A 11 de Março de 1886, a revista O Occidente publicava um artrigo da autoria de J. Henriques que faz uma maravilhosa decrição da Serra do Gerês.
O autor percorreu as paisagens naturais de um mundo que há 140 anos nos brindava como sendo uma das zonas mais selvagens de Portugal. Ao ler o texto, nota-se que a escolha das palavras pelo autor não se limitou à sua satisfação de percorrer matas luxuriantes e picos graníticos agrestes; o texto transporta-nos para algo de verdadeiramente único no nosso país tanto naquela data, como nos nossos dias.
Se bem que passados 140 anos a realidade deste espaço natural seja diferente, o texto de J. Henriques ajuda-nos a perceber um pouco da História deste território para o qual se deveria olhar com mais atenção e cuidado. A sua preservação é imperiosa para que as expressões de exclamação nos encham de orgulho por termos algo comparável com o que existe noutros países. Valorizar este território é uma obrigação de todos!
(No texto a seguir, decidi manter a ortografia original)
A Serra do Gerez
Por J. Henriques
Não conheço em Portugal serra mais pittoresca do que esta e por isso bem digna de ser visitada.
Vao lá, porém, só aquelles a quem um mau fígado ou um estomago alterado incommoda, e esses não sobem á serra; não procuram as frondosas florestas, a agua limpida e fria, que cahe em cascatas de rochedo em rochedo, ou o ar puro da montanha. Contentam-se com as aguas mineraes, com os passeios nas Caldas. Vêem a serra de longe. Aos altos vão os caçadores, procurar cabras e gamos.
Não vão lá os artistas, pois ahí teriam mina inexgotavel.
É sabido que a serra do Gerez fiva não longe da capital do Minho e que faz parte do grande grupo de montanhas que limitam Portugal e Hespanha pelo norte. É menos alta que a serra da Estrela, pois que o morro do Borrageiro - que é o ponto culminante da serra - fica apenas a 1:1442 metros d'altitude. Dois rios a limitam, d'um lado o Cavado, d'outro o Homem, e ambos, depois de banharem as ferteis terras de Bouro e outras, vão reunir-se perto de Braga, junto á ponte do Bico.
Hoje uma boa estrada partindo de Braga e seguindo as margens do Cavado, bella como quasi todas as estradas do Minho, permite que o viajante vá commodamente até ás Caldas. A accidentação do terreno, a vegetação das terras cultivadas, Bouro com o seu velho convento, tudo interessa. Se o passeio é dado ao domingo, a cada passo a paisagem é animada por grupos de camponezes com os seus vestidos caracteristicos.
Poder fazer-se a viagem pela bacia do Homem. É porém mau o caminho e monotona a paisagem.
De Braga é facil ir também até ao Penedo. D'aqui, porém, ao Gerez a jornada não é comoda.
Sigamos a estrada do Bouro. Admiremos de passagem a paisagem da ponte do Porto, o mosteiro de Bouro com as estatuas d'alguns reis portuguezes. Não será fóra de proposito comprar algumas laranjas, que já foram elogiadas pelo professor Link.
Desde que se sae de Bouro a estrada sobe consideravelmente. O rio Cavado, a grande profundidade, mostra-se raras vezes. Para elle desce mais tarde a estrada e n'uma volta, quasi de repente, se depara com a serra do Gerez, cujo perfil se observa admiravelmente.
Em pouco tempo o carro passa junto da ponte do Cavado, atravessa a ponte do Caldo e segue pela nova estrada que corta os campos de Villar da Veiga. Começam ahi as bellezas do Gerez. Á esquerda da estrada corre o Caldo, e o viajante pode, logo admirar uma das paisagens mais notaveis. Dá d'ella idéia a gravura da primeira página*.
É um quadro completo.
A paisagem só muda de modo sinsivel nas Caldas. O valle é apertado, as encostas da montanha alterozas, o rio torrencial.
Quando em junho alli estive, depois d'uma noite de chuva, que mais parecia noite de dezembro, que admiravel quadro não offerecia de manhã o Caldo, correndo por entre grossos calháos rolados no seu apertado leito, ficando no ultimo plano a serra da qual começavam a levantar-se as densas nuvens!
A pequena povoação das Caldas nada tem que prenda a atenção do viajante. É bom deixal-a aos hypochondriacos. O artista prepara-se e segue para a serra.
É quasi de rigor ter como guia o Rigor. Conhece elle todos os estreitos caminhos e todos os recantos da serra. Tendo-o por companheiro ninguem alli se perderá.
A primeira excursão deve ser ao Borrageiro e para mais commodidade seguir-se ha o caminho de Leonte, caminho quasi só de cabras, mas que é facil subir a pé. Os cavallos das caldas trilham-n'o admiravelmente e os cavalleiros podem fiar-se n'elles. Se as cilhas não rebentam, não ha queda possivel.
Até á Preguiça nada ha de notavel. Mas ahi tudo muda. Em frente ostenta-se imponente a montanha, profundamente cortada, deixando advinhar uma estreita passagem - a portella de Leonte: á esquerda o pé do Cabril, que parece ruinas de enorme castelo. É formado de rochas sobre rochas. Á direita os primeiros degraus do Borrageiro encobrem o resto da montanha. A grande profundidade correm as aguas, que descemd e Leonte e que de todos os lados recebem pequenos affluentes. Vegetação frondosissima cobre a parte da serra que pode d'ahi ser vista.
Da Preguiça até ao Vidoal o caminho segue sempre á sombra de copadas arvores. As margens dos regatos são cobertas de musgos. Uma pequena violeta vive até sobre as pedras que a agua molha.
No meio de tudo isto ha singulares curiosidades. Um carvalho enorme, cahido sobre o pequeno rio, não morreu. Foi vivendo e como a luz lhe era necessaria, foi levantando os ramos. Coberto de espessa camada de musgo assemelha-se agora a um enorme sophá. Pode ahi bem repousar, que se achar cançado.
O caminho de Leonte para cima é aspero. A vegetação diminuie, chegando por fim a ficar reduzida a pequenos grupos de teixos e de elegantes vidoeiros, que vivem nos corregos por onde corre a agua.
Depois só as pedras ornam a montanha. Revestem ellas todas as formas, attingem todas as grandezas, dando á paisagem um aspecto que pela aspereza contrasta profundamente com o que até alli se tinha visto.
As portas são uma das muito singulares formas, que as rochas apresentam. Parecem mais obra do homem do que da natureza. O Borrageiro é terminado por enorme massa de granito, polida pela neve, batida pelas tempestades. Quasi nenhuma vegetação ahi se encontra.
D'este ponto elevado a vista estende-se por largo horisonte. As montanhas de Barroso e de Traz os-Montes simulam ondulações gigantescas de mar enorme.
Serra do Gerez - Um Curral de Leonte (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)
Deixemos os pontos elevados da serra.
De Leonte descamos para os lados de Hespanha por um pessimo caminho, unico que existe. Passemos para além do curral da Albergaria e atravessemos uma pequena ponte que dá passagem sobre um riacho, que vae perto desaguar no Homem. Admire-se d'ahi o aspecto maravilhoso da serra. Recortada profundamente n'uns poucos de sentidos, coberta de espessa matta de carvalhos até grande altura e coroada por massas graniticas de formas caprichosas, não pode ser mais bella.
Serra do Gerez - Rio Homem, junto á Ponte Feia (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)
Continuemos a caminhar. Auxilia-nos a fresca sombra do arvoredo. A pequena distancia tivemos uma paisagem perfeitamente caracteristica e como rara vezes se encontra. O rio Homem apparece quasi por encanto. Mal se perce d'onde vem. Despenha-se em brilhante cascata para seguir por entre grandes muralhas graniticas. Alguns troncos d'arvores lançados de margem a margem forma a ponte feia. D'esta podem contar-se no fundo do leito do rio as mais pequenas pedras, tal é a limpidez das aguas.
Do lado esquerdo do rio admira-se uma espessa floresta terminada em picos graniticos elevadissimos.
Da ponte feia é bom ir ao Villarinho das furnas onde em principios d'este seculo foram hospedados o Conde de Hoffmansegg e o professor Link que da Allemanha vieram a Portugal, contemplar-lhe as belezas e estudar as produções naturaes.
Serra do Gerez - Villarinho das Furnas (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)
O caminho segue sempre a margem do rio Homem. Esta parte da serra é boa para quem meditar na historia da terra ou na historia do homem.
São aqui bem pronunciados os effeitos das aguas torrenciais. A observação d'elles facilitará de certo a comprehensão de grandes phenomenos naturaes.
A estrada, que se pisa, é obra dos grandes dominadores do mundo - os romanos. Os marcos milliarios, que ainda se encontram aos lados da estrada, fazem pensar nas legiões que n'outros tempos por alli teriam passado.
O vale que o rio corta, apertado em grande extensão, alarga afinal formando uma planicie consideravel, mas monotona até Villarinho. Uma pequena ponte dá passagem para a povoação, pouco importante. Um pequeno rio a atravessa e da ponte gosa-se uma bella paisagem. Alguns morros escalvados de terra foram um fundo admiravel sobre o qual destaca um grupo de casas da povoação.
Deixando o rio, e não querendo visitar o sitio onde se diz que existira uma antiga povoação importante - Chalcedonia - subamos de novo para a serra, protegidos sempre pelos carvalhos frondosos. A setecentos e tantos metros encontraremos n'uma extensa planicie, cortada em campos bem cultivados, uma povoação alegre. É S. João do Campo.
Um pequeno rio corta as veigas que cercam a povoação. Renques de elegantes vidoeiras vestem as margens em mais d'um sitio.
D'esta povoação até ás Caldas o caminho é horroroso: massas graniticas enormes, umas sobre as outras, formam castellos gigantescos. O terreno é coberto de vegetação rachitica. Depois de subir a grande altura, começa a descida para as Caldas.
Que caminho e que precepicios!
Na serra do Gerez não há só para contemplara paisagem nos seus diversissimos aspectos e da qual esta noticia é apenas um pallido reflexo.
São dignos de exame os costumes, a vida das povoações serranas.
É boa e obsequiadora a gente d'estas terras. Ha aqui restos de costumes antigos, alguns nãp pouco curiosos. Cada povoação tem obrigação de cuidar da conservação dos caminhos. Cada povoação tem um colmeal, onde cada habitante pode ter as suas colmeias.
Geralmente no cultivo das terras empregam vaccas, e como a todos convém que ellas se propaguem, cada povoação tem um touro, que é de todos, porque todos para o comprar dão dinheiro. Como é de todos não tem elle habitação fixa: Vive successivamente em casa dos diversos lavradores e demora-se tantos dias, quantas as juntas de vaccas que cada lavrador tiver.
De verão todo o gado pasta na serra. Divaga livremente de dia, mas ao cahir da tarde todo o gado de cada povoação recolhe ao curral, que é um pequeno espaço um pouco plano, sem guarda ou limites, tendo apenas como distinctivo um forno - pequenissima casa, coberta de telha ou de colmo, na qual dorme o pastor.
(...)
É um bello e completo quadro um curral ao cahir da tarde.
Que lindos animaes, que movimento!
Como os gados são de povoações diversas, para todas ha curraes especiaes e a alturas diversas da serra. Os direitos das povoações são totalmente e mutuamente respeitados de modo que nunca os gados de povoações diversas chegam a reunir-se no mesmo logar.
A guarda é feita d'um modo muito regular e justo. Cada lavrador dá um guarda, que passará no monte tantas noites, quantas forem as juntas de vaccas que possuir.
Estas formas de administração local são dignas de ser conhecidas e estudadas.
É curta e incompleta esta noticia. Outros a poderão completar, se tomarem a boa resolução de passar alguns dias da estação calmosa n'este recanto de Portugal, tão cheio de bellezas.
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* Esta frase refere-se à imagem inicial em cima do texto que tem a legenda "Serra do Gerez - Rio Caldo, Junto das Caldas (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)"
Fonte: O Occidente (Volume IX n.º 260, 11 de Março de 1886), O Occidente (Volume IX n.º 263, 11 de Abril de 1886)