E começou o que muitos dizem vir a ser o maior nevão deste Inverno.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados) via EMC.
E começou o que muitos dizem vir a ser o maior nevão deste Inverno.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados) via EMC.
A Serra de Sta. Isabel e a aldeia de Covide servem de cenário para o Penedo das Quatro Esquinas, Serra do Gerês.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Os próximos dias serão de invernia "como já não se via há muito tempo", como referem os meteorologistas. Veremos o que virá.
O recente anuncio por parte do Município de Terras de Bouro da assinatura do contrato de empreitada para a reabilitação da Estrada da Mata de Albergaria, fez-me lembrar um texto que escrevi e publiquei a 10 de Janeiro de 2025.
O artigo "Os empertigados" pode ser lido aqui.
Como é usual nestas questões, há gente que lê e compreende; há gente que não lê e dispara opiniões pessoais mal fundamentadas; e há muitos que lêem e não compreendem, mergulhados num analfabetismo funcional de taberna (muito em voga nos dias que correm).
Somente quem tem um umbigo muito grande não compreenderá a necessidade da intervenção que será feita na estrada entre a Guarda (Campo do Gerês) e a Albergaria. Talvez ajudaria passar por lá em duas épocas: nestes dias de invernia (onde o piso tem mais crateras do que a superfície da Lua) e no pico do Verão (para respirar um fino pó).
Há que ter em conta que a interveção que será realizada terá os seus condicionalismos e que não será tudo feito "à vontade do freguês". De recordar que o trajecto em questão integra o domínio do Estado sob gestão do Instituto da Conservação da Natureza, I.P. (ICNF), atravessando a Mata Nacional do Gerês que também é domínio privado do Estado sob gestão do ICNF.
Note-se que a proposta apresentada pelo Município tem como objectivo garantir melhores condições de circulação naquela via, por um lado, e contribuir para a preservação dos valores naturais num território sujeito a uma crescente pressão turística. As intervenções que serão realizadas deverão dotar a via das condições necessárias para permitir a circulação de viaturas prioritárias e residentes em total segurança.
Para além dos óbvios benefícios em termos de preservação, a intervenção irá permitir a utilização da via em segurança, possibilitando a compatibilização das distintas formas de uso e circulação, sendo a manutenção essencial para garantir a circulação de viaturas prioritárias de emergência e socorro ou das equipas de vigilância, bem como beneficiar a sua utilização por parte dos residentes,
Assim, a intervenção ten duas vertentes óbvias: a protecção de um património natural único e o melhoramento das condições de circulação tanto para viaturas prioritárias como para os residentes. Este é um ponto fundamental que deveria ser concisamente explicado tanto pelo ICNF, bem como pelo Município de Terras de Bouro, coisa que até agora não foi feita, pois não basta dizer que as pessoas devem "ir dar a volta para não ficar chateadas com a intervenção"...
O melhoramento da via irá trazer condicionantes, nomeadamente: o condicionamento do fluxo de trânsito no Verão com a colocação de barreiras físicas em pontos determinados, a instalação de sistemas físicos permanentes para a redução da velocidade, limitação da velocidade a 20 km/h devido à coexistência com peões, instalação de sinalética de trânsito e aviso geral sobre a zona percorrida, etc. Por outro lado, e durante a intervenção, estas acções deverão impactar o menos possível na Natureza e ser realizadas em épocas que não afectem a fauna e flora existentes, deverão ser protegidas e devidamente preservadas as linhas de água e respectiva flora ribeirinha, e devem ser preservadas as bordaduras naturais existentes (preservando árvores e espécies arbóreas protegidas; podendo no entanto haver a necessidade de corte ou poda singular).
Esperemos, certamente, que estas condicionantes sejam cumpridas e que a vigilância naquela via (tanto pelo ICNF, como pelos elementos da autoridade) venha a aumentar para evitar abusos quer por visitantes, quer por residentes, caso contrário, a intervenção não tem qualquer sentido.
Tanto com a intervenção que agora será efectuada, como sem ela, o respeito pela Natureza e pelas regras de visitação do Parque Nacional da Peneda-Gerês é basilar em toda esta questão. É sempre fácil dar palpites quando não se sofre as consequências da utilização de qualquer elemento que encontramos no nosso dia-à-dia ou somente quando usufruimos de algo quando este se encontra em boas condições (como é o caso da circulação na Estrada da Geira na época do estio). Seria fácil convidar a NASA a testar os seus veículos de Marte ou as suas sondas de superfície lunar nas condições em que aquela estrada se encontra no Inverno, ou testar fatos de mergulho nas enormes poças que se formam quando chove. Porém, isso não resolveria o problema.
Malditos Romanos que ali abriram uma estrada...
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Segundo anunciou o Município de Terras de Bouro, decorreu nos Paços do Concelho, a 20 de Janeiro, a sessão de assinatura do contrato para a empreitada de “Beneficiação do Caminho Florestal Guarda / Albergaria | Ordenamento da Visitação”.
Este projeto representa um investimento municipal estratégico de 791.877,75€ (acrescidos de IVA), cujos pagamentos serão efetuados de acordo com os autos de medição realizados pela Divisão de Obras Municipais, Águas e Saneamento.
Segundo anuncio do Município, "o ato formal contou com a presença do Presidente da Câmara Municipal, Manuel Tibo, e do gerente da empresa PAVIMOGEGE – Empreiteiros de Construção Civil, Francisco Paulo da Silva Antunes. Com a assinatura deste documento, a empresa responsável obriga-se a executar os trabalhos num prazo de 270 dias, a contar da data da consignação da obra."
Para o Presidente da Câmara Municipal, “estamos a investir não apenas numa estrada, mas na qualidade de vida da nossa população e na melhoria da experiência de todos aqueles que nos visitam. A Mata da Albergaria é um dos maiores tesouros naturais do país e queremos que seja desfrutada com conforto e, acima de tudo, em segurança”.
A intervenção prevê a aplicação de calçada no pavimento, a instalação de barreiras e guardas de proteção, e a construção de valetas onde as condições o permitirem.
Trata-se de uma intervenção há muito ansiada pela comunidade e que, durante anos, muitos acreditaram não ser possível concretizar. A viabilização deste projeto supera agora esse ceticismo, representando uma vitória para o concelho e um compromisso assumido pelo Executivo Municipal.
Para o Município, o reforço das condições de mobilidade nesta via é um motor fundamental de coesão territorial. Além de facilitar o quotidiano e as atividades profissionais da população de Terras de Bouro, esta obra é essencial para a elevação da qualidade de vida local e para um ordenamento mais eficaz da visitação numa das zonas mais emblemáticas da região.
Mais do que uma simples obra de requalificação, esta ação representa um importante passo deste Executivo na valorização da visitação à Mata da Albergaria. Amantes da natureza, caminhantes e viajantes terão, em breve, a oportunidade de desfrutar deste património natural em condições reforçadas, consolidando o papel de Terras de Bouro como a porta de entrada privilegiada para o coração do Gerês.
Fotografias © Município de Terras de Bouro (Todos os direitos reservados)
O Arco do Borrageiro num dia de neve na Serra do Gerês.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Em Julho de 1935, a Revista Latina - uma revista de turismo com publicação no Porto - dedicava o seu n.º 4 à Serra do Gerês.
Entre vários artigos, continha um texto sobre a aldeia do Campo do Gerês (S. João do Campo) da autoria do jornalista Camacho Pereira que aqui transcrevo na sua íntegra (sobre a verdadeira designação da aldeia, aconselho a leitura atenta do livro “Estudo Histórico-Cultural das Freguesias de Campo do Gerês, Carvalheira e Covide”, de António José Ferreira Afonso, para não se comentar e julgar sem saber. A ler aprende-se muito...
Na transcrição do texto a seguir é mantida a grafia original.
S. João do Campo
S. Joãao do Campo, Vilarinho das Furna e e Covide são as três povoações gerezianas por excelência, pois as termas muito embora estejam no Gerez são umas termas...
Tínhamos já esquadrinhado a Serra por todos os lados, no tocante a aspectos panorâmicos e dificuldades a vencer; restava-nos por fazer o passeio mais fácil, mas que não deixa de ser, por isso menos interessante.
Se lhe faltam os grandiosos aspectos de conjunto que só se apercebem das alturas, tem em compensação o detalhe bucólico e o floklore.
EStava ainda acesa a chama da curiosidade, custav-nos no entanto fazer essa volta na única companhia do guia.
No passeio de Braga ao Gerez encontrámos o amável Delàge da Empresa Hoteleira e a paciência do seu Gerente para nos trazer paulatinamente, com paragens para o Carlos desenhar e para as minhas anotações.
Na Serra tive o Carlos, para a Calcedónia tendo lançado o João à procura de um companheiro, tive a felicidade de encontrar um à altura; caçador e transmontano o Capitão Guilherme foi um bom elemento e um bom amigo.
Mas agora que a época estava quási a terminar! nos hoteis não havia viva alma! os dias passavam-se no bilhar ou no Ping-Pong, onde iriamos desencantar um parceiro para uma estafadela como diziam?
Havia um, havia; mas todos me tiravam da cabeça pois não conseguiria convencê-lo; e no entanto catequisei-o.
Uma bela manhã o Plymouth do Gaspar (um dos proprietários da Empreza) parou em frente ao Hotel do Parque e com grande espanto, todos souberam que o Gaspar ia dar uma volta a pé pela Serra!
Depois da indispensável merenda, varapausm espingarda (pois levou o passeio a título de caçada) e guia terem sido embarcados, aí vamos, de escape aberto, Vale do Gerez acima.
As arcarias, o Parque Tude de Sousa e a Preguiça sobrepuzeram-se instantaneamente, tal a velocidade (Gaspar é corredor) e as curvas de gancho subindo a vinte graus eram vencidas como se fossem a mais suave e plana estrada, embora a alavanca das velocidades tenha dançado um shimmy.
Mas, helas! eu queria ver.
Por isso fizemos uma paragem a certa altura, serviu para tirar a fotografia que ilustra a capa dêste número e cuja descrição se encontra feita noutros artigos.
Depois de me encher daquela grandiosidade de proporções, vegetações e luzes, continuamos a correria através as rampas e as curvas mais que bizarras e mais que perigosas da estrada de Leonte, até ao acabar junto à casamata do mesmo nome que serviu de hotel a Artur Loureiro e onde findou os seus dias.
Devido à amabilidade do Sr. Silva (Salão Silva Porto) obtivemos as reproduções dos três quadros que em separado demos aos nossos leitores.
O Plymouth levou-nos os olhos ao retroceder descendo para o Gerez enquanto nós descemos o Vale de Albergaria através a densíssima mata de Carvalhos que constitui um oasis desta flora nesta região.
O gaspar foi pescando trutas a tiro à falta de melhor e recordei-me de uma ingleza que encontrara en tempos em Braga que vinha de Londres ao Gerez de propósito para vêr uma Pêga, levada a isso pelo livro do Sr. Tait.
No fim do Vale de Albergariam contornamos no sopé os cabeços da Bargiela, avançada do Pé de Cabril e entramos no Vale do Homem, tomando a antiga Geira Romana de grandes lages, encontramos grandes depósitos de marcos miliários, um dos quais damos em gravuira, e avançamos por êste amplo vale tendo à esquerda as cumiadas do Cabril e à direita as vertentes da Serra Amarela onde de tempos a tempos se descortinavam longinquamente caçadores e se ouviam tiros de vez em quando, até atingier S. João do Campo, povoação sertaneja e pobre cercada pelas únicas planícies da serra que dão pão e milho.
Tem S. João do Campo uma cousa muito interessante; a sua praça ou o seu adro, o seu Forum.
Um vasto campo ostenta com ar de parada mais de uma dúzia de espigueiros, todos muito bem tratados, pintados e caiados encimados por cruzes conforma mostra a nossa gravura.
Suponho não haver prova mais eloquente do bom acato à legislação comunal própria que adoptaram, bem como do seu espírito religioso.
Ao deixar S. João do Campo sobe-se o dorso da montanha, atingindo a aresta à vista de Calcedónia (...) e como para baixo todos os santos ajudam, depressa chegamos às termas ainda com dia e sem grande canseira.
Fotografias: Camacho Pereira
Erradamente designada "Freza", a Preza - varanda para o Vale de Teixeira - assinala a passagem entre as águas do Homem e as águas do Cávado, aqui fotografada após uma noite de neve na Serra do Gerês.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Continuação do tempo frio nas Minas dos Carris nos próximos dias.
Segundo a página Meteo Trás os Montes - Portugal, poderá ocorrer um nevão muito significativo e pouco habitual em Portugal a partir do dia 23 de Janeiro (Sexta-feira). Assim, a página refere:
Os modelos meteorológicos continuam a indicar um cenário potencialmente severo para Portugal Continental, com início dentro de cerca de 3 dias, (...) associado a uma configuração sinóptica rara no nosso território.
Tudo aponta para a formação e aprofundamento de uma depressão cavada no Golfo da Biscaia, que poderá ficar quase estacionária ou com deslocamento muito lento. Esta depressão irá criar uma circulação favorável à entrada direta de ar polar marítimo muito frio, tanto em altitude como progressivamente nos níveis mais baixos da atmosfera.
Ao contrário do que é habitual em Portugal onde a chegada de ar muito frio coincide geralmente com o fim da precipitação, esta depressão poderá manter um fornecimento contínuo de humidade, permitindo que frio intenso e precipitação coexistam durante um período prolongado. Esta conjugação é pouco comum e aumenta significativamente o risco de nevadas a cotas mais baixas.
Caso este cenário se confirme:
• A cota de neve poderá descer pontualmente até aos 400 metros, sobretudo nos momentos de precipitação mais intensa;
• Serão prováveis acumulações importantes acima dos 600/700 metros;
• Acumulações potencialmente extraordinárias acima dos 800/1000 metros, com vários episódios sucessivos de queda de neve.
As regiões do Norte e Centro, especialmente zonas de serra, planaltos e áreas do interior, poderão ser fortemente afetadas, não sendo excluídas situações localizadas de grande impacto.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados) - imagem da Estação Meteorológica Experimental dos Carris
O Pé de Medela e os Carris de Maceira servem de pano de fundo a uma das mariolas que assinala o caminho para o Prado do Vidoal, Serra do Gerês.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Semana de frio, chuva e neve para as Minas dos Carris e para as serranias do Parque Nacional. Perfila-se o que pode vir a ser um fim-de-semana interessante.
Um lençol de nevoeiro envolve o Prado do Vidoal, Serra do Gerês, em dia de neve.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)