A mancha verde delimitada pela linha branca corresponde, aproximadamente, à Reserva Biogenética da Mata da Albergaria, uma extensa área de floresta autóctone, com mais de 1.500 hectares, que acompanha parte das margens do rio Homem e do seu afluente, o rio Maceira. Enquadrada pelo anfiteatro montanhoso da serra do Gerês, esta floresta chegou aos nossos dias relativamente intacta, na sua estrutura e composição naturais.
É por isso que Albergaria foi classificada como Reserva Biogenética do Conselho da Europa, integrada na Rede Natura 2000, incluída na Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, reconhecida pela UNESCO, e abrangida pelo mais elevado nível de protecção previsto no Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Não recebeu estas classificações por ser bonita. Nem por atrair visitantes. Nem pelo seu valor económico. Recebeu-as porque constitui um património natural insubstituível, cuja degradação representaria uma perda irreversível para o concelho de Terras de Bouro, para Portugal e para o património natural da Europa.
É precisamente por isso que custa compreender o silêncio e a aparente passividade do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas perante a degradação progressiva deste espaço único.
A entidade responsável pela conservação da natureza em Portugal conhece melhor do que ninguém o valor da Mata da Albergaria. Conhece o regime jurídico que a protege, as obrigações de conservação que dele decorrem e conhece igualmente a realidade que ali se repete, Verão após Verão: milhares de visitantes, trânsito motorizado intenso, ruído constante, poluição, acumulação de resíduos, destruição da vegetação pelo pisoteio e o atropelamento de inúmeras espécies de fauna selvagem, entre elas martas, corços, ginetas e tantas outras.
Todos os anos, uma área que deveria constituir um exemplo de conservação transforma-se, durante os meses de maior afluência, num preocupante retrato da incapacidade de proteger aquilo que a lei determina preservar.
O ICNF deve uma explicação aos portugueses. Deve esclarecer por que motivo continua a permitir níveis de pressão manifestamente incompatíveis com o estatuto de protecção da Mata da Albergaria. E deve dizer, de forma clara, se considera aceitável que um dos mais notáveis remanescentes de floresta autóctone da Europa continue a degradar-se perante a inércia da própria entidade que tem o dever legal de o defender.
A Mata da Albergaria atravessou milénios. Resistiu às oscilações climáticas, às guerras, às profundas transformações da paisagem e à destruição que fez desaparecer grande parte das florestas primitivas europeias. Sobreviveu porque as montanhas a resguardaram e porque, durante séculos, a acção humana nunca conseguiu subjugá-la.
Seria uma ironia trágica que aquela mancha verde começasse agora a perder-se, não por falta de conhecimento científico nem por ausência de leis que a protejam, mas por incapacidade e falta de vontade para as cumprir.

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