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domingo, 21 de janeiro de 2024

Os Serviços Florestais e a toponímia geresiana

 


Numa zona vincadamente marcada pela emigração, os Serviços Florestais chegaram à Serra do Gerês - e mais tarde às outras serras que integrariam o Parque Nacional da Peneda-Gerês - em Agosto de 1888.

Até finais do século XIX, eram escassos os mapas que assinalavam as principais características da Serra do Gerês com a sua toponímia. Esta, ao longo de séculos, foi transmitida de forma oral por entre os pastores, carvoeiros e contrabandistas, que demandavam as paragens serranas.

Devido a diferentes razões, sendo a mais notória a emigração em diferentes épocas, a transmissão oral dos topónimos e principalmente dos micro topónimos, foi-se degradando e perdendo. Por outro lado, a chegada dos Serviços Florestais e talvez o mau entendimento do falar das gentes da serra, levou a que muitos topónimos fossem alterados e / ou mal registados nos mapas que, entretanto, se desenharam.

Um dos exemplos que pode ter sofrido desta alteração é a muito conhecida 'Pedra Bela'. Já por vezes ouvi a explicação de que em tempos aquele local teria a designação de "Pedra de Velar", pois seria a partir dali onde os pastores do Vilar da Veiga «velariam» o pasto dos animais durante a vezeira. Assim, 'Pedra de Velar' teria de certa forma evoluído para 'Pedra Bela', o topónimo pelo qual é aquele local agora conhecido.

São inúmeros os exemplos que encontramos das alterações de topónimos que resultaram da passagem da informação errada entre os Serviços Florestais e, por exemplo, os Serviços Cartográficos do Exército que elaboraram as folhas da Carta Militar de Portugal que serve (ou serviu) de guia para muitos aficionados da montanha (não só na Serra do Gerês como em muitas outras serras nacionais). 

Vejamos um exemplo na seguinte fotografia (que nos mostra parte do Vale de Teixeira)...

Ao Alto das Rubias muitas vezes tenho chamado "Camalhão" (outros "Cambalhão"). Na verdade, o seu topónimo é "Alto das Rubias". O topónimo 'Camalhão' é atribuído pelos Serviços Florestais ao marco triangulado ali existente e esta é a razão de - em muitos casos - termos dois topónimos para o mesmo ponto.

Caso semelhante acontece, por exemplo, com o (alto do) Junco. Sempre achei curioso, e de certa forma estranho, termos o "Curral do Junco" nas imediações da Garganta da Preza, quando o (alto do) 'Junco' está localizado mais a Sul. Ora, ao Junco dá-se o nome de "Cabeço da Boca do Sucro", ou, na verdade, deve-se dizer que ao 'Cabeço da Boca do Sucro' dá-se também o nome de 'Junco'.

Caso semelhante acontecerá com o "Cabeço da Cova da Porca" que actualmente é conhecido como "Torinheira", se bem que aqui poderemos estar na presença de outra situação. Isto é, várias características orográficas poderão ter designações distintas dependendo da vezeira que lhe atribui o nome, pois em Cabril designa-se a 'Torrinheira' como "Estorrinheira". Um caso semelhante acontece com a 'Roca de Pias' (vezeira de Fafião) designada de "Cutelo de Pias" (vezeira da Ermida).

Este é um pequeno texto que serve para alertar para a possibilidade de termos vários topónimos para uma mesma característica geográfica sem que estes estejam errados (bom, pelo menos de certa forma). 

Infelizmente, muita da toponímia - que é parte da História do território - vê-se actualmente ameaçada pela verdadeira estupidez de atribuir nomes em comparação com zonas estrangeiras. Por outro lado, a pressão do turismo faz com que as próprias gentes locais «esqueçam» os verdadeiros topónimos e dêem azo a verdadeiras aberrações como as "Cascatas do Tahiti" (Fecha de Barjas ou Cascata das Varzeas), "Páo de Açucar" (Penameda) ou o irritante "Tibete Português" (Sistelo), entre muitos outros exemplos (muito em culpa das publicações electrónicas em busca de clickbaits).

Um agradecimento ao Príncipe Domingos pela ajuda no esclarecimento da toponímia para este texto.

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Serra do Gerês - Do Arado ao Junco

 


Esta caminhada levou-me a percorrer parte do Vale de Teixeira até ao Curral de Cambalhão desde o Arado, seguindo depois pelo Junco.

A caminhada começou manhã cedo com o nevoeiro a invadir o Vale do Rio Cávado e a subir para as paragens do Rio Arado até chegar às proximidades da Ponte do Arado. Foi por aqui que começamos a caminhada, seguindo pelo Miradouro da Cascata do Arado.

Depois de passar pelo Prado de Teixeira, seguimos em direcção ao Prado do Cambalhão para uma curta visita. De seguida, passamos o rio e começamos a caminhar nas encostas da vertente Nascente do Pé de Salgueiro, seguindo para a parte superior da imensa Corga da Figueira antes de iniciarmos a subida ao Junco. Depois do Junco, passamos pelo Cabeço da Boca de Sucro e seguiu-se para o Curral da Lomba do Vidoeiro para o almoço.

Após o almoço, passamos pelo Curral da Carvalha das Éguas e pela Chã de Rebolar, seguindo depois pela Pala do Cando de Cima e descendo para o Cocão, regressando ao ponto de partida.

Foi uma caminhada com 9,7 km e com um D+ de 477 metros, totalizando 2.660,3 km percorridos em 2022 com um total de D+ 116.477 metros.

Ficam algumas fotografias do dia...





























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Trilho dos Currais com passagem pelo Laspedo e Teixeira

 


O Trilho dos Currais (PR3 TBR) é um percurso de pequena rota inserido na Senda de Miguel Torga e implementado pela Câmara Municipal de Terras de Bouro. No total tem uma extensão de 10 km e "percorre três currais: o Curral da Espinheira, o Curral da Carvalha das Éguas e o Curral da Lomba do Vidoeiro, numa área de singular beleza natural da Serra do Gerês."

A informação oficial do Trilho dos Currais está disponível aqui, o folheto aqui e o traçado em gpx aqui.

Já por várias vezes percorri este percurso, mas desta vez decidi fazê-lo no sentido que está aconselhado na placa de início de percurso, isto é, descer às Caldas do Gerês e a partir daqui enveredar encosta acima até à Pedra Bela. Sempre havia descido por esta encosta, chegando à Carona e descendo para a vila, e sempre tive a intenção de fazer o percurso a subir pois, se no sentido inverso é já um teste à capacidade aeróbica, o sentido aconselhado põe à prova todo o corpo e a nossa resiliência.

Segundo a informação do sítio do Município de Terras de Bouro, "...o Trilho dos Currais proporciona um contacto direto com o espírito e tradições comunitárias locais, a partir da organização silvo-pastoril na forma de vezeira. Esta prática comunitária, peculiar da Serra do Gerês, decorre de maio a setembro, sendo o gado bovino da comunidade encaminhado pelos caminhos carreteiros até à serra alta, onde se situam os currais. Os vezeiros – proprietários do gado – acompanham durante dias ou semanas o gado consoante o número de cabeças que possuem, transportando os utensílios para a alimentação e estadia nas cabanas dos currais.

A manutenção destas estruturas comunitárias é assegurada anualmente. Todos os anos, previamente à subida do gado para a serra, no dia dos cubais, os proprietários limpam os caminhos carreteiros, arranjam as cabanas e as fontes."


Do todos os abrigos pastoris, o abrigo existente no Curral da Espinheira encontra-se alagado, isto é, destruído com a sua cúpula colapsada. 

Na sua totalidade o percurso está bem assinalado, havendo um especial cuidado na descida a partir do Curral da Lomba do Vidoeiro.

Para prolongar um pouco mais a duração da jornada, decidi abandonar o traçado do PR3 no Curral da Lomda do Vidoeiro e seguir em direcção ao Laspedo, passando pelo Penedo Castelejo e Poço Verde. O Laspedo dá-nos uma panorâmica singular sobre o Vale do Rio Gerês na sua metade inferior quando se despenha na albufeira da Barragem da Caniçada desde as Caldas do Gerês. O vale, abre-se aos nossos pés assentes num caos granítico com fraguedos esculpidos durante séculos e séculos pelos elementos que tornaram aquele lugar num ponto único na Serra do Gerês. Sobranceiro à Corga da Figueira, abre-se perante nós a imensidão dos vales profundos e a vertigem das alturas mergulhadas num silêncio onde os falsetes do nosso espírito traçam poucos limites para os horizontes que dali vislumbramos.

Deixando as formas rudes e caóticas do Laspedo para trás, segui em direcção ao Cabeço da Boca do Sucro, ladeando-o pela esquerda e entrando num maravilhoso passadiço natural suspenso sobre a Corga da Figueira. O estreito caminho vai ladear o Junco e abre-nos as portas para o imenso Pé de Salgueiro que surge na vigília ao Vale de Teixeira. Se o Pé de Cabril até ali encimava a paisagem, agora o Pé de Salgueiro toma a opulência das grandes vertentes graníticas e transmuta-se no guardião dos segredos do vale onde agora entro.

Passando o Vale da Boca do Sucro e descendo à margem direita da Ribeira da Teixeira (ou Rio do Camalhão/Cambalhão) - que irá tomar vários nomes até se decidir por 'Arado' - atravesso o curdo de água já depois de deixar de vislumbrar o Curral de Camalhão e sigo para o Curral de Teixeira onde me esperava um mergulho «refrescante». Após um já merecido descanso, tomei o caminho de regresso ao Curral da Lomba de Vidoeiro e segui o traçado do Trilho dos Currais até ao ponto de partida.

Ficam algumas fotografias do dia...



































Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)