo por entre grossos calháos rolados no seu apertado leito, ficando no ultimo plano a serra da qual começavam a levantar-se as densas nuvens!

A pequena povoação das Caldas nada tem que prenda a atenção do viajante. É bom deixal-a aos hypochondriacos. O artista prepara-se e segue para a serra.

É quasi de rigor ter como guia o Rigor. Conhece elle todos os estreitos caminhos e todos os recantos da serra. Tendo-o por companheiro ninguem alli se perderá.

A primeira excursão deve ser ao Borrageiro e para mais commodidade seguir-se ha o caminho de Leonte, caminho quasi só de cabras, mas que é facil subir a pé. Os cavallos das caldas trilham-n'o admiravelmente e os cavalleiros podem fiar-se n'elles. Se as cilhas não rebentam, não ha queda possivel.

Até á Preguiça nada ha de notavel. Mas ahi tudo muda. Em frente ostenta-se imponente a montanha, profundamente cortada, deixando advinhar uma estreita passagem - a portella de Leonte: á esquerda o pé do Cabril, que parece ruinas de enorme castelo. É formado de rochas sobre rochas. Á direita os primeiros degraus do Borrageiro encobrem o resto da montanha. A grande profundidade correm as aguas, que descemd e Leonte e que de todos os lados recebem pequenos affluentes. Vegetação frondosissima cobre a parte da serra que pode d'ahi ser vista.

Da Preguiça até ao Vidoal o caminho segue sempre á sombra de copadas arvores. As margens dos regatos são cobertas de musgos. Uma pequena violeta vive até sobre as pedras que a agua molha.

No meio de tudo isto ha singulares curiosidades. Um carvalho enorme, cahido sobre o pequeno rio, não morreu. Foi vivendo e como a luz lhe era necessaria, foi levantando os ramos. Coberto de espessa camada de musgo assemelha-se agora a um enorme sophá. Pode ahi bem repousar, que se achar cançado.

O caminho de Leonte para cima é aspero. A vegetação diminuie, chegando por fim a ficar reduzida a pequenos grupos de teixos e de elegantes vidoeiros, que vivem nos corregos por onde corre a agua.

Depois só as pedras ornam a montanha. Revestem ellas todas as formas, attingem todas as grandezas, dando á paisagem um aspecto que pela aspereza contrasta profundamente com o que até alli se tinha visto.

As portas são uma das muito singulares formas, que as rochas apresentam. Parecem mais obra do homem do que da natureza. O Borrageiro é terminado por enorme massa de granito, polida pela neve, batida pelas tempestades. Quasi nenhuma vegetação ahi se encontra.

D'este ponto elevado a vista estende-se por largo horisonte. As montanhas de Barroso e de Traz os-Montes simulam ondulações gigantescas de mar enorme.


Serra do Gerez - Um Curral de Leonte (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)

Deixemos os pontos elevados da serra.

De Leonte descamos para os lados de Hespanha por um pessimo caminho, unico que existe. Passemos para além do curral da Albergaria e atravessemos uma pequena ponte que dá passagem sobre um riacho, que vae perto desaguar no Homem. Admire-se d'ahi o aspecto maravilhoso da serra. Recortada profundamente n'uns poucos de sentidos, coberta de espessa matta de carvalhos até grande altura e coroada por massas graniticas de formas caprichosas, não pode ser mais bella.



Serra do Gerez - Rio Homem, junto á Ponte Feia (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)

Continuemos a caminhar. Auxilia-nos a fresca sombra do arvoredo. A pequena distancia tivemos uma paisagem perfeitamente caracteristica e como rara vezes se encontra. O rio Homem apparece quasi por encanto. Mal se perce d'onde vem. Despenha-se em brilhante cascata para seguir por entre grandes muralhas graniticas. Alguns troncos d'arvores lançados de margem a margem forma a ponte feia. D'esta podem contar-se no fundo do leito do rio as mais pequenas pedras, tal é a limpidez das aguas.

Do lado esquerdo do rio admira-se uma espessa floresta terminada em picos graniticos elevadissimos.

Da ponte feia é bom ir ao Villarinho das furnas onde em principios d'este seculo foram hospedados o Conde de Hoffmansegg e o professor Link que da Allemanha vieram a Portugal, contemplar-lhe as belezas e estudar as produções naturaes.


Serra do Gerez - Villarinho das Furnas (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)


O caminho segue sempre a margem do rio Homem. Esta parte da serra é boa para quem meditar na historia da terra ou na historia do homem. 

São aqui bem pronunciados os effeitos das aguas torrenciais. A observação d'elles facilitará de certo a comprehensão de grandes phenomenos naturaes.

A estrada, que se pisa, é obra dos grandes dominadores do mundo - os romanos. Os marcos milliarios, que ainda se encontram aos lados da estrada, fazem pensar nas legiões que n'outros tempos por alli teriam passado.

O vale que o rio corta, apertado em grande extensão, alarga afinal formando uma planicie consideravel, mas monotona até Villarinho. Uma pequena ponte dá passagem para a povoação, pouco importante. Um pequeno rio a atravessa e da ponte gosa-se uma bella paisagem. Alguns morros escalvados de terra foram um fundo admiravel sobre o qual destaca um grupo de casas da povoação. 

Deixando o rio, e não querendo visitar o sitio onde se diz que existira uma antiga povoação importante - Chalcedonia - subamos de novo para a serra, protegidos sempre pelos carvalhos frondosos. A setecentos e tantos metros encontraremos n'uma extensa planicie, cortada em campos bem cultivados, uma povoação alegre. É S. João do Campo.

Um pequeno rio corta as veigas que cercam a povoação. Renques de elegantes vidoeiras vestem as margens em mais d'um sitio.

D'esta povoação até ás Caldas o caminho é horroroso: massas graniticas enormes, umas sobre as outras, formam castellos gigantescos. O terreno é coberto de vegetação rachitica. Depois de subir a grande altura, começa a descida para as Caldas.

Que caminho e que precepicios!

Na serra do Gerez não há só para contemplara paisagem nos seus diversissimos aspectos e da qual esta noticia é apenas um pallido reflexo.

São dignos de exame os costumes, a vida das povoações serranas.

É boa e obsequiadora a gente d'estas terras. Ha aqui restos de costumes antigos, alguns nãp pouco curiosos. Cada povoação tem obrigação de cuidar da conservação dos caminhos. Cada povoação tem um colmeal, onde cada habitante pode ter as suas colmeias.

Geralmente no cultivo das terras empregam vaccas, e como a todos convém que ellas se propaguem, cada povoação tem um touro, que é de todos, porque todos para o comprar dão dinheiro. Como é de todos não tem elle habitação fixa: Vive successivamente em casa dos diversos lavradores e demora-se tantos dias, quantas as juntas de vaccas que cada lavrador tiver.

De verão todo o gado pasta na serra. Divaga livremente de dia, mas ao cahir da tarde todo o gado de cada povoação recolhe ao curral, que é um pequeno espaço um pouco plano, sem guarda ou limites, tendo apenas como distinctivo um forno - pequenissima casa, coberta de telha ou de colmo, na qual dorme o pastor.

(...)

É um bello e completo quadro um curral ao cahir da tarde.

Que lindos animaes, que movimento!

Como os gados são de povoações diversas, para todas ha curraes especiaes e a alturas diversas da serra. Os direitos das povoações são totalmente e mutuamente respeitados de modo que nunca os gados de povoações diversas chegam a reunir-se no mesmo logar.

A guarda é feita d'um modo muito regular e justo. Cada lavrador dá um guarda, que passará no monte tantas noites, quantas forem as juntas de vaccas que possuir.

Estas formas de administração local são dignas de ser conhecidas e estudadas.

É curta e incompleta esta noticia. Outros a poderão completar, se tomarem a boa resolução de passar alguns dias da estação calmosa n'este recanto de Portugal, tão cheio de bellezas.

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* Esta frase refere-se à imagem inicial em cima do texto que tem a legenda "Serra do Gerez - Rio Caldo, Junto das Caldas (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)"

Fonte: O Occidente (Volume IX n.º 260, 11 de Março de 1886), O Occidente (Volume IX n.º 263, 11 de Abril de 1886)

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCLXIV) - Pé de Medela

 


O Pé de Medela ergue-se altaneiro como um castelo na paisagem da Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

terça-feira, 14 de abril de 2026

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCLXIII) - Abrigo pastoril do Prado

 


O actual abrigo pastoril do Prado, Campo do Gerês - Terras de Bouro, representa já a segunda ou mesmo possivelmente a terceira ocupação daquele espaço tendo em conta as ruínas dos anteriores abrigos existentes naquela zona da Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Festival Folk Terra de Júnias – 4ª Edição

 


A edição de 2026 do Festival Folk Terra de Júnias terá lugar a 30 de Maio.

A quarta edição do Festival Folk Terra de Júnias, um encontro mágico onde a música das raízes ecoa no coração de Pitões das Júnias, regressa com a energia renovada para celebrar a autenticidade e o património vivo daquelas terras.

Após o sucesso das edições anteriores, este ano pretende-se elevar a experiência com um foco especial na participação e no movimento. Assim, pretende-se que cada visitante seja parte integrante da festa, e por isso foi preparada uma programação vibrante:

• Música e Animação Constante

• Ritmos ancestrais e novas sonoridades folk que prometem não deixar ninguém indiferente. A animação de rua será o fio condutor de um dia repleto de alegria e partilha.

• Oficinas de Dança e Workshops

• Nesta edição, o palco é teu! Através das oficinas de dança, haverá a oportunidade de aprender passos tradicionais e sentir a conexão única que só a dança coletiva proporciona. Além disso, os workshops convidam à descoberta de saberes antigos e técnicas artesanais, valorizando o “saber-fazer” da região.

• Cultura e Natureza em Harmonia

• Tendo como cenário as paisagens deslumbrantes do Barroso, o festival continua a ser um convite para saborear a gastronomia típica, apreciar o artesanato local e fortalecer o espírito de comunidade que define a Terra de Júnias.

Celebra a identidade, aprender um novo passo e deixar que as melodias das montanhas guiem o coração.

Festival Folk Terra de Júnias: Sente o pulsar da terra, vive a alma do povo.

Onde a Tradição se Dança!

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCLXIII) - Porta Roibas e a Encosta da Galega

 


Na Serra do Gerês, Porta Roibas eleva-se a partir do Vale do Rio da Touça e do Porto da Laje a partir do qual se desenvolve a Encosta da Galega. 

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A visita da família real ao Gerês

 


Em Outubro de 1887, a família real portuguesa visitava o Norte do país e pela primeira vez, um monarca português visitava uma das zonas mais selvagens do reino.

Esta visita e a forma como influenciou o rei D. Luís, marcaria a decisão de se estabelecer passados alguns meses, um perímetro florestal que levasse à preservação das paisagens serranas e quase um século depois, noutras circunstâncias, à criação do primeiro e único parque nacional português.

Após a estadia na cidade de Braga, a comitiva real partia para o Gerês a 12 de Outubro de 1887. No dia anterior, à família real havia sido ofertado o livro "Gerez Historico", da autoria de Paulo Marcellino, promotor da caçada que dias mais tarde teria lugar nas serranias geresianas.

A partida para o Gerês ocorria pelas 11h30 da manhã, seguindo o rei D. Luís e os príncipes, pois a rainha D. Maria Pia e a princeza D. Amélia haviam resolvido dicar na cidade dos arcebispos devido ao facto de o príncipe da Beira, princípe D. Carlos ter sofrido um mal estar nesse noite. No entanto, e após a melhoria do estado de saúde do príncípe, o resto da realeza seguia em direcção ao Gerês pelas 15h00, sendo acompanhadas pelo conde de Bertiandos, Gonçalo Meneses.

A chegada a Rio Caldo foi saudada com arcos alinhados cobertos de flores e medronhos, estando dispersas pelo chão abóboras que serviam de vasos, com ramos de medronheiros. A comitiva chegava ao Gerês às 16h30, sendo ali aguardada por Ricardo Jorge e Paulo Marcellino, além de vários caçadores e muito povo que quis assistir à chegada da realeza. Na ocasião queimou-se fogo de artifício ao mesmo tempo que se emitiam "aclamações entusiásticas" ao rei ao ser acompanhado até ao chalé de Alfredo Tait, onde a família real se hospedaria durante a sua estadia. A rainha D. Maria Pia e a princeza D. Amélia chegavam ao Gerês pelaa 20h00, sendo acompanhadas pela população do Vilar da Veiga que as seguiram numa marcha luminosa com balões e lanternas venezianas.

A noite seria festiva nas Caldas do Gerês, com a localidade iluminada de forma festiva, tando nas estradas como nos chalés particulares, além do Grande Hotel e do Hotel Universal. Nessa noite, muita gente afluiu ao Gerês para testemunhar os festejos da presença da família real, havendo música por duas bandas filarmónicas, além de cantares populares junto do chalé de Alfredo Tait.



A caçada real teve lugar a 13 de Outubro, nela participando - além da família real - cerca de 500 caçadores dos lugares vizinhos. O monteiro-mór da caçada foi Sebastião Pinto de Carvalho, sendo vice-monteiro-mór Miguel Gonçalves Dias, coadjuvados por José Gil Barbedo e por Manuel Marcella e Martins. A caçada seria composta por três batidas, sendo uma a Norte (para a caçada ao javali), uma no centro da serra (corças, gamos e veados), e uma terceira a Nascente (cabra-montês).

O dia nasceu cinzento e a promeger chuva, porém, foi decidido avançar com a caçada, mas aconselhou-se à rainha que não seria conveniente aventurar-se nas serranias com o tempo tão mau, pois a ascensão seria fatigante. No entanto, D. Maria Pia recusou tais conselhos e seguiu em conjunto com a restante comitiva.

A saída ocorreu pelas 8h00, seguindo o rei, a raínha e os príncipes a cavalo, sendo acompanhados por Ricardo Jorge e Paulo Marcellino, além dos caçadores (a princeza D. Amélia não tomou parte na caçada).

A subida em direcção à Portela de Leonte era na altura difícil e perigosa, sucedendo-se os desfiladeiros e as veredas estreitas e tortuosas abertas em terrenos quase a pique, sendo o avançar acompanhado por ruidosas quedas de água que se despenham desde grande altura, formando lagoas e poços que só se podiam contornar caminhando por penedias escarpadas. Recorde-se que nesta altura ainda não existia a estrada que mais tarde seria aberta entre as Caldas do Gerês e a Portela de Leonte, onde seria construída uma das primeiras casas florestais.

A chegada à Portela de Leonte proporcionou largos horizontes, surgindo uma mata verdadeiramente virgem recheada de grandes árvores e lustrosa vegetação. Foi na Chã de Leonte onde a comitiva real se posicionou para a espera das corças, estabelecendo-se previamente a batida numa grande área em redor. Os monteiros procuraram assustar os animais utilizando tiros e gritos, mas a caçada não surgiu onde a realeza a aguardava...

Porém, não muito longe - e num local descrito como "Chã da Carvalhosa" (possivelmente a Chã do Carvalho ou Chã do Carvalho de Leonte) - o padre Domingos da Chunha Almeida Peixoto e o caçador Serafim da Silva, abatiam uma corça, sendo outra abatida em Maceira.

Os receios criados pelo mau tempo vieram a confirmar-se mais tarde. As nuvens negras encobriram os píncaros serranos e a serra começou a mostrar quem ali ditava as ordens, com a chuva a começar a cair de forma torrencial. Foi improvisada uma cobertura para abrigar a raínha utilizando a manta alentejana que era usada por D. Carlos, mas o peso da água em breve tornava inútil esse esforço. Foi então decidido começar a descida em direcção às Caldas do Gerês a pé e debaixo de aguaceiros constantes, seguindo pelos atalhos agrestes da montanha. À frente seguia D. Mria Pia usando um pequeno guarda-chuva, sendo acompnhada por António Paraty, conde de S. Mamede, e pelo major Duval Telles. Atrás, seguia o infante D. Afonso envolto num gabão de Aveiro e depois o príncipe D. Carlos, vindo finalmente o rei D. Luís acompanhado pelos condes de Ficalho e de Tarouca, todos sem qualquer resguardo.

A chuva era intensa e o ambiente de invernia, sendo imensos os obstáculos a ultrapassar antes de se chegar às Caldas. A água havia engrossado os pequenos regatos que agora eram enchurradas que se despenhavam ruidosas pelas encostas. A caminhada era feita com extremo cuidado, pois uma simples escorregadela poderia terminar numa queda nas profundezas dos despenhadeiros que se abriam nas orlas dos caminhos estreitos. Por outro lado, a vegetação selvagem na forma de urzes e carquejas, junatemte com as arestas rochosas que feriam os pés, tornavam o regresso num tormento.

Após 4 km de dura e penosa caminhada, a comitiva chegava a Secelo onde a realeza pôde montar a cavalo e seguir para as Caldas do Gerês.

Pelas 16h00 chegava os caçadores do Vilar da Veiga com as duas corças mortas que ofereceram a D. Luís, tendo este retribuído com 100$000 reais ao que os caçadores retribuiram com uma descarga das suas armas ainda carregadas.

No jantar estiveram presentes Ricardo Jorge, Paulo Marcellino, José Gil Barbedo e Manuel Marcella e Martins, além do padre Sebastião e Miguel Gonçalves Dias, todos convidados do rei.

Nessa noite, os caçadores de Brufe, Carvalheira e Cibões, desceram a quebrada da Cerdeira trazendo uma outra corça morta por Manuel Joaquim Martins Coraco e por Francisco Martins Caniço, que foram gratificados com 10 libras.

Uma caçada que estava prevista para o dia 14 não foi realizada pela realeza, pois os caminhos ficaram intransitáveis com a chuva que caiu nessa noite. Poirém, os povos das freguesias do Campo do Gerês e outras, continuaram a caçada, abatendo um veado e duas corças. Este dia foi passado pela família real em passeio nas proximidades das Caldas do Gerês, indo ao Vilar da Veiga e Rio Caldo. O príncipes D. Carlos «entreteve-se» a "atirar aos pássaros" e tanto ele como a raínha e D. Amélia fizeram alguns cróquis de diversos locais pitorescos.

O padre Sebastião de Freitas ofereceu a D. Amélia uma colecção de minerais da Serra do Gerês, destacando-se um magnífico exemplar de cristal rosa.

Na noite do dia 14 chegaram os povos do Campo do Gerês, Cabril e Brufe com as duas corças e com o veado que haviam abatido. À raínha foi ainda oferecida por Gaspar Malheiro uma corça domesticada.

A família real regressaria a Braga no dia 15 de Outubro, deixando o Gerês pelas 11h00.

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O texto é baseado num artigo da revista O Occidente (n.º 322, 1 de Dezembro de 1887)

Fotografia: O Occidente

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCLXII) - A Corga Funda

 


A imensa Corga Funda surge-nos como um rasgo na paisagem dos domínios de Pincães, Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

A neve voltou ao de leve às Minas dos Carris

 


Com o frio que se fez sentir no final do dia 12 de Abril e cumprindo as previsões meteorológicas, a neve voltou ao de leve à paisagem das Minas dos Carris, tal como se pode constatar pela imagem proveniente da Estação Meteorológica Experimental dos Carris.

 Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados) via Carlos Araújo / EMC

Previsão meteorológica para Nevosa/Carris (13 a 19 de Abril)

 


A neve poderá ainda voltar à paisagem das Minas dos Carris na manhã do dia 13 de Abril. Os céus limpos deverão regressar a partir da noite do dia 14 de Abril.

domingo, 12 de abril de 2026

Vezeira do Vilar da Veiga renova abrigo pastoril do Curral da Espinheira

 


A Vezeira do Vilar da Veiga, Terras de Bouro, procedeu à renovação integral do abrigo pastoril do Curral da Espinheira.

O abrigo encontrava-se sem uso e alagado há já vários anos, sendo agora alvo de trabalhos de reconstrução, restauração, renovação e melhoramentos, podendo ser utilizado pelos vezeireiros durante as suas permanências na serra. Esta renovação inseriu-se num conjunto de trabalhos de melhoramento e nova utilização do Curral da Espinheira.

Recorde-se que a vezeira - um movimento de transumância secular que se pratica na Serra do Gerês, terá o seu Dia dos Covais a 3 de Maio e os animais deverão subir para as pastagens de altitude por volta do dia 10 de Maio.

De salientar que os abrigos pastoris que existem na Serra do Gerês e nas outras serranias do Parque Nacional, são propriedade privada pertencente aos diferentes baldios e vezeiras e que a sua ocupação deverá ser autorizada pelas mesmas, havendo prioridade por parte dos pastores na sua utilização.

Assim, estas estruturas e edifícios deverão ser respeitados e preservados por todos os que visitam as serranias do Parque Nacional.

Fotografia © Filipe Mora Pires (Todos os direitos reservados)

Previsão meteorológica para Nevosa/Carris (12 a 18 de Abril)

 


Possibilidade de queda de neve nas Minas dos Carris a 12 e 13 de Abril.


Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados) via Carlos Araújo / EMC


sábado, 11 de abril de 2026

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCLXI) - As paredes convergentes do Fojo de Pincães

 


O Fojo do lobo de Pincães (ou Fojo da Sobreira) é um dos muitos testemunhos existentes na Serra do Gerês da dura e difícil convivência entre o Homem e o Lobo.

No seu livro "Aldeia de Pincães" (Julho de 2009, pág. 125), António F. M. Ribeiro Guimarães, refere "O fojo do lobo de Pincães tem um enquadramento, com a serra, extraordinário e do local onde se encontra temos uma vista deslumbrante sobre as Serra do Gerês e da Cabreira. Os pastores garantem haver lá uma pedra com a inscrição 1184."

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Decorrem as obras de requalificação da Estrada da Geira

 


Decorrem as obras de requalificação da Estrada da Geira entre a Guarda (Campo do Gerês) e a Albergaria.

As imagens mostram o processo inicial de colocação da calçada junto da ponte sobre o Rio Maceira, na Albergaria, e que irá constituir o futuro pavimento daquela via.





A requalificação foi anunciada a 1 de Outubro e visa a "valorização da visitação à Mata da Albergaria. Amantes da natureza, caminhantes e viajantes terão, em breve, a oportunidade de desfrutar deste património natural em condições reforçadas, consolidando o papel de Terras de Bouro como a porta de entrada privilegiada para o coração do Gerês."

A intervenção que está a ser levada a cabo "prevê a aplicação de calçada no pavimento, a instalação de barreiras e guardas de proteção, e a construção de valetas onde as condições o permitirem," com as melhorias a visarem "garantir uma circulação mais segura e permanente entre a aldeia do Campo do Gerês e a Portela do Homem."

O melhoramento da via irá trazer condicionantes, nomeadamente: o condicionamento do fluxo de trânsito no Verão com a colocação de barreiras físicas em pontos determinados, a instalação de sistemas físicos permanentes para a redução da velocidade, limitação da velocidade a 20 km/h devido à coexistência com peões, instalação de sinalética de trânsito e aviso geral sobre a zona percorrida, etc.

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Festival Aldeia de Lobos 2026

 


O Festival Aldeia de Lobos, em Fafião, irá decorrer a 10 e 11 de Julho de 2026.

Novidades em breve!