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sábado, 11 de julho de 2026

A Conquista do Inútil (2): A subida ao Borrageiro

 


A subida ao alto do Borrageiro é uma caminhada relativamente fácil, apesar de exigir um esforço de ascensão quase desde o princípio. A paisagem da Serra do Gerês, inicialmente escondida nos pequenos vales, revela-se a cada passo através dos carreiros seculares que nos levam às relativas planuras graníticas.

De desespero para alguns, estes pequenos percursos ajudam-nos a revelar a essência de um mundo que se pode tornar uma paixão. As grandes jornadas exigem um sacrifício a que muitos não estão dispostos; as pequenas jornadas podem tornar-se gramdes desafios. De facto, e em todas estas jornadas longe do rebuliço sazonal - e parafraseando Edmund Hillary, "não é a montanha que conquistamos, mas a nós mesmos." Esta satisfação da «nossa própria» conquista tem ainda uma maior dimensão quando vemos os mais novos a saborear em pleno os prazeres da Natureza e onde o "Imenso" se torna nas suas conquistas.





"O cume é para o ego, a jornada para a alma"

A nossa jornada começou na Portela de Leonte. Manhã tépida e a prometer um desafio quando as resteas de orvalho se evaporarem ao Sol, iniciamos a subida da Costa do Murjal seguindo pela velha calçada que nos ajuda a ir ganhando altitude até à Chã do Carvalho (ou Chã do Carvalho de Leonte).

Caminho inumeras vezes calcorreado, o Pé de Cabril serve de guardião da paisagem que se revela a cada passo por entre a vegetação a contar os dias para a chuva (que, espante-se, até nos iria brindar mais tarde). O caminho ziguezagueia (en)costa acima por entre uma infinidade de arvoredo de onde espreitam os pequenos carvalhos, medronheiros, azevinhos e os tímidos teixos, além de outras árvores que prenunciam, noutras direcção, a entrada no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Quando nos habituamos a ter por derto aquilo que nos é próximo, não nos apercebemos que um mais pequeno descuido pode, em poucos minutos, destruir o que levou  séculos a criar. É esta a sensação que eu tenho sobre as considerações de muita gente acerca do valor do património natural que nos banha a retina quando, passados a Chã do Carvalho, se nos abrem os vales tapeteados da Mata de Albergaria. Muitas vezes são «os de fora» que valorizam aquilo que vemos, numa tomada de consciência sobre algo que não esperavam ver.





Em 1792, Link comparava os arvoredos da Albergaria à grandes florestas da sua Alemanha natal "e até mesmo às da Inglaterra," tal como nos relata Ricardo Jorge no seu "Guia Thermal" (pág. 10, 1891).

Antes da chegada ao Prado do Vidoal, a paisagem presenteia-nos com o Vale do Rio Maceira coroado pelo Pé de Medel, Carris de Maceira e pelo Cabeço da Cantâra, numa paisagem enrugada que nos leva desde o Pé de Cabril, Cancelo, Costa de Bemposta, Colado Seco, navegando pelo mar verde da Albergaria, Corneda, Roca d'Arte, Cabeço de Lavadouros e Outeiro Moço. Isto é Natureza e História em toda a sua planitude.

A passagem no Prado do Vidoal dá-nos o testemunho da ocupação secular do território pelas vezeiras. O olhar atento irá certamente descobrir os diferentes abrigos que por ali foram utilizados ao longo de inumeros verões; nos nossos dias, resta o abrigo pastoril que terá sido edificado com a ajuda dos Serviços Florestais para dar abrigos aos seus trabalhadores e aos pastores que nas vezeiras velavam os animais.





Com o dia a aquecer, mas com uma brisa a ajudar pela manhã, a jornada continuou em direcção ao Colo da Preza, ladeando-se o Outeiro Moço com a sua forma característica que lhe dá o nome. Com um céu azul e uma refrescante brisa, a chegada à Preza maravilhou-nos com a paisagem do Vale de Teixeira - nosso eventual destino. Até lá, faltava ainda uma légua que nos faria passar pelo alto do Borrageiro, com o seu decrépito marco geodésico e os restos de uma velha antena de comunicações que há muito já deveria ter sido dali removida.

Tomando um carreiro que se inicia pouco depois do velho marco delimitador do perímetro da Mata Nacional do Gerês, as pernas sentem o esforço da subida que se faz de forma pausada. A cada passo, a paisagem afunda-se na profundidade do olhar que já abarca os limites castrejos da área protegida. Passando a Chã da Fonte, continuamos a subir com o objectivo de chegar à Fonte da Borrageirinha cuja água fresca já nos acalma a pele e dá-nos o alento para conquistar o inútil.

Estamos agora nas proximidades da Portela de Sineiros e seguimos em direcção ao Arco do Borrageiro. Esta estrutura natural é resultante dos efeitos da erosão natural e era já um ex-líbris do Gerês clássico, surgindo em alguns velhos postais. Curiosamente, existe uma estrutura que eventualmente poderá dar origem a um novo arco após eras de erosão... já não será para os nossos olhos.





Sendo denominado "Arco do Borrageiro" - o nome vem certamente da sua atribuição nos tais postais de finais do século XIX, princípios do século XX -, este encontra-se um pouco afastado do alto do Borrageiro. Assim, será que em tempos a sua designação teria sido outra? É algo para reflectir em algum momento...

Deixando o Arco do Borrageiro, segue-se então para o pináculo altimétrico da nossa jornada: o cume do Borrageiro. No grupo, dois valorosos montanhistas de 8 e de 12 anos. A partir de certo ponto no caminho, foram eles que seguiram na frente, orientados pelo guia da RB Hiking & Trekking. Conquistando cada declive, salvando cada salto, seguindo cada mariola, a subida fez-se de desejo da conquista. A jornada até lá estava já na alma, faltava saciar o ego! O cume foi vencido às 12h37 quando o velho marco geodésico testemunhou a alegria da conquista e a satisfação e plenitude da ânsia de tudo abarcar com o olhar. A sensão do imenso envolve os irmãos e as montanhas não têm já limites para os seus desejos e conquistas.

Esta parte da jornada estava feita! Faltava o resto, e que resto seria. Iniciando a descida do Borrageiro, seguiu-se em direcção à Chã de Roca Negra, antigo curral à sombra do duplo cume que ainda guarda os restos do seu curral alagado. Dali, a visão da Meda de Rocalva, do colosso de Iteiro d'Ovos e do cume de Borrageiros, altivo à distância.





Caminha-se através do silêncio e até o restolhar da carqueja parece silenciar-se ao raspar nas botas. Por vezes, surge o eco das vozes na penedia e o vislumbre de velhos muros mostra que até os lugares mais recônditos tiveram a sua utilidade nos dias em que as noites de Verão se transformavam em infernos de Inverno ou na vertigem da fuga do contrabando.

Seguindo a Sul, começamos a calcorrear as vertentes altivas do Vale do Cando encimado pela Roca Negra com as suas paredes aprumadas. As vertentes mergulham no vazio em vertiginosas exclamações de espanto e olhar calcorreia a paisagem em busca de vida no vislumbre de uma cabra-montês que vigia a imensidão, marcando o seu território. O cenário compõe-se e vai-se alterando a cada passo com a perspectiva dos cumes que se deslocam em cenários de imensidão onde a montanha do Gerês - de Bouro a Barroso - ganha a pujança dos grandes espaços e que em nada fica trás das suas primas europeias. 

Mariolado, o carreiro leva-nos a passar junto do Cabeço do Cando (erradamente designado como "Chã de Pinheiro" no OSM) e Eira Bonita, onde flectimos à direita para seguir para a vasta vertente granítica que nos levará à Chã de Pinheiro e daqui seguir para a Corga de Fitoiros Negros que nos dá passagem para o Vale de Teixeira, local do já merecido descanso e repasto.

Entretanto, os céus haviam-se trasmutado de um azul puro para uma amalgama de nuvens carregadas de água e furiosas de electricidade. A nossa próxima passagem seria o Curral de Camalhão. Já ao longo do dia, havíamos testemunhado o efeito dos dias secos na serra: os regatos estão exangues de água, as pequenas fontes estão há muito secas e as árvores começam a sentir o stress de falta de água... em alguns sítios, parecia Outono ao caminharmos em tapetes de folhas secas. De facto, e com o calor que se faz sentir, não tarda teremos os sinais de um Outono antecipado, mas que ainda estará longe, quando os quitamerendas começarem a decorar a paisagem mais cedo do que é usual.





A passagem pelo Curral do Camalhão foi presenteada por um aguaceiro que acalmou o ambiente do calor abafado que se fazia sentir e alguns preferiram os espaços abertos ao abrigos dos carvalhos. As pesadas gotas de chuva surgiam como um alívio na pele quente. Porém, a chuva era efémera e depois de dois ou três trovões, voltou o calor e o desejo da água.

Passando o Camalhão de Baixo e chegado ao Curral de Camalhão, esvaiu-se a vã esperança de ali haver água. Os regatos estão secos e a fonte recorda com saudade a água fresca que nos oferece. Nestes dias, saber onde obter água nas jornadas serranas é um conhecimento valioso. Entravamos na Garganta da Preza por onde escorre, lamacento e ludoso, a triste memória do ribeiro que mais adiante alimentará o Rio Arado. Restam os chagos estagnados onde os pequenos anfíbios vivem na esperança de dias de chuva.

A subida era já penosa pelo cansaço que o calor da tarde infligia nos corpos. A água nos cantis era quente, boa para acalmar a sede, mas má para dar-nos a sensação de alívio de algo refrescante. Seguíamos então em direcção ao Curral do Junco onde sabia existir uma pequena zona alagada e um velho tanque que em tempo idos serviu o velho forno pastoril ali existente. Ora, havendo o pequeno tanque, seria uma questão de procurar a nascente que alimenta o charco e a zona húmida. Desviando alguma vegetação e brotando da rocha-mãe, a visão da água fresca a escorrer nas fendas graníticas deu-nos a mesma sensação da descoberta de ouro. Pacientemente, os cantis e pequenas garrafas foram cheias com a água que criava condensação e os corpos, finalmente, encontravam a satisfação e o prazer da frescura por entre o ambiente tórrido e abafado que se sentia.

Passando o Curral do Junco, chegavamos de novo ao Caolo da Preza e iniciavamos a descida que nos levaria de volta à Portela de Leonte passando o Prado do Vidoal e a Chã de Carvalho.

Ficam algumas imagens do dia...

















Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCCXIV) - O Camalhão desde o Borrageiro

 


O Camalhão, guardião do Vale de Teixeira, é aqui fotografado na subida para o Borrageiro, Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

(Uma incursão n)"A Serra do Gerez"

 


A 11 de Março de 1886, a revista O Occidente publicava um artrigo da autoria de J. Henriques que faz uma maravilhosa decrição da Serra do Gerês.

O autor percorreu as paisagens naturais de um mundo que há 140 anos nos brindava como sendo uma das zonas mais selvagens de Portugal. Ao ler o texto, nota-se que a escolha das palavras pelo autor não se limitou à sua satisfação de percorrer matas luxuriantes e picos graníticos agrestes; o texto transporta-nos para algo de verdadeiramente único no nosso país tanto naquela data, como nos nossos dias.

Se bem que passados 140 anos a realidade deste espaço natural seja diferente, o texto de J. Henriques ajuda-nos a perceber um pouco da História deste território para o qual se deveria olhar com mais atenção e cuidado. A sua preservação é imperiosa para que as expressões de exclamação nos encham de orgulho por termos algo comparável com o que existe noutros países. Valorizar este território é uma obrigação de todos!

(No texto a seguir, decidi manter a ortografia original)

A Serra do Gerez

Por J. Henriques

Não conheço em Portugal serra mais pittoresca do que esta e por isso bem digna de ser visitada.

Vao lá, porém, só aquelles a quem um mau fígado ou um estomago alterado incommoda, e esses não sobem á serra; não procuram as frondosas florestas, a agua limpida e fria, que cahe em cascatas de rochedo em rochedo, ou o ar puro da montanha. Contentam-se com as aguas mineraes, com os passeios nas Caldas. Vêem a serra de longe. Aos altos vão os caçadores, procurar cabras e gamos.

Não vão lá os artistas, pois ahí teriam mina inexgotavel.

É sabido que a serra do Gerez fiva não longe da capital do Minho e que faz parte do grande grupo de montanhas que limitam Portugal e Hespanha pelo norte. É menos alta que a serra da Estrela, pois que o morro do Borrageiro - que é o ponto culminante da serra - fica apenas a 1:1442 metros d'altitude. Dois rios a limitam, d'um lado o Cavado, d'outro o Homem, e ambos, depois de banharem as ferteis terras de Bouro e outras, vão reunir-se perto de Braga, junto á ponte do Bico.

Hoje uma boa estrada partindo de Braga e seguindo as margens do Cavado, bella como quasi todas as estradas do Minho, permite que o viajante vá commodamente até ás Caldas. A accidentação do terreno, a vegetação das terras cultivadas, Bouro com o seu velho convento, tudo interessa. Se o passeio é dado ao domingo, a cada passo a paisagem é animada por grupos de camponezes com os seus vestidos caracteristicos.

Poder fazer-se a viagem pela bacia do Homem. É porém mau o caminho e monotona a paisagem.

De Braga é facil ir também até ao Penedo. D'aqui, porém, ao Gerez a jornada não é comoda.

Sigamos a estrada do Bouro. Admiremos de passagem a paisagem da ponte do Porto, o mosteiro de Bouro com as estatuas d'alguns reis portuguezes. Não será fóra de proposito comprar algumas laranjas, que já foram elogiadas pelo professor Link.

Desde que se sae de Bouro a estrada sobe consideravelmente. O rio Cavado, a grande profundidade, mostra-se raras vezes. Para elle desce mais tarde a estrada e n'uma volta, quasi de repente, se depara com a serra do Gerez, cujo perfil se observa admiravelmente.

Em pouco tempo o carro passa junto da ponte do Cavado, atravessa a ponte do Caldo e segue pela nova estrada que corta os campos de Villar da Veiga. Começam ahi as bellezas do Gerez. Á esquerda da estrada corre o Caldo, e o viajante pode, logo admirar uma das paisagens mais notaveis. Dá d'ella idéia a gravura da primeira página*.

É um quadro completo.

A paisagem só muda de modo sinsivel nas Caldas. O valle é apertado, as encostas da montanha alterozas, o rio torrencial.

Quando em junho alli estive, depois d'uma noite de chuva, que mais parecia noite de dezembro, que admiravel quadro não offerecia de manhã o Caldo, correndo por entre grossos calháos rolados no seu apertado leito, ficando no ultimo plano a serra da qual começavam a levantar-se as densas nuvens!

A pequena povoação das Caldas nada tem que prenda a atenção do viajante. É bom deixal-a aos hypochondriacos. O artista prepara-se e segue para a serra.

É quasi de rigor ter como guia o Rigor. Conhece elle todos os estreitos caminhos e todos os recantos da serra. Tendo-o por companheiro ninguem alli se perderá.

A primeira excursão deve ser ao Borrageiro e para mais commodidade seguir-se ha o caminho de Leonte, caminho quasi só de cabras, mas que é facil subir a pé. Os cavallos das caldas trilham-n'o admiravelmente e os cavalleiros podem fiar-se n'elles. Se as cilhas não rebentam, não ha queda possivel.

Até á Preguiça nada ha de notavel. Mas ahi tudo muda. Em frente ostenta-se imponente a montanha, profundamente cortada, deixando advinhar uma estreita passagem - a portella de Leonte: á esquerda o pé do Cabril, que parece ruinas de enorme castelo. É formado de rochas sobre rochas. Á direita os primeiros degraus do Borrageiro encobrem o resto da montanha. A grande profundidade correm as aguas, que descemd e Leonte e que de todos os lados recebem pequenos affluentes. Vegetação frondosissima cobre a parte da serra que pode d'ahi ser vista.

Da Preguiça até ao Vidoal o caminho segue sempre á sombra de copadas arvores. As margens dos regatos são cobertas de musgos. Uma pequena violeta vive até sobre as pedras que a agua molha.

No meio de tudo isto ha singulares curiosidades. Um carvalho enorme, cahido sobre o pequeno rio, não morreu. Foi vivendo e como a luz lhe era necessaria, foi levantando os ramos. Coberto de espessa camada de musgo assemelha-se agora a um enorme sophá. Pode ahi bem repousar, que se achar cançado.

O caminho de Leonte para cima é aspero. A vegetação diminuie, chegando por fim a ficar reduzida a pequenos grupos de teixos e de elegantes vidoeiros, que vivem nos corregos por onde corre a agua.

Depois só as pedras ornam a montanha. Revestem ellas todas as formas, attingem todas as grandezas, dando á paisagem um aspecto que pela aspereza contrasta profundamente com o que até alli se tinha visto.

As portas são uma das muito singulares formas, que as rochas apresentam. Parecem mais obra do homem do que da natureza. O Borrageiro é terminado por enorme massa de granito, polida pela neve, batida pelas tempestades. Quasi nenhuma vegetação ahi se encontra.

D'este ponto elevado a vista estende-se por largo horisonte. As montanhas de Barroso e de Traz os-Montes simulam ondulações gigantescas de mar enorme.


Serra do Gerez - Um Curral de Leonte (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)

Deixemos os pontos elevados da serra.

De Leonte descamos para os lados de Hespanha por um pessimo caminho, unico que existe. Passemos para além do curral da Albergaria e atravessemos uma pequena ponte que dá passagem sobre um riacho, que vae perto desaguar no Homem. Admire-se d'ahi o aspecto maravilhoso da serra. Recortada profundamente n'uns poucos de sentidos, coberta de espessa matta de carvalhos até grande altura e coroada por massas graniticas de formas caprichosas, não pode ser mais bella.



Serra do Gerez - Rio Homem, junto á Ponte Feia (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)

Continuemos a caminhar. Auxilia-nos a fresca sombra do arvoredo. A pequena distancia tivemos uma paisagem perfeitamente caracteristica e como rara vezes se encontra. O rio Homem apparece quasi por encanto. Mal se perce d'onde vem. Despenha-se em brilhante cascata para seguir por entre grandes muralhas graniticas. Alguns troncos d'arvores lançados de margem a margem forma a ponte feia. D'esta podem contar-se no fundo do leito do rio as mais pequenas pedras, tal é a limpidez das aguas.

Do lado esquerdo do rio admira-se uma espessa floresta terminada em picos graniticos elevadissimos.

Da ponte feia é bom ir ao Villarinho das furnas onde em principios d'este seculo foram hospedados o Conde de Hoffmansegg e o professor Link que da Allemanha vieram a Portugal, contemplar-lhe as belezas e estudar as produções naturaes.


Serra do Gerez - Villarinho das Furnas (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)


O caminho segue sempre a margem do rio Homem. Esta parte da serra é boa para quem meditar na historia da terra ou na historia do homem. 

São aqui bem pronunciados os effeitos das aguas torrenciais. A observação d'elles facilitará de certo a comprehensão de grandes phenomenos naturaes.

A estrada, que se pisa, é obra dos grandes dominadores do mundo - os romanos. Os marcos milliarios, que ainda se encontram aos lados da estrada, fazem pensar nas legiões que n'outros tempos por alli teriam passado.

O vale que o rio corta, apertado em grande extensão, alarga afinal formando uma planicie consideravel, mas monotona até Villarinho. Uma pequena ponte dá passagem para a povoação, pouco importante. Um pequeno rio a atravessa e da ponte gosa-se uma bella paisagem. Alguns morros escalvados de terra foram um fundo admiravel sobre o qual destaca um grupo de casas da povoação. 

Deixando o rio, e não querendo visitar o sitio onde se diz que existira uma antiga povoação importante - Chalcedonia - subamos de novo para a serra, protegidos sempre pelos carvalhos frondosos. A setecentos e tantos metros encontraremos n'uma extensa planicie, cortada em campos bem cultivados, uma povoação alegre. É S. João do Campo.

Um pequeno rio corta as veigas que cercam a povoação. Renques de elegantes vidoeiras vestem as margens em mais d'um sitio.

D'esta povoação até ás Caldas o caminho é horroroso: massas graniticas enormes, umas sobre as outras, formam castellos gigantescos. O terreno é coberto de vegetação rachitica. Depois de subir a grande altura, começa a descida para as Caldas.

Que caminho e que precepicios!

Na serra do Gerez não há só para contemplara paisagem nos seus diversissimos aspectos e da qual esta noticia é apenas um pallido reflexo.

São dignos de exame os costumes, a vida das povoações serranas.

É boa e obsequiadora a gente d'estas terras. Ha aqui restos de costumes antigos, alguns nãp pouco curiosos. Cada povoação tem obrigação de cuidar da conservação dos caminhos. Cada povoação tem um colmeal, onde cada habitante pode ter as suas colmeias.

Geralmente no cultivo das terras empregam vaccas, e como a todos convém que ellas se propaguem, cada povoação tem um touro, que é de todos, porque todos para o comprar dão dinheiro. Como é de todos não tem elle habitação fixa: Vive successivamente em casa dos diversos lavradores e demora-se tantos dias, quantas as juntas de vaccas que cada lavrador tiver.

De verão todo o gado pasta na serra. Divaga livremente de dia, mas ao cahir da tarde todo o gado de cada povoação recolhe ao curral, que é um pequeno espaço um pouco plano, sem guarda ou limites, tendo apenas como distinctivo um forno - pequenissima casa, coberta de telha ou de colmo, na qual dorme o pastor.

(...)

É um bello e completo quadro um curral ao cahir da tarde.

Que lindos animaes, que movimento!

Como os gados são de povoações diversas, para todas ha curraes especiaes e a alturas diversas da serra. Os direitos das povoações são totalmente e mutuamente respeitados de modo que nunca os gados de povoações diversas chegam a reunir-se no mesmo logar.

A guarda é feita d'um modo muito regular e justo. Cada lavrador dá um guarda, que passará no monte tantas noites, quantas forem as juntas de vaccas que possuir.

Estas formas de administração local são dignas de ser conhecidas e estudadas.

É curta e incompleta esta noticia. Outros a poderão completar, se tomarem a boa resolução de passar alguns dias da estação calmosa n'este recanto de Portugal, tão cheio de bellezas.

_____

* Esta frase refere-se à imagem inicial em cima do texto que tem a legenda "Serra do Gerez - Rio Caldo, Junto das Caldas (Segundo uma photografia do sr. Julio A. Henriques)"

Fonte: O Occidente (Volume IX n.º 260, 11 de Março de 1886), O Occidente (Volume IX n.º 263, 11 de Abril de 1886)

domingo, 5 de abril de 2026

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCLIX) - Paisagem desde o Vidoal

 


A paisagem desde o Vidoal nunca desilude por entre os cenários que a Serra do Gerês nos oferece. Seja em dias de nevoeiro, onde as nuvens envolvem como mortalhas as penedias e os ramos dos grandes carvalhos, seja em dias de neve, onde o manto branco cobre a paisagem de um silêncio que se entranha, a grandiosa paisagem que se abre perante o olhar leva-nos às alturas do Pé de Medela e de Carris de Maceira, mergulhando na Corga da Cântara para logo apontar de novo aos céus no Cabeço da Cântara que encima o Vale do Rio Maceira escondido nas profundezas. A Roca d'Arte surge como rampa para os freguedos aprumados do Cabeço de Lavadouros antes do olhar se deter (a partir daqui fora de cena) no Cabeço de Sineiros e a antena que se eleva no Borrageiro chamar a nossa atenção.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sábado, 17 de janeiro de 2026

Trilhos seculares - De Leonte ao Borrageiro e Curral da Raiz

 


O dia surgiu cinzento e frio a confirmar as paisagens que viramos no anoitecer: os cumes cobertos de neve e as nuvens que por eles se passeavam, confirmaram os arrepios ao acordar.

Pela noite, o som da chuva - ora mais ou menos intensa, ora mais silenciosa - levava-nos a crer que a neve poderia ter visitado de forma tímida a aldeia que se mergulhara naquele silêncio característico dos dias de neve. Nestes dias, a Natureza parece que faz o tempo parar e somente o vislumbre para os ponteiros do relógio nos arrasta de volta para o lento arrastar dos momentos.

O grupo - e os grupos - já se perfilavam na Portela de Leonte para iniciar as suas caminhadas. Junto da velha casa florestal, iniciavamos a marcha pela Costa do Morujal seguindo o velho carreiro da vezeira que vence o declive em passo tranquilo fazendo com que o coração vá ganhando ritmo. Surpreendentemente, não está muito frio (ou pelo menos aquele 'frio' que cortar os pulmões) o que torna a subida mas confortável à vista da paisage salpicada de tons de branco das encostas elevadas do Pé de Cabril, testemunha silenciosa da nossa jornada.





As nuvens e a neblina passeavam-se calmamente pelo Vale do Rio Gerês, subindo as encostas num esforço pachorrento e lançando farrapos de nevoeiro pelas pequenas corgas. À medida que a paisagem de afundava atrás de nós, os vales escuros da manhã iam-se deixando ver, aqui e ali banhados por lanças de luz que atravessavam as nuvens mais altas. Por vezes, o vislumbre do céu azul dava-nos a esperança de horizontes mais alargados, mas logo de seguida, o capricho dos véus de nevoeiro voltava a tolhar a paisagem, escondendo-a através de uma neblina que criava caprichosos contra-luz.

Subindo o Morujal, entravamos na velha calçada que nos conduziria à Chã do Carvalho (Chã do Carvalho de Leonte) e pouco depois ao Prado do Vidoal. Aqui, a paisagem mergulhara num fantástico ambiente invernal. O velhio carvalho não passava que uma pintura a tinta da China projectadio numa tela branco acinzentada e o Outeiro Moço parecia um esboço de uma ideia de um pintor preguiçoso. Como que envolto numa mortalha de nevoeiro, o prado - tão verdejante nos dias de Primavera - era agora um magnífico cenário de Inverno, uma memória cénica capaz de soltar as mais profundas interjeições de espanto.





Passando o Prado do Vidoal, seguimos então na direcção do Colo da Preza. Por vezes, a caprichosa brisa empurrava as nuvens e a neblina para outras paragens dando o vislumbre do Pé de Medela e Carris de Maceira. A parede aprumada da Roca d'Arte, pontilhada aqui e ali de branco, precepita-se para o Ribeiro de Lavadouros e a profunda corga guarda as memórias olvidadas do esquecido Curral de Lavadouros, agora com o seu abrigo pastoril alagado.

Volteando o Outeiro Moço, passamos os teixos anexos ao carreiro e prosseguimos, já por entre passadas na neve que canta a cada passo. Vencendo o curto declive, chagamos à Preza e olhamos para o Vale de Teixeira com os seus dois prados: Camalhão e Teixeira, levemente cobertos de neve.

Para chegar à Chã da Fonte, optamos por vencer o declive à nossa esquerda (regressaríamos do Borrageiro seguindo a outra opção: o Enfragadouro). A subida faz-se de forma pausada, respirando a cada passo e parando para olhar a Serra do Gerês que aqui já nos leva ao seu extremo com a Serra Amarela.





Muitas vezes tenho visto o erro de associar a Chã da Fonte à fonte que existe um pouco mais acima: a Fonte da Borrageirinha. Esta associação é errada! A denominação de "Chã da Fonte" vem de uma antiga fonte existente no início do carreiro que nos leva à Pegada das Ruivas e cujos restos ainda são visíveis numa pequena chã. Da mesma forma, a designação em nada está relacionada com a recente criação de um bebedouro para animais nas proximidades.

Deixando a Chã da Fonte, seguimos para a Portela de Sineiros e aqui flectimos à direita seguindo na direcção das peculiares formas graníticas existentes nas proximidades. O Arco do Borrageiro é uma formação criada pela erosão natural e que foi um cliché que serviu para vários postais na época do "Gerez Thermal". A chegada ao alto do Borrageiro pode ser feita seguindo outro percurso, mas a passagem por este peculiar lugar é quase obrigatória para que demanda um dos pináculos supremos da Serra do Gerês.

Aqui, já caminhavamos por uma paisagem toda ela coberta de neve e que assim se mantinha em qualquer direcção. A progressão não era difícil, mas nestas situações - e mesmo com uma espessura de neve não muito alta - todo o cuidado é pouco. Caminhando em base de granito, no que parece ser uma plataforma lisa escondem-se pequenos declives que com a cobertura de neve se tornam debgraus escondidos. Assim, a ajuda dos bastões de caminhada é fundamental para ter uma progressão em segurança, mesmo em zonas que já nos habituamos a percorrer em condições mais favoráveis.




Passada a chã que antecede a subida final do pequeno cume, só faltava vencer os metros finais que nos levariam ao velho marco geodésico que assinala os 1.430 metros de altitude, um dos pontos mais altos do Minho, mas não da Serra do Gerês. Segundo o blogue Garcias - Montanhas de Portugal quando escreve sobre o Borrageiro, "muitas pessoas ao olhar o perfil da serra do Gerês julgam erradamente que o Borrageiro é o ponto mais alto da serra, na verdade existem diversos cumes mais altos que o Borrageiro, de facto o cume é apenas o 6º mais alto da serra mas por se encontrar mais a sudoeste que os outros cumes mais altos parece maior para quem observa a serra desde o sul ou o oeste." Do Borrageiro "(...) pode-se admirar uma paisagem majestosa na qual podemos reconhecer o vale do Cávado, as serras da Cabreira, de Fafe Basto, Amarela, do Soajo, da Peneda, do Larouco, do Facho, do Barroso e ao longe as serras do Marão, do Alvão, e do Corno de Bico além da maior parte dos picos principais da serra do Gerês."

Em Julho de 1935, o jornalista Camanho Pereira ("A Serra!", Revista Latina, n.º 4) faz-nos uma descrição da sua subida ao Borrageiro, se bem que seguindo outro trajecto: "depois de uma nova carga sobre a merenda deixamos com saudades o Cambalhão e entramos de novo no Sol, vale acima, passamos por outro currak, o do Junco, mais pequeno e endireitamos à Garganta da Preza. Toda a subida até à Borrageira é monótona, horizonte estrteito de lagedos mas ao atingir o cume, que deslumbramento! Setria fastidioso enumerar todos os altos que se destacam isolados, todas as cumeadas que se sucedem umas após outras sen fim (...). «Que grandiosa tela dentro de formidável moldura! Coroando as eminências, santuários imponentes ou modestas ermidinhas, lembram mamilos de alabastro. Que seriação interminável de montanhas a perder de vista nas corcovas monstruosas.» Assim fala lá no alto Tude de Sousa."





A permanência no cume não foi longa, apesar das condições serem quase óptimas com o horizonte a limpar-se por breves momentos. O frio, na ausência de vento, era suportável, mas os corpos suados da caminhada começavam a tiritar. Enganado o cansaço, e depois da costumeira fotografia de grupo, era hora de baixarmos para local mais aprazível, pois a hora do almoço já passara para quem se despertára antes do galo.

Descendo a encosta a Norte, tomamos o carreiro que nos levaria ao longo das Lamas de Borrageiro para chegarmos à Portela de Sineiros e daqui inicarmos a descida para a Preza e voltar para o Prado do Vidoal onde nos aguardava uma paisagem já um pouco diferente da que havíamos testemunhado umas horas antes e na qual muita da neve presente já havia desaparecido. Porém, o cenário do Pé de Medela e de Carris de Maceira composto com a Corga da Cântara e dos picos encrespados acima da Roca d'Arte, era um repasto para quem aprecia as paisagens dre montanha.

Com a meteorologia a prometer chuva (ou neve) para a tarde, retomamos a caminhada seguindo a Sul e saindo do Prado do Vidoal em direcção ao Mourô. Atravessando do pequeno ribeiro por entre o arvoredo, entrávamos então na Corga de Mourô, percorrendo a sua encosta esquerda em direcção ao nosso objectivo seguinte. Pelo caminho, o Pé de Cabril ia-se cobrindo de farrapos de nuvens e os céus escureciam a Norte.

Seguindo o velho carreiro, deixavamos a corga para trás com um último vislumbre das Quinas de Mourô e iniciávamos a descida para o Curral da Raiz com os seus imponentes carvalhos seculares e o seu abrigo pastoril que guarda a data de 1953. Por esta altura, os céus começam a pingar e em breve os frios pingos de chuva transformam-se em suaves flocos de neve que nos acompanharam durante alguns minuitos enquanto iniciávamos a descida da Costa da Cantina. A queda de neve duraria pouco mais de dez ou quinze minutos, mas foi uma agradável surpresa para todo o grupo.

Entrando no bosque, sucederam-se as paisagens de azevinhos, pinheiros, carvalhos e cedros que nos acompanhou - por entre recortes de silêncio e o correr de pequenos riachos, até à estrada nacional que seguimos até passar a vigorosa Fecha de Leonte, tomando então o velho Caminho Real que nosm levaria de volta à Portela de Leonte passando pela Fonte do Escalheiro e terminando assim esta caminhada organizada pela RB Hiking & Trekking.

Ficam algumas fotoghrafias do dia...


























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)