quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCXV) - Réquiem por Vilarinho

 


Viam a luz nas palhas de um curral,

Criavam-se na serra a guardar gado.

À rabiça do arado,

A perseguir a sombra nas lavras,

aprendiam a ler

O alfabeto do suor honrado.

Até que se cansavam

De tudo o que sabiam,

E, gratos, recebiam

Sete palmos de paz num cemitério

E visitas e flores no dia de finados.

Mas, de repente, um muro de cimento

Interrompeu o canto

De um rio que corria

Nos ouvidos de todos.

E um Letes de silêncio represado

Cobre de esquecimento

Esse mundo sagrado

Onde a vida era um rito demorado

E a morte um segundo nascimento.

"Requiem", Miguel Torga

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

1 comentário:

Antônio porto disse...

aquando da minha visita a Vilarinho e subida à zona do curral de Porto Covo ,tive pensamentos de poesia ao ver o chao outrora sagado ,agora tristemente queimado,,e nao deixei de pensar como trataram os ossos dos ja enterrados que mereciam a paz.