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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCCLVI) - Abrigo pastoril dos Prados Caveiros

 


O abrigo pastoril dos místicos Prados Caveiros, Serra do Gerês, pertencentes à antiga vezeira de Vilarinho da Furna.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Trilhos seculares - Aos Prados Caveiros

 


O «desaparecimento» de Vilarinho da Furna conduziu ao inevitável abandono da paisagem que durante séculos foi sendo moldada pela presença da aldeia. Caminhos, construções, memórias, tudo se foi (se vai) desvanecendo da paisagem à medida que a aldeia se transforma em História e as recordações se dissipam da memória dos que lá viveram.

A Natureza foi reconquistando aquilo que em tempos dera de troca, transformando em «selvagem» um espaço onde a convivência se fez durante centenas de anos. Aqui e ali ou quando as águas retrocedem nos dias do Estio, a memória renasce por momentos, pelo menos até o regresso das chuvas.





Escondidas na paisagem, as marcas de Vilarinho da Furna ainda resistem à passagem do tempo. Por entre o matagal, surgem velhas calçadas, abrigos abandonados, silhas e casas perdidas na floresta. Gravada em palavras ou em imagens que se movem, a memória torna-se difusa. Porém, ganha vida quando se visitam os locais imersos no silêncio das serranias agrestes que lhe toldaram a maneira de ser. Um destes locais, são os Prados Caveiros e a subida através do Peito de Escada.

Neste dia fui visitar os Prados Caveiros, um local cheio de memória tão profunda como o silêncio que o abraça como uma mortalha invisível. Para lá chegar, e começando a caminhada na Albergaria, subi através do Peito de Escada, corredor através do qual os pastores de Vilarinho da Furna caminhavam para lá chegar depois de percorrer os caminhos da via romana que se alongava pelo Vale do Rio Homem. Inicialmente, e antes da chegada das águas, o caminho seguida pelo fundo do vale, mas quando o dilúvio bíblico chegou em finais dos anos 60 do século passado, o caminho fazia-se já em parte pela estrada que os Serviços Florestais abriram para a Bouça da Mó.





Assim, passando o caos arbóreo junto à Ponte Feia e seguindo até perto da Ponte de S. Miguel, derrubada em 1640, tomei um carreiro que me levou perto da margem direita do Ribeiro de Monção junto à estrada e daqui iniciei a subida encosta acima. O caminho está lá, demarcado pelo esforço que ao longo de séculos fizeram os homens e mulheres de Vilarinho. As pedras marcam as voltas do carreiro e este por vezes sente-se nas velhas mariolas que perduram. A subida, o Peito de Escada, concorre com a Costa de Sabrosa do outro lado do lave por onde corre o Monção, memória dos tempos romanos que por ali deixaram muita toponímia.

Ganhando altitude, os horizontes alargam-se; se ao princípio somos mergulhados nas copas da Mata de Albergaria, esta transforma-se numa grande mancha que cobre os vales sobranceiros. Em breve, os altos serranos desenham-se contra o céu pincelado de nuvens matinais e o Sol cria um halo que indica noites húmidas e frias. No nascente, o contraluz apenas nos mostra os contornos negros da serra; ao poente a imagem transforma-se à medida que a luz se eleva no céu. São as cores do Inverno que ainda pintam o cenário que se nos depara: as árvores despidas e os rios tumultuosos fazem-se escutar no fundo do vale. Porém, este cenário musical da natureza vai-se tornando silencioso, pois o dia não está ventoso e pouco se escuta para lá dos passos e do raspar da roupa na urze e no tojo.





Terminando a subida, o olhar abrange já as lonjuras castrejas e passeia-se pela cumeada da Amarela, mergulhando na imensa massa de água que domina a paisagem para lá da Pena Longa. Bargiela, Bemposta e os espigões do Pé de Cabril marcam a paisagem como as ameias de um castelo granítico que define o maciço Poente das serranias geresianas.

À nossa frente surge a muralha do Cantarelo encimada pelo seu cabeço que domina sobre o Vale do Alto Homem; caminha-se já nas Lamas de Escada que formam corredores que me conduzem à tranquilidade dos Prados Caveiros: "Aqui impera o silêncio e a tranquilidade, além dos ecos do passado e da sensação de se estar quase num local sagrado. Nos Prados Caveiros mergulha-se na tranquilidade da montanha! Os Prados Caveiros são daqueles locais na Serra do Gerês onde parece que sentimos uma presença para além de nós, quase como se a Natureza viva nos quisesse falar ou fazer sentir o quão especial aquele local é."





E o porquê de um nome? Por várias vezes referenciado como "Coveiros", na verdade, são "Caveiros"! Assim, "Cabeiro", o que está ao final e "cimeiro", o que está na parte mais alta. Estas expressões são de uso comum nos Ancares, Galiza, usando-se também aqui, neste lugar alto, neste lugar cimeiro da Vezeira de Vilarinho da Furna.

Apreciando e absorvendo o silêncio do lugar, e depois de contemplar o velho abrigo pastoril, segui jornada em direcção aos Prados da Messe por entre pequenos riachos, carreiros que se escondem, blocos graníticos, paredes alcantiladas e velhas mariolas que nos levam para onde a nossa imaginação quiser ir. Na volta do caminho, lá no fundo aconchegado por entre a penedia, surge como que um oásis; são os prados, os Prados da Messe.

É interessante tentar perceber a origem deste topónimo! A questão que coloco é a de tentar saber qual a sua origem temporal? O topónimo já existia antes da chegada dos Serviços Florestais ou pelo contrário, o nome surge após a construção da pequena casa da qual nos nossos dias apenas restam tímidas ruínas.

O Dicionário da Língua Portuguesa 2008, da Porto Editora, refere que "'Messe' (do lat[im] messe-) significa «seara madura; colheita; ceifa» e, em sentido figurado, «aquisição; ganho; conquista»." Teria havido plantação de centeio naqueles prados? O mesmo Dicionário refere "ainda se trata, no âmbito militar, de «instalação onde oficiais e sargentos tomam refeições e podem dispor de alojamentos»; neste caso, messe vem «do fr[ancês] ant[igo] mes, hoje mets, "iguaria; prato", pelo ing[lês] mess, "messe"»." Alguém tem ideia de haver plantação naqueles prados?

Após um descanso e retemperar forças, o regresso fez-se pela Costa de Sabrosa, passando pela Lomba de Burro, Corga dos Vidros, Sabrosa e Lameira das Ruivas.

Ficam algumas imagens do dia...























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCXLIV) - Prados Caveiros e Cabeço do Cantarelo

 


Um aspecto dos Prados Caveiros encimados pelo Cabeço do Cantarelo, Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Paisagens da Peneda-Gerês (MCCLXIV) - Prados Caveiros e o Cabeço do Cantarelo

 


Os Prados Caveiros, Serra do Gerês, na sua paisagem invernal, sendo guardados pela parede granítica do Cabeço do Cantarelo. 

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Trilhos seculares - O Peito de Escada, o Cabeço do Cantarelo e a Costa de Sabrosa

 


Neste dia decidi-me por uma caminhada de alturas e de conquistar alturas. Assim, iniciando na Albergaria junto dos velhos viveiros das trutas dos Serviços Florestais, segui em direcção a Ponte Feia e daqui até às imediações da Ponte de S. Miguel. Antes de atravessar a ponte, tomei um carreiro que me levaria até ao início do Peito de Escada, na margem direita da Ribeira de Monção.

Com o fim de Vilarinho da Furna e da ocupação do território por parte da vezeira desta aldeia, muitos carreiros existentes na Serra do Gerês e na Serra Amarela vão desaparecendo, tomados pela vegetação que ocupa o seu lugar. Por outro lado, a memória dos Homens vai-se perdendo e dissolvendo com a passagem dos anos, e os velhos carreiros vão caindo no esquecimento mesmo daqueles da terra.


Um destes exemplos é a subida do Peito de Escada. «Brevemente» posta a descoberto por um incêndio florestal que há uns anos varreu a encosta sobranceira à Mata de Albergaria vindo dos Prados da Messe, o carreiro permita uma subida mais confortável e menos exigente para os Prados Caveiros por parte dos pastores de Vilarinho da Furna. A presença de toscos muros de sustentação e de troços timidamente lajeados, indicam a importância daquele caminho para a comunidade. Com o desaparecimento de Vilarinho da Furna e o fim da utilização dos Prados Caveiros como local de pernoita dos pastores, a Natureza acabou por tomar conta do caminho.

O velho carreiro pastoril sobe a encosta pela margem direita do Ribeiro de Monção, levando-nos a ganhar altitude num serpentear suave. Do outro lado do vale facilmente se reconhece alguns dos locais por onde passa o carreiro que trepa a Costa de Sabrosa em direcção aos Prados da Messe.


A certo ponto, a paisagem começa a abranger a parte inicial do Vale do Alto Homem, Vale de S. Miguel, Portela do Homem, além da Costa de Varziela, Pena Longa, Mata de Albergaria e o começo da albufeira de Vilarinho das Furnas... a barragem! Por várias vezes conseguimos ver o que resta do trabalho de consolidação do caminho para os pastos de altitude com a presença de muros e lajes no chão.

Terminada a subida mais acentuada, chegamos a Lamas da Escada e a partir daqui o percurso torna-se mais plano até chegar aos Prados Caveiros. Aqui impera o silêncio e a tranquilidade, além dos ecos do passado e da sensação de se estar quase num local sagrado. Nos Prados Caveiros mergulha-se na tranquilidade da montanha! Os Prados Caveiros são daqueles locais na Serra do Gerês onde parece que sentimos uma presença para além de nós, quase como se a Natureza viva nos quisesse falar ou fazer sentir o quão especial aquele local é.


A caminhada não ficaria por ali e perante mim, e com a banda sonora do silêncio da serra por estes dias, eleva-se uma colossal escadaria granítica que há que vencer, ou merecer vencer. Em silêncio, como que para não despertar um titã adormecido cuja cabeça parece ser representada pela proa de uma embarcação petrificada, pela arca bíblica, que ali repousa depois de um cataclismo que foi moldando estas serras. À medida que se vai subindo, a escadaria parece que se vai mostrando, como se de alguma forma fosse ganhando o prémio ou merecendo a condescendência do gigante colossal adormecido. 

E finda a escadaria que vence o titã, chego ao topo e de repente o horizonte expande-se para lá até onde consigo vislumbrar. O Vale do Homem abre-se, imenso, na paisagem rasgado no fundo pelo rio que pelos milénios se afunda no granito, moldando-o. A antiga estrada mineira curva-se e ziguezagueia como uma serpente nas Curvas do Febra e o Modorno marca a entrada para outro mundo. Tudo é grande! Tudo é imenso! Tudo é a Serra do Gerês, que ali vislumbro como o mais belo local da criação do Universo!



O desgastado marco triangulado marca o topo do Cabeço do Cantarelo e faz-me lembrar da rudeza destas montanhas. A Serra do Gerês pode ser pequena em tamanho, mas enorme no seu ser! Quem a pensa como um conjunto de montanhas fáceis, não a conhece, não a respeita!...

Por momentos, que agora me parecem tão curtos, fito o imenso que se abre perante mim. Todo o homem e toda a mulher deveriam, em algum momento das suas vidas, ter a oportunidade de serem agraciados com um momento de contemplação perante tal magnitude. É o Gerês em toda a sua pujança. Se nas paisagens de Fafião, o Gerês flecte os seus músculos, aqui grita o seu esplendor!

As profundas corgas marcam o Vale do Homem, alimentam-no de vida e vigor. Estreitam-se e aprofundam-se na paisagem, quase que impenetráveis. A Encosta do Sol alonga-se até se encontrar com os domínios do Vale do Teixo e para lá, para as terras do Barroso onde o marco geodésico dos Carris assinala a entrada num Mundo Maravilhoso.



Outros horizontes mostram a bela Soajo, difusa ao longe e encimada pelo Alto da Pedrada. O Outeiro Alvo e o Cabeço de Anamão definem os limites da nobre Peneda, e a silenciosa Amarela guarda bem guardados os segredos e a dor de Vilarinho.

Foi então hora de encetar o regresso passando pela Lomba de Cantarelo e descendo para os Prados da Messe, passando junto da ruína da velha casa dos Serviços Florestais. Nos Prados da Messe, os momentos de descanso e repasto por entre um profundo silêncio de Outono num dia frio, mas com um céu esplendoroso de azul.

O regresso ao ponto de partida foi feito descendo a magnífica Costa de Sabrosa passando pela Lameira das Ruivas.

Ficam algumas fotografias do dia...
















Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)