sábado, 4 de abril de 2020

Serra Amarela - Casarotas e Fojo do Lobo de Brufe


As Casarotas serão talvez dos lugares mais enigmáticos existentes na Serra Amarela e talvez em todo o Minho. Posições defensivas da fronteira, branda de pastoreio... as opiniões são divergentes. 

Situadas na Chã do Salgueiral e numa área definida entre (o alto das) Casarotas, Torneiro e Poulo do Vidoal, são num total de 19 edificações em ruína às que se associam uma trincheira. A natureza castreja destas construções é adiantada por Jorge Dias, mas referindo também poder "...haver uma relação com as cabanas dos pastores e talvez fosse conduzir a uma curiosa solução, que traria também um elemento de grande interesse para a etnografia. Poderia ser uma antiga branda dos pastores de Vilarinho. Uma branda há séculos abandonada, porque os habitantes da região descobriram uma maneira mais cómoda de aproveitar as pastagens altas."

No entanto, Rosa F. Moreira da Silva no seu livro "O Gerês: de Bouro a Barroso", refere "(...) somos da opinião que Jorge Dias não se apercebeu do enquadramento das Casarotas na célula defensiva da Portela da Serra Amarela", fundamentando na sua obra a sua opinião.

Uma outra hipótese que se poderia adiantar seria o facto de estas serem apenas construções temporárias utilizadas nas batidas aos lobos, pois o Fojo do Lobo de Vilarinho da Furna fica a escassas centenas de metros das mesmas.




A visita às Casarotas pode ser feita seguindo o traçado da GR34 Grande Rota da Serra Amarela a partir da Barragem de Vilarinho das Furnas ou então seguindo o antigo e desactivado traçado da Grande Rota das Casarotas a partir de Brufe.





O traçado da Grande Rota da Serra Amarela leva-nos a partir da Barragem de Vilarinho das Furnas a contemplar a imensidão dos espaços à medida que vamos subindo o extenuante Peito de Gemesura. Passando os restos das estruturas de apoio à construção da barragem, o carreiro vai-nos levar sobranceiros à Corga de Gemesura até flectir para (o alto de) Gemesura. A perspectiva sobre a albufeira da barragem, a Serra do Gerês e a Serra Amarela, constitui uma das paisagens de montanha mais notáveis que conseguimos neste percurso. Depois de passar Gemesura, descemos para a Chã de Cima e daqui inicia-se a longa subida até às Casarotas passando ao lado de Candeiró no início das vertentes da Corguinha Má. Como referi, as construções (casarotas) encontram-se na Chã do Salgueiral e são facilmente identificáveis. Mais adiante, e na direcção da Chã do Muro, é visível um dos muros do Fojo do Lobo de Vilarinho da Furna (este sentido é uma alternativa na GR34 para quem não quiser descer a Germil e depois Ermida, cruzando para a Chã do Muro e tomando a rota em direcção à Louriça para depois descer para o Ramisquedo)

A ideia não era seguir o trajecto da GR34 para o regresso e assim seguimos as velhas mariolas através de Mata Porcos e passando por Carvalhinhos, já perto de Brufe, seguimos na direcção do Fojo do Lobo de Brufe, descendo depois para a estrada que nos levaria a percorrer a Corga de Gemesura e regressar ao ponto de partida.


Algumas fotografias do dia...



























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (DLXII) - Chegada às Minas dos Carris


A chegada às Minas dos Carris, Serra do Gerês, é sempre um momento único por muitas vezes que lá se vá. É aqui onde se pode sentir o silêncio e a calmaria do lento passar das eras...

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Passagem da estação espacial internacional (ISS) sobre o Campo do Gerês


Passagem da estação espacial internacional (ISS) sobre o Campo do Gerês a 3 de Abril de 2020.

A qualidade das fotografias é uma miséria mas ao compararem as fotos, podem se aperceber de um ponto que se desloca. As primeiras duas fotografias mostra a ISS a «passar perto» de Vénus. As últimas quatro mostram a «passagem perto da Lua).






Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Passeata num mundo tranquilo e silencioso


Passeata em final da tarde num mundo tranquilo e silencioso.


Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (DLXI) - Forno pastoril do Curral das Abrótegas



O forno pastoril do Curral das Abrótegas, Serra do Gerês, e o Altar de Cabrões no horizonte.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

288... Minas dos Carris


O trilho para as Minas dos Carris inicia-se a uma altitude de 720 metros na margem esquerda do Rio Homem quando este é atravessado por uma ponte de alvenaria erradamente designada Ponte de S.Miguel. Iniciando o caminho, rapidamente nos apercebemos que não será fácil para os mais desprevenidos. A sua dificuldade vai aumentando ao longo do percurso não tanto pela inclinação, mas mais pelo estado do próprio trilho. Em quase 9,8 km de extensão, é na sua maioria composto por pedra solta que dificulta a progressão. São escassas as extensões em que o terreno é suave.

Na quase totalidade do seu comprimento o caminho é acompanhado pelo jovem Rio Homem e o seu rumor por entre as rochas acompanha-nos quase sempre.

Convém salientar que este traçado está inserido num vale de extrema importância para o Parque Nacional da Peneda-Gerês e que para o seu percorrido deverá ser solicitada a respectiva autorização ao Instituto da Conservação da Natureza e Florestas por se encontrar numa Zona de Protecção Total.

No início dos anos 90 ainda era possível observar ao longo do Vale do Alto Homem uma linha de postes de madeira sobre os quais assentava o cabo metálico de telefone, que permitia as comunicações com o complexo mineiro. Nos nossos dias são raros os sinais, ao longo do caminho, daquilo que mais tarde iremos encontrar no sopé de Carris. Tirando os trabalhos mais recentes levados a cabo pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês, com o objectivo de melhorar o caminho para a reflorestação de zonas de alta montanha, é possível observar, mesmo no início do trilho, conjuntos alinhados de rochas que marcam o que então teria sido uma estrada em terra batida que permitia a passagem de camiões para o transporte do minério e não só. Como curiosidade, posso referir que no início da sua construção existia um pequeno caminho que ligaria a Portela de Leonte a Carris e pelo qual as largas telhas que iriam cobrir as casas mineiras eram transportadas em ombros pela quantia de 2$50 nos idos anos de 40. Voltando aos nossos sinais... ao longo do trilho vamos observando um ou outro pequeno muro, ou um ou outro alinhamento de pedras que nos podem sugerir a existência de uma rude estrada serrana. O primeiro sinal sólido da existência de algo mais complexo na serra, surge-nos junto da zona que dá pelo nome de ‘Água da Pala’. Aqui, e já coberta pela vegetação, observamos à nossa esquerda (não se esqueçam de que estamos a subir o trilho, cansados... mas a subir!!!) uma área delimitada por um pequeno e baixo muro. Em tempos terá servido de curral para abrigo dos rebanhos, tal como é referido num artigo publicado no Século Ilustrado em 1955. Do lado direito podemos observar, também por entre a vegetação, uma pequena construção com tijolos de cimento que nos dá a ideia de ser uma pequena guarita, mas que foi referenciada como um pequeno abrigo dos cantoneiros que mantinham o estradão em estado de circulação. Esta zona antecede uma ponte de pedra. Toda este lugar é extremamente peculiar e bucólico.



Na Água da Pala iniciava-se um trilho de pé posto que, embora não estando assinalado na Folha 31 – Outeiro (Montalegre) da Carta Militar de Portugal (escala 1:25 000), editada em 1997 pelo Instituto Geográfico do Exército (IGeoE) e baseada em trabalhos de campo levados a cabo em 1996, surge numa edição mais antiga baseada em trabalhos de campo desenvolvidos em 1949. Este trilho atravessava o Rio Homem e subia ao longo do rio pela sua margem direita no sopé da Encosta do Sol até atingir o topo do Cabeço do Modorno, algumas centenas de metros após atravessar novamente o Homem sensivelmente à cota de 1050 metros de altitude. Não havendo registos cartográficos deste trilho em direcção a Carris, documentos fotográficos atestam a sua continuação para as zonas mais elevadas da serra. Quem observa a Encosta do Sol a partir da Água da Pala, terá a sensação de ainda poder vislumbrar o traçado deste pequeno trilho que, sem dúvida, nos proporcionaria uma visão distinta do vale. Porém, e após várias tentativas de observar no terreno a sua progressão, cheguei à conclusão de que este trilho já desapareceu e será extremamente difícil tentar seguir o seu antigo percurso, senão mesmo impossível.

Após passar a Água da Pala, o trilho para Carris entra numa zona mais plana. Até aqui, e olhando para a nossa direita, temos a oportunidade de observar os picos escarpados que delimitam os Prados Coveiros (segundo a Folha 31, com trabalhos de campo de 1949) ou Prados Caveiros (segundo a Folha 31, com trabalhos de campo de 1996 e edição de 1997). Esta fase mais plana do trilho segue pela Ponte do Cagarouço sobre a Ribeira do Cagarouço, um pequeno afluente do Rio Homem. É nesta fase que o caminho se volta a inclinar ligeiramente e ouvimos o rugido do jovem rio a poucos metros de distância. Por entre a vegetação é por vezes fácil ter um olhar sobre lagoas que no Verão são sempre uma forma de retemperar forças.




O trilho ultrapassa a cota dos 1000 metros de altitude, a poucos metros de entrarmos numa fase do caminho onde vamos superar vários metros de altitude em pouca distância, ultrapassando assim um bom declive. O trilho flecte para a direita no que são conhecidas como as ‘Curvas do Febra’ e em pouca distância subimos 30 metros em altitude antes de flectir para a nossa esquerda. Nesta parte do caminho podemos ter uma imagem do Vale do Homem só superada pela paisagem que nos aguarda poucos metros após a passagem da Ribeira do Modorno. Poucos metros mais à frente entramos numa parte do caminho que é ladeado, à direita, por uma parede sólida de granito e, à esquerda, por uma queda de 50 metros que termina no Rio Homem. O declive aqui é acentuado e notório, mas o esforço para chegar à meia distância merece a pena.

Somos chegados a meio do caminho e o descanso na Ponte do Modorno é merecido. A água da ribeira é sempre fresca e corrente, mesmo no Verão. Ao entrar neste pequeno vale temos a visão de uma pequena queda de água por debaixo da ponte e são poucos os que resistem a uma fotografia. Situados na ponte em direcção ao final do vale, por onde vemos o Rio Homem, temos à nossa direita o imponente Cabeço do Modorno, uma escarpa granítica que atinge os 1317 metros de altitude (Folha 31 / 1997). Conheci todas as pontes até ao Modorno já em cimento, mas o meu fascínio por este vale e por Carris começou a ser despertado pelas velhas pontes de madeira que antigamente permitiam a passagem célere e um tanto ou quanto aventureira.

É sempre bom descansar e retemperar forças junto do Cabeço do Modorno, mas é hora de prosseguirmos pois, logo ali à frente, temos uma surpresa à nossa espera. Prossigamos então a nossa caminhada. Logo após abandonar a Ponte do Modorno e seguindo o nosso trilho, vamos encontrar uma das mais fantásticas paisagens que a Serra do Gerês tem para nos oferecer. É com deslumbre que observamos o Vale do Alto Homem e a forma como este se projecta no céu. O seu delimitar pelos picos das serras leva-nos a imaginar, sonhar um mundo antigo. Atenção ao vocabulário, pois é aqui que nos começam a faltar as palavras... Ao longe vemos a Serra Amarela e com bom tempo facilmente se vislumbram as antenas do Muro localizadas na Louriça. Saindo do pequeno vale da Ribeira do Modorno entramos novamente no vale por onde corre o Homem e logo ali à nossa frente observamos uma estreita queda de água com uma altura superior a 110 metros, a Água da Laje do Sino. Toda este zona proporíamos paisagens deslumbrantes em ou após dias de chuva com as paredes rasgadas pelos cursos de água que se precipitam no vale, ou então nos frios dias de Inverno com a imagem das quedas de água geladas que se amarram às paredes graníticas.




Prosseguindo o trilho ao longo do vale vamos ganhando altitude, atingindo os 1200 metros de forma suave. Nesta fase o trilho chega a complicar-se devido ao estado do «pavimento». O Rio Homem é, nesta fase, constituído por uma série de pequenos ribeiros que têm origem nos inúmeros vales que golpeiam o topo da serra. Aos 1200 metros de altitude, na zona do Teixo (que assim se chama porque se diz que antigamente ali existia uma árvore desta espécie), o trilho flecte ligeiramente para a direita seguindo um dos pequenos riachos que, juntamente com o riacho do Corgo dos Salgueiros da Amoreira, irá mais tarde formar o Rio Homem. O nosso trilho segue a base da Rocha da Água do Cando, passando pela Ponte das Águas Chocas (1285 metros) e entrando nas Abrótegas até atingir a Ponte das Abrótegas (1325 metros). As Abrótegas definem, juntamente com o Outeiro Redondo, um pequeno planalto que é atravessado pelo trilho até atingir e seguir ao longo da base do contraforte de Carris. Foi neste planalto onde esteve montado nos dias 17 a 19 de Setembro de 1908 o acampamento da primeira expedição venatória levada a cabo na Serra do Gerês. Neste planalto têm origem vários trilhos de pé posto, sendo o mais interessante aquele que segue para as Minas das Sombras (Espanha) e para os Cocões do Concelinho (através das Lamas de Homem) e, mais tarde, Minas do Borrageiro e Lagoa do Marinho. Na Ponte das Abrótegas somos interrogados por umas peculiares construções semelhantes a pequenos pilares de rocha e cimento que tinham essa mesma função. Estas construções serviriam de ponto de apoio, certamente de uma conduta metálica para transportar água desde uma pequena represa ali existente até à lavaria nova situada no topo da Corga de Lamalonga. A paisagem aqui permite-nos observar o marco geodésico de Carris (1508 metros), o Altar de Cabrões (1538 metros), tal como é denominado na Folha 31 / 1949, ou Altar dos Cabros, segundo a Folha 31 / 1997 (com a indicação de 1490 metros e estando deslocado em relação à referência anterior). Neste planalto podemos também observar vários currais destinados às pastagens de altitude e à transumância ainda levada a cabo na Serra do Gerês.

A zona das Abrótegas permite o descanso antes da subida final, verdadeiro calvário para quem já está cansado da subida. Ao percorrer o início da subida, um pormenor passa despercebido à quase totalidade das pessoas. Logo no início do declive a antiga estrada dividia-se em duas, com uma a seguir a direcção do Salto do Lobo, local onde decorreram as primeiras explorações de volfrâmio tirando partido do aluvião vindo da Corga da Carvoeirinha. No terreno é difícil vislumbrar sinais desta parte da estrada e só andando alguns metros no caminho principal que segue em direcção a Carris, e depois olhando para trás, é que se vê a antiga estrada já coberta de vegetação. Nesta área não existem construções ou edifícios, exceptuando uma ou outra pequena construção de pastores (os 'fornos') ou outros abrigos. Esta zona provavelmente teria o apoio de edifícios de madeira dos quais não existem quaisquer sinais. Por esta zona deveria passar uma conduta de água que teria a sua origem numa pequena represa próximo da Ponte das Abrótegas e que, apoiada em pilares feitos com aglomerados de pedra, atravessava o pequeno planalto para lá das Abrótegas. Mais pilares são visíveis no extremo deste planalto, que serve de pastagem de altitude ao gado que nos meses da vezeira passeia pela serra, já próximo do caminho antes deste flectir para a esquerda para iniciar a subida final. Seguindo o prolongamento deste caminho secundário e depois entrando em trilhos de pé posto, chega-se às Minas de Carris pela sua zona inferior junto da lavaria nova, no extremo topo do vale da Corga de Lamalonga.

Mas voltemos à estrada principal e iniciemos a subida final para Carris. A parte final da estrada vence um declive de 70 metros ao longo da Corga da Carvoeirinha e sem dúvida que é para muitos a parte mais complicada de todo o trajecto. No entanto, o final do árduo caminho é sempre uma motivação forte para vencer estes últimos metros.

No troço final o declive torna-se menos intenso, com a estrada a tornar-se quase plana mesmo a chegar ao muro que delimitava a entrada no complexo mineiro de Carris.




















Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Caminhadas em Março de 2020


Estas foram as caminhadas do blogue Carris em Março de 2020...

Da Pedra Bela às Rocas, um pequeno passeio na Serra do Gerês

Trilhos PNPG - Serra Amarela entre Lindoso e Germil pela GR50

Trilho de Germil com 100Trilhos

Trilhos PNPG - Trilho da Águia do Sarilhão (parcial)

GR50 entre Brufe e o Bom Jesus das Mós

Serra do Gerês - Das Caldas do Gerês à Pedra Bela

287... Minas dos Carris num mundo silencioso

As ruínas da Casa do Facho

Trilhos seculares - Do Campo do Gerês às silhas dos ursos

Serra do Gerês - Margens de Vilarinho e parte do Trilho da Águia do Sarilhão

Serra do Gerês - Pela Geira e Mata de Albergaria

Da Junceda às Caldas do Gerês

Serra do Gerês - Mata de Albergaria

De Lamas ao Miradouro da Boneca

Trilhos seculares - Ao Curral de Tirolirão

Visita a Vilarinho da Furna

À volta de Vilarinho

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Relembrando as metástases de um cancro chamado Pan Parks


A propósito de uma notícia recentemente publicada no jornal PÚBLICO (que pode ser lida aqui) e que faz eco da revolta de um ambientalista em relação ao estado da Mata do Ramiscal, fui recordar este texto que foi por mim publicado a 26 de Janeiro de 2016 e que ajudará a muitos a contextualizar o actual estado do Parque Nacional da Peneda-Gerês...

O Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês (POPNPG) foi aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros nº 134/95, de 11 de Novembro, para vigorar por um período de 10 anos. O actual Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês foi publicado no Diário da República através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 11-A/2011, de 04 de Fevereiro (Diário da República nº 25, Suplemento, Série I de 2011-02-04 - Presidência do Conselho de Ministros) e resulta de largos meses (senão anos) de uma acalorada discussão que a certo ponto levou à verdadeira catástrofe que se viveu no Parque Nacional no Verão de 2010.

Um pormenor interessante que mereceu uma discussão pública acesa foi a introdução da fórmula matemática do conceito 'wilderness' que tinha como objectivo a identificação de uma grande área sem influência do homem e que no Plano de Ordenamento está quase representada pela Zona de Protecção Total (ZPT). Esta tentativa de isolar parte do parque nacional mereceu uma grande contestação por parte das populações e não só, encontrando apenas defensores nas hostes mais conservacionistas a nível ambiental e nos seus promotores dentro do PNPG. A contestação foi de dimensão tal, que o conceito acabou por ser aparentemente abandonado.

Então "de onde surge o conceito 'wilderness'?" O actual POPNPG não pode ser compreendido se ser relacionado com o contrato realizado entre Portugal e a Fundação Pan Parks. Este contrato foi assinado a 12 de Novembro de 2007 em Lisboa ao fim de vários anos de negociações e envolveu o (então) ICNB, o PNPG e a Fundação Pan Parks. O que era a Fundação Pan Parks (entretanto falida)? Esta era uma fundação europeia que tinha como objectivo certificar a gestão de áreas protegidas. A Pan Parks dizia que tinha como missão a protecção dos habitats naturais e ecossistemas frágeis; o trabalho em cooperação com áreas protegidas europeias para utilizar a sua certificação para garantir a salvaguarda das áreas selvagens (wilderness); a promoção de um turismo sustentável e responsável para a expansão do amor, respeito e orgulho pelas áreas selvagens na Europa. A fundação foi criada em 1998 pela World Wide Fund for Nature e a companhia de viagens holandesa Molecaten, com o objectivo de se criar parques nacionais na Europa à imagem e modelos dos parques nacionais de Yellowstone e Yosemite, nos Estados Unidos. 

Apesar de todas estas boas intenções, a Pan Parks em tempos referia que "PAN Parks does not want to make nature 'available to all'. PAN Parks is the European wilderness protection organisation", simplesmente "A PAN Parke não quer tornar a natureza 'disponível para todos'. A PAN Parks é a organização europeia de protecção da vida selvagem."


Com a assinatura do contrato com a Fundação Pan Parks, o Estado Português comprometia-se a criar uma zona wilderness no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Isto levou à criação de uma fórmula matemática que criou na versão original uma área wilderness que se estendia entre parte da Serra Amarela e a parte superior do Vale do Homem, apostando na sua expansão ao longo dos anos partindo do princípio e até incentivando o abandono das actividades de pastorícia por parte das populações serranas. A ideia era simples: com o desaparecimento da pastorícia na Serra do Gerês e a sua manutenção junto dos núcleos populacionais com um intuito meramente turístico (pois a imagem da pastorícia era vendida como um factor promocional pela Pan Parks para atrair os visitantes para os seus parceiros), seria mais fácil criar zonas totalmente interditas nas quais somente os visitantes Pan Parks pudessem aceder ao solicitar serviços dos parceiros turísticos credenciados pela própria Pan Parks.

No entanto, a criação destas zonas no imediato não seria possível por várias razões, sendo a principal a presença transumante dos gados na Serra do Gerês através das vezeiras. Assim, o POPNPG teria de criar as barreiras que ao longo do tempo levasse ao abandono destas actividades e ao abandono da presença de visitantes em determinadas zonas do parque nacional. Isto levou à implementação de diferentes áreas de protecção, sendo a Área de Protecção Total a área mais restrita em termos de protecção. No entanto, o espírito com o qual o POPNPG foi lavrado indicava uma abertura do PNPG à visitação, algo que parece estar em contradição com as intenções da criação de uma zona wilderness na qual a influência e presença humana fosse mínima.


As diferentes áreas de protecção estabelecem um factor 'carga' na visitação ao estipularem os números mínimos de visitantes para os quais é necessária uma autorização. Assim, a visita à Área de Protecção Total requer uma autorização seja qual for o número de visitantes, enquanto que na Área de Protecção Complementar de Tipo I esse número é estabelecido num máximo de 10 (isto é, a visitação é permitida sem autorização até grupos de 10 pessoas) e na Área de Protecção Complementar de Tipo II esse número é fixado em 15 pessoas. Todas estas áreas estão dentro da denominada Zona de Ambiente Natural (na Zona de Ambiente Rural não há necessidade de qualquer autorização seja qual for o número de visitantes e o local a visitar).

Partindo do pressuposto que os visitantes teriam a iniciativa de solicitar esta autorização, previa-se que o número de solicitações fosse aumentando ao longo do tempo. No entanto, a abertura do PNPG à visitação (mesmo com a necessidade de autorização em determinadas zonas) levaria a que a maioria dos potenciais visitantes não utilizasse os serviços das empresas e entidades certificadas pela Pan Parks. Assim sendo, porque razão as empresas de animação de turismo de natureza se iriam associar à Pan Parks?

Esta situação foi resolvida com o aparecimento da Portaria 1245/2009, de 13 de Outubro, na qual eram estabelecidas taxas a pagar pelos pedidos de autorização para a realização de actividades de visitação dentro das áreas protegidas nacionais. Na altura a taxa é estipulada em €200,00 (Duzentos Euros), mas esta portaria acabaria por ser revogada passado algum tempo pela Portaria 1397/2009, de 4 de Dezembro, devido aos fortes protestos gerados. A 4 de Março de 2010 é publicada a Portaria 138-A/2010 que não estabelece qualquer taxa a pagar pelos pedidos de autorização para a realização de actividades de visitação dentro das áreas protegidas nacionais. No entanto, e ao contrário do que seria de esperar, a tutela fez uma leitura abusiva, errada e ilegal de tal portaria, taxando todos os pedidos de autorização. Porque é que isto aconteceu? O que estava escondido no contrato celebrado entre o Estado Português e a Fundação Pan Parks? No fundo é possível agora dizer que as taxas foram a ponta visível de mais um mau negócio realizado pelos governantes deste país! As taxas foram uma tentativa falhada de empurrar os visitantes do Parque Nacional da Peneda-Gerês para as tais empresas e entidades certificadas pela Pan Parks e que tiveram o efeito perverso de colocar os visitantes de outras áreas protegidas a pagarem taxas.

Felizmente, o pagamento das taxas pelos pedidos de autorização para a realização de actividades de visitação foi revogado pela Portaria n.º 122/2014, de 9 de Junho.


Porém, as metástases deste verdadeiro cancro que contaminou o nosso único parque nacional ainda perdurarão por muito tempo, pelo menos até à próxima revisão do POPNPG na qual TODOS deverão participar.

A Natureza é de Todos e para Todos!

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Previsão meteorológica para Nevosa / Carris (1 a 9 de Abril)


A instabilidade meteorológica irá continuar nos próximos dias agora terminado este episódio de neve nas Minas dos Carris.

Termino aqui a publicação destas previsões que se iniciaram com os primeiros sinais de neve no Outono de 2019. A publicação será retomada caso surja a possibilidade de se registar novos episódios de queda de neve nas Minas dos Carris.