Em Outubro de 1887, a família real portuguesa visitava o Norte do país e pela primeira vez, um monarca português visitava uma das zonas mais selvagens do reino.
Esta visita e a forma como influenciou o rei D. Luís, marcaria a decisão de se estabelecer passados alguns meses, um perímetro florestal que levasse à preservação das paisagens serranas e quase um século depois, noutras circunstâncias, à criação do primeiro e único parque nacional português.
Após a estadia na cidade de Braga, a comitiva real partia para o Gerês a 12 de Outubro de 1887. No dia anterior, à família real havia sido ofertado o livro "Gerez Historico", da autoria de Paulo Marcellino, promotor da caçada que dias mais tarde teria lugar nas serranias geresianas.
A partida para o Gerês ocorria pelas 11h30 da manhã, seguindo o rei D. Luís e os príncipes, pois a rainha D. Maria Pia e a princeza D. Amélia haviam resolvido dicar na cidade dos arcebispos devido ao facto de o príncipe da Beira, princípe D. Carlos ter sofrido um mal estar nesse noite. No entanto, e após a melhoria do estado de saúde do príncípe, o resto da realeza seguia em direcção ao Gerês pelas 15h00, sendo acompanhadas pelo conde de Bertiandos, Gonçalo Meneses.
A chegada a Rio Caldo foi saudada com arcos alinhados cobertos de flores e medronhos, estando dispersas pelo chão abóboras que serviam de vasos, com ramos de medronheiros. A comitiva chegava ao Gerês às 16h30, sendo ali aguardada por Ricardo Jorge e Paulo Marcellino, além de vários caçadores e muito povo que quis assistir à chegada da realeza. Na ocasião queimou-se fogo de artifício ao mesmo tempo que se emitiam "aclamações entusiásticas" ao rei ao ser acompanhado até ao chalé de Alfredo Tait, onde a família real se hospedaria durante a sua estadia. A rainha D. Maria Pia e a princeza D. Amélia chegavam ao Gerês pelaa 20h00, sendo acompanhadas pela população do Vilar da Veiga que as seguiram numa marcha luminosa com balões e lanternas venezianas.
A noite seria festiva nas Caldas do Gerês, com a localidade iluminada de forma festiva, tando nas estradas como nos chalés particulares, além do Grande Hotel e do Hotel Universal. Nessa noite, muita gente afluiu ao Gerês para testemunhar os festejos da presença da família real, havendo música por duas bandas filarmónicas, além de cantares populares junto do chalé de Alfredo Tait.
A caçada real teve lugar a 13 de Outubro, nela participando - além da família real - cerca de 500 caçadores dos lugares vizinhos. O monteiro-mór da caçada foi Sebastião Pinto de Carvalho, sendo vice-monteiro-mór Miguel Gonçalves Dias, coadjuvados por José Gil Barbedo e por Manuel Marcella e Martins. A caçada seria composta por três batidas, sendo uma a Norte (para a caçada ao javali), uma no centro da serra (corças, gamos e veados), e uma terceira a Nascente (cabra-montês).
O dia nasceu cinzento e a promeger chuva, porém, foi decidido avançar com a caçada, mas aconselhou-se à rainha que não seria conveniente aventurar-se nas serranias com o tempo tão mau, pois a ascensão seria fatigante. No entanto, D. Maria Pia recusou tais conselhos e seguiu em conjunto com a restante comitiva.
A saída ocorreu pelas 8h00, seguindo o rei, a raínha e os príncipes a cavalo, sendo acompanhados por Ricardo Jorge e Paulo Marcellino, além dos caçadores (a princeza D. Amélia não tomou parte na caçada).
A subida em direcção à Portela de Leonte era na altura difícil e perigosa, sucedendo-se os desfiladeiros e as veredas estreitas e tortuosas abertas em terrenos quase a pique, sendo o avançar acompanhado por ruidosas quedas de água que se despenham desde grande altura, formando lagoas e poços que só se podiam contornar caminhando por penedias escarpadas. Recorde-se que nesta altura ainda não existia a estrada que mais tarde seria aberta entre as Caldas do Gerês e a Portela de Leonte, onde seria construída uma das primeiras casas florestais.
A chegada à Portela de Leonte proporcionou largos horizontes, surgindo uma mata verdadeiramente virgem recheada de grandes árvores e lustrosa vegetação. Foi na Chã de Leonte onde a comitiva real se posicionou para a espera das corças, estabelecendo-se previamente a batida numa grande área em redor. Os monteiros procuraram assustar os animais utilizando tiros e gritos, mas a caçada não surgiu onde a realeza a aguardava...
Porém, não muito longe - e num local descrito como "Chã da Carvalhosa" (possivelmente a Chã do Carvalho ou Chã do Carvalho de Leonte) - o padre Domingos da Chunha Almeida Peixoto e o caçador Serafim da Silva, abatiam uma corça, sendo outra abatida em Maceira.
Os receios criados pelo mau tempo vieram a confirmar-se mais tarde. As nuvens negras encobriram os píncaros serranos e a serra começou a mostrar quem ali ditava as ordens, com a chuva a começar a cair de forma torrencial. Foi improvisada uma cobertura para abrigar a raínha utilizando a manta alentejana que era usada por D. Carlos, mas o peso da água em breve tornava inútil esse esforço. Foi então decidido começar a descida em direcção às Caldas do Gerês a pé e debaixo de aguaceiros constantes, seguindo pelos atalhos agrestes da montanha. À frente seguia D. Mria Pia usando um pequeno guarda-chuva, sendo acompnhada por António Paraty, conde de S. Mamede, e pelo major Duval Telles. Atrás, seguia o infante D. Afonso envolto num gabão de Aveiro e depois o príncipe D. Carlos, vindo finalmente o rei D. Luís acompanhado pelos condes de Ficalho e de Tarouca, todos sem qualquer resguardo.
A chuva era intensa e o ambiente de invernia, sendo imensos os obstáculos a ultrapassar antes de se chegar às Caldas. A água havia engrossado os pequenos regatos que agora eram enchurradas que se despenhavam ruidosas pelas encostas. A caminhada era feita com extremo cuidado, pois uma simples escorregadela poderia terminar numa queda nas profundezas dos despenhadeiros que se abriam nas orlas dos caminhos estreitos. Por outro lado, a vegetação selvagem na forma de urzes e carquejas, junatemte com as arestas rochosas que feriam os pés, tornavam o regresso num tormento.
Após 4 km de dura e penosa caminhada, a comitiva chegava a Secelo onde a realeza pôde montar a cavalo e seguir para as Caldas do Gerês.
Pelas 16h00 chegava os caçadores do Vilar da Veiga com as duas corças mortas que ofereceram a D. Luís, tendo este retribuído com 100$000 reais ao que os caçadores retribuiram com uma descarga das suas armas ainda carregadas.
No jantar estiveram presentes Ricardo Jorge, Paulo Marcellino, José Gil Barbedo e Manuel Marcella e Martins, além do padre Sebastião e Miguel Gonçalves Dias, todos convidados do rei.
Nessa noite, os caçadores de Brufe, Carvalheira e Cibões, desceram a quebrada da Cerdeira trazendo uma outra corça morta por Manuel Joaquim Martins Coraco e por Francisco Martins Caniço, que foram gratificados com 10 libras.
Uma caçada que estava prevista para o dia 14 não foi realizada pela realeza, pois os caminhos ficaram intransitáveis com a chuva que caiu nessa noite. Poirém, os povos das freguesias do Campo do Gerês e outras, continuaram a caçada, abatendo um veado e duas corças. Este dia foi passado pela família real em passeio nas proximidades das Caldas do Gerês, indo ao Vilar da Veiga e Rio Caldo. O príncipes D. Carlos «entreteve-se» a "atirar aos pássaros" e tanto ele como a raínha e D. Amélia fizeram alguns cróquis de diversos locais pitorescos.
O padre Sebastião de Freitas ofereceu a D. Amélia uma colecção de minerais da Serra do Gerês, destacando-se um magnífico exemplar de cristal rosa.
Na noite do dia 14 chegaram os povos do Campo do Gerês, Cabril e Brufe com as duas corças e com o veado que haviam abatido. À raínha foi ainda oferecida por Gaspar Malheiro uma corça domesticada.
A família real regressaria a Braga no dia 15 de Outubro, deixando o Gerês pelas 11h00.
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O texto é baseado num artigo da revista O Occidente (n.º 322, 1 de Dezembro de 1887)
Fotografia: O Occidente
















