sábado, 26 de setembro de 2026

"Ao Alto da Serra Amarela"

 


Caminhada por uma montanha que ainda lambe as feridas do grande incêndio do Verão de 2025 e onde o deixa arder levou a que quase 90% da sua área fosse queimada. Os relatórios apontam a mã gestão do incêndio, resultando em perdas para a economia local e em profundas perdas para a vida selvagem. Serviu depois para uma exebição do governo com uma mão cheia de nada, dois frascos de mel e muitas fotografias.

A montanha recupera aos poucos, mas por onde caminhamos não se viu qualquer intervenção que venha no futuro a ajudar a uma recuperação como se desejaria. Em muitos (demasiados) pontos, a erosão destrói carreiros e desnuda o granito e o xisto, e a vegetação vai tomar conta das passagens e dos carreiros. O gado continua a pastar na serra, mas os pontos de água são quase inexistentes; a Serra Amarela é inclemente no Verão!

"Ao Alto da Serra Amarela"

Esta caminhada leva-nos ao ponto mais alto da Serra Amarela - o alto da Louriça - passando pelo Muro. É um acumulado de cerca de 930 metros em cerca de 8 km, com zonas onde a exigência física nos põe à prova 

A costa onde se inicia a verdadeira trepada até às alturas da Serra Amarela, testa a nossa capacidade cardíaca logo nos primeiros 2 km do percurso. O Peito de Gemesura não é para desafiar se duvidamos da montanha, pois ela irá, mais cedo ou mais tarde, cobrar o desafio e de certeza que não somos nós que vamos ganhar!





Subindo em zigue-zague ou por vezes num demoníaco festo, o caminho vai-nos fazer ganhar altitude à medida que a paisagem se afunda atrás de nós e os horizontes se alargam para as serranias geresianas. Por outro lado, as vertentes alcantiladas das profundas corgas levam-nos para um cenário de grandes montanhas. À medida que vamos subindo, a Corga de Gemesura encrespar-se, a serra ganha corpo e a albufeira torna-se num grande lago que desejamos mergulhar a cada pingo de suor!

A primeira grande subida vai terminar no Coto da Aguieira que nos permite um cenário em contra-luz para a Serra do Gerês. À nossa esquerda, elevam-se os altos da Amarela e afundam-se medonhas corgas que abrigavam Vilarinho da Furna, lá no fundo! Aqui, o caminho vai-nos dar tréguas e desce para a Chã de Baixo (Chão de Baixo), antes de iniciar a subida pela Lomba do Alto para Chã de Cima (Chão de Cima) e empinar-se de novo para a Chã de Mimpereira (Chão de Mimpereira).

Em Chã de Mimpereira encontramos as enigmáticas Casarotas, velhas construções que algumas teorias apontam como sento antigos postos de vigia da quase invisível (daquele ponto) Geira Romana ou os restos de uma velha branda, memória de transumâncias de outros tempos. Creio, no entanto, tratar-se dos abrigos utilizados pelas gentes de Vilarinho da Furna e das aldeias vizinhas por alturas das batidas ao lobo.





Até Chã de Mimpereira segue-se o traçado da GR34 "Trilho da Serra Amarela" que aqui se deixa para seguir na direcção do Fojo do Lobo de Vilarinho da Furna, testemunho da eterna luta entre Homem e Lobo, e depois prosseguir para a Chã do Muro, ladeando o Alto do Velho Tojo.

Esta parte do percurso é fácil e, mesmo não havendo marcações de GR ou PR, torna-se instintiva a prossecução do caminho assinalado com mariolas. De referir que até este ponto na caminhada são escassos ou mesmo inexistentes os pontos de água e que a nascente existente na área do fojo do lobo pode estar imprópria para consumo.

Nesta zona, e antes de chegarmos à Chã do Muro, caminhamos num percurso cénico onde a profundidade do vale e as arestas graníticas se convertem em portas do inferno. As dantescas fragas são a melhor representação da forma de como a serra moldou as gentes que em tempos ali habitaram. Porém, no seu "Vilarinho da Furna - Uma Aldeia Comunitária", Jorge Dias (Porto, 1948) referia que "Como a maioria dos habitantes de serras acidentadas e sombrias, por o céu estar grande paete do ano encoberto, o furnense é pouco expansivo, reservado, e, perante estranhos, mesmo desconfiado. Porém, uma vez familiarizado com as pessoas, mostra-se franco e prestável, podendo-se mesmo contar com a sua amizade, se lha soubermos conquistar. (...) Embora quase destituídos dum raciocínio que vise fins práticos, porque a tradição os manieta, e, por outro lado, presos a concepções míticas, nem por isso deixa de ser notável a sua capacidade de raciocínio em problemas que se relacionam com os fin ssuperiores do homem." Quando se refere que o furnense foi moldado à imagem da montanha que o rodeava, esta passagem entre o Fojo de Vilarilho da Furna e a Chã do Muro, é bem representativa disso mesmo.




Na Chã do Muro volta-se a encontrar as marcações da GR34 que subindo para o Coto do Muro vai passar pelo topo da Encosta dos Colados de Araújo (junto dos restos do velho marco geodésico), acima do Colado de Araújo e até ao Alto da Casa da Feira (O "Alto da Casa da Feira": um topónimo alterado?) e Louriça, o ponto mais elevado da Serra Amarela. Plantado com várias antenas de comunicações e com vários edifícios de apoio, a sombra que estes proporcionam é já muito agradável ao Sol que aquece a paisagem. No entanto, aqui os dias na montanha podem ser cruéis nos escuros dias de Inverno!

Neste ponto, e olhando a Norte, apruma-se a imensa Serra de Soajo até perder de vista e notam-se os recortes graníticos da Serra da Peneda.

Deixando a Louriça, prossegue-se a caminhada até ao Curral de Ramisquedo, passando nas vertentes voltadas ao Vale do Rio Cabril e às fragas e granitos galegos já do outro lado da fronteira. O percurso vai prosseguir pela Chã da Fonte e daqui dirige-se pela Encosta de Ramisquedo, baixando para a Chã de Ramisquedo onde se encontra o Curral de Ramisquedo... Esta parte do percurso, limpa há uns anos, está a voltar a ser coberta pela vegetação que torna difícil parte da progressão. Nos dias de chuva e nevoeiro, toda a atenção é pouca para evitar uma perda de percurso, um tropeção ou uma escorregadela.

Com o traçado do caminho nivelado, a GR34 prossegue para o Fragão (ponto de água) e depois para a Chã de Porto Covo, seguindo entre a Nascente dos Penedos do Carvalhal Branco (Corga do Estrêlo) e a Chã de Toutas, e flectindo no topo das Colmeias do Galante, vai prosseguir pelo Peito do Chão da Fonte e baixar para as Pardelhas e Porto do Carvalhal, aqui já «nas traseiras» de Vilarinho da Furna e nas profundidades do início da Corguinha Má.

O caminho segue então na direcção nos campos e eiras abandonadas de Vilarinho da Furna ladeadas por velhos muros cobertos de musgo e junto da aldeia afundada tomamos o estradão florestal que nos leva de volta ao nosso ponto de partida.

Esta caminhada foi organizada pela RB Hiking & Trekking.

Ficam algumas fotografias do dia...



























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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