domingo, 11 de outubro de 2026

Serra do Gerês - Gerês Ativo pelos "Segredos da Albergaria"

 


A caminhada "Segredos da Albergaria" foi realizada pela RB Hiking & Trekking no âmbito do programa do Festival de Desportos de Natureza "Gerês Ativo", promovido pelo Município de Terras de Bouro.

Esta é uma caminhada interpretada e surge como uma forma de divulgar a importância da preservação do património natural e histórico existente na Mata de Albergaria, razão de ser do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) e jóia da coroa da Natureza do concelho de Terras de Bouro.


Inserida na freguesia de Campo do Gerês, e sendo um dos maiores tesouros naturais que existe no PNPG, a Mata de Albergaria é classificada como reserva biogenética pelo Conselho da Europa em 1988.

Embora existam outras manchas de carvalhal importantes no Parque Nacional, tais como em Castro Laboreiro, a Mata do Cabril, o Beredo e em Rio Mau, a Mata de Albergaria distingue-se pela sua extensão e por ser única em Portugal, sendo uma das mais bem conservadas da Península Ibérica, ocupando uma área de 1.371,3 ha na Serra do Gerês, ao longo do vale do Rio Homem e dos seus afluentes.

A Mata é em si um bosque climácico dominado pelo carvalho-alvarinho, mas onde surge também o carvalho-negral bem como outras espécies características dos carvalhais galaico-portugueses que constituíam a vegetação primitiva da grande parte do Noroeste português.

A caminhada "Segredos da Albergaria" teve início na Portela do Homem, junto da Milha XXXIV da Geira Romana. Aquilo que hoje vemos na Portela do Homem está muito longe do cenário de há pouco mais de 100 anos. O topo do Vale de S. Miguel foi aterrado, sendo aí construídos os edifícios fronteiriços. Já nada resta das construções anteriores e alguns dos marcos miliários ali existentes podem ter sido trazidos de outros lugares (pois as numerações de milhas não correspondem àquele lugar) ou sendo ali mesmo uma zona de fabrico desses mesmos marcos.

De facto, na Portela do Homem "conserva-se um vasto grupo de miliários, mas nem todos pertencentes à milha XXXIV. O local onde, actualmente, se concentram os miliários não é, por certo, o ponto original da sua implantação. Também não o será a zona onde alguns metros mais a nascente e a uma cota inferior foi desenterrado um miliário coberto de sedimentos modernos, durante a campanha de 1992. (...), as antigas descrições referem-se a pelo menos treze miliários. Actualmente apenas se observam oito, contando com o que foi recentemente recuperado. Deve, pois, admitir-se a possibilidade de outros miliários ainda se manterem sob os aterros adjacentes à estrada."

Seguindo pelo que terá sido parte do traçado da Geira Romana, envereda-se pela frondosa mata, percorrendo inicialmente o Vale de S. Miguel e passando no Curral de S. Miguel (da vezeira de Vilarinho da Furna). Aqui, e quase passando despercebido aos menos atentos, restam as ruínas da Ermida de S. Miguel. Pinho Leal, refere no seu Portugal Antigo e Moderno, que os naturais a construiram depois de levantado o interdito a que o papa sujeitou o reino, no tempo de D. Afonso III; porém, os mesmos povos, "como este sítio era ermo e remoto, demoliram a capella, levando o santo para a de Nossa Senhora das Mercês, do Villarinho". Tude de Sousa deixou-nos interessantes testemunhos sobre os trabalhos realizados pelos Serviços Florestais na Serra do Gerês, bem como de futuras propostas que viessem a melhorar a relação do Estado com os habitantes serranos. Uma destas propostas era a restauração da ermida e do culto de S. Miguel na Serra do Gerês, como podem ler em A restauração da ermida e do culto de S. Miguel na Serra do Gerês.

Seguindo o possível traçado da Geira Romana, surgem, mais adiante, as ruínas das antigas casas da Guarda Fiscal e um pouco mais adiante os restos do lajeado da estrada romana. Adentrámo-nos mais no bosque e somos chegamos às margens do Rio Homem, já perto da (nova) Ponte de S. Miguel, onde ainda se vislumbram os restos da antiga ponte romana destruída em 1640.

O caminho vai-nos levar depois a passar pela Milha XXXIII na Ponte Feia. "No local desta milha, (...) a uma altitude de 660 metros, conservam-se 20 miliários. Sem escavações não é possí­vel afirmar se estão no local original, ou se foram repostos em épocas posteriores.

Actualmente apenas se conseguem ler as inscrições em quatro miliários. De acordo com a bibliografia as inscrições referem-se ao século III: Maximino e Máximo (238); Décio (250); Tácito (276); Carino (283-285) e Maximiano (285-305).

No trajecto entre a milha XXXIII e a ponte de S. Miguel podem observar-se os seguintes elementos relacionados com a via romana: uma pedreira para extracção dos miliários; uma das pedreiras que terá alimentado a oficina de talhe dos blocos que serviram para erguer a Ponte de S. Miguel (margem sul); uma passagem a vau sobre a ribeira de Monção, com sólidos blocos de granito de tosco aparelho.

O pavimento da via entre a milha e a ponte, embora sendo plano, encontra-se mal conservado, estando reduzido a uma camada de calhaus, ou seja ao leito de preparação. Da ponte de S. Miguel em diante sobe suavemente, distinguindo-se diversos trechos de via pavimentada com calçada."

Na zona vemos também as tristes ruínas do velho, degradado e abandonado Abrigo de Montanha do Académico F. Clube. Aqui, vale a pena a visita à Ponte Feia com vista para o poço do mesmo nome.

Prosseguindo no traçado da Geira Romana, chegámos aos Viveiros da Albergaria e aos restos de duas outras pontes romanas sobre o Rio do Forno e Rio de Maceira. Entramos então num bosque de azevinhos e à nossa espera encontra-se um velho e secular exemplar desta mítica árvore que terá testemunhado eventos históricos do nosso país. Mais adiante, passamos pelo Curral de Albergaria - visitado por Hermenegildo Brito Capelo, Leonardo Torres, Denis Santiago e Serafim dos Anjos e Silva na noite de 20 de Setembro de 1882, durante uma das primeiras expedições científicas à Serra do Gerês e que pode ser lida em Uma incursão na Serra do Gerês em Setembro de 1882.


Chegando à estrada, e caminhando na direcção da Portela do Homem, surge a poucas dezenas de metros um secular carvalho com entre 500 e 600 anos, verdadeiro senhor(a) da Mata de Albergaria. 

Enveredando na direcção de Ponte Feia, o regresso é feito para a Portela do Homem em sentido contrário.

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Sem comentários: