sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Terá existido um curral em Ponte Feia?

 


De novo, irei levantar uma hipótese sobre a possível existência de um curral e abrigo pastoril numa zona onde não existem relatos de tal ter ocorrido.

O cenário que hoje vemos na zona junto da Milha XXXIII na Geira, em Campo do Gerês - Terras de Bouro, é certamente muito diferente do cenário que poderíamos encontrar há 50 anos. Chegando a 1972, o mesmo poderíamos dizer daquele local recuando mais 50 anos: em 1922 não existia a Casa Abrigo do Clube Académico e nem mesmo as actuais casas dos serviços florestais, por outro lado, da mesma forma, o coberto vegetal seria muito diferente e possivelmente mais escasso, exceptuando, claro está, os seculares carvalhos e azevinhos que por ali existiam. Aquela zona era de passagem, sendo, no entanto, um ermo distante tanto do Campo do Gerês e de Vilarinho da Furna, como das Caldas do Gerês.

Tendo por base o mapa disponível no livro "Caldas do Gerez - Guia Thermal" da autoria de Ricardo Jorge (1891), aquela zona estava inserida no 3.º Cantão do Perímetro Florestal do Gerês que havia sido estabelecido em 1888. Não muito afastado, havia já sido estabelecido o primeiro edifício dos Serviços Florestais (um dos três já criados na Serra do Gerês, os outros localizados na Bouça da Mó e no Vidoeiro).

Com a chegada dos Serviços Florestais, a área em questão altera-se de forma significativa. Há a necessidade de se preservar a Mata de Albergaria e Palheiros, procedendo-se à criação de novas estruturas de apoio. É assim necessário recuar ainda mais no tempo. Vamos dar então um salto de 100 anos e chegamos a 1788. A Serra do Gerês é então uma das zonas mais selvagens e desconhecidas do reino, sendo então estudada por Joaquim Vicente Pereira Araújo que, em 1782 e com Maia Coelho, expediciona nas serranias a mando do então arcebispo de Braga, surgindo então o "Diario Philosophico da Viagem ao Gerez" onde se extasia com o pitoresco panorama alpestre, recolhendo rochas e plantas, estudando os monumentos romanos e tomando nota dos hábitos selvagens da gente geresiana... Por seu lado, é em 1798 e 1799 que o naturalista alemão Heinrich Friedrich Link visita Portugal, acompanhando pelo conde de Hoffmansegg. Desta visita resulta o livro "Viagem em Portugal", afirmando que o atravessamento do Rio Cávado foi como atravessar o Lethes, com as florestas da Serra do Gerês a fazerem esquecer as da sua pátria e até as da Inglaterra!

Em princípios do Século XIX, a serra e os acessos ao seu interior eram uma aventura, mesmo para aqueles que ali moravam. As vezeiras iam marcando os ciclos anuais da transumância que encontrava nos currais serranos o abrigo para as noites frias do Verão. Memória das tribos nómadas que milénios antes haviam ocupado o território, os movimentos dos animais pela serra eram geridos consoante a disponibilidade das pastagens e estas iam existindo tanto em altitude (Prados da Messe, Rocalva, etc.), como mais próximo das aldeias (Bostelo, Lameirinho, etc.). O ciclo era estabelecido dependendo do território ocupado por casa aldeia.

Sendo visitantes relativamente usuais das paisagens da Mata de Albergaria, é-nos difícil tentar imaginar aqueles espaços há 200 anos. Como seria o Vale do Rio Homem na sua passagem pela Ponte Feia e pela destruída Ponte de S. Miguel, ou que tipo de ocupação e utilização dos espaços fariam as gentes do Campo do Gerês ou de Vilarinho da Furna? Nos nossos dias, sabemos ali existir um bem definido curral - o Curral da Albergaria - pertencente a Vilarinho da Furna que alargava as suas pastagens para parte da Serra do Gerês (Prados Caveiros e Curral de Absedo) e mesmo para lá dos actuais limites de fronteira (Curral Onde Morreu Martinho, Curral de Costa de Negrelos e outros).

Tendo uma subsistência agropastoril, todas as pastagens e zonas que pudessem ser utilizadas para tal, seriam aproveitadas, podendo-se assim explicar a proximidade entre muitos currais (Curral das Abrótegas e Curral de Cabanas Novas, por exemplo). Assim, não me parece descabido poder ter existido um outro curral não muito longe do Curral da Albergaria, localizado a poucas dezenas de metros da Ponte Feia.

Especulando sobre as possíveis evidências da existência deste curral, encontramos por entre o coberto arbóreo da Albergaria uma peculiar disposição de rochas que nos fazem lembrar a base de um típico forno pastoril com as dimensões usuais deste tipo de edificado. A zona seriam óptima para apascentamento dos animais, sendo relativamente plana e estando naturalmente protegida quer pela vertente do Peito de Albergaria (a Nascente), quer pelo Rio Homem (a Poente). Para os pastores de Vilarinho da Furna, seria uma zona de fácil acesso, ficando no caminho para as suas pastagens de altitude (Prados Caveiros) e mesmo junto da Geira.






Mas, poderia ter mesmo ali existido um curral e que memórias ou relatos orais existem sobre tal? Bom, de facto nenhuns! Na sua obra "Vilarinho da Furna - Uma aldeia Comunitária" (1948), Jorge Dias faz a listagem dos muitos currais daquela aldeia, vários abandonados já nessa altura. Por outro lado, ao consultar velhos mapas, noto a existência de outros currais (ou cabanas) não referidas por Jorge Dias (tais como a Cabana da Volta da Devesa).

Não muito afastado do que penso ser os restos de um forno pastoril, existem as bases em alvenaria de outros edifícios que em tempos ali existiram (a pouco metros da Casa Abrigo do Clube Académico), podendo ser estes os restos das primeiras construções dos Serviços Florestais ou mesmo edifícios de apoio ao «parque de campismo» que em tempo ali existiu.



Com tudo isto, e tendo em conta o que observámos no local, podemos concluir que algo ali terá existido. Estando perto dos marcos miliários (que se desconhece estarem na sua posição original), poderia até sido algo muito mais antigo. No entanto, podemos concluir que a existir ali um curral, este terá sido abandonado há já muitos anos - mesmo antes da chegada dos Serviços Florestais em 1888 - e que a sua memória esteja somente perpetuada naquele conjunto de rochas em disposição peculiar.

Antes de terminar, gostava de vos deixar de novo a transcrição de um texto de Hermenegildo Capelo que é um excerto de um relatório escrito na revista da então Sociedade de Geographia e que relata uma visita à Serra do Gerês realizada em Setembro de 1882 por Hermenegildo Capello e Leonardo Torres - sócios ordinários dessa Sociedade. Durante a sua permanência no Gerês, os dois homens participaram numa caçada realizada a 20 e 21 de Setembro:

"Na Serra do Gerez ha uns abrigos que chamam fornos, provavelmente por causa das portas que só se pode entrar engatinhando, e dentro d'essa cubata podem dormir nove ou dez homens, deitados em palha e muito unidos.

A pulga e muitas vezes o ganau enxameam aquelles domicilios, que servem de casa aos guardas do gado que á noite o reunem junto d'estes fornos em uns pequenos planos mais abrigados que chamam vezeiros. Vimos dois d'estes cacifres ou casebres, um mesmo na Portella de Leonte e outro em Albergaria; n'este ultimo estava um velho guardador de extensa barba branca, e pelo tempo, local e aspecto fazia sem grande difficuldades a felicidade de um sebastianista ferrenho.

Estavamos condemnados a estacionar e pernoitar no forno de Albergaria, porque a chuva continuava e continuou durante a tarde e durante a noite, quando um dos guias lembrou que era mais limpo o abrigo do Penedo da Palla, no sítio do Ranhado, que nos ficava a uns duzentos passos de distancia; podem lá dormir dez homens e cinco debaixo do penedo que fica logo ao pé, e os sete seguiram logo para o dito forno. Foram dez para o forno, e por esse motivo no abrigo da Palla apenas dormimos sete, perfeitamente abrigados e aquecidos pela constante fogueira que durou toda a noite, sendo alimentada com lenha de carvalhos, que ali se encontram derrocados e não aproveitados."

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

1 comentário:

Francisco Ascensão disse...

Rui incrível situar-se tão perta do tão famoso estradão. Parece impossível as vezes que já aí passei e nunca ter reparado. É inacreditável como é que pode haver ainda tanta coisa por descobrir