E pronto! Somos mais uma vez chegados àquela altura do ano em que (ainda mais) "vale tudo" na agora instalada «silly season» no Parque Nacional da Peneda-Gerês!
O que a cada dia se constata - se bem que também não é necessário chegarmos a esta altura do ano para tal - é que o Parque Nacional da Peneda-Gerês continua ao abandono e parece que isso se nota cada vez mais.
Apesar das muitas declarações e do espalhafato de prémios inúteis dados a quem pouco se interessa por isto, a realidade é cada vez mais óbvia: o Parque Nacional morreu ou está em finados.
Ao Parque Nacional falta tudo! Falta ordenamento (quase a cumprir dois anos desde que a consulta pública ao novo Regulamento terminou e nada se vê). Falta vigilância (continua-se com 12 - serão 12? - Vigilantes da Natureza para uma área de cerca de 70.000 ha e não cobrem somente isso). Falta empatia com as populações (a relação entre as populações e o ICNF/PNPG não sai da desconfiança mútua num sentimento que se arrasta há décadas). Falta protecção do Parque (os sinais dos furtivos e as declarações inflamadas contra o lobo acicatam a má relação entre quem quer proteger e quem quer viver). Falta uma real política de prevenção e compensação dos «ataques» do lobo (toda a gente tem culpa no cartório - as medidas de protecção dos animais que pastam nas serranias são escassas e as compensações do Estado são demoradas e irrisórias). Falta educação (a grande maioria de quem visita o Parque Nacional não sabe o que é e, quando sabe, não respeita as regras do jogo... basta ver facebooks, instagrams e tiktoks).
A fotografia em cima ilustra o cenário que se vai viver nos próximos três meses. Apesar da Estrada da Geira estar encerrada e com sinais de proibição de circulação tanto na Albergaria, como na Guarda (Campo do Gerês), o chico-espertismo nacional fala sempre mais alto e à medida dos umbigos que por cá visitam. É também a prova de que a vigilância não é efectiva e quando falo de "vigilância" não me refiro apenas e só à dúzia de Vigilantes da Natureza que o ICNF dedica ao nosso único Parque Nacional (e que nesta altura do ano passam grande parte do seu tempo a «vigiar» banhistas).
Já há muito que na vila do Gerês deveriam existir e ser visíveis a presença da Guarda Florestal que efectivamente possa auxiliar os Vigilantes da Natureza na tarefa de proteger o Parque Nacional. Por outro lado, o patrulhamento deve também ser complementado pela presença dos militares da força regular da GNR ou dos membros do Grupo de Resgate de Montanha, e este patrulhamento deve ser feito a pé, percorrendo nesta altura as zonas mais procuradas pelos banhistas (sim, não me venham dizer que são verdadeiros montanhistas ou quem realmente gosta de desfrutar da Natureza que faz os atropelos à protecção do Parque Nacional da Peneda-Gerês)!
E não! Não se deve, nem se pode fechar os olhos aos atropelos e às regras que aqui existem durante todo o ano e que na «silly season» são esquecidas por conveniência de hoteleiros ou restauração sazonal. Há quem todo o ano conviva com essas regras e nem por isso merece uma discriminação positiva!
Finalmente, "o respeitinho é muito bonito!" e quem cá vive não está cá como "índios numa reserva"! As aldeias do Parque Nacional são sítios onde vive gente, aliás, o Parque Nacional da Peneda-Gerês existe como tal porque vive gente cá dentro e essa gente tem e deve ser respeitada. As ruas das nossas aldeias não são os mictórios das vossas noites de copos, não são o recreio das vossas crianças barulhentas, não são os sítios onde tudo se pode.
Sobre a fotografia em cima feita da Estrada da Geira que se encontra encerrada ao trânsito e o desrespeito pela sinalética existente: "acho que este descaramento bem merece. Espero que estes dois levem uma lembrança quando voltarem. Passaram por mim a alta velocidade e ainda tive de comer o pó deles. Mais à frente, encontrei os carros estacionados mesmo em frente à obra, e a tripulação a caminhar com cestos em direção à casa florestal da Albergaria."
Avante!
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