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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCXV) - Réquiem por Vilarinho

 


Viam a luz nas palhas de um curral,

Criavam-se na serra a guardar gado.

À rabiça do arado,

A perseguir a sombra nas lavras,

aprendiam a ler

O alfabeto do suor honrado.

Até que se cansavam

De tudo o que sabiam,

E, gratos, recebiam

Sete palmos de paz num cemitério

E visitas e flores no dia de finados.

Mas, de repente, um muro de cimento

Interrompeu o canto

De um rio que corria

Nos ouvidos de todos.

E um Letes de silêncio represado

Cobre de esquecimento

Esse mundo sagrado

Onde a vida era um rito demorado

E a morte um segundo nascimento.

"Requiem", Miguel Torga

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Paisagens da Peneda-Gerês (CDXXIII) - Requiem (por Vilarinho da Furna)


"Requiem", um poema de Miguel Torga sobre os últimos dias de Vilarinho da Furna, Serra Amarela.

Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavras,
Aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério
E visitas e flores no dia de finados.
Mas, de repente, um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E um Letes de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Miguel Torga e a sua passagem pelas Minas dos Carris


"(...) Tranquei as portas da memória e, pela margem do rio, subi aos Carris. Uma multidão minava as fragas à procura de volfrâmio, por conta da guerra e de quem a fazia. Teixos e carvalhos centenários acompanharam me quase todo o caminho. Só desistiram quando me aproximei do cume da montanha, onde a vida, já sem raízes, tenta levantar voo.

Agora, sim! Agora podia, em perfeita paz de espírito, estender a minha ternura lusíada por toda a portuguesa Galiza percorrida. Pano de fundo, o mar de terras baixas era apenas um cenário esfumado; à boca do palco reflectiam se nas várias albufeiras do Cávado a redonda pureza da Cabreira e a beleza sem par do Gerês. E o espectador emotivo já não tinha necessidade de brigar com o cavador instintivo que havia também dentro de mim. Embora através da magia agreste dos relevos, talvez por contraste, impunha se me com outra significação a abundância dos canastros, o optimismo dos semeadores e a própria embriaguez que anestesiava cada acto, no fundo necessária à saúde dos corpos individuais e colectivos. Integrava o alegrete perpétuo no meu caleidoscópio telúrico. Bem vistas as coisas, se ele não existisse faria falta no arranjo final do ramalhete corográfico português.

Em acção de graças por esta conclusão pacificadora, rezei orações pagãs no Altar de Cabrões, antes de subir à Nevosa e aos Cornos da Fonte Fria a experimentar como se tremem maleitas em pleno Agosto.

Estava exausto, mas o corpo recusava se a parar. Pitões acenava me lá longe, de tectos colmados e de chancas ferradas. Não obstante pisar o mais belo pedaço de chão pátrio, queria repousar em terra real e consubstancialmente minha. Ansiava por estender os ossos nos tomentos do Barroso, onde, apesar de tudo, era mais seguro adormecer. Quem me garantia a mim que, mesmo alcandorado nos carrapitos da Borrajeira, não voltaria a ter pela noite fria um pesadelo verde?"

In Portugal

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Requiem


Baseado numa publicação de André Gago no facebook

Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavras, aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério
E visitas e flores no dia de finados.
Mas, de repente, um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E um Letes de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento.

Miguel Torga
Barragem de Vilarinho da Furna, 18 de Julho de 1976

O poema de Torga alude à submersão da aldeia de Vilarinho da Furna pela barragem, tema central do romance Rio Homem de André Gago.

Na foto, os personagens reais romanceados em Rio Homem — era impossível escrever a história daquele período da aldeia sem os referir — que, na minha ficção, sobem a Serra Amarela na companhia da personagem central, Rogélio Pardo, e de Alda Menez, ambos puramente ficcionais. Da esquerda para a direita: Margot Dias, Miguel Torga, Andrée Rocha, Jorge Dias e José Fecha, algures nos Montes de Vilarinho da Furna; no meu romance, quem lhes tira a fotografia é Rogélio...

(Fonte: Clara Rocha, Miguel Torga - Fotobiografia, Dom Quixote, Lisboa, 2000, p. 103)

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Paisagens da Peneda-Gerês (XC) - Vilarinho da Furna (II)


Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.

Miguel Torga in “Orfeu Rebelde”.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sábado, 16 de julho de 2016

Paisagens da Peneda-Gerês (XVIII) - Casarotas


As Casarotas, na Serra Amarela, permanecem um testemunho silencioso do passado e um mistério envolto pelas palavras de Miguel Torga e pela paixão de Rogélio, no romance de André Gago.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A nossa paisagem...


A nossa paisagem física e psicológica vai-se pouco a pouco modificando. Os rios lírico, represados, começam a dar energia eléctrica, e os montes ossudos, repovoados, perdem pouco a pouco o seu perfil trágico e alucinado. O mundo caminha nas rodas do progresso, e atrás dele lá vai a atamancar a nossa harmonia bucólica e faminta.



É pena que os homens não descubram senão em formas cosmopolitas. Que o mesmo saca-rolhas tire as rolhas de todas as garrafas. Cada terra devia ter os seus inventos próprios, as soluções próprias do seu caso.



Miguel Torga

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sábado, 18 de setembro de 2010

Pátria, Miguel Torga


Serra!

e qualquer coisda dentro de mim se acalma...

Qualquer coisa profunda e dolorida,

Traída,

Feita de terra

e alma.


Uma paz de falcão na sua altura

A medir as fronteiras:

_ Sob a garra dos pés a fraga dura,

E o bicho a picar estrelas verdadeiras...

Fotografia: © Rui C. Barbosa

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Noites de Tempestade nos Carris: Relâmpago, Miguel Torga

Rasguei-me como um raio rasga o céu


Iluminei-me todo de repente

Negrura permanente

De noite enfeitiçada

Queis ver-me com pupilas de vidente

E arrombei os portões à madrugada

Mas nada vi

Caverna de pavores

Só com tempo e vagar eu poderia encarar

Castigar e perdoar

Tanta abominação que em mim havia

Relâmpago, Miguel Torga, por Orfeu Rebelde