quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Previsão meteorológica para Nevosa/Carris (30 de Dezembro a 7 de Janeiro)

 


Céu limpo ou pouco nublado nas Minas dos Carris nos próximos dias.

Paisagens da Peneda-Gerês (MCLXXIII) - Chalé dos Serviços Florestais

 


O Chalé dos Serviços Florestais à saída das Caldas do Gerês, Serra do Gerês, é um dos muitos edifícios que recordam a presença dos Serviços Florestais no  Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Trilhos PNPG - Trilho dos Currais

 


Aproveitando as tréguas da chuva, percorri o Trilho dos Currais (PR3 TBR) na Serra do Gerês, sendo esta a minha 200.ª caminhada em 2021.

O Trilho dos Currais percorre três currais: o Curral da Espinheira, o Curral da Carvalha das Éguas e o Curral da Lomba do Vidoeiro, numa área de singular beleza natural da Serra do Gerês.

Inserido no âmbito Cultural e Paisagístico, o Trilho dos Currais proporciona um contacto direto com o espírito e tradições comunitárias locais, a partir da organização silvo-pastoril na forma de vezeira. Esta prática comunitária, peculiar da Serra do Gerês, decorre de maio a setembro, sendo o gado bovino da comunidade encaminhado pelos caminhos carreteiros até à serra alta, onde se situam os currais. Os vezeiros – proprietários do gado – acompanham durante dias ou semanas o gado consoante o número de cabeças que possuem, transportando os utensílios para a alimentação e estadia nas cabanas dos currais.

A manutenção destas estruturas comunitárias é assegurada anualmente. Todos os anos, previamente à subida do gado para a serra, no dia dos cubais, os proprietários limpam os caminhos carreteiros, arranjam as cabanas e as fontes.

Mais informação sobre este percurso: prospecto e traçado gps.























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Serra do Soajo ou Serra da Peneda? (Parte 5 - Final)

Apresento hoje a 5.ª e última parte deste trabalho do Paulo Costa sobre a dinâmica do território a Norte do Rio Lima. Nesta última parte, convidei o autor, em jeito de remate, a escrever algumas palavras sobre o seu texto:

"Agora que este meu modesto trabalho veio a público, não posso deixar de agradecer, e assinalar, que este “parto” apenas foi possível em virtude do amável convite do Rui Barbosa, consabido autor do blogue “Carris-Gerês”, local privilegiado para um mergulhar no conhecimento apaixonado e enciclopédico das coisas serranas do nosso único Parque Nacional. 

Obrigado também a todos vocês que, como nós, partilham a paixão pelas montanhas e pelo saber a elas associado. 

E, já agora, votos de um excelente ano 2022, e que ele nos permita continuar a coleccionar sorrisos e amizades por esses espaços amplos de saborosa liberdade."

Quando ao vector que se utilizou para mostrar e disponibilizar este trabalho, vou repetir o texto que utilizei aquando da publicação da sua primeira parte...

"Desde que comecei a visitar o Parque Nacional da Peneda-Gerês e a partir do momento em que entramos neste mundo mágico de Natureza e presença humana, que procuro saber cada vez mais sobre as suas características, pequenas curiosidades e histórias de definem estas paisagens entre o Planalto de Castro Laboreiro e o Planalto da Mourela com a sua paisagem montanhosa moldada pelo Homem.

Recordo as primeiras visitas ao Soajo e a imensidão dos vales na passagem para a Peneda, uma paisagem que na altura seria das mais selvagens do país e que ainda nestes dias me proporciona uma sensação de entrar em algo único em Portugal.

Nessas viagens nas quais se vai conhecendo um pouco mais do território, sempre me intrigou o momento físico no qual «passava» da Serra de Soajo para a Serra da Peneda. Aquele instante que tão bem é definido noutros limites, aqui sempre me trouxe a curiosidade da sua definição. Por vezes, esta definição não é tão fácil, pois para mim a serra é sempre algo (numa primeira aproximação) definida à distância e temos de aprofundar um pouco mais para conseguir estabelecer limites que a distância não nos deixa definir.

Nos últimos anos, tem surgido um «debate» interessante sobre estes limites, mas que rapidamente se torna numa troca de argumentos muito pouco esclarecedora quando entramos no palco do insulto e da exaltação. O debate é ainda menos esclarecedor quando surgem no éter opiniões que são apenas caixas de eco sem sentido crítico, reflectindo apenas a sua postura de analfabetos funcionais sobre o tema.

O trabalho que hoje aqui vos apresento faz parte de um estudo do Paulo Costa que será publicado em cinco partes e que somente pretende esclarecer-nos um pouco acerca desta temática, ajudando a compreender um pouco mais a dinâmica do território a Norte do Rio Lima. Quem nestas palavras escritas vir algo mais do que isso, não vai compreender o objectivo destas linhas e não será merecedor de consideração num debate que posteriormente possa surgir noutros espaços no éter.

Este texto representa apenas, e nada mais do que isso, uma visão sobre o assunto. Em tempos, convidei outros para o fazerem sobre o mesmo tema aqui neste blogue; infelizmente, não houve vontade para isso..."

Assim, este espaço fica aberto para outras opiniões acerca do tema que possam vir a enriquecer, tal como o texto do Paulo Costa faz, o nosso conhecimento sobre o assunto e que venham a ajudar no debate!

Serra do Soajo ou Serra da Peneda? (Parte 1)

Serra do Soajo ou Serra da Peneda? (Parte2)

Serra do Soajo ou Serra da Peneda? (Parte 3)

Serra do Soajo ou Serra da Peneda? (Parte 4)

Fica a quinta e última parte do texto do Paulo Costa...

__________________

CONCLUSÕES/OPINIÕES 

A

I – A propósito deste capítulo, começo por citar aqui a Professora Suzanne Daveau, no seu livro «Caminhos e Fronteiras na Serra da Peneda – Alguns exemplos nos séculos XV e XVI e na actualidade» (Revista da Faculdade de Letras – Geografia I série, vol. XIX, Porto, 2003, pp. 81 – 86), onde esta autora nos diz:

“[…] Outro aspecto importante da Serra da Peneda é ser um maciço muito compartimentado e tradicionalmente designado por nomes variados, conforme é considerado nos seus diversos lados. Escrevia em 1758 o abade Manuel Luís Cerqueira, ao descrever a freguesia de Santa Maria do Extremo, sita na Portela de Vez, que as “serras não têm nomes certos (…) a serra que fica da parte do Nascente no Couto do Soajo chama-se Serra do Soajo, ou Serra da senhora da Peneda, que é ermida, que está dentro deste couto no meio da serra; aonde está a freguesia de Sistelo chama-se Serra de Sistelo, etc.” (Dicionário Geográfico, Ms. da Torre do Tombo, t. XIV, fls. 681-695). Terá sentido atribuir um único nome ao conjunto de terras altas rodeadas por Rio Minho, Vez e Lima, como se tornou habitual hoje?”

II – Chamo aqui também a terreiro o ensinamento do Professor Luís Moreira, que teve entretanto a amabilidade e a paciência de me aturar, e que entre outras boas lições me referiu, com muita propriedade, que o recurso aos mapas antigos para tentar provar algum tipo de evolução toponímica, constitui um terreno pantanoso. Isto porque: “[…] será sempre possível demonstrar uma coisa e o seu contrário, sem adulterar a leitura das fontes e sem cair em contradição. Em todo o caso, importa ter em conta que, normalmente, os mapas eram levantados pelas autoridades centrais, militares ou civis, e a sua leitura do território é sempre exógena e para quem o conhecimento dos locais nunca é fiável por se tratar de pessoas sem instrução. Daqui decorreram muitas generalizações e omissões, mais ou menos propositadas. Também é frequente observar que, localmente, o mesmo acidente orográfico possa ter várias designações consoante a vertente considerada.”

III – Feito este introito, direi que procuro aqui sublinhar a relatividade de quaisquer possíveis conclusões, e que serão muitas mais as hipóteses de trabalho, as conjecturas, do que o verdadeiro alcançar de verdadeiras conclusões, ademais porque o tema se movimenta, maioritariamente, no domínio das ciências sociais, tão sujeitas, por natureza, a teses e subjectividades. 

IV – Feito este sublinhado, direi agora que o “povo Soajeiro”, quer pelo seu natural isolamento ancestral, quer até pelos benefícios que lhe foram sendo conferidos ao longo da sua história, de que é um excelente exemplo a Montaria Real, era (e é) um povo orgulhoso e muito cioso do que é seu.

Também por isso, chegada a hora dos “baptismos”, aquele momento em que surgiu a necessidade de, por uma primeira vez, cartografar e referenciar toda aquela zona de serra/montanha (recorda-se que o 1º mapa é de 1561), terá lógica que os geógrafos/cartógrafos da época, ou aqueles que realizavam os respectivos trabalhos de campo, oriundos, muito provavelmente, do sul do país (Lisboa, Porto, ou Braga), e abordando, também provavelmente, a zona em questão pelo vale do Lima/Lindoso, ao questionarem os habitantes locais acerca dos respetivos orónimos e topónimos, tivessem por resposta as nomenclaturas por eles usada. 

Como será lógico, não seriam esses “senhores da cidade”, pelo menos por esses tempos, que realizariam tais baptismos.

V - Recorda-se, que então e ainda por séculos, quem detinha um concreto peso regional, nomeadamente em termos de importância política e administrativa, era a Vila do Soajo, local onde se centrava o poder político e administrativo do respetivo concelho. Seriam esses aqueles que “riscavam”, tanto mais que por esse tempo e há cerca de 50 anos, que, orgulhosamente, haviam sido promovidos à categoria de concelho (1514).

A este propósito, menciona o Dr. Jorge Lage, um denodado “Soajeiro dos 7 costados”, no seu já citado blogue «Soajo em noticiário» e creio que com fundamento, que: “Obviamente que, em termos de espaço montanhoso o clássico nome «Serra de Soajo», ao estar ligado ao nome da «Terra de Soajo», onde existiu a capital, da montaria, do concelho, do julgado, da freguesia, do espaço tradicional, da mais intensa humanização da serra, é o que mais justifica, o que tem maior razoabilidade, como nome certo!”.

Ou seja, pelo menos para quem abordasse este espaço serrano pelo seu flanco mais acessível e mais lógico (até porque já existiria uma espécie de estrada a percorrer o vale do Lima), ou seja, pelo Sul, tropeçaria nessa localidade/concelho situada aos pés da respectiva serrania.

Contudo, importante será realçar que já quem se aproximasse do mesmo espaço pelo lado Norte, ou seja, pelo lado galego, ou de Melgaço, poderia tender a apelidá-lo de uma outra forma, como seja o de “Serra de Laboreiro”, ou “Montes de Laboreiro”, ou até “Serra de Penegache” (que ficava - e fica do lado galego -, junto à fronteira com o rio Minho). 

Importante é acrescentar que pelo menos a partir do século XIII, quem viesse desse flanco Norte poderia até ter por missão o dirigir-se para a “Serra ou Monte da Peneda”, sobretudo se viajasse imbuído de algum tipo de fervor religioso para o local da respectiva ermida (mais tarde santuário).

VI – Também importante, na esteira do que se vem de mencionar, será ter-se noção que no “antigamente” as vias de comunicação não abundavam e, além disso, os caminhos seriam na sua grande maioria considerados maus pelos padrões actuais. Aliás, muitos deles não permitiriam viagens em carruagens ou diligências, mas somente a pé, a cavalo, ou de mula.

Como é óbvio, vistas aéreas dos locais a mapear também não existiam, pois nem a passarola do Bartolomeu de Gusmão por lá fora avistada.

Por sua vez, como mencionei já aqui, quando quem fazia os trabalhos de campo indagava junto dos locais acerca do nome de um qualquer acidente geográfico, como seja uma montanha ou uma serra, apenas o faria, em princípio, num ou noutro determinado local (normalmente na sede de concelho) e não em todo o redor do respetivo maciço. 

Assim, no caso concreto, seria provável que a averiguação acerca do nome da montanha, ou da serra, fosse realizada junto da vila mais próxima e mais importante de toda a zona, no caso, a do Soajo e já não, por exemplo, em “Rouças”, ou em “Sistelo”, ou na “Bouça dos Homens”. 

Mesmo em relação à vila de Castro Laboreiro, apesar de ter sido Vila e sede de concelho desde 1271 (data do “foral velho”) até 1855 (sendo constituída – recorda-se - exclusivamente pela freguesia do mesmo nome), ela não teria o mesmo peso político que a sua congénere do Soajo e, além disso, o seu acesso seria ainda mais difícil do que aquele que houvesse para realizar para esta última. 

VII – Tal como acabo de mencionar, por aqueles tempos existiam poucas estradas, existindo sim alguns caminhos (fracos) que ligavam povoações. Por isso, verificava-se um significativo isolamento dos lugares habitados, determinado não apenas pelo relevo acidentado, mas sobretudo em virtude do mau estado daquelas vias de comunicação.  

Assim, por exemplo, ainda nos finais do séc. XVIII a «estrada» que ligava Castro Laboreiro ao Gerês e que passava pelo Lindoso, não se encontrava transitável, nem sequer para as mulas.

VIII – Uma conclusão que me parece segura e pouco susceptível a controvérsias, é a de que nos princípios da nacionalidade e até ao ano de 1220 a “Serra da Peneda” não existiria enquanto nome da área serrana em questão.

Efectivamente, até essa data, ou seja, aquela da alegada aparição da Nossa Senhora das Neves (depois baptizada de “Senhora da Peneda”), aquele que é o lugar da Peneda, da actual freguesia da Gaviera, não tinha qualquer tipo de relevância, ou característica, que pudessem justificar a atribuição do nome “Peneda” às serranias adjacentes. Aliás, o local não teria qualquer presença humana de continuidade. 

Todavia, com o advento da aparição e, no essencial, com o início das peregrinações à ermida então construída e, mais tarde, ao santuário edificado, é de todo crível que quem se deslocasse àquele lugar referisse então que rumava (ou regressava) da “Senhora da Peneda”.

Assim, e por inerência, não será de estranhar que o espaço de montanha em que esse local religioso se encontrava, ganhasse, como que por osmose, o nome daquele relevante local.

Além disso, muitas das abordagens ao local da “Senhora da Peneda” tampouco se realizavam pela zona da localidade de Soajo, mas antes pelo Norte, através da zona de Melgaço e das terras galegas, o que mais propiciaria a divulgação e elevação do nome “Peneda” enquanto referência espacial.

IX - A este propósito volto aqui a citar o inestimável livro da Professora Elza Ramalho, no qual se lê: “A rede viária serrana foi, também, de suma importância para materializar os movimentos que, anualmente e a pé, as populações movidas pelo fervor religioso à Senhora da Peneda, na freguesia da Gavieira, realizavam na primeira semana de cada Setembro. Mais uma vez, foi o contacto direto com as gentes da raia limiana, nomeadamente, as galegas, que nos pôs a par dos percursos efetuados, que ignoravam, de facto, a existência de uma fronteira política e aproximavam, de modo indesmentível, povos sediados na Lobeira, Ourense, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca ou Braga.” (obra citada - pág. 40).

X - Por sua vez, importante também será ter presente que uma serra é constituída por um conjunto de montes ou montanhas.

Quem habita junto de um qualquer monte, ou montanha, não teria (no “antigamente”), as mais das vezes, noção do seu conjunto, do seu “todo”, da sua dimensão total.

Assim e a título de exemplo, verifica-se que na área da “Serra do Gerês” muitas aldeias nomeiam a montanha que as rodeia com o nome das respectivas aldeias, ou da freguesia em que a mesma se integre (p. ex. a serra, ou monte, de “Fafião”, e a de “Cabril”, ou os montes de “Xertelo”). 

Daí que, por exemplo, encontremos por diversas vezes no passado a alusão à Serra ou “Monte da Gaveira”, ou da “Gaviarra” (este uma derivação de Gavieira, ou quiçá de “Gave”), ou, ainda, aos “Montes de Laboreiro” (por vezes, também, “Serra de Laboreiro”).

XI - Ainda neste domínio, também não se estranhará a persistência pelos séculos da designação, na área aqui em causa, ou ao seu redor, da chamada “Serra da Estrica” ou da “Strica”.

Na verdade, quem realizasse a abordagem do maciço serrano pela sua zona poente, delimitada, sensivelmente, pelo Rio Vez e pelo acesso Norte/Sul propiciado pelo seu vale, encontraria, por certo, quem referenciasse a zona montanhosa ali existente pelo nome talvez mais relevante, e com maior peso, naquela zona em concreto. No caso, esse nome poderia ser o de “Forte da Estrica”, ou “Strica”, situado no Lugar do mesmo nome (pertencente à freguesia de Sistelo) e num sítio correspondente a uma portela com importância estratégica em termos militares.

Se, porventura, a localidade de Sistelo por aqueles tempos mais remotos, tivesse uma mais relevante importância política e administrativa (mas seria então, apenas, um mero povoado, ou aquilo que se denominará por uma póvoa medieval), provavelmente seria ao seu nome a que se teria recorrido, naquela zona, para baptizar aquela serrania.   

XII - Outra ideia, também importante para o evoluir da nomenclatura em apreço, é o ter em conta que o Santuário de Nossa Senhora da Peneda terá começado a ser construído quando ainda pertencia ao concelho de Soajo, pois que a freguesia de Gavieira estava na sua circunscrição geográfica, sendo certo que já existiria um santuário no local actual no séc. XVII (e uma ermida a partir de inícios do séc. XIII).

A preceder esse Santuário, por sua vez, já existiria no local a já mencionada ermida e, tal como aqui já se mencionou seria muito significativo o número de peregrinos e romeiros que ali se dirigiam para oferecer as suas preces e ofertório, oriundos de variadas zonas e, inclusivamente, de terras espanholas.

Aprende-se na Wikipédia que será “provável que a tradição secular de Nossa Senhora das Neves e a dinâmica beneditina estabelecida pelo percurso dos monges do arcuense Mosteiro de Ermelo para Fiães, em Melgaço, desse lugar ao estabelecimento de um pequeno espaço de culto em redor do século XIII.” (Recorde-se, uma vez mais, que a aparição da Nossa Senhora das Neves é reportada ao ano de 1220).

Refira-se, na oportunidade, que a Senhora foi inicialmente designada como “das “Neves” porque o local onde, alegadamente (“Chã do Forato”, ou “Chã do Monte”) foi encontrada a sua imagem, pela sua significativa altitude, era todos os anos “visitada” pela neve.

XIII - Assim sendo, não será de estranhar que ao realizar os respetivos trabalhos de campo no século XVII, se tenha colhido, na zona do coração do maciço montanhoso em questão (onde se encontra, precisamente, o Santuário), aquele nome de “Peneda” para baptizar a Serra, ou, pelo menos, a zona montanhosa situada na área mais adjacente daquele local religioso. Aliás, esta tese ganhará maior credibilidade se atentarmos em que o fenómeno religioso assumia enorme relevo a vários níveis na vida portuguesa, sendo múltiplos os exemplos de oronomias e topografias com conotação ou origem religiosa.

XIV – Recorrendo, uma vez mais, à citada obra da Professora Elza Ramalho, descobrimos, entre muitas outras, mais uma informação relevantes relativo a esta temática e, assim, a fls. 230, lemos o seguinte: “Desconhece-se a época em que teria surgido o fervor mariano, mas, a primeira metade do séc. XIII poderá ser aventada. Contudo, o culto à Senhora das Neves, na Peneda, poderia ter tido um grande desenvolvimento na segunda metade do séc. XVI devido às fortes epidemias que grassaram por todo o país, nomeadamente, em Braga e Viana do Castelo, o que justificaria a deslocação de muitos devotos à Peneda (PINTOR, 1976: 24-25).” 

B

I – O fenómeno já aqui mencionado, que se antevê como dotado de alguma lógica, que é esse de se perguntar “aos de lá” e a quem “por lá riscava”, acerca dos nomes “de lá”, poderá estar na origem da primeira menção, cartográfica, ao nome de uma serra na zona aqui em questão, a qual, como se viu, ocorreu no contexto do mapa de Álvaro Seco, no ano de 1561 (cfr. pag. 24).

II - Depois desse primeiro mapa, vimos a encontrar no que será - em princípio - o segundo mapa de Portugal, mais concretamente a versão “deitada” do mapa de 1662 de Pedro Teixeira Albernaz (cfr. pág. 35) no qual figura a primeira referência, também cartográfica, à existência da “Serra da Peneda”.

III - Cem anos depois daquela primeira menção serrana do mapa de Álvaro Seco, e contemporaneamente com a versão vinda de mencionar do mapa de Pedro Albernaz, surgiu o mencionado mapa de Lescolles de 1661, e o seu (re) assinalar da existência da mesma “Serra da Peneda” (pág. 39).

Não pode deixar-se de voltar a sublinhar que esse mapa foi o primeiro de realizado com uma representação regional da zona mais a norte de Portugal, e pioneiro – também - em figurar com alguma pormenorização a respetiva representação orográfica. 

IV - Com as ressalvas vindas de assinalar, após esses mapas encontramos depois um significativo hiato temporal sem que o nome “Serra da Peneda” voltasse a ser nomeado, isto pelo menos no que se refere ao domínio da cartografia. 

Ou seja, o nome “Peneda” para designar aquele conjunto serrano, não se terá, aparentemente, sedimentado, e essa designação terá perdido a força então potencialmente emprestada por aquela versão (Teixeira Albernaz) e por aquele mapa (Lescolles).

V – Assim, ao passo que o nome serra do Soajo foi surgindo recorrentemente, sobretudo no período situado entre os meados do século XVII e o ano de 1793 (cfr. pag. 51 – mapa 27), que voltou a surgir um mapa a mencionar a existência da “Serra da Peneda”, aquele que ficou já acima mencionado, da autoria de Custódio Vilas Boas, englobando essa serra o ali designado “Outeiro Maior”, correspondente à zona do “Alto da Pedrada”. Essa situação, a ser real, ditaria – mal –, por consequência, a supressão da Serra do Soajo. 

Ou seja, durante cerca de 150 anos imperou o nome de “Serra do Soajo”.

VI - Depois desse mapa de 1793, temos que 7 anos depois, em 1800, surgiu o acima mencionado mapa de Benito Chias (pag. 47), o qual, como se referiu, foi, sem grandes margens para dúvidas, o mapa mais pormenorizado produzido até este final do século XVIII. Nele surgiu assinalada, apenas, a “Serra da Peneda”, omitindo, assim, a existência da “Serra do Soajo”. 

Mais, este autor, tal como o fizera Custódio Vilas Boas, também assinalou o “M. Pedrada” como o ponto culminante da dita “serra da Peneda”, com 1415 mts e tampouco assinalou o nome do cume “Peneda/Alto do Pedrinho”. Sem margem para grandes equívocos esse é um erro grosseiro deste mapa, bem como o do mapa do Custódio Vilas Boas.

VII - Depois do ano de 1800 e até meados do respectivo século XIX, por cerca de 50 anos, voltam a desaparecer as referências à “Serra da Peneda”, ressurgindo em força o nome da “Serra do Soajo”. No entanto, essa designação surgia então a par da referenciação da “Serra da Estrica” e, ainda que em menor número, também à “Serra de Penegache”, surgindo duas menções a uma tal de “Serra de Gamon”.

Refira-se, de passagem, que, de uma maneira geral, a “Serra da Estrica” era figurada nos mapas na zona mais a poente do maciço (zona do Corno do Bico-Sistelo) e a “Serra de Penagache” envolvendo mais a zona de Castro Laboreiro.

VIII - Depois, em 1854, surge um momento importante para algum tipo de reviravolta, com o mencionado mapa de Agostinho José Lopes Dinne (pag. 54), denominado «Carta geral dos triangulos fundamentaes do reino de Portugal». Este mapa assume grande relevância uma vez que nele surge, pela primeira vez, a referenciação de um cume (e não serra) de nome “Peneda”. Sem dúvida que este mapa, no que se refere à referenciação do nome ”Peneda”, resultou do trabalho de campo realizado por Pedro e Filipe Folque (pai e filho) levado a cabo a partir do ano de 1835.  

Assim, ambos receberam, em 1843, a incumbência de realizar a carta topográfica de Portugal, à escala de 1:100.000, sendo que o filho, Filipe Folque, entre 1844 e 1870, exerceu mesmo as funções de Diretor-Geral dos Trabalhos Geodésicos e Cartográficos do Reino.

Assim, quando os já mencionados Filipe de Sousa Folque, António José Pery, Gerardo Augusto Pery e Joaquim José dos Santos, apresentaram no ano de 1860 a sua – “Carta Geographica de Portugal” (pag. 55), nele mencionaram, precisamente, a existência de um cume com o nome “Peneda”. 

Ora, em termos geomorfológicos parece-me, muito humildemente, que esse terá sido, um erro deveras grosseiro, e que em muito contribuiu para o actual dissenso, motivo pelo qual se regressará à análise desta situação na parte final deste trabalho. 

Mencione-se, ainda, que o mapa destes últimos referencia também o Santuário de “Nossa Senhora da Peneda”, enquanto localidade. 

IX - Um ano depois, em 1861, talvez influenciado pelo trabalho vindo de mencionar, surge o já citado mapa com a designação de “Depósito dos Trabalhos Geodésicos” (ver pag. 56), de Francisco de Paula Rebelo e Nicolau Trant (ou melhor, Nicholas Trant, que chegou a ser Governador da cidade do Porto após a expulsão dos Franceses), nele ressurgindo a referência à “Serra da Peneda” (e não apenas o - mero - cume “descoberto” no trabalho anterior) e ao Santuário de Nossa Senhora da Peneda. Este mapa assinala também, como se disse, o “Outeiro Maior”. 

X - Ou seja, os meados do século XIX foram fundamentais para o surgimento de uma espécie ponto de viragem na questão da nomenclatura que aqui nos traz, pois, para futuro, o nome “Peneda” passou a assumir um outro destaque.

Todavia, tal como aqui já se referiu, até 1890 o nome “Peneda” surgiu, maioritária mas não exclusivamente, associado à designação de um cume e não de uma serra. 

Simultaneamente, e de forma gradual, o nome “Serra do Soajo” foi de algum modo perdendo protagonismo e surgindo, em crescendo, quer aquele nome (Peneda), quer a referência ao monte da Gaviera ou Gaviarra e, bem assim, à “Serra da Estrica”. 

XI – É em 1890 que vem a surgir o mapa que, salvo erro, mais e maior polémica suscitará entre os Soajeiros que vivem com maior fervor a que chamarei “causa soajeira”. Trata-se do mapa de Paul Choffat, no qual apenas surge referenciada a Serra da Peneda (omitindo, assim, a do Soajo), e que surge aqui representada ocupando toda a zona que se encontra no nordeste do Alto Minho (pag. 65 – mapa 69).

Porém, tal como se acabou de verificar, não foi essa na verdade a primeira ocasião que surgiu nos mapas o nome da “Serra da Peneda”. Apesar disso, certo é que foi após esse mapa que sobreveio a tendência de se dar destaque ao nome “Peneda”, com algum tipo de esquecimento do nome “Serra do Soajo”.

XII – Aliás, o próprio Professor Amorim Girão, um dos mais reputados Geógrafos portugueses do século XX, quiçá na esteira do que propugnara Choffat, sinalizou a “Serra da Peneda” ocupando toda a zona montanhosa a norte do Rio Lima. Ou seja, também este eminente professor aportou achas para a fogueira do dissenso aqui sob escrutínio. 

XIII – Em relação a obras científicas de cariz geográfico e de produção nacional, destaco aqui, muito embora correndo o sério risco de negligenciar muitas outras que possam existir com interesse, para lá da já mencionada de André de Resende, a obra de D. Nunes de Leão, com o título «Descripção do Reino de Portugal», publicado em 1610 (já após a morte do autor em 1608), o qual ao referir-se às serras existentes no nosso país, relata, em relação à zona situada entre os rio Douro e o rio Minho, as serras de “Monte Coroa de Coura” (Serra de Coira/Corno do Bico), a “serra de Lurez” (Gerês) e a “Serra de Soaja”.

XIV - Por sua vez, Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), que de acordo com a Wikipédia foi um fidalgo, humanista, escritor, poeta, critico, historiador, filólogo e moralista português, numa das suas obras menciona a existência da “Serra de Soaya”, omitindo a eventual existência da “Serra da Peneda”.

XV - De todo o modo, em jeito de balanço, sobressai que sobretudo a partir do início do século XX, a tendência foi a de o nome das duas serras passaram, maioritariamente, a coexistir na zona em questão e que, pelo menos até ao ano de 1907, os manuais escolares referenciavam, apenas (ou também) a existência da “Serra do Soajo”.

XVI – De todo o modo, por força de variadas circunstâncias, nomeadamente aquelas que determinaram as opções dos mais destacados Geógrafos e professores catedráticos portugueses ao longo do século XX, assistiu-se, em termos gerais, a um acentuar da tendência de situar no espaço em questão duas serranias, a da Peneda e a do Soajo.

Aliás, a ocorrer o detrimento de alguma delas, parece-me que a tendência tem sido a de olvidar a “Serra do Soajo”

C

I – Voltemos agora um pouco atrás para relembrar que no ano de 1875 ficou terminada a obra do actual Santuário de Nossa Senhora da Peneda. Esse facto, aliado à circunstância de Soajo ter deixado de ser sede de concelho em 1852, e ter passado a integrar, geográfica e administrativamente, o território do que se perspetiva ter sido, de algum modo, um seu rival ancestral, ou seja, o concelho de Arcos de Valdevez, propiciou a que a Igreja, associada ao crescente poder arcuense, a par de outras circunstâncias impossíveis de aqui escalpelizar, lograsse promover o nome “Peneda”, em detrimento do nome “Soajo”. 

II – Terá sido uma questão de marketing à moda do século XIX, que culminou, em suma, no mapa de Paul Choffat, que deu azo a uma maior divulgação daquele nome para a serrania envolvente daquele templo e, assim, do Santuário, bem como da religião enquanto todo.

Como é óbvio, esta será uma explicação provavelmente simplista, mas pormenores existem, que a corresponderem integralmente à realidade então vivida, contribuem, também eles, para que se compreenda a génese daquela ascensão do nome “Peneda”.

III - Assim, na já mencionada página, “Soajo em Noticiário”, cuja leitura se recomenda (desde que se “perdoe” o que considero uma espécie de exacerbado “amor à camisola”), e que é da autoria do já mencionado Dr. Jorge Lage, e cuja importância justifica que aqui nos detenhamos nela mais demoradamente. Na verdade nela encontramos algumas curiosidades, bem como informação diversa, que nos podem trazer boa luz para a compreensão desta matéria.

Assim e nomeadamente, alega-se ali que Gerardo Augusto Pery (já aqui mencionado a propósito de mapas de 1860 e 1884 – “Carta Geográphica de Portugal”), terá sido muito influenciado no seu trabalho e, desse modo, na nomenclatura adoptada, por dois fidalgos de Arcos de Valdevez, que estariam fortemente ligados ao poder autárquico daquela vila.

Também surge nessa página uma crítica importante e que se prefigura pertinente, a propósito do trabalho realizado pelo já mencionado Paul Choffat, cientista de origem Suíça (falecido em Lisboa em 1919), o qual, recorda-se, em 1890 publicara a «Carta Geológica de Portugal», nela mencionando a “Serra da Peneda” e, em simultâneo, como que eclipsando a “Serra do Soajo”.

Assim, consigna-se ali que: «[…] em 1932, foi publicada a primeira Geografia de Portugal, dita «científica» e moderna, trabalho universitário de elevado rigor científico, da autoria do alemão H. Lautensach, para efeitos de doutoramento. Exigiu-lhe a obtenção deste grau académico a pesquisa em inúmeras obras geográficas, o que lhe permitiu apreciar criticamente o que considerou «erros» cometidos por Choffat, de chamar à serra de Soajo, Peneda, e à Serra Amarela também Serra de Soajo! O Professor Doutor Hermann Lautensach através do «Centro de Estudos Geográficos», agregado ao «Instituto para a Alta Cultura», em 1948, viu publicado o notável trabalho intitulado «Bibliografia Geográfica de Portugal», obra onde consta que Choffat  «tentou fixar a nomenclatura das principais serras portuguesas, [mas] não isentas de erros.»! De facto na sua notável obra Geografia de Portugal, em alemão, só tardiamente, traduzida para português, colocou a «Serra de Soajo» a norte do rio Lima, a culminar a 1415 m, e a sul deste rio difundiu que a serra tem um só nome, «Serra Amarela»! Deitou, portanto, para o caixote do lixo «Peneda» como nome de serra, e o de «Suajo» a sul do Lima!”.

Igualmente ali se relata uma circunstância, a que ainda regressaremos infra, que nos ensina que: “[…] o intelectual arcuense Dr. Félix Alves Pereira, também criticou o nome «Peneda» que foi posto em vez de «Pedrinho», atribuindo a culpa do disparate ao guia que acompanhou “os homens dos marcos geodésicos””.

Com essa alusão o Dr. Félix Pereira pretenderia talvez referir-se aos que estiveram na origem do trabalho de Agostinho José Lopes Dinne, sendo que este, tal como aqui já mencionei, em 1854, na sua «Carta geral dos triangulos fundamentaes do reino de Portugal» referenciou um cume de nome “Peneda”, assinalando-o como um dos “Triângulos”, ou marcos/vértices geodésicos de 1ª ordem de Portugal. 

Tanto quanto é dado a saber (e ficou também aqui já referido), terão sido Pedro e Filipe Folque (pai e filho) a colaborar no terreno, sobretudo a partir de 1835, para determinar tais triângulos, indicando, também e por arrastamento, a respetiva nomenclatura.

 Porém, essa crítica do Dr. Félix Pereira também poderia ter por destinatários este Filipe de Sousa Folque e, simultaneamente, Gerardo Augusto Pery, pois em 1860 apresentaram, em colaboração com outros personagens, a “Carta Geographica de Portugal”, nela assinalando o cume com o nome “Peneda” (com 1379 mts). 

Todavia, existe ainda uma terceira hipótese, a de aquele intelectual arcuense ter então em mente o trabalho realizado por Francisco de Paula Ribeiro e Nicolau Trant, que em 1861 produziram o «Depósito dos Trabalhos Geodésicos», um mapa de índole regional, nele se destacando a referência à “Serra da Peneda”, e omitindo a do Soajo.

IV - Ainda a propósito dos motivos que possam ter estado subjacentes à ascensão do nome “Peneda” e à concomitante penalização de “Soajo”, encontramos no dito blogue este interessante trecho: “[…] convém dizer que os «fidalgos da Casa Real», António Sá Sottomayor, e Gaspar de Azevedo Araújo e Gama, protagonistas da extinção do concelho de Soajo, tiveram também como principal objectivo sentarem-se à «Mesa da Tesouraria» das «Finanças do Santuário da Peneda». E não perderam tempo, pois nos anos seguintes à tomada do concelho de Soajo, lá apareceram para as gerir, porque naquela época, um dos principais “bancos” do norte do país, era o do muito importante Santuário do Alto Minho!”

V – Também algumas achegas interessantes são-nos também servidas pelo Arqtº Fernando Cerqueira Barros, que tenho o prazer de conhecer pessoalmente, o qual, debruçando-se sobre o fenómeno aqui em estudo, chama a atenção para a importância das instituições monásticas, fomentadoras do povoamento nacional, bem como da contínua cristianização dos pontos mais distantes da nação. Nessa sequência, cita a “Carta de Foro de Monte de Laboreiro quod vocatur Padron”, de 15 de janeiro de 1271, pela qual o rei D. Afonso III deu carta de foro a seis casais de Sistelo (que seria então uma Póvoa medieval), para povoarem e trabalharem o então “monte ermo” de Padrão (lugar da freguesia de Sistelo). Mais importante é, no entanto, para o que ao caso interessa, a referência no próprio título da Carta de Foro da alusão ao nome “Monte de Laboreiro”.

Na verdade, tendo-se também em atenção o facto de Castro Laboreiro ter sido concelho por vários séculos (criado bem antes do concelho do Soajo e sendo extinto 3 anos após tal ter sucedido com o desta Vila), não será de estranhar que a zona de montanha em que a vila se situava pudesse receber o seu nome. Por isso mesmo e por outras razões, creio que o nome “Montes de Laboreiro” será de preservar, ainda que se possa propender a considerar que tais montes se integrarão na “Serra da Peneda”, ou, consoante o que se possa concluir, ou ter por convicção, na “Serra do Soajo”.

Contudo, verdade seja dita que sob o ponto de vista geomorfológico o “Monte” ou “Montes” de Laboreiro”, são deveras distintos da juventude serrana que subjaz ao que possa ser a “serra da Peneda”, pelo que aquela inclusão não poderá cobrar créditos geográficos, mas apenas e eventualmente, históricos ou culturais.

VI - Refiro, na oportunidade, que também encontrei uma publicação espanhola antiga que menciona a existência da “Serra de Castro Laboreiro”, sendo nela também referida a existência do “Vale de Ollelas”, descobrindo-se que correspondia ao que é o vale do Rio Castro Laboreiro.

D

I - No que diz respeito a eventuais conclusões, permito-me ter para mim como segura aquela que há cerca de 30 anos me assalta o pensamento. Assim, o ter-se, num determinado momento da história, a que já acima nos referimos, apelidado de “Peneda” o cume corresponde ao “Alto do Pedrinho”, constituiu um momento deveras infeliz, ainda que de importância mais regional, na história da geografia portuguesa. 

II – Assim, tal como principiei por manifestar, aqui firmo a minha convicção, ainda que amadora, de que nada em termos geomorfológicos permitiria retirar esse cume daquele conjunto em que reina e pontifica o “Alto da Pedrada”. 

E, por sua vez, se o “Alto da Pedrada” é, incontroversamente, o ponto mais proeminente da “Serra do Soajo”, o cume apelidado “Peneda” teria que fazer parte desse conjunto e, assim, em coerência, ser parte constituinte da “Serra do Soajo”.

Esse que parece constituir um erro grosseiro ficou, aliás, já realçado em alguns momentos da história e por alguns geógrafos com reputação

III - Assim, na já mencionada página do “Soajo em Noticiário”, encontra-se a este propósito alguma informação que se prefigura com credibilidade, e que poderá trazer alguma luz sobre a génese daquela situação de erro. Lê-se ali o seguinte relato: “Moller [Adolpho Moller, naturalista alemão] foi mesmo enganado pelo guia, sacristão no Santuário, pois na Pedrada, sita no Outeiro Maior, em 1890, já havia uma pirâmide geodésica de 2ª ordem em que a altitude fora avaliada em 1415m, portanto superior ao valor declarado no PEDRINHO (falseado com o nome Peneda)! De facto, em 1888, todo o Atlas com a Carta Corográfica do Reino, com 37 folhas, já tinha sido publicado, na escala de1/100 000. A altitude no vértice da pirâmide do Pedrinho (falsa Peneda) fora corrigida para 1373 m, do anterior valor de 1446 m referido por Pery! Na Pedrada, ponto mais elevado do Outeiro Maior, e de toda a Serra do Soajo, já estava em 1887 o vértice da sua pirâmide geodésica  avaliado em 1415 m de altitude. Enquanto as torres para instalar as pirâmides (vulgo Marcos), considerados pontos de 1ª ordem subiam a 9 m de altura e tinham na base cerca de 9 m2, nas de segunda ordem elevavam-se a 2,5 m.”

IV - Mais impactante nesse papel de reposição do que se objetiva como incontroverso, ou seja, a existência da “Serra do Soajo”, terá sido o desempenhado por Hermann Lautensach, um conceituado geógrafo, de origem alemã, especialista em geografia física, e que publicou importantes obras sobre a geografia de Portugal.

Este escreveu acerca dos erros dos nomes das serras cometidos pelo mencionado Choffat, fazendo-o na sua obra «Bibliografia Geográfica de Portugal», publicada em 1948. Esse geógrafo alemão concluiu, em suma, que o espaço montanhoso em questão deveria receber o nome de “Serra do Soajo” e não um outro qualquer. 

Uma situação curiosa, que será facilmente comprovável pela leitura das respetivas obras, foi a de que Geógrafos houve, como por exemplo Francisco Xavier da Silva Telles, que ao “entregarem” a zona montanhosa em questão à “Serra da Peneda”, e cientes que a “Serra do Soajo” não poderia simplesmente eclipsar-se, pretenderam colocá-la a ocupar a área que, por direito, pertence à “Serra Amarela” (esta já referenciada, por exemplo, no mapa de Custódio Vilas Boas no ano de 1793). Como é sabido esta “Serra Amarela” está situada a sul do vale do Rio Lima.

Assim, este Geógrafo, declarou, por exemplo, que a “Serra Amarela” também se poderia denominar – pasme-se - por “Suajo ou Louriça”!

Ora, se Louriça seria uma designação perfeitamente aceitável, por corresponder ao ponto mais alto da Serra Amarela (ou talvez, mais genuinamente, D’Amarela), já o designá-la por “Suajo” corresponderá a um erro tão grosseiro que nem merecerá outros comentários.

V - Uma abordagem também interessante relativa a esta temática, foi realizada no contexto da obra do General Marquez D’Avila e de Bolama, de nome “A Nova Carta Chorographica de Portugal”, 3º volume, publicado em 1914, na qual se lê: 

 “Ao norte do rio Lima o a oeste do rio de Castro Laboreiro encontram-se as serras da Gavieira, […] e Suajo ou Amarella, com as cotas de 1268-1373 e 900 metros aproximadamente de altitude.” 

Como é óbvio este trecho está prenho de asneiras, sobressaindo o ter-se ali mencionado “Soajo ou Amarela”, ademais quando estava em causa, segundo próprio autor, uma zona a norte do Rio Lima. 

Mais adiante, acrescentou o autor alguns trechos mais interessantes (ainda que voltem a conter inverdades). Assim lê-se ali: “Na serra da Peneda está construída a pirâmide geodésica de 1.ª ordem, denominada Peneda. É esta a altura maior da montuosa região de entre Lima e Minho, numas cumeadas a que chamam Outeiro Maior e o seu ponto culminante […] a Pedrada. Esta serra não tem nem jamais teve outro nome genérico senão aquele e, por isso, eu penso que a melhor designação para todas estas montanhas seria a da serra de Soajo; uma parte ao N. de Tibo poderia chamar-se serra da Gavieira ou da Peneda. Outro sítio importante desta região, por ter uma grande pirâmide geodésica, tem o nome de Pedrinho, e fica a 1.373"' de altitude. É o mesmo que a Carta Geodésica chama (menos exatamente, Peneda).” 

VI – Ainda no domínio da busca da génese do que me parece constituir o predito erro, encontra-se uma obra muito interessante, e que já acima referi (pag. 103) do mencionado arcuense, Dr. Felix Alves Pereira, que escreveu para “O Archeologo Portuguès” (Volume VII) pags. 193 – 209, um artigo com o nome “Um passeio archeologico no concelho dos Arcos de Valdevéz”. Este autor realizou diversos desses passeios durante o ano de 1893.

Refira-se, por uma questão de enquadramento, que o Dr. Félix Alves Pereira (1865-1936), nascido na Vila de Arcos de Valdevez, foi advogado, mas também (ou se calhar, sobretudo) arqueólogo e historiador, bem como especialista em etnografia e antropologista, estudos que abraçou por vocação. Veio a estabelecer-se em Lisboa em 1901 e a ser Oficial e Conservador do Museu Etnológico Português, onde foi dedicado colaborador do Dr. José Leite de Vasconcelos.

Foi, precisamente, quando tropecei na publicação de um excerto desse concreto “passeio”, na página facebookiana de um amigo soajeiro, que voltei a despertar e a ganhar alento para o presente tema.

Assim, a folhas 207 desse volume VII, discorre assim o autor: “O Calcado é uma lomba de serra que na carta geodésica n.º 1 tem a cota de 1:250 e fica a SE do marco lá inexatamente designado com o título de Peneda em vez de Pedrinho.”

Em nota de rodapé, prossegue depois o Dr. Felix Pereira: “Esta inexatidão provém naturalmente de informação confusa prestada pelos guias ao distincto engenheiro que levantou a carta geodésica [Gerardo Pery] nesta região. O marco a que na carta n.º 1 se assigna o título Peneda, é conhecido pelos habitantes com o nome de marco do Pedrinho, e teve a cota de 1:373. […] Esta grande serra tem sido designada pelos que consultam esta carta com a epigraphe de serra da Peneda, em consequência da facilidade com que salta à vista a palavra Peneda (aliás, Pedrinho) escrita em letras maisculas, mas deverá ser chamada serra do Soajo, porque o seu ponto culminante (Pedrada 1:415 metros) está dentro de limites da freguesia de Soajo.”

Mais ali se acrescenta, ainda em rodapé, que: “isto não impede que se possam chamar serras da Gavieira as montanhas situadas na área da freguesia da Gavieira, embora sejam seguimento da cordilheira principal ou Serra do Soajo.”

VII - Dito tudo isto e aproveitando os meus razoáveis conhecimentos no terreno, propiciados por cerca de 30 anos como andarilho pelas serranias do PNPG, apresento os seguintes factos:  Quem observa de sul o conjunto do espaço montanhoso situado a Norte do Rio Lima e partindo de jusante para montante (de Viana do Castelo para o Lindoso), encontramos, sucessivamente, em traços gerais, os seguintes espaços montanhosos:

a) Uma primeira secção corresponde ao Monte, ou Serra de Santa Luzia, que atinge os 549 mts de altitude, sendo limitada a Poente pelo oceânico Atlântico e a Nascente, em termos genéricos, pela “Serra de Arga”.

b) Segue-se esta Serra de Arga (825 mts, no Alto do Espinheiro), limitada a Nascente pelo vale onde corre o Rio Estorãos.

c) De seguida encontramos a Serra/Montanha de Corno do Bico (883 mts). Esta serra tem adjacente, a norte, a “Serra do Cotão”, sendo limitada, a nascente, em termos genéricos, pelo vale do Rio Vez (envolvendo a zona da “Portela da Estrica”). Corresponderá, em termos mais gerais, à denominada “Serra de Coira” representada no primevo mapa de Álvaro Seco. 

d) O Monte ou Montanha do Gião (821 mts), será a montanha seguinte, integrada já no maciço da “Serra do Soajo”, a cujo núcleo se liga pela zona da Portela do Mezio.

e) Por último, colada às terras galegas, temos a Serra do Soajo, que atinge no Alto da Pedrada os 1416 mts. Esta serra é delimitada, a Nascente, pelo vale do Rio Castro Laboreiro.

VII – Sendo para mim segura e incontroversa a existência da “Serra do Soajo”, e tudo em virtude, no essencial, de tudo quanto aqui ficou relatado, a questão essencial passará então pelos seus concretos limites. 

A minha convicção é a de que, a não ser que tenha lugar uma intervenção por parte de académicos que, pela sua valia formal e conhecimento, concretizem, em definitivo, essa delimitação, a mesma jamais será pacífica, ademais porque são muitas as variáveis e os pontos de vista para que se propicie essa definição.

VIII – Valendo pouco, ou muito pouco, certo é que a minha lógica “grita-me” que em termos geomorfológicos a “Serra do Soajo” tem, necessariamente, pelo seu lado Norte, que abranger o cume posteriormente rebaptizado de “Peneda”. 

Ora, abarcando-o terá - também necessariamente - que alcançar o Rio Vez na zona em que este inflete a Poente, percorrendo o vale em que situam a Branda da Aveleira, a Branda do Furado e a de Vale de Poldros. Na verdade, toda aquela área montanhosa é “farinha do mesmo saco”, quer em antiguidade quer em continuidade espacial.

A Norte situar-se-á, depois, a “Montanha do Fojo” (Srª da Guia). No entanto, este monte terá a mesma idade geológica da “Serra do Soajo”, e partilha as suas características a nível de relevo. Esta montanha apenas se encontra separada da sua área montanhosa mais a sul em virtude da erosão provocada pelo vale glaciário do Rio Vez. Posto isso, não me custa considerar, embora tenha que aceitar opinião diferente, que essa montanha integra a “Serra do Soajo”.

De todo o modo, no mínimo, a “Serra do Soajo” alcançará o vale norte do Rio Vez.

A Noroeste e a Nascente, e recorrendo à mesmíssima lógica geomorfológica, a “Serra do Soajo” alcançará a zona do denominado “Batateiro” e o vale de “Part’Águas”. A serra soajeira estender-se-á depois para Sul sempre com a sua delimitação firmada pelo vale do “Rio Pomba” e, mais adiante, na zona da aldeia de Gavieira, pelo “Rio Peneda, “descendo” depois até à Várzea e à foz do Rio Laboreiro, quando este vem a abraçar do Rio Lima.

Na verdade, do vale do “Rio Pomba” para Nascente surge um maciço montanhoso de maior juventude, mais caótico e menos castigado pela erosão, em que se encontram, por exemplo, os cumes de “Outeiro Alvo”, “Penameda” e “Rajada”. Ou seja, trata-se de uma zona de montanha de formação posterior àquela que lhe fica a Poente (a “Serra do Soajo”).

Recordo que, tal como acima mencionei, a zona que aqui chamo de “Serra do Soajo” terá entre 320 a 380 milhões de anos, e que esta outra zona, mais agreste e mais jovem em termos geológicos, terá, em média, cerca de 290 milhões de anos.

A esta zona mais jovem, também porque terá raízes históricas que poderão justificar tal nomenclatura (nascidas no séc. XIII), chamarei aqui “Serra da Peneda”. 

Todavia, se quisermos fazer uma leitura de conjunto de todo aquele espaço de montanha, terei então como mais plausível que a “Serra da Peneda” seja, apenas, considerada como constituindo os “Montes da Peneda”, integrando então, nesse caso, o conjunto maior de toda aquela área serrana, da que será a “Serra do Soajo”.

Tenho também para mim como verdade, aceitando-a, porém, como relativa, que a par desta “Serra de Soajo” e – da talvez provável – “Serra da Peneda”, se deverá dar depois algum tipo de autonomia aos chamados “Montes de Laboreiro” (que, em coerência com o que venho de referir, a par dos ditos “Montes da Peneda”, quiçá possam a integrar a “Serra do Soajo”).

Estes “Montes de Laboreiro” terão, sensivelmente, a mesma idade da “Serra do Soajo”, em relação à qual constituirão uma espécie de irmandade, mas ficando de praticamente isolados desta pelo permeio da “Serra da Peneda”, mas mantendo, no entanto, algum tipo de ligação física no seu estremo Norte pla zona da nascente do “Rio Mouro”.

IX - Por último e recorrendo à dita lógica geomorfológica, que parece a mais plausível em termos científicos, não vejo qualquer motivo (com a excepção da tradição mais recente associada ao recurso ao termo “Brandas da Peneda”), tal como resulta do que acima escrevi, para que esta “Serra do Soajo” não se prolongue, a Poente, ao vale do Rio Vez, onde este rio vem correr aos pés de Sistelo, Cabreiro e Vilela.

IX – Esta dita lógica, fundada, pelo menos em parte, em critérios histórico e culturais, mas, sobretudo, geomorfológicos, para além de passível de muitas outras controvérsias, resulta, sublinho, de uma observação realizada a partir do Sul do Rio Lima e olhando a Norte.

Ora, se a abordagem for realizada do lado Galego, outro galo poderá cantar. Quem vem por essas bandas tampouco consegue observar a “Serra do Soajo”, pelo menos a parte que, incontroversamente, a compõe. Vêem-se, isso sim, em termos genéricos, os “Montes de Laboreiro”, bem como a chamada “Montanha de Picos” (cujo ponto mais alto é “Cabeço do Pico” com 1256 mts) e a mencionada “Montanha do Fojo”.

Nesse caso, torna-se pertinente chamar-se a terreiro os ensinamentos da Professora Elza Maria Gonçalves Rodrigues de Carvalho, Professora do Departamento de Geografia da Universidade do Minho, que coloca a hipótese de a “Serra da Peneda” constituir um elemento integrador dos “Montes Laboreiro”, sendo que, por sua vez, estes “Montes Laboreiro” constituirão um complexo montanhoso que se desenvolverá desde Celanova (província de Orense), até às proximidades do Rio Vez, da freguesia de Sistelo. Ou seja, são sempre possíveis muitas e diversas interpretações. Aliás, entre essas interpretações está aquela, que já aqui mencionei, de a “Serra do Soajo” integrar - ela sim - o conjunto de todas aquelas montanhas. 

De todo o modo, refira-se que esta Professora no contexto da sua obra, na qual muito se aprende, menciona e de alguma forma aceita, em inúmeras ocasiões, a existência, em paralelo, das Serras de “Soajo” e da “Peneda”.

X – Por último, e na esteira até do que venho de discorrer, recordo aqui uma vez mais que uma serra vem a ser um conjunto de montanhas e que na zona em causa serão muitos os montes e montanhas existentes.

Todas essas montanhas farão parte de um conjunto, ou seja, de uma serra. Ou poderão, inclusivamente, essas montanhas constituir, por motivos diversos (essencialmente geomorfológicos ou histórico/culturais), mais do que uma serra.

Se todas as montanhas aqui em causa, porque unidas fisicamente, constituírem uma única serra, parece-me que, em termos históricos, face sobretudo ao volume de mapas e trabalhos que fazem essa referência, a “Serra do Soajo” deveria ter a primazia.

Todavia, quiçá o caminho mais sensato e mais consentâneo com as realidades geológicas, dite a coexistência das duas serras. Essa coexistência, creio eu, não deverá colocar entraves a que se distinga, neste conjunto serrano, os ditos “Montes de Laboreiro”, o que se poderá verificar em simultâneo com o reconhecimento da existência de outros montes ou montanhas, como serão o caso do “Monte Gião”, o “Monte de Padrão”, ou até o “Monte do Fojo” e a “Montanha de Picos”.

XI - É então este um trabalho modesto, talvez algo atabalhoado e, necessariamente, incompleto, a carecer da contribuição de quem mais e melhor saiba, tudo no sentido de trazer luz a um tema que tem todo o potencial para extravasar da mera disputa do que seja uma coisa ou outra e, como tal, uma mero ponto de partida para as delícias do conhecimento. 

Por fim, volvidas estas décadas, posso agora eu dizer: “penso eu de que”, e, ainda assim, mais do que apresentar conclusões, trazer à superfície alguns episódios, curiosidades e relíquias relativos a esta bela região montanhosa.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)


Previsão meteorológica para Nevosa/Carris (29 de Dezembro a 6 de Janeiro)

 


Os dois últimos dias de 2021 deverão ser de céu limpo nas Minas dos Carris, com as nuvens e a precipitação a voltarem a partir do dia 1 de Janeiro.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Serra do Gerês - Do Arado ao Pinhô

 


Uma curta caminhada em dia de chuva entre o Arado e o Curral de Pinhô, seguindo pelo velho estradão florestal ladeando o Espigão de Junceda e seguindo para o Curral de Malhadoura e Curral dos Portos. Depois seguiu-se para a Tribela, descendo então para os Portelos de Rio Conho e atravessando a Ponte de Servas, seguindo até ao estradão que nos levou ao Curral de Pinhô.

Ficam algumas (poucas) fotografias do dia...











Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Serra de Soajo ou Serra da Peneda (Parte 4)

 


A quarta de cinco partes de um estudo do Paulo Costa que pretende esclarecer-nos um pouco acerca de um interessante tema que envolve a Serra de Soajo e a Serra da Peneda.

Tal como referi anteriormente, nos últimos anos, tem surgido um «debate» interessante sobre estes limites, mas que rapidamente se torna numa troca de argumentos muito pouco esclarecedora quando entramos no palco do insulto e da exaltação. Para lá das caixas de eco sem sentido crítico, tenta-se compreender o porquê destas aspirações do povo soajeiro.

O trabalho que tem vindo a ser aqui apresentado, faz parte de um estudo do Paulo Costa que esclarecer um pouco acerca desta temática, ajudando a compreender um pouco mais a dinâmica do território a Norte do Rio Lima.

De novo, quem nestas palavras escritas vir algo mais do que isso, não vai compreender o objectivo destas linhas e não será merecedor de consideração num debate que posteriormente possa surgir noutros espaços no éter.

Serra do Soajo ou Serra da Peneda? (Parte 1)

Serra do Soajo ou Serra da Peneda? (Parte2)

Serra do Soajo ou Serra da Peneda? (Parte 3)

Fica a quata parte do texto do Paulo Costa...

__________________

61 - 1862 - Johnson's Spain and Portugal: Nele surgem as representações da “Serra da Estrica” e do “M. Gaviarra” (aparentemente figurado com 1881 mts.). A Norte, na zona de Castro Laboreiro, é representada a já mencionada “Serra de Penagache”, ocupando, sensivelmente, metade do seu espaço na área de Castro Laboreiro e a restante em território galego.

62 - 1868 – Jean Baptiste Louis Charles e Girard: Nele apenas surge a representação da “Sierra de Penagache”, ocupando cerca de metade do Alto Minho e adentrando-se em território Galego. Está lá também a Estrica, mas não se percebe bem se na qualidade de serra ou do já mencionado forte.

63 - 1873 – Augusto Luís Nunes de Carvalho e outro, «Carta de Portugal e suas colónias»: Representa a “Serra da Peneda”, a “Serra do Gerez” e a “Serra de Laroco” (Larouco). Surge a localidade de Soajo no local correcto.

64 - 1884 (ou 1865?) – Carta Geográphica de Portugal (Relativa ao levantamento efetuado entre 1860 a 1865 e que frutificou no já mencionado mapa de 1860), é de vários autores, entre os quais aqui destaco Filipe de Sousa Folque e Gerardo Augusto Pery. Este mapa teve a novidade de apresentar o relevo sob a forma de curvas de nível. Além disso é muito minucioso a nível de referenciação de localidades. Não aparecem os nomes de serras ou de montanhas. Surgem as referências às localidades de “Nossa Senhora da Peneda”, bem como de “Soajo”. Na área em questão via-se assinalado o cume “Peneda” (e não a serra) no local correspondente ao referido “Alto do Pedrinho”, mas também já anteriormente figurado com esse nome.

A propósito deste mapa lê-se: «Este mapa foi realizado na escala 1:500.000, e constitui um documento incontornável da história da cartografia temática portuguesa, fornecendo a primeira imagem contemporânea da totalidade de Portugal Continental, “que podemos considerar relativamente exacta”, e foi a base cartográfica, necessária e essencial, ao desenvolvimento da cartografia temática portuguesa debruçada sobre Portugal Continental» – citação do Professor Mário Gonçalves Fernandes, Presidente do Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

O referido Gerardo Pery terá assumido um trabalho de campo de relevo no âmbito desta obra e, nomeadamente, realizado a recolha dos nomes dos vários cumes da área em questão e, nessa conformidade, terá também apelidado (ou de algum modo confirmado) como “Peneda” o “Alto do Pedrinho”.

Por sua vez, aprende-se na Wikipédia, que «Gerardo Augusto Pery introduziu o conceito de «sistema montanhoso» na geografia portuguesa, quando em 1875 procedeu ao agrupamento das serras em «sistemas». A sua influente obra “Geographia e Estatística Geral de Portugal e Colónias” foi muito seguida como fonte por múltiplos autores de manuais escolares de geografia, contribuindo para a popularização do conceito de «sistema montanhoso».

Daí a inequívoca importância deste autor no contexto da Geografia portuguesa no que diz respeito à nomenclatura dos acidentes montanhosos.

Assim, ele trabalhou no primeiro levantamento geodésico do território português, dirigindo a instalação da primeira rede de marcos geodésicos. Foi co-autor da muito referenciada «Carta Geográfica de Portugal», editada em 1865, que acabou por determinar a uniformização da toponímia de muitos acidentes geográficos, com destaque para as serras e montes.

65 - 1885 – Mapa produzido pela Direção Geral dos Correios, Telégrafos e Faróis: Representa alguns cumes (mas não serras ou montanhas), como seja a “Peneda”, bem como outros mais, p.ex. “Larouco”, “Cabreira”, “Oural”, “Santa Luzia”. Curiosamente omite o Gerês. A localidade de Soajo está lá (a da Peneda não).

66 - 1888 – Triangulação fundamental e nivelamento de precisão de Portugal, de Lacerda de Carvalho. Como não poderia deixar de ser, na sequência dos trabalhos realizados anteriormente (ver mapa de 1854), um dos marcos de referência à triangulação geodésica vem a ser o cume da “Peneda”, tal como, por exemplo, o do “Larouco”, “Cabreira” e “Sameiro” (Braga).

67 - 1888 - Vuillemin, Alexandre Aimé – Nele assinala-se o cume da Peneda. Figura-se também a localidade de “Soajo” e a “Serra do Gerês” também lá está representada, bem como o “Pico do Larouco” (1548 mts).

68 - 1888-1890 - Botella y de Hornos, Federico de Botella – Este mapa dito hipsométrico, representa o cume “Peneda” (1374 mts), correspondente, como será pacífico, ao “Alto do Pedrinho”. Surgem outros cumes a norte do Lima, mas sem que surja um nome a referenciá-los. Figurados estão também o cume do “Larouco”, com 1531 mts (pelo que se percebe) e o do “Gerês” (com 1396 mts).

69 - 1890 - Paul Choffat – «Carta Geológica de Portugal»: Este é um mapa importante na medida em que, na tese mais corrente entre os Soajeiros, representa um importante voltar de página no sentido de roubar protagonismo a Soajo, retirando qualquer referenciação à “Serra do Soajo” e procurando, erroneamente (pelo menos nessa perspetiva Soajeira), dar relevo à Serra da Peneda, que aqui surge representada ocupando toda a zona que se encontra no nordeste do Alto Minho. 

A “Serra do Gerês” surge ali representada com 1561 mts, ou seja, já bem mais próxima do que será a sua altitude real (1548 mts). Existe também uma edição de 1899, realizada em colaboração com Joaquim Filipe Nery Delgado.

70 - 1893 – «Choreographia de Portugal Illustrada», de Manuel António Ferreira Deusdado: É uma obra interessante, contendo vários aspectos respeitantes à geografia portuguesa. A fls. 18-19 deste trabalho surge um mapa orográfico, com curvas de nível, onde, no que ao caso interessa, surge a “Serra de Gavieira” e no seu interior figurou-se o “Monte Peneda”. 

A norte do Rio Lima surgem, ainda, a “Serra da Bolhosa”, “Santa Luzia” e a “Serra de Arga”. A sul e mais ou menos próximo do mesmo rio, são figuradas as Serras da “Falperra”, “Cabreira”, “Gerês”, “Amarela” e de “Crasto”(?!), bem como o “Monte Larouco”, este com 1580 mts(!), bem como o “Monte Oural” (este situado no limite Norte do concelho de Vila Verde).

Por sua vez, na página 18 desta obra refere-se a existência, na zona do Minho, de três únicas serras, sendo elas a da “Peneda”, a do “Gerês” e a da “Cabreira”. 

Na sua página 20, a propósito dos sistemas hidrográficos, quando aborda a Bacia do Lima e seus afluentes, menciona: ”O Vez é o mais notável. Desce da Serra da Peneda, passa em Arcos de Val de Vez e termina defronte da Ponte da Barca”. Ou seja, aqui menciona-se a “Serra da Peneda”, mas, contraditoriamente, no mapa ficara referida a “Serra da Gavieira” (com o seu Monte da Peneda). Incongruências!

71 - 1897 – «Atlas Escolar Portuguez», de Ricardo Luddeck: No mapa que representa a zona norte/centro, surge um cume com o nome “Peneda”. Aparece a respectiva altitude (que não consigo ler) e assinala-se a sul uma outra proeminência, com uma outra altitude (que tb não descortino), mas que equivale, sem dúvida, ao “Alto da Pedrada”. 

Surgem nele outros cumes e, figuram algumas localidades de menor dimensão, nomeadamente, na zona em causa, “Tibo” e “Gavieira”, omitindo-se, estranhamente, a localidade de “Soajo”. Também lá estão, p. ex., a “Serra do Gerês”, a do “Larouco” e a da “Cabreira”.

72 - 1900 – «Portugal Político» (de autor não identificado): Este mapa apenas referencia a existência da “Serra da Peneda”. Gerês também lá surge, tal como a “Serra do Barroso” (também conhecida por “Serra das Alturas”), sendo esta a primeira vez que me deparei com a sua menção. Fio também representada a “Serra do Larouco”.

73 - 1900 – «Spain and Portugal» - obra da The London Geographical Institute e que será da autoria, se bem percebi, de George Philip & Son: Representa, de forma surpreendente para a época, o “Monte Gavieira”. Não estão lá representadas nem a “Serra do Soajo”, nem a “Serra da Peneda”. A Norte apenas se sinaliza a norte a “Serra do Gerês” e a “Serra da Cabreira”.

74 - 1900 – Ernesto de Vasconcelos: No mapa deste autor surge a “Serra da Peneda”. Muito embora exorbite da análise aqui em causa, gosto sempre de referir a existência de outras particularidades e, neste caso, o assinalar-se nele a “Serra do Gerês”, bem como da “Serra do Larouco” e a da “Falperra”.

75 - 19-- - «Novo mapa de Portugal …», que teve por editor e depositário Jose Cierco e foi gravado por J. Forest (Engº. Geógrafo): Este mapa vem, de algum modo, ao encontro da – digamos - modernidade, pois representa, conjuntamente, as serras da “Peneda” e a do “Suajo”, e nos seus devidos lugares. Também lá estão a “Serra do Gerez”, a do “Larouco” e a do “Barrozo”.

76 - 1901 – «Carta Chorographica de Portugal», de José A. F. de Madureira Beça; grav. Martins, Alves e Egreja: Muito semelhante ao mapa anterior, assinala as serras da “Peneda” e a do “Suajo”, bem como aquelas outras vindas de assinalar.

77 - 1902 – Elaborada pelo “Intituto Weimar”: Neste mapa a norte do rio Lima apenas surge a “S. d Suazo”. Por sua vez, na zona norte do país apenas surgem referenciadas, para além da do Soajo, as “Serra da Cabreira” e a do “Larouco”.

78 - 1903 – F. Noriega: No mapa deste autor apenas surge representada e em contracorrente, a norte do Rio Lima, a “Serra de Laboreiro”, a qual coincide com a zona de fronteira com a Galiza. Também está ali figurada uma altitude de 1341 mts, imediatamente a sul da localidade de Gavieira, pelo que, pela lógica, dirá respeito ao “Alto da Pedrada”. No entanto, aquela altitude está mais próxima daquela que surge normalmente (também nos mapas precedentes) relacionada com o “Alto do Pedrinho/Peneda”. 

A sul do Rio Lima surge representada a “Serra de Jures”, bem como uma enigmática “Serra de Pena”, situada na zona correspondente, mais coisa menos coisa, a “Pitões das Júnias”. 

A “Serra de Larouco” surge ali imediatamente a nascente desta última serra. 

Ainda mais estranho é que a sul/sudoeste da “Serra de Jures”, é representada uma “Serra do Gerez”. Por último, a “Serra da Cabreira” é representada a Sul desta “Serra do Gerez”.

79 - 1906 - Carta hypsometrica de Portugal (sem autor identificado): Este mapa apresenta-se com um aspecto “moderno” e nele foi dada especial atenção ao relevo, tal como, aliás, o próprio nome do mapa indica. No que ao caso mais interessa, nele surge indicada a “Serra da Peneda” e na zona correspondente àquela em discussão. Assinala-se o cume do “Alto do Pedrinho/Peneda” com 1373 mts. No entanto, também referencia um outro cume no local onde sabemos estar o “Alto da Pedrada”, com 1415 mts, sem que, no entanto, surja qualquer nomenclatura relativa a esse sítio. 

Também ali estão a “serra do Gerez” (com 1561 mts.) e a “Serra do Larouco” (com 1545 mts.) A zona correspondente à “Serra da Cabreira” e ao “Barroso” surge toda ela com o nome de “Serra das Alturas”, que corresponde, como já referi, a um outro nome pelo qual esta última é também hoje conhecida. Importante também é assinalar a representação da “Serra Amarela” (com 1361 mts).

80 - 1907 - “Carta de Portugal com a rede ferroviária: principais termas e partes interessantes a visitar”, de Tavares Pereira: Apenas representa, no que ao caso interessa, a “Serra da Peneda”.

81 - 1909 – “Mappa de Portugal” – do jornal “O Século”: Representa, também ele, apenas a “Serra da Peneda”. Embora se percebam mal as ilustrações, também figuram lá as serras que tenho vindo a assinalar por último (Gerês, Larouco e Barroso).

82 - 1911 - «Carta de Portugal, aprovada para uso das escolas - Direcção dos Trabalhos Geodésicos e topográficos»: Tal como o nome indica, este mapa revela interesse na medida em que terá sido utilizado para o ensino oficial. Assim, aparentemente e em termos oficiais, neste mapa consagra-se a “Serra da Peneda” como sendo a única existente a norte do rio Lima. São também representadas a “Serra do Gerez”, a “Serra do Barroso” e a “Serra do Larouco”.

83 - 1913 e 1919 - «Carta de Portugal, com a divisão administrativa, áreas e população por concelhos e rede de estradas até 1912» (3ª edição): Também da autoria da Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos e Topográficos (Lisboa). Mais uma vez este mapa, de cariz oficial, representa na área em questão – apenas – a “Serra da Peneda”. Também ali sinaliza o que será o “Pico da Peneda/Alto do Pedrinho”, com 1373 mts. No entanto, como é usual, está também figurado um local com 1415 mts no sítio que corresponderá ao “Alto da Pedrada”. “Serra do Gerez” também lá está (1561 mts).

O nome “Cabreira”, com um marco geodésico de 1264 mts, surge integrado na “Serra das Alturas”. 

84 - 1923 - «Atlas Universal de Geografia», de Louis Vivien de Saint Martin: Representa, a norte do rio Lima, a “Serra do Soajo” e a (“regressada”) “Serra de Penagache”. Concluo, desde já, que as diversas “escolas”, como sejam a portuguesa, a espanhola, inglesa, francesa e italiana que, para o caso, serão as principais, faziam cada uma delas uma espécie de copy past do trabalho dos seus antecessores da respectiva “escola”. 

Na zona da “Serra do Soajo” foi figurada, inclusivamente, a menção a um sítio com o nome “Pedrada”. Curiosamente, também ali se assinala um local com o nome “Louriça” (que vem a ser o ponto mais alto da “Serra Amarela”). Também lá surgem a serras do “Gerês”, do “Larouco”, bem como as “Alturas” e a “Cabreira” (estas duas últimas quase se sobrepõem).

85 - 1926 – «Carta Itinerária de Portugal», da autoria de Egreja, Manuel Maria: Apenas está nela figurado um sítio com o nome “Peneda”, correspondendo, sem margem para dúvidas, àquele que - me permito dizer aqui - será, ou deveria ser, o “Alto do Pedrinho”. 

Apesar de se tratar de uma “carta itinerária”, nela detectam-se, facilmente, diversos erros, ficando aqui o exemplo de que é representada uma estrada que vai praticamente “a direito” entre as localidades da “Peneda” e a de “Entrimo” (o que é impossível), com a orientação leste-oeste.

A subsequente carta Itinerária de 1937 faz descrições semelhantes a esta.

86 - 1929 – Mapa de Joseph Forest: Representa, por uma nova ocasião, algum tipo de demonstração da que poderá ser, na actualidade, a visão mais consensual em termos semi-oficiais, representando, simultaneamente, a “Serra do Soajo” e a “Serra da Peneda”. Essa situação, como acima se mencionou, começou a verificar-se, sensivelmente, a partir do ano de 1900. 

A “Serra do Gerez” é ali representada de forma a abranger a que será a “Serra Amarela”. À metade oriental da Serra do Gerês chama o autor a “Raya Seca”, a qual surge delimitada a Leste pela “Serra do Larouco” e a Sul pela ”Serra de Barrozo”. Também é representada a “Serra da Cabreira”.

87 – 1930 (edição) – Ernesto de Vasconcelos (já mencionado no mapa 75): Tal como na edição de 1900, Indica-se nele apenas a “Serra da Peneda” no que respeita à zona em questão, com a altitude de 1373 mts (pretendendo referir-se, atenta a altitude mencionada, ao Alto do Pedrinho/Pico da Peneda).

Infelizmente, a partir, sensivelmente, dos anos 20 do século XX, os mapas que consultei no site da Biblioteca Nacional Digital não estão, na sua grande maioria, disponíveis, presumindo-se que ainda estarão por digitalizar. 

De qualquer forma, o mais importante seria realizar uma incursão pelos mapas mais antigos, que ficou feita, e não tanto uma análise dos mapas mais actuais.

No entanto, tal como acabei de referir, nos tempos atuais, o normal e quase consensual, é o de nomear e representar as duas serras, a do “Soajo” e a da “Peneda”.

No entanto, continuam a existir excepções, como acontece, por exemplo, com alguma cartografia militar, privilegiando-se, nesse caso, a menção à “Serra da Peneda” em detrimento da “Serra do Soajo”.


I - ASPECTOS HISTÓRICOS


A) Breve resumo da história da localidade de Soajo.


I - Para aprofundar um pouco mais o tema, convirá fazer aqui uma breve resenha histórica relativa à vila de Soajo. Em primeiro lugar, cabe destacar que a vila do Soajo foi sede de concelho entre os anos de 1514 e 1852, englobando as freguesias de Ermelo, Gavieira e Soajo.

II - Por sua vez, tendo por referência o conjunto geográfico aqui em sob estudo, seria esta, muito provavelmente, durante um significativo período dessa época, sobretudo a sua primeira metade, a sede de concelho com um maior peso, nomeadamente a nível político.  

Na verdade, quer Arcos de Valdevez (a poente), quer Melgaço (a norte), encontram-se distantes – também em termos de altitude – da parte central do conjunto serrano aqui sob apreciação. Relativamente à Ponte da Barca, o respectivo concelho “mandaria” a sul do Rio Lima e não a norte deste. Por sua vez, o Nascente não merece discussão uma vez que confronta com território galego. Relativamente a Castro Laboreiro, que terá sido fundado em 955, inda que fosse um concelho bem mais antigo do que o de Soajo (1271 a 1885), este era constituído por uma única freguesia e, apesar da sua importância estratégica em termos militares, encontrava-se muito distante dos centros de poder e decisão.

III - Já em relação à localidade do Soajo, esta foi por muito tempo uma terra muito acarinhada pela monarquia, assinalando-se a atenção de que foi alvo por parte do Rei D. Diniz. 

Aproveitando os ensinamentos oriundos de várias fontes, como seja a página oficial da Freguesia de Soajo, aprende-se, nomeadamente, que o povoamento da região de Soajo perde-se no tempo. 

Também se lê nessa página que o Santuário Rupestre do Gião, na fronteira sudoeste da Serra do Soajo, com as suas inúmeras Antas e Mamoas, constituem alguns dos seus inúmeros marcos documentais. 

Já o primeiro documento escrito que ao Soajo se refere é do ano de 950 e menciona a partilha de bens do legado de Hermenegildo, efectuada entre a Condessa Mumadona Dias e os seus descendentes, na qual ficou referenciada a localidade de Soajo como fazendo parte dos bens a partilhar (ali mencionado como “Suagio”). 

Posteriormente, nos anos de 959 e 1059, surge uma vez mais, a referência a Soajo, quer no testamento feito por esta Condessa ao mosteiro que fundou em Guimarães, quer depois no inventário dos imóveis desse mesmo mosteiro. 

IV – Utilizando, uma vez mais, os bons ensinamentos da Professora Elza Ramalho, na sua obra «Lima Internacional: Paisagens e espaços de Fronteira», lemos a págs. 99: “O Soajo na Idade Média e na sequência de usos e costumes vindos de gerações anteriores superintendia maioritariamente toda a serra, entendida como as atuais do Soajo e da Peneda, o que conferia aos habitantes privilégios reais, como os direitos de montaria, que implicavam aos monteiros, isto é, aos guardas-fiscais da serra, a gestão dos espaços de culturas, pastagens e caça. Em virtude destes privilégios reais, que os soajeiros, sempre, tanto prezaram, poder-se-á entender que o atual lugar da freguesia da Gavieira, a Peneda, possa corresponder a um antigo sítio, muito provavelmente uma antiga área de pastagens, pertença dos moradores do Soajo, idêntica àquelas que, atualmente, ainda, podemos observar, e que foram frequentadas, até meados do séc. XX, na época estival, pelos pastores e respetivos gados e rebanhos da rês.”

V – Por sua vez, no livro, «Inventário Colectivo dos Arquivos Paroquiais vol. II Norte Arquivos Nacionais/Torre do Tombo» pode ler-se na íntegra: «Datam de 950, “Suagio et Monimenta”, de 959 e 1059, “villa Soagio”, surgiam as primeiras referências à localidade de São Martinho do Soajo. 

A existência da municipalidade de Soajo é também mencionada nas Inquirições Gerais de 1258, ordenadas pelo rei D. Afonso III. 

Por sua vez, o chamado “Rol dos Besteiros do Couto”, datado do reinado deste rei D. Afonso III, ou até de D. Dinis, faz referência ao Julgado de Soajo. Ainda em 1283, na Chancelaria de D. Dinis (1279-1325) encontra-se o documento respeitante à solução de um pleito ocorrido no Município de Soajo, que está arquivado na Torre do Tombo.

Há também referência a uma intervenção do rei D. Dinis, que em 1282 tomou partido numa querela entre o denominado Pretor de Castro Laboreiro e os Monteiros de Soajo, tomando partido em favor destes últimos.

Também ali aprendemos que os soajeiros tinham como obrigação militar defender, em caso de Guerra, a Portela do Galo (situada entre a localidade de Soajo e a Várzea), por causa da passagem da fronteira no local de Porto-à-Várzea

Em 1320, na lista das igrejas situadas no território de Entre Lima e Minho, do bispado do Tui, que o rei D. Dinis mandou organizar para determinação da taxa a pagar, verifica-se que a localidade de São Martinho de Soajo foi taxada em 200 libras. 

Posteriormente, em 1388, no início do reinado de D. João I (1383-1433), o abade da Freguesia de Ermelo, então pertencente ao Município de Soajo, dirige-se ao rei afirmando: «O Mosteiro de Ermelo foi mandado construir por D. Teresa, no Julgado de Soajo». 

Já em 1401, o mesmo rei D. João I interditou os nobres, em obediência do que vinha do passado, de viverem na terra e no Julgado de Soajo, decisão tomada a pedido dos vereadores da Câmara Municipal de Soajo. Na verdade, já no princípio do século XIV, tal como se voltará a ler infra quando aludirmos à obra do Professor Baeta Neves, o rei D. Dinis estivera em Soajo, tendo aumentado os privilégios desta localidade, determinando, designadamente, que nenhum fidalgo se demorasse aqui «mais tempo do que o necessário para se esfriar um pão quente, posto ao ar, na ponta de uma lança».

Há também registo de no ano de 1456, o Soajo ter tomado posição sobre matéria referente a tributações de bens comercializados na feira de Valdevez, o que de alguma forma revela algum tipo de predominância daquele concelho em relação a este último.

Aliás, melhor se compreenderá esse facto se atendermos a que Arcos de Valdevez apenas teve foral no ano de 1515, ou seja, já após a criação do concelho de Soajo.

VI - Relevante é também destacar que André de Resende, intelectual, arqueólogo, teólogo e um grande humanista português, no sec. XVI, na sua obra «As antiguidades da Lusitânia» (volume 3 – página 162), mencionou nele, então em latim, o seguinte título: “de montibvs Marano, Ivresso, Svaio, et Muro”, ou seja, refere o tradutor da obra que o autor pretendia reportar-se à existência das serras (ou montes) do Marão, Gerês, Soajo e Montemuro. 

A propósito destas serranias refere este autor: “Achei que o Marão, o Gerês, e o Muro, mais o Soajo se se quiser, deviam ser referidos apenas devido ao facto de cortarem a meio a província dos Brácaros tão rigorosamente que a parte que deles se estende até ao mar é chamada Entre Douro e Minho (existe um opúsculo, cuja leitura não é de desprezar, sobre as qualidades desta região, sua fertilidade, amenidade, salubridade), quanto à outra parte fica para lá destes montes, deixando à esquerda o Minho, sobe na direção do oriente e é chamada vulgarmente a região de Trás-os-Montes.

Também curiosa é a nota 53 que surge no contexto da página vinde de transcrever, em que o mesmo autor explica: “Parece, por outro lado, que estes montes são como que ramificações do monte Vínduo, de que Floro e Orósio fazem menção. Ptolomeu chama Víndio àquele que se estende largamente a partir dos Pirenéus a norte de Pamplona, cidade dos Cântabros, por Vitória, cidade do mesmo povo, e pelos Gémeos Ástures, até que se divide em duas pontas recurvadas: uma corre para o mar Cantábrico e cabo Finisterra; a outra, fletindo a sul, divide os Brácaros, como se disse, entrando na jurisdição da Lusitânia, junto de Chaves, e logo depois recebe ao acaso nos diferentes lugares nomes também diferentes.”

No registo da avaliação dos benefícios eclesiásticos pertencentes à comarca de Valença, efetuada em 1546, sendo arcebispo D. Manuel de Sousa, São Martinho de Soajo figura como, naturalmente, enquadrado no concelho de Soajo, e tendo anexa a si a igreja de São Salvador da Gavieira. Em conjunto estas duas igrejas rendiam por essa época 60 mil réis. 

Chama-se, no entanto, a atenção para o facto de que já previamente a 1514 o Soajo já teria algum tipo de autonomia municipal e, inclusivamente, um julgado.

VII – Mais tarde, em 1657, durante as guerras da Restauração, os povos do Concelho de Soajo tomaram nela parte activa e junto ao Castelo de Lindoso, bateram-se, heroicamente, pela Restauração da segunda independência de Portugal, tudo conforme documento publicado em «Subsídios para a História da Terra da Nóbrega e Concelho de Ponte da Barca», da autoria do Professor Avelino de Jesus Costa. 


B) A Figura da Montaria Real


I - O conjunto orográfico na região nordeste, na zona situada entre o rio Minho e o rio Lima, foi particularmente acarinhada pelos primeiros reis de Portugal, tanto é que nela surgiu uma das primeiras montarias na nação. Apelidada de “Montaria Real”, ela foi criada sobre esta serrania e nela se exerceu a respetiva jurisdição até ao ano de 1831, sendo concretizada através da autoridade do Monteiro-Mor, coadjuvado pelos Monteiros-Menores. 

Por diversas vezes ao longo da sua história a localidade foi mesmo sendo referenciada como «Vila e Montaria de Soajo». A este propósito diga-se que a localidade foi re-elevada a Vila no ano de 2009.  

II - Recorro aqui, uma vez mais, a passagens de um livro muito interessante, de seu nome, «Lima internacional: Paisagens e Espaços de Fronteira», da autoria da já citada Professora Elza Carvalho, no qual se lê: “O Soajo na Idade Média e na sequência de usos e costumes vindos de gerações anteriores superintendia maioritariamente toda a serra, entendida como as actuais do Soajo e da Peneda, o que conferia aos habitantes privilégios reais, como os direitos de montaria, que implicavam aos monteiros, isto é, aos guardas-fiscais da serra, a gestão dos espaços de culturas, pastagens e caça.

Em virtude destes privilégios reais, que os soajeiros, sempre, tanto prezaram, poder-se-á entender que o actual lugar da freguesia da Gavieira, de nome “Peneda”, possa corresponder a um antigo sítio, muito provavelmente uma antiga área de pastagens, pertença dos moradores do Soajo, idêntica àquelas que, atualmente, ainda, podemos observar, e que foram frequentadas, até meados do séc. XX, na época estival, pelos pastores e respetivos gados e rebanhos da rês. À evolução do sítio da Peneda não se pode dissociar o fenómeno religioso, que terá tido um grande incremento na segunda metade do século XVI em virtude das fortes epidemias que grassaram no país, levando as populações em peregrinação e penitência a recorrerem à proteção da Nossa Senhora das Neves, o nome, de facto, da Senhora da Peneda.”

A mesma Professora Elza Ramalho, a propósito deste tema, a fls. 130 da sua mencionada obra, ensina-nos o seguinte: “Referências ao Soajo, aos deveres e direitos do soajeiro, foram confirmados pelos monarcas Dinis, Afonso III, Pedro I, João I e Manuel I, culminando com a atribuição do Foral, em 1514. Estar-se-á perante um longo período em que o Soajo era um dos lugares eleitos pela nobreza e coroa, que se deslocavam expressamente para usufruírem, através das caçadas, os espaços ásperos, mas majestosos, do Soajo e da Peneda, que se estendiam pela Amarela, com o suporte no castelo do Lindoso, e se continuavam pelo Gerês.

Na carta de Foral concedida por Manuel, em 1514, os habitantes do Soajo continuaram isentos, praticamente do pagamento de tributos reais, pois, apenas eram obrigados a contribuir com (...) cinquo sabujos feitos de monte sem outra njnhuma cousa (...) pois (...) nam há hy montados nem manyinhos, por que he tudo dos moradores da terra Isentamente (...) DIAS, 1969 – «Foral da Terra do Soajo».

Os monteiros tinham como atribuições a defesa tanto da flora como da própria fauna que matizavam a mata do País «(...) considerando esta não só como uma fonte de produtos úteis indispensáveis às populações, mas também como ambiente necessário para a vida normal da fauna cinegética (...)». A referência a Monteiros-menores e a Guardadores de matas justifica que se acrescente agora que o Monteiro-mor os tinha por auxiliares, tais como os Monteiros a cavalo e Moços de monte, em correspondência assim mais ou menos perfeita com os Regentes, Mestres e Guardas florestais do nosso tempo (NEVES: 19-53).”

III - Revela-se igualmente interessante o estudo do já mencionado Professor Baeta Neves (1916 – 1992), concretizado no seu livro «A montaria do Soajo, primórdio histórico do Parque Nacional da Peneda-Gerês».

Pelo seu significativo interesse reproduzo aqui parte do respetivo conteúdo:

“Quanto aos outros privilégios que lhe foram concedidos, a atestar o seu prestígio e vincada personalidade, deverei começar por referir o que se deve ao mesmo rei, o qual estabeleceu que nenhum fidalgo poderia demorar-se no Soajo mais do que o tempo necessário para um pão quente esfriar na ponta de uma lança ao ar, privilégio que se julga estar relacionado com o feitio da pedra, um pão triangular, que encima o pelourinho dessa povoação, sendo o fuste deste a lança, interpretação aliás controversa. Mas foi D. João I aquele que terá dado maior relevo à distinção como eram tratados os Monteiros soajeiros, quando lhes concedeu os privilégios de serem isentos de terem armas, salvo azeumas, e o direito de terem os seus sabujos. Também o mesmo rei estabeleceu a proibição dos fidalgos morarem no Soajo e seu julgado, não podendo possuir ali casas, vinhas e herdades ou outros bens e «herdamentos»; não lhes sendo igualmente permitido apossarem-se dos sabujos dos seus habitantes. Tais privilégios vieram a ser posteriormente confirmados por D. João II e D. Manuel, tal como os concedidos por D. Afonso V, aos quais correspondeu o direito de todos os Monteiros do Soajo poderem vender e passar os seus gados para a Galiza, e ainda o Monteiro-mor e todos os Monteiros do Soajo e seu termo serem escusados de pagarem e terem qualquer encargo no Concelho, e de servirem no mar ou na terra em quaisquer armadas ou guerras, nem mesmo na dependência de seus filhos, mas só dele.”

IV - Esse investigador chega na sua obra a uma interessante conclusão, que, por sua vez, justifica o nome da mesma, e que se resume na seguinte ideia: “É assim legítimo considerar a Montaria do Soajo como o primórdio histórico do Parque Nacional da Peneda — Gerês, por ter sida a área dentro deste que primeiro foi sujeita a normas visando a protecção da fauna própria, nomeadamente a designada por caça grossa, sem embargo de ser permitida a sua exploração de certo modo ordenada. Se tal não tivesse acontecido talvez hoje ainda fosse mais pobre em variedade e quantidade a sua representação nessa área, e embora nela se tivessem extinguido o urso e a cabra selvagem, foi em datas muito mais recentes que tal aconteceu.”

Assim, durante muitos séculos, esta área foi protegida no respeitante à respectiva fauna e flora (culturas, pastagens e caça), cabendo a respetiva gestão, e a fiscalização superior, ao representante régio que, no caso, estava entregue ao Monteiro-Mor.

Em virtude da principal actividade dos habitantes da região ser a caça, estes eram designados por “monteiros”. As principais espécies então capturadas eram os ursos, javalis, cabras-bravas, lobos e raposas. 

Quer Sistelo, quer Cabreiro, bem como outras povoações, algumas delas espanholas, reuniam e cooperavam também para organizar as batidas, nomeadamente aos lobos e javalis, sendo que tudo quanto a essa actividade dizia respeito ficava sob a gestão e superintendência de Soajo. 

V – Ainda segundo Pinho Leal, um militar português mais conhecido como historiador (1816 – 1884), autor dos 12 volumes do «Portugal Antigo e Moderno», esta Freguesia “teve grandes privilégios, entre eles o de não darem alojamento às tropas, nem soldados, em tempo de guerra, e só iam a ela no seu couto, ou quando fosse o rei em pessoa”. 

De facto, pelos documentos existentes na Torre do Tombo, constata-se que os Monteiros do Soajo gozavam de privilégios ímpares e também relativamente às demais Coutadas e Montarias Reais, em virtude da sua situação estratégica e das suas belezas naturais. 

Documentos datados do início do século XVII referenciavam já Soajo como Vila, admitindo-se que essa categoria resulta de ter sido então erigido o seu Pelourinho, tudo segundo norma existente na chancelaria de D. Afonso V. 

VI – De referir ainda que o Rei D. Afonso V, aquando da sua visita à província do Minho, deu satisfação a um pedido de algumas populações locais, nomeadamente as de Castro Laboreiro, ao permitir-lhes manter seculares costumes da fronteira livre, que incluíam o pastoreio comum dos gados, lusos e galegos, em montes comuns e que ignoravam a divisão política. De igual modo, o mesmo rei abriu outras excepções, como as conferidas aos já mencionados Monteiros do Soajo, traduzidas, por exemplo, na manutenção do compáscuo em montes galegos – pag. 242 da citada obra da Professora Elza Ramalho.

VII - Por último, menciono que ainda em pleno século XX, apenas o soajeiro tinha o poder de convocar os habitantes das freguesias limítrofes, para, em conjunto, organizarem e efectuarem as batidas aos lobos, quando se entendia que estes actuavam por forma a dizimar os animais de pastoreio. 


C) O juiz de Soajo


A vida em comunidade sempre foi muito importante na povoação de Soajo e esta localidade até há cerca de um século ainda tinha um juiz eleito pelo povo. Assim e por muitos séculos o Soajo sempre dispôs de um juiz local. 

Lenda ou realidade, existe uma célebre estória de um juiz de Soajo, no caso concreto o chamado “Ti Sarramalho”, que é por todos quantos são de Soajo conhecida, sendo ela o símbolo da inteligência e justiça de todo o povo da Vila de Soajo. Na verdade, no território de jurisdição do Julgado de Soajo exerceram as suas atividades vários juízes ordinários e não apenas este mais conhecido e lendário “Ti Sarramalho”. 

O Juiz Sarramalho era um dos homens bons da terra, de passagem para a sua terra natal, deparou com um crime de morte de um indivíduo, sendo dele uma testemunha ocular. 

O caso foi submetido a julgamento e face às provas testemunhais tinha então de sentenciar. Como tal proferiu então o seguinte veredicto: “Morra que não morra, dê-se-lhe um nó que não corra, ou degredado toda a vida e com cem anos para se preparar”. 

É claro que esta decisão não foi entendida pela maioria das pessoas. Entretanto a sentença subiu às instâncias superiores através de recurso. Foi então, chamado ao tribunal de apelação o dito Juiz de Soajo, para ali justificar e explicar a sentença dada. 

Cansado de tanto esperar de pé pelos juízes do Tribunal da Relação, tirou a sua capa das costas e sentou-se nela, no chão. 

Após ter justificado a sentença, retirou-se da sala. Sendo chamado, quando descia as escadas, chamaram-lhe a atenção que se esquecera da capa. De maneira digna, respondeu então com altivez: “O Juiz de Soajo, cadeira onde se sentou, nunca consigo a levou.” 

Já no reinado de D. Afonso III (1210-1279) fazia-se referência à existência do julgado de Soajo, conclusão resultante da avaliação de várias disposições legais, compiladas por especialistas e que atestam essa existência.  

Após a eliminação do Concelho de Soajo verificada em 1852, foi depois também extinto o referido julgado, o que se verificou a 31 de Dezembro de 1853. 


D) O pelourinho de Soajo e outras notas curiosas.


I - Parece-me também interessante realizar aqui uma breve abordagem ao tema do famoso Pelourinho de Soajo, que está considerado como monumento nacional e cujo aspecto, no que diz respeito ao rosto que o encima, deverá corresponder a uma remissão para a figura do Monteiro-mor da comarca de Soajo. 

Tal como se aprende na página (blogue) do «Soajo em noticiário», a que mais à frente me referirei mais demoradamente: “Foi este oficial régio como que um "donatário" a governar a  circunscrição administrativa - Montaria de Soajo - onde, com poderes em matérias da protecção e conservação da natureza e, ainda com jurisdição cível, decidia livremente as demandas dos seus subordinados, além de outras importantes competências consagradas na lei e no regimento da Montaria.”.

No mundo da internet encontram-se outras e variadas informações, como sejam aquelas já acima mencionadas (ver pág. 79) relativas à figura/rosto que encima o pelourinho, e ao dito “pão triangular”, colocado sobre a figura, como espécie de chapéu. Pensa-se que ele terá sido erigido no séc. XVII. 

O pelourinho, colocado no centro da Vila, mais concretamente no Largo de Eiró, possui uma estrutura em cantaria de granito, composta por soco quadrangular de três degraus escalonados, onde assenta coluna de fuste circular, tendo esculpido no topo face circular, marcada com grandes olhos redondos, nariz e boca risonha. Remata-a uma placa triangular (retirado de publicação da Direcção-Geral do Património Cultural).

II – De igual modo interessante para que se consiga uma melhor compreensão da totalidade do fenómeno “Soajo”, como seja o apreender da sua importância no tempo histórico, e as tensões determinadas pela propensão desta localidade para, de algum modo, impor o seu domínio sobre o território confinante, vem a ser a leitura da excelente publicação da Professora Elza Carvalho, de seu título: «Lima Internacional: Paisagens e Espaços de Fronteira Volume 1».  Lê-se ali: “À “vila” do Soajo pertencem os poulos de Chã da Cova e Chã da Cabeça, na serra do Soajo, de Felgueira Ruiva e Chã da Matança, na serra da Peneda, isto é, na cabeceira divisória das bacias dos rios Peneda e Laboreiro. “

E continua-se mais adiante: “O poulo “mais idoso”, ou melhor, aquele que teria sido mais frequentado, em tempos antigos, logo, imemoriais, seria o de Felgueira Ruiva, em que, além dos cortelhos, haveria muitas lapas aproveitadas, como abrigo pelos pastores. Contudo, nos inícios dos anos sessenta do século XX, os residentes da "vila" incidiram a sua atenção na Chã da Matança ao construírem com materiais modernos, que incluiu a telha, uma casa, a casa do Soajo, logicamente para abrigo dos pastores, marcando assim, os seus direitos de utilizadores de pastagens alvo de acesas polémicas multisseculares, nomeadamente, com os habitantes dos Ribeiros. A construção de esta casa causou um certo impacto, para não dizer, “respeito” e “estupefacção” nos habitantes, quer dos Ribeiros, do Baleiral, da Peneda e mesmo de Tibo, a avaliar pelo modo, como ela nos foi referenciada e descrita, no Verão de 2003, por um grande número de moradores de estas localidades. Assim, por exemplo, residentes em Tibo referiram-se a esta construção como uma casa nova, que os moradores do Soajo tinham edificado para alojamento dos pastores, mas que foi destruída, pelas gentes dos Ribeiros. 

E continuando: “O facto de os da Vila de Soajo terem direitos sobre locais tão longínquos como a Felgueira Ruiva e Chã da Matança (poulos), confirmará algum tipo de superintendência pelos moradores do Soajo, resquícios dos tempos da Montaria Real.”


AS MEMÓRIAS PAROQUIAIS DE 1758


I - Estas “Memórias” revelam um interesse histórico inultrapassável no sentido de melhor entender o Portugal do século XVIII e, nomeadamente, no respeitante às questões das nomenclaturas de índole geográfica.

Aprende-se no site do Arquivo nacional da Torre do Tombo que estas “Memórias”, serão o resultado de se haver publicado um Aviso, a 18 de Janeiro de 1758, da autoria do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, o - famoso - Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, que fazia remeter, através dos principais prelados, e para todos os párocos do reino, os interrogatórios sobre as paróquias e povoações, pedindo as suas descrições geográficas, demográficas, históricas, económicas, e administrativas, para além da questão dos estragos provocados pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. As respostas deveriam ser depois remetidas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. O respectivo índice terá sido elaborado, ou concluído, no ano de 1832.

II – Lê-se no mesmo site que esta “colecção é constituída pelas respostas elaboradas pelos párocos ao interrogatório, através do qual se pretendia obter informações sobre as paróquias, abrangendo a totalidade do território continental português. Apesar de a exaustividade das respostas não ser constante, apresentam-se, na generalidade, de forma sequencial aos pontos do interrogatório (que está dividido em três partes relativas à localidade em si, à serra, e ao rio) fornecendo dados de carácter geográfico (localização, relevo, distâncias), administrativo (comarca, concelho, dimensão, e confrontações), e demográfico (número de habitantes), sendo possível obter informações sobre a estrutura eclesiástica e vivência religiosa (orago, benefícios, conventos, igrejas, ermidas, imagens milagrosas, romarias), a assistência social (hospitais, misericórdias, irmandades), as principais actividades económicas (agrícola, mineira, pecuária, feira), a organização judicial (comarca, juiz), as comunicações existentes (correio, pontes, portos marítimos e fluviais), a estrutura defensiva (fortificações, castelos ou torres), os recursos hídricos (rios, lagoas, fontes), outras informações consideradas assinaláveis (pessoas ilustres, privilégios, antiguidades), e quais os danos provocados pelo terramoto de 1755.” 

III – Em relação ao objecto de estudo que aqui me traz, assume nuclear importância, como é óbvio, o livro relativo às Memórias das freguesias do distrito de Viana do Castelo. 

Este livro, tal como todos os demais, surgiram a público em Março de 2005, pela mão do Professor catedrático, José Viriato Capela, autor e coordenador de tais “Memórias”.

IV – No que ao caso interessa, a informação que se afigura como a mais relevante será aquela que nos descreve o seguinte: 

“Rio Vez (Arcos de Valdevez) – O rio Vez nasce na serra da Peneda, em Val de Poldras, no lugar de Padrão, freguesia de S. João de Sistelo, nas chamadas «Lamas do Vez». Entra no rio Lima, entre as freguesias de S. Pedro do Souto e Paçô, no sítio chamado «Poldras de Vez» (Memória de Sá). – pág. 224.

Ora, esta afirmação coloca em crise, de forma frontal, a minha convicção de que a zona de “Lamas de Vez”, situada entre o “Alto da Pedrada” e o “Alto do Pedrinho/Peneda”, fará parte, tal como este último local, da “Serra do Soajo”.

V – Contudo, não será tal facto que me demoverá da minha profunda convicção, de raízes geomorfológicas e, desde logo, haverá que relativizar esta informação, quer no próprio contexto da obra, quer na conjuntura político/religiosa então vivenciada.

Assim, por um lado haverá que ter em atenção o facto de os trabalhos de campo, ou a fonte de informação destas Memórias, terem sido os párocos das freguesias.

Ora, já então se fazia sentir, ainda que de uma forma mais embrionária, o surgimento de uma espécie de “braço de ferro” entre as teses aqui em discussão, não sendo por isso de estranhar que os “homens da igreja” tomasse partido pela - religiosa - Peneda, em detrimento do – laico - Soajo.

Também aqui se recorda que por aquela época, depois de um hiato de tempo considerável sem que surgisse qualquer referência (pelo menos a nível de mapas), à “Serra da Peneda”, o mapa de Custódio Vilas Boas (1793 – mapa 28), trouxe para a ribalta esta última serra, eclipsando-se no mesmo mapa qualquer referenciação à “Serra do Soajo”.

VI – Por outro lado, no próprio contexto das mesmas “Memórias Paroquiais”, encontramos informação que revela alguma relatividade e contingência no que respeita às informações “geográficas” ali veiculadas.

Nesse sentido, aponta, por exemplo, a seguinte ideia que lá pode ser encontrada: “A abordagem «científica» das questões da Geografia e da Ciência vai limitada contudo a muito curtas incursões, oscilam entre um conhecimento moderno e um conhecimento tradicional das matérias, mais próximo deste do que daquele. É o caso da Geografia mais tratada. 

A descrição geográfica deixa-nos às vezes boas descrições das características físicas, climáticas, económica das serras. Em muitos deles em particular nos párocos que transportam consigo maior cabedal de cultura e instrução, há o cuidado de registar as coordenadas geográficas da posição, as distâncias, o sistema orográfico e fluvial, entre outros para melhor situação e referenciação da sua paróquia que se junta à mais comum descrição da delimitação da serra e da terra tendo em vista a fruição reservada à comunidade feita muitas vezes a partir da leitura do Tombo da igreja, importante para a delimitação do «domínio» paroquial, eclesiástico e dizimeiro.” - Pág. 118 (com o título: “Economia e descrição das serras”).

VII – Além da contingência vinda de assinalar, encontramos na página 140 deste trabalho, a seguinte menção: “Gado bravo. Fojos e montarias – Nas zonas montanhosas, especialmente nos territórios dos concelhos de Coura, Melgaço, Ponte da Barca e Arcos por onde se desenvolvem as serras da Peneda, do Soajo, da Amarela.”.

Ou seja, é ali admitida – no mínimo – a existência da “Serra do Soajo”.

Aliás, já na página 23 desta obra, sob o título “Arqueologia – Alto Minho”, se afirmara: “Sem pretendermos ser exaustivos referimos as seguintes: a necrópole da Serra Amarela, que se dispõe nos contrafortes voltados ao vale do Lima; a do Soajo, nas vertentes meridionais do serra, drenadas pelo mesmo rio; a da Serra da Peneda, na zona das nascentes do rio Vez; a do Planalto de Castro Laboreiro, talvez a mais extensa e fascinante de todas e, sem dúvida, uma das mais altas da Península Ibérica, já que o planalto se eleva a uma cota que oscila entre 1.200 e 1.300 metros”.

Depois, a fls. 142, menciona-se (a propósito das Gravuras rupestres de Montedor) o seguinte: “Tal como a Laje das Fogaças de Lanhelas (vale do Minho), a Bouça do Colado (vale do Lima), o santuário do Gião (Serra do Soajo)”.

E mais adiante, na pág. 241, também a propósito deste “Santuário do Gião”, escreve-se: “No limite entre os termos das freguesias do Soajo e de Cabana Maior situa-se um dos elementos patrimoniais mais interessantes do Alto Minho e que, no entanto, não se encontra classificado, embora seja conhecido desde a primeira metade do século XX. Trata-se do santuário pré-histórico do Monte do Gião, um dos últimos contrafortes ocidentais da serra do Soajo. As referências bibliográficas sobre o santuário do Gião são escassas, apesar do interesse do monumento. Próximo deste santuário, em especial para norte estende-se a necrópole megalítica da Serra do Soajo. (A. Matos Reis).“

VIII – Para além das “Memórias Paroquiais”, aceitarem, expressamente, a existência da “Serra do Soajo, contêm algumas incongruências que de algum modo lhe retiram parte da sua valia – digamos – científica, como seja o facto de mencionarem (pag. 424), sob o título “Votos, romagens e romarias, clamores e procissões”, o seguinte: “S. Bento do Cando e Santo António do Vale de Poldos sitas na serra de Outeiro Maior • no dia dos seus oragos • há grande romagem principalmente na de S. Bento.”

Aliás, logo na página seguinte (425), lê-se: “Nossa Senhora da Peneda com o título de Mosteiro sita na serra de Outeiro Maior”.

Por último, trazendo implícita a existência desta “Serra do Soajo” e da sua importância no que respeita à questão das Brandas, encontramos nesta obra, na sua página 42, sob a epígrafe “Brandas e inverneiras”, a seguinte descrição: “No Soajo, além dos lugares habitados durante o ano inteiro e cujas casas constituem as inverneiras, existem numerosas habitações repartidas em pequenos grupos de três ou quatro na Serra e até nas margens dos pequenos ribeiros e cuja ocupação temporária é sobretudo estival. São as casas de Brandas”.

(Continua)

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)