quinta-feira, 13 de junho de 2024

Paisagens da Peneda-Gerês (MCCCLXXX) - Panorâmica desde o Castanheiro

 


Uma vista panorâmica das montanhas geresianas desde a Barragem da Paradela até à Roca Negra, girando do Nascente para o Poente e passando pelo Norte.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quarta-feira, 12 de junho de 2024

O Círculo de Matança

 


Para mim, caminhar na montanha é muito mais do que fotografias bonitas e declarações no Facebook. Uma caminhada sem uma «descoberta», uma caminhada sem algo de novo, quase que acaba por ser tempo perdido. E chegamos a uma altura em que, de facto, tempo é coisa que não queremos perder.

Assim, todos os sentidos estão em alerta! Em alerta por marcas da História, e ignorá-la é apenas uma marca da ignorância e estupidez. A História marcou a paisagem e a simbiose entre Homem e Montanha, e ignorar os seus sentimentos, o que ela nos diz só porque pensamos que somos o centro de tudo, o que somos o objectivo máximo de ali estar, é só uma tentativa de justificar o que fazemos quando o que fazemos não é nada do que estamos a fazer.

Em alerta pela vida que nos rodeia na montanha; quer seja a vezeira, quer sejam os animais e a Natureza que está na sua casa; quer seja respeitar quem ali vive. Se não for assim, então é tudo um vazio... tão vazio como as publicações de vã glória e de um efémero nas redes sociais.

Em alerta por nós próprios. Se não saímos dali mais ricos e melhores do que quando ali chegámos, então foi tempo perdido.

Neste dia, estive particularmente atento às marcas da História. Na verdade, elas estão por todo o lado, só temos de estar conscientes de que as vemos, mas para isso é necessário estarmos alerta para essas marcas que nos podem escapar por entre os olhares sacádicos com os quais perscrutámos a paisagem.

Percorrendo a crista ao longo da Lamalonga, Serra do Gerês, visitei todos os altos que delimitam o largo vale marcado pelas escombreiras das Minas dos Carris. Quem está no complexo mineiro e olha para aquele vale, logo se apercebe da imensidão de «areia» que o cobre. Na realidade, o que vemos é a grande escombreira que ao longo das décadas se foi instalando no vale, cobrindo as margens da ribeira.

Ora, os altos sempre foram locais onde as marcas da História podem surgir. Podem surgir na forma de um marco geodésico, de um marco triangulado ou de pequenos aglomerados de pedras que os assinalam por serem o que são, altos entre a paisagem. Não me irei aqui debruçar sobre o topónimo Matança, ao qual o Jorge Louro dedica algumas publicações no seu blogue e que podem ser lidar aqui, aqui, aqui e aqui.

Percorrendo, então, os altos que estão sobranceiros à Lamalonga, cheguei (ao alto da) Matança e qual não foi o meu espanto quando me deparo com uma circunferência em baixo relevo desenhada na plataforma rochosa! O meu primeiro pensamento foi estar perante um círculo solar, recordando a alegre descoberta das figuras rupestres de Absedo (ver aqui e aqui)! Mochila fora das costas, coração em batimento rápido, emoções ao rubro... primeiras fotografias antes que pudesse acordar do sonho e outras com o bastão para fazer a escala. Ajoelho-me perante a «descoberta» e com a mão direita meço-lhe o diâmetro... 4 palmos. Quatro palmos certos! São 88 cm de diâmetro... Mais fotografias e começo a procurar sinais de outros círculos tal como acontecera em Absedo; porém, tal não encontro, mas já começo a ver figuras por todos os lados desenhadas nas diaclases do granito. Abandono a emoção de um Indiana Jones e visto fato de uma personagem mais metódica... seguem algumas fotografias para amigos arqueólogos e não só... as opiniões dividem-se! Entre sugestões de algo vindo da Idade do Ferro até um trabalho mais «actual».



Sentado por largos minutos a olhar o círculo, lembro-me da carta militar topográfica de 1949, "de certeza que lá vem assinalado um marco geodésico na Matança..." Contacto feito e confirma-se a ideia, de facto está lá assinalado.

Fazendo uma análise «a olho» até parece que isto surge em linha com o Marco K e o marco geodésico do Castanheiro... já vi um círculo destes antes! Sim, no alto do Campadre há algo semelhante! Por outro lado, as pedras aparentemente arrumadas junto do Círculo da Matança parecem indicar que teriam outro destino que não estarem ali, naquele sítio.


Em cima: O Círculo do Compadre

Tendo como hipótese inicial ser algo milenar, acho que posso agora concluir com uma profunda certeza, tratar-se de alto mais recente. Ora, os marcos geodésicos começaram a ser construídos no século XVIII, no reinado de D. Maria I, quando esta convidou a Academia Real da Marinha a iniciar os trabalhos de triangulação geral do território, para a criação da Carta Geográfica do Reino (ver aqui).

O que vemos em Matança (e no alto do Compadre) parecem ser os trabalhos iniciais de instalação de marcos geodésicos ou apenas o assinalar com um círculo em baixo-relevo de pontos de triangulação com marcos geodésicos ou marcos triangulados. Estes podem também ser trabalhos efectuados no princípio do século XX pelos Serviços Florestais que fizeram um levantamento cartográfico mais preciso da Serra do Gerês.

Não sendo uma memória física da presença milenar do Homem na Serra do Gerês, esta (e outras) «descobertas» mostram que estes territórios escondem verdadeiros tesouros à espera de ser encontrados revelados... só temos de estar atentos.




Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Paisagens da Peneda-Gerês (MCCCLXXIX) - Abrigo pastoril do Rebolo da Porca

 


O abrigo pastoril do Rebolo da Porca faz parte do secular património edificado de Pitões das Júnias, Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Serra do Gerês - Caminhada do Arado ao Poço Azul

 


Esta é sempre uma agradável caminhada que se pode fazer numa manhã ou então mais relaxados, numa tarde.

Deixando o carro na zona do Arado, seguimos pela antiga estrada florestal que nos leva à Tribela passando pelo Curral da Malhadoura e pelo Curral dos Portos. Saindo do Sol, o passeio torna-se agradável e as fontes pelo caminho dão-nos a oportunidade de experimentar a frescura da água da montanha. 

Na Tribela, vamos encontrar um cruzamento mesmo junto ao antigo Curral de Tribela, há muito ocupado por uma casa particular. Aqui, voltamos à esquerda e por algumas centenas de metros vamos seguir o traçado da GR50 Grande Rota da Peneda-Gerês que desce nos Portelos de Rio Conho para a Ponte de Servas que nos permite a passagem do Rio Conho. Correndo apressadas, as águas do Rio Conho são translúcidas e ajudam a diminuir a sensação do calor que se instala por aquelas paragens. Por outro lado, um vento fresco trazia a tranquilidade nas zonas mais inclinadas.




Após passar a Ponte de Servas, o caminho leva-nos de volta à estrada florestal que vamos abandonar à esquerda uns metros mais adiante, adentrando-nos no vale tendo como fundo as magníficas Roca das Pias e Roca Negra. O carreiro acompanha uma levada e percorre a encosta da Carvalhosa, começando a descer para o rio, já muito perto do Poço Azul. Este, fica a pouca distância após atravessarmos para a margem direita. 

Depois da passagem no Poço Azul, seguimos o caminho junto à margem direita do Rio Conho que teremos de atravessar por mais duas vezes, até chegar ao Curral de Entre Águas. Aqui juntam-se as águas da Corga Giesteira e da Corga das Cerdeiras. Será pela Corga Giesteira que subimos num dos carreiros mais incríveis que a Serra do Gerês nos tem para oferecer, permitindo ver a imensidão da Roca das Pias e das vertentes anexas. À medida que se sobe a paisagem vai-se transformando num cenário de grandes montanhas com a Quina do Meio a conseguir o seu lugar e mais acima deixando mostrar os cumes da Meda de Rocalva e da Roca Negra.

Chegando ao topo da subida pela Corga Giesteira, depara-se perante um incrível vale que se afunda desde o alto de Arrocela até ao Curral de Giesteira. Prosseguindo, chega-se ao Curral de Coriscada (Portelos) e começa-se a caminhar pelo caminho florestal que nos leva até ao ponto de partida passando nas imediações dos Cabeços de Junceda.

O percurso teve uma extensão total de 9,8 km e um D+ 514 m.



Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Grande Rota da Peneda-Gerês com novo traçado entre Brufe e o Campo do Gerês

 


A Grande Rota da Peneda-Gerês GR50 é o percurso por excelência para conhecer a simbiose entre Homem e Natureza no nosso único parque nacional.

Com o intuito de melhorar o seu percurso e a sua segurança, a ADERE Peneda-Gerês decidiu alterar o traçado da Etapa 11 entre Brufe e Campo do Gerês. Assim, para quem vem de Germil e ao chegar a Brufe, deve agora prosseguir pela estrada que faz a ligação entre esta aldeia e a Barragem de Vilarinho das Furnas. Seguindo a estrada, o traçado da GR50 irá virar à direita junto do Miradouro de Brufe e a partir daqui irá descer a encosta até chegar à ponte medieval de Quintão, onde se atravessa o Rio Homem.

Na imagem em cima, o novo traçado desde Brufe até à Ponte do Quintão está assinalado a vermelho.

Esta alteração era desejada e necessária devido ao rápido crescimento da vegetação em parte do traçado anterior e devido a questões de segurança em caso de incêndio florestal.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Trilhos seculares - Caminhada a Porta Roibas

 


A jornada pela Serra do Gerês que nos leva a Porta Roibas, é uma experiência única de montanha em todo o Parque Nacional da Peneda-Gerês. A caminhada leva-nos por largas paisagens, férteis currais e cenários de rocha em vales profundos. Esta é uma caminhada que não é fácil devido à sua extensão e mais difícil se torna nos dias quentes. Este dia começou já quente e sem uma brisa que ajudasse a acalmar os primeiros passos; um cenário que - felizmente - se iria alterar em altitude.

Porta Roibas apresenta-se quase como um marco montanhoso em toda a Serra do Gerês e a jornada até lá leva-nos a percorrer uma das zonas mais selvagens da serra, seguindo por um percurso que iniciado nos Prados da Messe e dirigindo-se para Nascente nos poderá levar a Borrageiros e à mina que se abriga à sua sombra.




Em Porta Roibas encontramos um pequeno curral, exemplo do aproveitamento dos espaços por parte do homem serrano que viu ali como que uma fortaleza para guardar os seus animais durante os longos dias de vezeira. Se uma parte está defendida pelo promontório granítico que o caracteriza à distância, o curral abre-se para o abismo da Corga de Valongo encimado pelas Quinas da Arrocela. Mesmo ali adiante, o alto de Borrageiros é outro ponto distinto na paisagem, um colosso titânico adormecido e para o qual olhamos com reverência e respeito.

O percurso para chegar a Porta Roibas iniciou-se na Portela de Leonte passando pela Chã do Carvalho após ultrapassar o inclinado caminho que ora nos surpreende pelo ziguezaguear encosta acima, ora nos surpreende para dimensão de uma «calçada», fruto de árduo trabalho de há séculos. Atrás de nós, o gigante farol da serra vai ganhando corpulência e o Pé de Cabril ergue-se majestoso contra os céus que o veneram como um Deus adormecido. Para lá da chã, e num declive mais suave, chegamos ao Vidoal contemplando a imponência do Pé de Medela e de Carris de Maceira na continuação de um quadro rochoso que nos assombra ao passar pelas profundezas dos Cântaros, pela verticalidade da Roca d'Arte e pela altivez de Lavadouros.



Deixando o Vidoal para trás, e ladeando o Outeiro Moço por Norte, chegamos ao Colo da Preza para contemplar o longo Vale de Teixeira. Daqui, sobe-se à Chã da Fonte após contemplar o comprido vale entre o Camalhão (Cambalhão) e Teixeira, e continua-se para o Curral do Conho por Lamas de Borrageiro, Chã de Gralheira e Lomba de Pau, subindo e descendo pequenas corgas.

Antes da descida para o Conho, facilmente se observa o nosso destino logo a seguir à imensa garganta que se abre em Fechinhas. Passando o Curral do Conho e seguindo o percurso da vezeira com as Albas como pano de fundo, passa-se o Ribeiro do Porto de Vacas e segue-se para o Curral da Pedra. Antes de chegar aos Prados da Messe devemos flectir à direita e descobrir as mariolas que nos levarão a entrar no Gerês quase selvagem.




Após entrarmos no pequeno vale que se segue aos Prados da Messe e de seguir pelo Rendeiro com o seu portelo, vamos superar a primeira encosta caracterizada por uma série de mariolas e aqui teremos duas opções para chegar a Porta Roibas. Seguindo o percurso devidamente assinalado por grandes mariolas, vamos chegar perto do Curral de Premuinho. De facto, é mesmo na corga anterior que devemos seguir à direita também por um carreiro marcado com mariolas e recuperado, e que nos levará a Porta Ruivas! Ou então, mesmo antes de chegar a uma pequena corga, podemos baixar ao Curral de Bezerros e a partir daqui, olhando com atenção para a vertente que segue em direcção ao nosso objectivo, descortinar as velhas e pequenas mariolas que vão resistindo à passagem do tempo e que nos idos passados marcavam a ligação até às planuras que antecedem Porta Roibas e que nos levam a contemplar o imenso vale glaciar que se abre da Mourisca até Fechinhas.

Ponderando descer ao Curral de Bezerros, o vislumbre do matagal primaveril na encosta a seguir convenceu-me a seguir o carreiro usual que passa nas imediações do Curral de Premuinho e que nos leva a Porta Roibas. Esta parte do carreiro oferece-nos (mais) uma paisagem de assombro ao caminharmos ao longo da Corga de Valongo e com o alto de Borrageiros a dominar a paisagem. O cenário que aqui se cria, colorido de granito e recheado de vazio pelos alcantilados que se projectam desde o fundo dos vales, é digno de um poema, uma jóia cénica que a Serra do Gerês nos oferece e que espanta a cada visita.




O já, mais do que merecido descanso fez-se então à sombra do pequeno carvalho que contempla o Curral de Porta Roibas por entre a imensidão do silêncio que se instala. Ali, domina a tranquilidade e a grandeza dos grandes espaço!

A jornada de regresso foi inicialmente marcada pela necessidade de abastecer de água. Por esta altura, com os ribeiros já em depressão e com a presença das vezeiras na serra, a recolha de água deve ser feita com cuidado para evitar dissabores. Felizmente, a Fonte de Premuinho é uma nascente da qual sempre brota água em todo o ano. Assim, saindo de Porta Roibas e experimentando diferentes carreiros que me levaram em parte do caminho pelo bordo da Corga de Valongo, segui em direcção a Premuinho.

Por muitas vezes que caminhe por estas paragens, haverá sempre algo que me desperta a curiosidade e me leve a decidir voltar «em breve». Isto pode ser o vestígio de um velho abrigo, um carreiro manhoso ou várias mariolas perdidas por entre paisagem no meio do nada. Compreender os locais por onde passámos e conhecer a sua história, ajuda-nos a sentir a caminhada de modo diferente. Ignorar a sua história e achar que aquilo está ali somente por nossa causa, é apenas egoísmo e pura estupidez de quem não sabe e nem compreende onde está. Não falta gente assim... Na distância, e enquanto percorria um pequeno vale, tive o vislumbre de velhas mariolas em contra-luz. Foi o mote para deixar o carreiro onde caminhava e ir investigar o que acabara de ver. Chegando àquele ponto onde estava a primeira mariola, logo surgiram mais duas ou três assinalando uma passagem abrupta na encosta para o fundo da Corga de Valongo. Nos tempos idos, a corga serviu de passagem pelo Cambeiro para os que iam vender o carvão ao Teixo, no Vale do Homem, e de facto pode-se ainda observar com atenção e «olhos de ver» os vestígios do velho carreiro no fundo do vale. Fica para uma próxima visita...

Abastecido de água na Fonte de Premuinho, segui pela encosta da Torrinheira (Cabeço da Cova da Porca) para tomar o caminho que me levaria aos Prados da Messe. Já numa caminhada anterior, ao descer para a Chã do Cimo da Água da Pala, notei no OSM o traçado de um caminho carreteiro no lado oposto por onde caminhava, porém, e por muito esforço que tivesse feito, não vi qualquer vislumbre da sua existência. De facto, e ao olhar com mais cuidado para o seu traçado, só se pode chegar à conclusão que por ali nunca teria passado num caminho e no OSM este traçado surgiu há muito pouco tempo. Esse traçado fantasma «vem» do Cabeço do Cantarelo, atravessa o topo da Corga da Água da Pala e segue depois em linha recta (!) na direcção da Torrinheira, atravessando a direito todas as corgas que lhe surgem adiante.

Lembro-me que em tempos, na aplicação Wikiloc, surgiam muitos traçados que tinham mesmo a «carinha» de serem feitos no Google Earth e depois transferidos para essa plataforma, assim mostrando a «larga experiência» de quem os, supostamente, teria percorrido. Os resultados dessa palermice não tardaram a aparecer, com muita gente a ter sérios problemas com esses ficheiros quando no terreno surgiam largas áreas impenetráveis e intransponíveis. 

Passando a Sul do Cantarelo, descia então para os Prados da Messe, local de repor forças para a parte final da jornada que me levaria a subir pela margem esquerda do Ribeiro do Porto de Vacas até ao topo da Corga dos Cântaros e daqui segui para o Curral de Carris de Maceira, descendo então para as Tábuas e Curral de Maceira. A parte final do percurso levou-me a passar junto do Curral de S. João do Campo e da velha fonte dos Serviços Florestais, já nas proximidades da Casa Florestal de Leonte de onde havia partido de manhã.

O percurso teve uma extensão de 23,2 km e um D+ 1.048 m.






















Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)