Um percurso de pequena rota através das paisagens do Parque Natural do Douro Internacional, o PR1 FEC desenrola-se na zona sul do concelho de Freixo de Espada à Cinta, na freguesia de Poiares.
A Ribeira do Mosteiro corre por entre meandros rochosos, escavando um vale profundo com vertiginosas escarpas e precipícios, um verdadeiro ex-libris em termos paisagísticos e geológicos. Este percurso permite a visita a este local único por caminhos e trilhos antigos, nomeadamente através da lendária Calçada de Alpajares, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1977. O percurso estende-se por uma paisagem montanhosa e agreste escavada por diversas linhas de água, sendo a principal a ribeira do Mosteiro. As vertentes estão preenchidas por matos de giestas, piorno e rosmaninho e, junto às fragas, observam-se também manchas de cornalheira, algumas de porte arbóreo.
Ao longo da ribeira, as árvores características da galeria ripícola, como amieiros, salgueiros, freixos e choupos, convivem com diversas fruteiras, em particular laranjeiras, limoeiros e nespereiras. Nas encostas contíguas marcam presença os amendoais e olivais.
Quanto à fauna, destaca-se a presença de aves como o britango (Neophron percnopterus), o grifo (Gyps fulvus), a águia-real (Aquila chrysaetos), a cegonha-preta (Ciconia nigra) e o falcão-peregrino (Falco peregrinus), bem como o chasco-preto (Oenanthe leucura), espécie Criticamente Em Perigo em Portugal, sendo este um dos poucos locais onde é observado com alguma regularidade.
O percurso corresponde a um circuito pedonal circular, com 7,5 km de extensão, que se inicia junto ao Castro de São Paulo, a cerca de 3 km da aldeia de Poiares. Daqui pode observar-se, à esquerda, uma estrutura quartzítica designada por Muro da Abalona.
O Muro da Abalona consiste numa parede rochosa de grandes dimensões situada numa zona do vale da ribeira do Brita. Esta mais não é do que uma espessa camada de quartzito que foi dobrada até atingir uma posição vertical. Há cerca de 300 milhões de anos, o choque entre continentes provocou o dobramento e elevação dos sedimentos depositados em bacias marinhas, o que originou cadeias montanhosas, erguendo terrenos até então marinhos. Este processo de colisão continental, para além das pressões que gerou, provocou também um aquecimento nos minerais, o que resultou na sua modificação. Assim, por metamorfismo de contacto, os depósitos arenosos deram origem a quartzitos. Devido à sua resistência aos agentes erosivos, as camadas quartzíticas foram-se mantendo praticamente inalteradas, enquanto as rochas mais xistosas, que as envolviam, eram afectadas pela erosão, sendo os materiais resultantes transportados para longe pela chuva, pelos cursos de água, pelo vento e outros agentes erosivos, fazendo desaparecer, pouco a pouco, os materiais que envolviam esta camada de quartzito.
A pequena rota segue para Sul, descendo a Calçada de Alpajares, e continua por caminho de pé posto até atravessar a ribeira do Mosteiro por um pontão. Continua para Sul por caminho vicinal, ao longo da ribeira, até encontrar a estrada municipal conhecida por Estrada do Candedo. Inflete então para Norte, seguindo por esta estrada (praticamente sem trânsito automóvel) até ao miradouro das Alminhas, onde continua pela calçada aí existente.
Atravessa novamente a ribeira e sobe pela Calçada de Alpajares até ao Picão de Santa Ana, seguindo depois por caminho vicinal até ao ponto de partida. A Calçada de Alpajares é um caminho medieval, talvez da 1ª dinastia, importante até ao início do séc. XX (antes das estradas do Estado Novo). Ligaria as terras de Miranda, a Norte, à zona de Ribacôa, a Sul. O traçado seria mais próximo do rio Douro, até Freixo de Espada à Cinta. Daqui, orientava-se em direção à Serra de Poiares e à aldeia com o mesmo nome. De Poiares seguiria a direção Este-Oeste e depois Norte-Sul, grosso-modo, até atingir o Monte de São Paulo. Daqui faria a descida em ziguezague até atingir a ribeira do Brita e continuaria até entrar no vale da ribeira do Mosteiro, seguindo pela sua margem esquerda até atravessar uma antiga ponte mais abaixo, a ponte do Diabo. Pela margem direita da ribeira, iria afastando-se progressivamente da sua foz e seguiria um caminho na margem do Douro até chegar em frente a Barca de Alva, onde a travessia se faria por uma antiga barca. Também conhecida como calçada dos Mouros ou do Diabo, actualmente, só resta um pequeno troço, com cerca de 1 km, empedrado com seixos do rio e pedaços de xisto, que liga o Monte de São Paulo à ribeira do Brita, e que corresponde a um dos sectores do percurso pedestre do vale da ribeira do Mosteiro.
No PR1 FEC, salientam-se diversos aspetos geológicos, com destaque para as dobras resultantes da colisão entre continentes que provocou o dobramento dos sedimentos marinhos, sendo as mais espetaculares observadas no miradouro das Alminhas.
Outro aspeto relevante são as pinturas rupestres, do Paleolítico Superior, que se encontram junto à Calçada de Alpajares, na chamada Fraga do Gato, que representam dois animais - uma lontra (delineada a ocre avermelhado) e um mocho (pintado em tons de negro).
Ficam algumas fotografias do dia...
Texto baseado em:
- PR1 FEC Vale da Ribeira do Mosteiro
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
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