sexta-feira, 3 de julho de 2026

Ulisses e o "Esconjuro dos Lobos"

 


O Festival Aldeia de Lobos irá decorrer em Fafião nos dias 10 e 11 de Julho de 2026.

Por entre os inumeros eventos que terão lugar (concertos, exposições, etc.), destaco o "Esconjuro dos Lobos" pelo Ulisses Pereira.

Para lá da obvia teatralização do evento, temos a performance de alguém que dedicou muito do seu tempo ao saber, conhecimento, história e registos etnográficos da sua aldeia. Todo este património imaterial e pessoal trazem um valor único à voz e aos minutos durante os quais Ulisses Pereira irá representar o "Esconjuro dos Lobos".

Como é referido, "Quando a penumbra se entranha na serra, Ulisses ergue a voz. Esconjuro dos Lobos, Fonte de S.Tiago — rituais que invocam o que a montanha guarda. O visível e o invisível entrelaçados numa das noites mais enigmáticas do festival."

A não perder, na noite do dia 10 de Julho.

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCCVIII) - Cocões do Coucelinho

 


A fotografia não faz jus à paisagem que se depara perante nós ao passarmos nos Cocões do Coucelinho, Serra do Gerês.

No planalto de Couce, na parte central da Serra do Gerês, surge este que é o mais importante circo glaciário da serra, assim como o mais importante conjunto de moreias (laterais e frontais) e de lagos glaciários (dos quais se destaca o Lago Marinho) e pequenas formas geológicas de abrasão, tais como polimentos e estrias no granito. 

De notar, que em cabril se refere ao planalto como "Couço" e não "Couce", o que possivelmente levaria á designação "Cocões do Couçolinho".

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Declarada situação de alerta no território nacional

 


Devido às condições meteorológicas extremas, foi declarada a situação de alerta em todo o território nacional continental entre as 00h00 do dia 3 de Julho e as 23h59 do dia 6 de Julho.

Assim, está proibido o acesso a espaços florestais, sendo proibido corcular ou permanecer em zonas florestais, caminhos rurais ou vias que as atravessem.

Está proibido o uso de fogo, sendo proibida a realização de queimas ou queimadas, mesmo com autorização prévia. Da mesma forma, é proibido a utilização de fogo-de-artifício ou de qualwuer artefacto pirotécnico, sendo também proibido o lançamento de balões com mecha acesa, mesmo havendo autorização prévia.

Está ainda proibida a utlização de maquinaria em espaços rurais (motoroçadoras, corta-matos, destroçadores e máquinas com lâminas ou pá frontal).

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Conquista do Inútil (1): A subida ao Cabeço do Rodondelo

 


"A Conquista do Inútil" é um livro do realizador Werner Herzog que é o testemunho do projecto louco que o levou ao desespero (1) durante a rodagem do filme Fitzcarraldo na selva amazónica. O título tem sido utilizado como uma metáfora comparativa da «conquista» humana dos picos e altos montanhosos, onde a vontade de vencer, o desespero e a irracionalidade, por vezes impulsionam o montanhista a conquistar aquilo que surge como uma inutilidade para a maioria, mas perfila-se como o mais alto prémio para ele.

Não querendo ser pretencioso com esta série de textos, irei tentar descrever as conquistas do inútil que se poderão fazer na Serra do Gerês e noutros lugares, tendo como pano de fundo a minha reconhecida incapacidade de alçançar alguns topos que me justifico como serem as "moradas dos deuses" e como tal, lugares que inalcansáveis para mim. Admito não ser escalador ou alpinista, e como tal, não ter proficiência necessária para feitos épicos. Por enquanto, fico-me com as minhas 400...

O "primeiro capítulo" nesta série que não terá uma publicação regular (serão escritos à medida que ocorrerem, acima de tudo, à medida que surja a vontade de as descrever!), leva-nos ao Cabeço do Redondelo.

Com os seus 1071,5 metros de altitude, o Cabeço do Redondelo projecta a sua sombra sobre o Vale do Rio Homem, delimitando a vertente esquerda do Covelo que se afunda desde os limites de Gamil e do Prado até à Bouça da Mó. A encosta direita do Covelo é a vertente da Cascalheira que se eleva até às Mesas.

Conheço dois acessos ao alto do Cabeço do Redondelo, sendo um deles vindo do Curral de Gamil (e do Covelo) e um outro através da encosta Norte do Redondelo, tendo como pano de fundo a albufeira da Barragem de Vilarinho das Furnas e a Serra Amarela. Nesta conquista do inútil, decidi subir esta encosta que, não tendo sido a primeira incursão, é sempre a mais espectacular e ousada.

Iniciei o percurso no Campo do Gerês (2, 3) seguindo o traçado do Trilho da Águia do Sarilhão (4, 5) na direcção Nascente (passando no Parque de Campismo de Cerdeira na direcção da Mata de Albergaria). Com a manhã não muito quente, notava-se já a diferença com o dia anterior onde o ar fresco animava a marcha. Iniciando cedo, previa terminar a jornada pelo meio-dia, o que veio a acontecer para não ser açoitado pelo calor infernal deste início de Verão.

Caminhando na tranquilidade matinal, em breve abandonava os limites do parque de campismo e entrava no bosque que antecede a paisagem de carqueja, tojos e pedra que me acompanharia nas próximas horas. O percurso leva-me através de um caminho rural que abandono ainda antes de chegar ao abrigo da antiga Grande Rota das Casarotas. Para seguir o carreiro quase escondido por entre a vegetação, deve-se ter atenção às pequenas mariolas. De tempos a tempos (de ano a ano, talvez), faz-se a limpeza desta parte do percurso, quando droga da matança do javali dá o seu chuto. No entanto, aqui a vegetação cresce rápido (sim, as nossas montanhas não são desertos de pedra) e o uso de calças é quase obrigatório para evitar uma esfoliação natural.





Subindo uma pequena corga, o caminho vai-se bifurcar mais adiante: a derivação à direita leva-nos para as Bitoreiras e ou quase directos para Gamil, assim tomamos o carreiro que segue a Nascente e começamos a percorrer as encostas do Redondelo. Talvez este fosse o caminho preferencial para chegar ao Covelo, sem testemunhos vindos do Campo do Gerês, é-me difícil perceber a origem do mesmo, mas penso que seria utilizadio para o pastoreio das cabras quando elas ainda existiam por aqui.

De novo, é a intensa vegetação que vai marcar o caminho. Este está marcado com mariolas, mas num ponto ou outro é necessária alguma atenção numa volta do caminho. À medida que ganhamos altitude, o vale afunda-se e a perspectiva torna-se mais vasta: as vertentes da Serra Amarela são vencidas pelo olhar e surge o desejo que uma próxima inutilidade (que na verdade foi adiada devido à previsão de dias tórridos; fica a promessa de uma subida em breve ao Alto da Louriça).





Em pouco tempo chegamos a uma zona «mais plana» na qual podemos fazer um curto desvio que nos leva à parte superior da Fraga do Sarilhão. Em tempos idos, a Fraga do Sarilhão era zona de nidificação da águia real que tormentos trazia aos criadores de cabras que contavam histórias que ver as grandes rapinas, «rapinar» os cabritos mais pequenos.

Nesta zona, o carreiro forma um "s" para vencer a encosta e seguir em direcção à Fraga de Cima. Em alguns pontos, o carreiro aproxima-se da vertente, devendo-se o cuidado necessário para evitar sustos (principalmente em dias húmidos). Vamos ganhando metros no altímetro e a paisagem emociona-nos. De facto, não é necessário uma grande caminhada para termos vastos horizontes e a sensação de uma «conquista» que, espasme-se, estava mesmo ali ao lado.




O carreiro percorre a parte superior da Fraga de Cima e leva-nos a entrar no profundo Covelo. Tenho uma lembrança de, há muitos anos, ter percorrido este fechado vale desde a Bouça da Mó, enveredando por um carreiro que iniciava na Estrada da Geira. A aventura, que se turva na memória, é acompanhada pela recordação de um matagal que se fechava à nossa passagem, mas que foi coroada pelo descanso no sopé do Pé de Cabril. Em tempos, estes lugares eram calcorreados ao longo de carreiros que ligavam os diversos pontos da serra. No entanto, o abandono de muitas actividades de pastorícia, levou à perda e desaparecimento destes caminhos que traçavam memórias dos tempos idos.

A entrada no Covelo proporciona uma ligação com o Prado e com o Curral de Gamil. Seguindo pela sua margem esquerda, vai vencendo a distância ziguezaguenado por entre a penedia até atingir uma primeira elevação: uma verdadeira varanda que permite ao olhar abranger quase todo o grande lago azul escuro que se estende aos nossos pés. A vertente Sul da Serra Amarela está à nossa frente e o olhar guia-se desde a Calcedónia e Curvaceira, passando pelas encostas de Sta. Isabel, Covide, Carvalheira, Campo do Gerês (abrigado pelas encostas do Pinhote e Picota) até à Mata de Palheiros.



Deixando esta magnífica varanda, prossigo para a conquista do inútil e aprecio os grandes blocos que parecem constituir as paredes do bojo que forma o cabeço que me desafia. Ladeando pela esquerda, o caminho empina-se por algumas dezenas de metros até chegar "à sua face Sul". Aqui, um conjunto de mariolas faz-nos descobrir as «secretas» (parece que isto é o que está na moda) passagens que nos levam, a cada passo, mais próximos do ponto mais alto do dia. Em alguns pontos, uma pequena destreza de braços ajuda-nos a ultrapassar um pequeno obstáculo rochoso, da mesma forma que a posição da bota nos dá a tracção necessária para o impulso. Não foi a primeira vez que cheguei ao topo do Cabeço do Redondelo, mas as pequenas conquistas trazem-nos a satisfação das grandes paisagens.

Não é difícil chegar ao ponto mais alto do Redondelo, mas como todas as caminhadas em montanha, esta deve ser feita com todo o cuidado e com a absoluta certeza de que a descida não nos irá trazer problemas. A boa gestão do risco que estamos dispostos a correr é, em si, uma conquista tão ou mais importante do que chegar ao ponto mais alto.

E pronto, estou no alto do Cabeço do Redondelo e aprecio a paisagem que se abre e espalha aos meus pés. Olho o Campo do Gerês e vejo a mestria com que a aldeia foi implantada ao abrigo dos ventos frios do Norte pelas encostas do Pinhote. A Sul, a Veiga de S. João tem as cores dos dias quentes de Verão que contrasta com o azul escuro das águas que afogaram Vilarinho da Furna que durante longos séculos olhou para este colosso ao lado do Pé de Cabril. Esses dias desapareceram debaixo das águas silenciosas e escuras do Rio Homem.

Após a contemplação, restava então a descida e o regresso ao ponto de partida. Porém antes de partir das alturas, olho o Covelo e penso que em breve deveria procurar o "Penedo das Pápas" e o "Buraco do Mouro", referenciando assim dois topónimos que não se devem perder na História desta milenar povoção de Campo do Gerês. Deixando então o cabeço para trás, chegava ao Curral de Gamil e enveredava pelo traçado do Trilho das Silhas dos Ursos (6, 7) já em gestão da água que ia consumindo para tentar esquecer o calor que já se havia indecentemente instalado. O caminho levou-me pela Boca do Rio e Manga de Tojeira, passando então pelo Vale do Meio antes de chegar à valiosa Fonte de Junceda. Os últimos quilómetros até ao Campo do Gerês foram feitos através do traçado da Grande Rota da Peneda-Gerês.

Ficam algumas fotografias do dia...















PS - Possivelmente, no título deveria ter escolhido "ascensão" em vez de "subida" para ter mais "likes".

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCCVII) - O Curral do Roquinha

 


O abrigo pastoril do Curral do Roquinha (Currais de Lamas de Homem), Serra do Gerês, é memória das seculares vezeiras geresianas.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Postais do PNPG (CCLXX) - "Gerês - Estrada para Junceda"

 


Datado de meados do século XX, este postal mostra um troço da estrada que liga as Caldas do Gerês e o Campo do Gerês.

Este postal foi endereçado a 21 de Agosto de 1957.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Incêndio no PNPG (Sete Lagoas)

 


O mês de Julho começou com um incêndio florestal que ocorreu em Cabril, Montalegre, mais precisamente na Corga de Sobroso (Sete Lagoas).

O combate ao incêndio envolveu 21 operacionais apoiados por 3 viaturas e 2 meios aéreos, sendo dado como extinto ao início da tarde.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Minas dos Carris, 30 de Junho de 2026

 


A paisagem vista das Minas dos Carris ne tarde do dia 30 de Junho de 2026, com o Pico da Nevosa e a Garganta das Negras. 

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados) via Carlos Araújo / EMC

Previsão meteorológica para Nevosa/Carris (30 de Junho a 6 de Julho)

 


Usualmente publico estas previsões quando surgem as primeiras previsões de queda de neve. Porém, o cenário que se depara para os próximos dias, é um cenário de risco elevado tanto para a ocorrência de fogos florestais como para a ocorrência de problemas de saúde durante a prática de pedestrianismo / caminhada / montanhismo na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, e mais concretamente, no «maciço central» da Serra do Gerês.

O quadro em cima mostra a previsão de temperaturas para os próximos dias e até ao dia 6 de Julho. Os valores máximos de temperatura nas Minas dos Carris poderão atingir os 29.º e 30.º nos dias 4 a 6 de Julho, apesar dos valores mínimos serem entre 15.º e 17.º. Estes valores serão mais extremos nos vales mais profundos.

Assim, aconselha-se cuidado, precaução e prudência nas caminhadas pela «alta montanha» do Parque Nacional.

Imagem: IST

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Trilhos seculares - Da Portela do Homem à Cigarra, Premuinho e Messe

 


Com os dias de Primavera e Verão, chegou a época das grandes jornadas nas quais podemos ficar mais tempo na montanha ou então alongar um pouco mais os nossos percursos, tendo em conta as condições que a meteorologia nos oferece. Se por um lado, os dias de calor nos permitem as caminhadas mais longas, o calor excessivo traz desafios que podem ser mais complicados numa paisagem onde as fontes de água escasseiam. 

O meu objectivo nesta incursão na Serra do Gerês era fazer um «grand tour», passando por Borrageiros e Curral de Premoinho, este na continuação do percurso para atingir o primeiro. Assim, e aproveitando os dias que se vão encurtando - mas que ainda começam cedo - enveredei pela familiar paisagem do Vale do Alto Homem que já tantas vezes percorri para atingir as Minas dos Carris. Este é um local que nos permite os grandes espaços, antecipando horizontes de longas e largas distâncias e perspectivas únicas. Não que fosse a primeira vez, certamente não será a última, mas é sempre uma experiência única.





O percurso ao longo do Vale do Alto Homem inicia-se a uma altitude de 720 metros e rapidamente nos apercebemos que não será um caminho fácil para os mais desprevenidos. A sua dificuldade vai aumentando ao longo do percurso não tanto pela inclinação, mas mais pelo estado do próprio caminho. Em quase toda a sua extensão o caminho é na sua maioria composto por pedra solta que dificulta a progressão. São escassas as extensões em que o terreno é suave, uma vã memória dos tempos em que era percorrido por carros e camiões que serviam o complexo mineiro dos Carris nos anos 40, 50 e 70, do século passado.

Na sua totalidade o caminho segue a margem esquerda do Rio Homem e o seu rumor por entre as rochas acompanha-nos quase sempre, silenciando-se, porém, nestes dias em que o calor vai tornando o seu leito mais exposto.

Este percurso está inserido num vale de extrema importância para o Parque Nacional da Peneda-Gerês e que está integrado numa das duas áreas de protecção total existentes naquela área protegida, logo convém solicitar uma autorização ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para o percorrer.

No início dos anos 90 ainda era possível observar ao longo do Vale do Alto Homem uma linha de postes de madeira sobre os quais assentava o cabo metálico do telefone, que permitia as comunicações com o complexo mineiro. Os vestígios destes postes já despareceram quase na sua totalidade, mas ao longo do caminho vamos observando um ou outro pequeno muro, ou um ou outro alinhamento de pedras que nos podem sugerir a existência, em tempos, de uma rude estrada serrana. O primeiro sinal sólido da existência de algo mais complexo na serra, surge-nos junto da zona que dá pelo nome de ‘Água da Pala’. Aqui, e já coberta pela vegetação, observamos à nossa esquerda uma área delimitada por um pequeno e baixo muro. Em tempos terá servido de curral para abrigo dos rebanhos. Do lado direito podemos observar, também por entre a vegetação, uma pequena construção com tijolos de cimento que nos dá a ideia de ser uma pequena guarita, mas que já foi referenciada como um pequeno abrigo dos cantoneiros que mantinham o estradão em estado de circulação. 





Na Água da Pala iniciava-se um carreiro de pé posto que atravessava o Rio Homem e subia ao longo do rio pela sua margem direita no sopé da Encosta do Sol até atingir o topo do Cabeço do Modorno, algumas centenas de metros após atravessar novamente o Homem sensivelmente à cota de 1050 metros de altitude. Não havendo registos cartográficos deste trilho em direcção à zona dos Carris, documentos fotográficos atestam a sua continuação para as zonas mais elevadas da serra. Quem observa a Encosta do Sol a partir da Água da Pala, terá a sensação de ainda poder vislumbrar o traçado deste pequeno trilho que, sem dúvida, nos proporcionaria uma visão distinta do vale.

Após passar a Água da Pala, o percurso entra numa zona mais plana. Até aqui, e olhando para a nossa direita, temos a oportunidade de observar os picos escarpados que delimitam os Prados Caveiros. Esta fase mais plana do trilho segue pela Ponte do Cagarouço (Cagarrouço) sobre a Ribeira do Cagarouço, um pequeno afluente do Rio Homem que parece surgir das escarpas da Ravina do Cabeço da Porca. É nesta fase que o caminho se volta a inclinar ligeiramente e ouvimos o rugido do jovem rio a poucos metros de distância. Por entre a vegetação é por vezes fácil ter um olhar sobre lagoas que no Verão são sempre uma forma de retemperar forças.





O trilho ultrapassa a cota dos 1000 metros de altitude, a poucos metros de entrarmos numa fase do caminho onde vamos superar vários metros de altitude em pouca distância, ultrapassando assim um bom declive. Em Carvalhas Vrinhas, o percurso flecte para a direita no que são conhecidas como as ‘Curvas do Febra’ e em pouca distância subimos 30 metros em altitude antes de flectir para a nossa esquerda. Nesta parte do caminho podemos ter uma imagem do Vale do Homem só superada pela paisagem que nos aguarda poucos metros após a passagem da Ribeira do Modorno. Poucos metros mais à frente entramos numa parte do caminho que é ladeado, à direita, por uma parede sólida de granito e, à esquerda, por uma queda de 50 metros que termina no Rio Homem. O declive aqui é notório, mas o esforço para chegar à meia distância merece a pena.

Somos chegados a meio do caminho e o descanso na Ponte do Modorno é merecido. A água da ribeira é sempre fresca e corrente, mesmo no Verão. Ao entrar neste pequeno vale temos a visão de uma pequena queda de água por debaixo da ponte e são poucos os que resistem a uma fotografia. Situados na ponte em direcção ao final do vale, por onde vemos o Rio Homem, temos à nossa direita o imponente Cabeço do Modorno, uma escarpa granítica que atinge os 1317 metros de altitude. Conheci todas as pontes até ao Modorno já em cimento, mas o meu fascínio por estes espaços começou a ser despertado pelas velhas pontes de madeira que antigamente permitiam a passagem célere e um tanto ou quanto aventureira.

Logo após abandonar a Ponte do Modorno e seguindo o velho caminho mineiro, vamos encontrar uma das mais fantásticas paisagens que a Serra do Gerês e o Parque Nacional têm para nos oferecer. É com deslumbre que observamos o Vale do Alto Homem e a forma como este se projecta no céu. O seu delimitar pelos picos serranos leva-nos a imaginar, sonhar um mundo antigo. É aqui que nos começam a faltar as palavras... Ao longe vemos a Serra Amarela e com bom tempo facilmente se vislumbram as antenas do Muro localizadas no Alto da Louriça, bem como o Alto das Eiras e a Cruz do Touro, já nos extremos geresianos, ou a magnificência da Quelha do Palão e da Água dos Vidos.




Saindo do pequeno vale da Ribeira do Modorno entramos novamente no Vale do Alto Homem e logo ali à nossa frente observamos uma estreita queda de água com uma altura superior a 110 metros, a Água da Laje do Sino. Toda este zona nos dá paisagens deslumbrantes em, ou após, dias de chuva com as paredes rasgadas pelos cursos de água que se precipitam no vale, ou então nos frios dias de Inverno com a imagem das quedas de água geladas que se amarram às paredes graníticas.

Prosseguindo ao longo do vale vamos ganhando altitude, atingindo os 1200 metros de forma suave. Nesta fase o trilho chega a complicar-se devido ao estado do «pavimento». O Rio Homem é, nesta fase, constituído por uma série de pequenos ribeiros que têm origem nos inúmeros vales que se rasgam do topo da serra. Aos 1200 metros de altitude, na zona do Teixo, o trilho flecte ligeiramente para a direita seguindo um dos pequenos cursos de água que, juntamente com o ribeiro do Corgo dos Salgueiros da Amoreira, dá volume ao Rio Homem. O caminho segue a base da Rocha da Água do Cando, passando pela Ponte das Águas Chocas (1285 metros) e entrando nas Abrótegas até atingir a Ponte das Abrótegas (1325 metros). As Abrótegas definem, juntamente com o Outeiro Redondo, um pequeno planalto que é atravessado pelo caminho até atingir e seguir ao longo da base do contraforte dos Carris.

Foi nesta chã onde esteve montado entre 17 e 19 de Setembro de 1908 o acampamento da primeira expedição venatória levada a cabo na Serra do Gerês. Neste planalto têm origem vários carreiros de pé posto, sendo o mais interessante aquele que segue para as Mina Mercedes As Sombras (Galiza, Espanha) e para os Cocões do Coucelinho (através das Lamas de Homem) e, mais tarde, Mina de Borrageiros e Lago Marinho.

Foi este mesmo caminho que segui nesta incursão. Entusiasmado pela brisa fresca que facilitava a progressão, segui em direcção a Lamas de Homem, tendo a companhia de vários cavalos semi-selvagens que por ali pastavam juntamente com os animais das vezeiras da região. Em pouco tempo chegava aos Currais das Lamas de Homem, - o Curral do Roquinha (designação atribuída a dois deles, tendo um deles um abrigo pastoril) e o Curral do Freiria. 





Entrando no Quelhão, iniciava a descida para as faldas dos Cocões do Coucelinho tendo como paisagem distante, a zona do Lago Marinho e de Lagoa. É por aqui que a Serra do Gerês adquire o estatuto dos grandes espaços e os adjectivos tornam-se menores para classificar o que os nossos olhos abarcam. Por entre outras paisagens Geresianas, aqui é o Gerês em toda a sua pujança. É nestas alturas onde a Serra Mãe enche os pulmões de ar e grita a sua beleza única e inigualável!

Caminho em direcção aos Cocões do Coucelinho e a paisagem é notável! Os Cocões do Coucelinho, com as suas paredes quase a prumo, abrigam um curral (Curral do Colástica ou "Coucões do Coucelinho") juntamente com outras áreas muradas (sestas). Característica do local, é a presença de diversas moreias glaciares que povoam a paisagem de forma caoticamente ordenada.




No Quaternário, mais precisamente no Plistocénico (há cerca de 1.8 Ma a 10 000 anos), ocorreram importantes variações climáticas à escala do globo que se caracterizaram pela alternância de períodos glaciários (muito frios) e interglaciários, com glaciações a atingirem, inclusivamente, as latitudes médias. Nas serras da Peneda e do Gerês foram identificados vestígios dessas glaciações, dos quais merecem especial destaque o Alto Vale do Vez e zona de Cocões de Coucelinho - Lago Marinho (vales com perfil em U; moreias; circos glaciários; superfícies de granito polidas, estriadas e com sulcos; e depósitos glaciários).





Seguia agora na direcção da Mina de Borrageiros, mas a certa altura, decidi deixar o carreiro - passando «ao largo» do secular complexo mineiro - e seguir pelas paredes granítica fraturadas, chegando ao carreiro que me levaria em direcção à Cigarra já a Norte de Borrageiros. O carreiro entre na parte superior da Corga das Mestras que vai-se fechando até se alargar novamente já na sua parte superior no que parece ter sido um velho curral. Estamos na Cigarra e na margem oposta, vemos o tronco seco do Pinheiro da Cigarra.

Em tempos, Ulisses Pereira, de Cabril, escrevia sobre o Pinheiro da Cigarra, "O Pinus Sylvestris L., é uma árvore que está em regressão desde o final da glaciação de Würm, É uma espécie documentada desde o século XVIII com os núcleos de Biduiça e Matança a verem o seu carácter de árvore autóctone da Serra do Gerês na sequência de recentes estudos genéticos, sendo assim as únicas populações autóctones conhecidas em Portugal. 

São árvores com cerca de 40 metros de altura e é muito comum ultrapassar em termos de longevidade os 250 anos, em Portugal só prósperam acima dos 700 metros. 

Além dos núcleos de Biduiça e Matança, existem alguns pinus sylvestris l. isolados na serra do Gerês como é o caso dos de Lamalonga e da Cigarra que serão provavelmente os mais antigos. O Pinheiro da Cigarra sempre foi aquele que junto das populações mais admiração causou, sendo muito comentado e quase todos o conhecem. Sempre causou estranheza essa árvore sozinha no meio do nada, um pinheiro grande, que sempre se lembram de ser assim, nem maior, nem mais pequeno, já os avós e bisavós assim o conheceram. A Cigarra e o seu pinheiro sempre foi um dos lugares mais místicos da serra do Gerês, sempre foi olhado pelos pastores e populares como um lugar diferente, um lugar onde existiam encantamentos e grandes tesouros que era necessário quebrar o encanto, dizem que para esses encantos quebrar é necessário um padre e o livro de S. Cipriano (livro muito famoso nestas populações) e acima de tudo não ter medo!!! Os mais velhos contam que alguns já tentaram, mas sem sucesso, e os grandes tesouros por lá continuam. É na Cigarra que também existe o penedo que tem uma viola desenhada, também ela uma pedra encantada, era também na Cigarra que começava a Serra dos Bois, para as populações locais era o começo da serra alta, um lugar reservado só aos bois, as vacas não poderiam pastorear por estas bandas, era-lhes proibido."

De facto, o Verão de 2017 foi fatal para o Pinheiro da Cigarra que acabaria por morrer devido à passagem de um incêndio. Curiosamente, a zona é agora populada por dezenas que pequenos pinheiros que continuam a fama do Pinheiro da Cigarra que, sendo isolado e único no local, se procriou em inúmedos descendentes.





O carreiro, assinalado por grandes mariolas, vai-nos levar a entrar na Corga de Valongo (ou Corrego Cambeiro) para chegarmos ao Curral de Premuinho. Pelo caminho, um vislumbre à velha exploração mineira de Valongo e uma passagem pela Fonte de Valongo, valiosa como ouro num dia que começava já a aquecer. 

Tendo como pano de fundo os altos familiares de Porta Roibas, Iteiro d'Ovos, Rocalva e Roca Negra, o meu caminho apontava às Albas que já elevavam sobre os Prados da Messe. Antes, uma passagem pela Fonte de Premuinho sempre abundante mesmo nos dias de calor. O carreiro percorre pequenas corgas e vales, oferecendo múltiplas perspectivas da paisagem deste Gerês profundo, levando-me a passar pelo Rendeiro já com a vista das Velas Brancas e do Vale de Fechinhas. Passando o Rendeiro, chegava então aos silenciosos Prados da Messe, local do já mais do que merecido descanso e repasto.

Com o calor já a ocupar o lugar central no dia, restava a descida final pela Costa de Sabrosa. A saída dos Prados da Messe fez-se junto das ruínas da valha casa dos Serviços Florestais, seguindo em direcção à Lomba de Burro. O caminho passa então pela Corgas dos Vidros e segue para a Lameira das Ruivas antes de passar sobre a Sabrosa. Um pouco adiante, inicia-se a descida da Costa de Sabrosa que nos levará até às proximidades da velha Casamata dos Serviços Florestais na Mata de Albergaria.

A parte final da jornada fez-se pela confortável sombra da mata, percorrendo os quilómetros finais através da Geira Romana que me levaria ao ponto de partida na Portela do Homem.

Ficam algumas fotografias do dia...























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)