quarta-feira, 28 de junho de 2023

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCXVII) - O fraguedo e a Capela de S. João

 


Parte do imenso fraguedo que é encimado pela Capela de S. João, Serra do Gerês, à vista de Pitões das Júnias.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Caminhada às Minas dos Carris a 15 de Julho

 


Terá lugar a 15 de Julho de 2023 uma caminhada interpretada às Minas dos Carris, no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

A caminhada será feita através do Vale do Alto Homem e contará com a presença do autor do livro "Minas dos Carris - Histórias Mineiras na Serra do Gerês".

Mais informações sobre a caminhada promovida por Rui Barbosa - Hiking & Trekking, podem ser obtidas em "Trekking às Minas dos Carris (Serra do Gerês, 15 de Julho)".

terça-feira, 27 de junho de 2023

A revisão do Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês

 


Depois da criação e implementação do Plano de Cogestão do Parque Nacional da Peneda-Gerês, segue-se a revisão do Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

O Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês foi inicialmente aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 134/95, de 11 de Novembro, para vigorar por um período de 10 anos.

Findo este período, tornou-se, assim, necessário proceder à revisão deste Plano, sendo tida em conta a experiência prática acumulada decorrente da sua aplicação, bem como o avanço do conhecimento científico sobre os valores naturais, paisagísticos e culturais entretanto adquiridos e a evolução do quadro legal de ordenamento das áreas protegidas, no qual se destaca o Plano Sectorial da Rede Natura 2000, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 115-A/2008, de 21 de Agosto, cujas orientações de gestão importa agora consagrar.

O actual Plano de Ordenamento do PNPG foi aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 11-A/2011, a 27 de Janeiro de 2011, publicado em Diário da República (Diário da República n.º 25/2011, 1.º Suplemento, Série I) a 4 de Fevereiro de 2011.

É chegada então a altura de se proceder a nova revisão do Plano de Ordenamento do PNPG que deve ter em conta o Plano de Cogestão, entretanto aprovado e os avanços no "conhecimento científico sobre os valores naturais, paisagísticos e culturais (...) adquiridos e a evolução do quadro legal de ordenamento das áreas protegidas."

A revisão do Plano de Ordenamento, a ser preparada nos gabinetes e corredores do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), deverá ter em conta os resultados de uma discussão e apreciação pública amplamente alargada que envolva as comunidades locais da área do PNPG, a comunidade científica e os representantes de associações e / ou movimentos de cidadãos que possam de certa forma dar o seu contributo construtivo para a preservação e melhoria das condições do nosso único parque nacional.

O Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês só será compreendido por quem mais afectará se os responsáveis do ICNF descerem do seu pedestal e conversarem de forma clara com quem lá vive. Se ainda hoje de forma geral muitos não compreendem o âmbito e objectivo do Plano de Cogestão do Parque Nacional da Peneda-Gerês, estas dúvidas não podem acontecer aquando da discussão pública do futuro Plano de Ordenamento.

Esta discussão pública deve permitir o acesso a todos e para tal devem-se fazer as reuniões que sejam necessárias para escutar as preocupações, necessidades e sugestões das populações residentes. A discussão pública não se pode limitar a uma discussão / apresentação pública fora de horas e em horários laborais. Não havendo impedimento de se fazer reuniões nestes horários, o ICNF deve ter em consideração o facto de todos terem a oportunidade de expressar a sua opinião e de compreender o âmbito do Plano de Ordenamento.

Nos últimos anos tem-se assistido a curiosas evoluções das dinâmicas que se processam no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Estas assistiram à consolidação e desaparecimento (ou pelo menos adormecimento) de movimentos cívicos tanto na área do PNPG como fora dela, ao aparecimento de novos meios de divulgação do Parque Nacional como meio de aproveitamento económico por parte dos seus residentes (e não só), ao aparecimento de movimentos isolacionistas e xenófobos dentro do Parque Nacional, ao aparecimento de visitantes que vêem o Parque Nacional como uma «praia de Verão» devido ao tipo de divulgação e promoção turística encetada pelos vários municípios, etc.

A sociedade civil e os grupos especializados devem ter em conta a especificidade deste território que há 52 anos foi limitado como o nosso único Parque Nacional. O Parque Nacional da Peneda-Gerês não pode nem deve ser visto como uma coutada científica e os seus residentes não devem ser vistos como estranhos que foram chegando ao território ao longo das últimas centenas de anos. Aquilo que hoje é o conjunto de montanhas limitadas pela Peneda-Gerês, foi moldada pela presença humana numa simbiose umas vezes mais perfeita, outras nem tanto. Cabe ao conhecimento, entretanto adquirido, resolver estes problemas.

As tradições que o então Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB) previa desaparecerem em poucos anos, acabariam por sofrer uma revitalização como forma de afirmação da presença humana indelével na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Por outro lado, o surgimento de uma frente jovem na condução do destino de várias freguesias na área do PNPG, levou à revitalização de aldeias como destino turístico e como meio de preservação de tradições (tais são os casos das aldeias de Pitões das Júnias ou Fafião - Cabril).

Devido à constante falta de investimento (por um lado) e à visão conservacionista radical (por outro) que o marcou pouco depois da sua génese, o Parque Nacional da Peneda-Gerês dificilmente consegue cumprir os seus objectivos. Desde a sua criação, o Parque Nacional (e, na verdade, a preservação da Natureza em geral em Portugal) tem sido o parente pobre do financiamento por parte do Estado. Foi recentemente publicada em Diário da República, a Resolução da Assembleia da República n.º 68/2023 que recomenda ao Governo que proteja o Parque Nacional da Peneda-Gerês investindo em mais fiscalização, ordenamento e restauro ecológico.

O PNPG necessita de um reforço nas ações de fiscalização e vigilância do seu território, reforço esse que deve ser disponibilizando através de mais meios humanos e financeiros para estas missões, controlando a caça ilegal e outras atividades que afectem as populações de espécies selvagens. No entanto, este reforço não deve ser isolado de um apoio às populações resilientes na área do PNPG, que devem sofrer uma descriminação positiva. Por exemplo, o processo burocrático de atribuição das indemnizações aos proprietários ou criadores de gado com prejuízos atribuídos ao lobo-ibérico deveria ser resolvido de forma célere e agilizada, reforçando-se também os apoios para aquisição e treino de cães de proteção de rebanhos.

A revisão das áreas de protecção actualmente existentes deve ser uma linha condutora na revisão do Plano de Ordenamento e não deve obedecer a fórmulas matemáticas nem a acordos com fundações falidas ou com as suas herdeiras. Tendo o acordo das populações locais, por que não a criação de uma nova tipologia de área de protecção, nomeadamente a Área de Protecção Integral, no âmbito da Área de Ambiente Natural que assegure a protecção dos valores naturais e ambientais excepcionais ali existentes? Juntamente com um reforço da vigilância, estes seriam verdadeiros santuários da natureza intocável. Pode-se dizer que as áreas de protecção total actualmente existentes já têm o estatuto de reserva integral, compreendendo os espaços onde predominam valores naturais físicos e biológicos cujo significado e importância do ponto de vista da conservação da natureza são excepcionalmente relevantes. Porém, a escassa e limitada vigilância, torna estas áreas vulneráveis à intervenção humana.

Da mesma forma, deve-se definir um programa plurianual conciso de controlo de plantas exóticas invasoras para mitigar a sua proliferação. Este programa poder-se-ia apoiar tanto no trabalho dos Sapadores e Agentes Florestais, bem como no trabalho voluntário que ao longo do ano e devidamente integrado poderia ser uma mais-valia única na eliminação de plantas exóticas invasoras.

Os municípios terão o seu papel na revisão do Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Se alguns promovem um turismo de massas obviamente nefasto para a preservação da Natureza, outros lutam para ganhar uma fatia deste turismo. Assim, dever-se-ia questionar que turismo queremos para o Parque Nacional? Queremos a sua massificação e a manutenção de uma sazonalidade, ou queremos um turismo sustentável que seja educacional e que mostre a verdadeira essência de um território de montanha que deve ser preservado em todas as suas características naturais? O que se deve fazer ao património edificado abandonado (casas florestais, casas dos guardas fiscais, escolas, etc.) na área do Parque Nacional? Por que não passá-lo para a comunidade civil (juntas de freguesia, associações, etc.) que poderiam dispor destes edifícios durante um determinado período, revitalizando-os e daí tirando o proveito para a comunidade local, ao mesmo tempo que assumiam a responsabilidade de preservação do espaço envolvente. Por que não a criação de refúgios de montanha em áreas isoladas (Carris, Louriça, Lago Marinho, Currachã, etc.) que permitissem o usufruto por parte que quem desfruta da montanha, mas também por parte de quem vive (pastoreio) e de quem estuda (comunidade científica) o Parque Nacional?

Na sua especificidade, o Parque Nacional deveria tornar-se mais aberto a todos, mostrando o porquê da sua existência e assim reforçando as razões de um maior investimento. Os 'Dias Abertos do Parque Nacional' deveriam ser a ferramenta para essa abertura.

De forma individual ou nas nossas comunidades, devemos todos ser agentes de preservação e de consolidação do Parque Nacional da Peneda-Gerês! Por isso, o nosso contributo é importante e devemos fazê-lo chegar aos corredores de decisão que eventualmente irão lavrar as linhas que farão o texto do próximo Plano de Ordenamento.

Fumo dos incêndios no Canadá nos céus do Parque Nacional

 


Muitas vezes no nosso egocentrismo pensamos que o que acontece aos outros ou mesmo o que acontece no outro lado do mundo não nos afecta, sem percebermos que estamos numa casa comum... mesmo que nela haja residentes imbecis e xenófobos.

Os céus do Parque Nacional da Peneda-Gerês estiveram tingidos de uma cor cinza e ocre no dia 26 de Junho de 2023, em resultado de incêndios florestais que lavraram no Canadá. Este é um bom exemplo do efeito global destas catástrofes e da forma como nos podem afectar, um reflexo do denominado "efeito borboleta" e da forma como sistemas dinâmicos muito afastados de nós, podem afectar o nosso dia-a-dia. 

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

segunda-feira, 26 de junho de 2023

ADERE Peneda-Gerês - Programa de Actividades na Natureza 2023

 


De Julho a Setembro, com o apoio do ICNF, a ADERE Peneda-Gerês promove cinco atividades de turismo de natureza, em vários pontos do Parque Nacional.

As atividades pretendem promover a sensibilização e a divulgação do património natural, proporcionando aos participantes a visita, a observação e a interpretação dos valores presentes. 

Programa:

1 Julho | Ermida, no alto da montanha 

22 Julho | Turfeiras da Peneda

02 Setembro | Mata de Albergaria

09 Setembro | Observação de cabra-montês

16 Setembro | Percurso das Árvores

Atividades gratuitas, para o público em geral.

Participação limitada, sujeita a inscrição: geral@adere-pg.pt

INFO em https://www.icnf.pt/atualidade/eventosemjulho

Serra do Gerês - Calcedónia e Curral de Lameirinha

 


Um percurso com pouco mais de 8 km que me levou de Covide ao Campo do Gerês passando pela entrada da Fenda da Calcedónia e pelo Curral de Lameirinha.

A parte inicial foi feita pelo traçado do Trilho da Calcedónia saindo de Covide. Tirando proveito da sombra do morro, a subida foi feita de forma tranquila apreciando a paisagem da Serra de Santa Isabel e da aldeia de Covide, à medida que a Serra Amarela ia tomando forma na distância.

Após a passagem da entrada da Fenda da Celcedónia, prossegui o traçado do percurso de Pequena Rota, ladeando a Curvaceira até chegar à Pala do Conde a partir da qual segui em direcção ao alagado Curral de Lameirinha. Daqui, o resto do percurso foi feito por Monserra, descendo para o Campo do Gerês.







Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

domingo, 25 de junho de 2023

A localização do Salto do Lobo e da Corga de Lamalonga

 


Este texto já foi publicado neste blogue, sendo, no entanto, actualizado para melhor compreensão da localização destes topónimos na Serra do Gerês

O Salto do Lobo (ou Corga do Salto do Lobo) foi o local onde o volfrâmio foi encontrado "… por simples inspecção de superfície... " por Domingos da Silva, de Outeiro - Montalegre, em Junho de 1941. A partir daqui, foram-se desenvolvendo os trabalhos de prospecção, primeiro na exploração do aluvião e mais tarde na exploração em profundidade do que ficaria designado por "filão Salto do Lobo", dando assim origem às Minas dos Carris.

A zona tem este topónimo porque, segundo as histórias, terá sido naquele local onde um lobo terá saltado a corga para fugir a uma caçada.

Ora, mais tarde, tanto nas cartas topográficas elaboradas em 1949 como em 1991, a localização do Salto do Lobo leva a uma interpretação errada da sua localização, com muitos a referir que este está localizado no topo, ou na zona superior, da Corga de Lamalonga.





A imagem em cima (Fotografia © Rui C. Barbosa - Todos os direitos reservados) mostra o Salto do Lobo em Agosto ou Setembro de 1942. Esta fotografia mostra a área superior do Salto do Lobo e as duas setas em cima indicam a Corga da Carvoeirinha enquanto a letra “b” indica a Lama da Carvoeira ou Carvoeirinha. O desnível no fundo da Lama da Carvoeirinha é assinalado pela letra “c” colocada sobre a parede de rocha aprumada onde se inicia a Corga do Salto do Lobo. Finalmente, a seta em baixo assinala o princípio da corga.

A imagem seguinte mostra-nos uma secção da Folha 31 da Carta Militar de Portugal dos Serviços Cartográficos do Exército com trabalhos de campo de 1949. A área oval indica a localização do Salto do Lobo...


A imagem seguinte mostra-nos uma secção da Folha 31 da Carta Militar de Portugal dos Serviços Cartográficos do Exército com trabalhos de campo de 1991. A área oval indica a localização do Salto do Lobo...


A localização do Salto do Lobo está bem definida na seguinte figura que mostra um desenho da linha de água que passa na Corga do Salto do Lobo que juntamente com um comentário fotográfico, integrou uma reclamação de Domingos da Silva datada de Setembro de 1942 relativamente à pretensão de outra empresa de levar a cabo explorações mineiras naquela área (Fotografia © Rui C. Barbosa - Todos os direitos reservados).


Ainda uma imagem obtida no Google Earth e onde está assinalada a localização correcta do Salto do Lobo (Fotografia © Rui C. Barbosa - Todos os direitos reservados).


Espero assim sanar as dúvidas sobre a localização correcta do Salto do Lobo e da Corga de Lamalonga.

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCXVI) - A Lavaria Nova e a rapina

 


Uma rapina sobrevoa as ruínas da Lavaria Nova das Minas dos Carris, Serra do Gerês. A Lavaria Nova foi construída nos anos 50, permitindo um aumento considerável na extracção e produção mineira naquele complexo.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sábado, 24 de junho de 2023

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCXV) - Currachã

 


Na travessia da Serra do Gerês, a chegada a Currachã a caminho de Pitões das Júnias.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Da Portela do Homem a Pitões das Júnias - uma travessia da Serra do Gerês

 


Sem dúvida que a grande travessia por excelência que se pode fazer no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) é iniciada na Portela do Homem e finalizada em Pitões das Júnias. Percorrer os velhos carreiros que a Serra do Gerês nos oferece, é uma experiência única tanto a nível físico como pessoal (da maneira como a quiserem entender!).

Já referi que, em tempos, um dos antigos directores do PNPG perguntava-se a si mesmo como era possível os visitantes não terem um percurso que ligasse estes dois extremos do Parque Nacional na Serra do Gerês? Passados tantos anos, tal ainda não existe... mas pelo que se tem visto nos últimos tempos, se calhar é melhor que assim seja.

Neste dia fez-se um percurso de cerca de 26 km, cuja primeira parte envolveu a travessia do Vale do Alto Homem.



O percurso do Vale do Alto Homem até às Minas dos Carris sempre me trará o prazer da descoberta e da partilha daquilo que fui aprendendo ao longo destes anos que tenho dedicado ao estudo daquele complexo mineiro.

Lá vou inúmeras vezes, umas por recreação outras por trabalho seja ele de investigação ou para partilhar a história não só daquele local, como do trajecto que é percorrido para lá chegar. Quando é este o caso, a subida prolonga-se no tempo, pois é necessário tempo para explicar, mostrar e conversar sobre o passado e o futuro daqueles magníficos espaços.

O percurso para as Minas dos Carris inicia-se a uma altitude de 720 metros e rapidamente nos apercebemos que não será um caminho fácil para os mais desprevenidos. A sua dificuldade vai aumentando ao longo do percurso não tanto pela inclinação, mas mais pelo estado do próprio caminho. Em quase 9,8 km de extensão, este é na sua maioria composto por pedra solta que dificulta a progressão. São escassas as extensões em que o terreno é suave.

Na quase totalidade do seu comprimento o trilho é acompanhado pelo Rio Homem e o seu rumor por entre as rochas acompanha-nos quase sempre.

Convém salientar que o caminho para as Minas dos Carris está inserido num vale de extrema importância para o Parque Nacional da Peneda-Gerês e que está integrado numa das duas áreas de protecção total existentes naquela área protegida, logo convém solicitar uma autorização ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.



Tenho por hábito dividir o percurso em duas partes que considero de dificuldade distinta. A primeira parte termina no que eu considero ser a metade do caminho na ponte junto do Cabeço do Modorno e após se ter vencido já cerca de 300 metros de altitude por entre pedra solta e alguma vegetação. A fase inicial da segunda parte do percurso é muito semelhante à primeira parte, mas este vai-se tornando mais suave há medida que nos aproximamos da Ponte das Águas Chocas, sendo um caminho mais fácil a partir daí e até ao final do planalto onde se inicia a subida final para o complexo mineiro, passando nas Abrótegas e já na Corga da Carvoeirinha. A passagem pela Ponte das Abrótegas é muito fácil e somos presenteados por uma paisagem única que nos leva desde o alto de Lamas de Homem até às alturas do Altar de Cabrões já na raia.

No início dos anos 90 ainda era possível observar ao longo do Vale do Alto Homem uma linha de postes de madeira sobre os quais assentava o cabo metálico do telefone, que permitia as comunicações com o complexo mineiro. Nos nossos dias são raros os sinais, ao longo do caminho, daquilo que mais tarde iremos encontrar no sopé dos Carris. Tirando os trabalhos mais «recentes» levados a cabo pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês, com o objectivo de melhorar o caminho para a reflorestação de zonas de alta montanha, é possível observar, mesmo no início do percurso, conjuntos alinhados de rochas que marcam o que então foi uma estrada em terra batida que permitia a passagem de camiões para o transporte do minério e não só. Como curiosidade, posso referir que no início da sua construção existia um pequeno caminho que ligaria a Portela de Leonte ao complexo mineiro e pelo qual as largas telhas que iriam cobrir as casas mineiras e outros elementos, eram transportadas em ombros pela quantia de 2$50 nos idos anos de 40.

Ao longo do caminho vamos observando um ou outro pequeno muro, ou um ou outro alinhamento de pedras que nos podem sugerir a existência de uma rude estrada serrana. O primeiro sinal sólido da existência de algo mais complexo na serra, surge-nos junto da zona que dá pelo nome de ‘Água da Pala’. Aqui, e já coberta pela vegetação, observamos à nossa esquerda uma área delimitada por um pequeno e baixo muro. Em tempos terá servido de curral para abrigo dos rebanhos. Do lado direito podemos observar, também por entre a vegetação, uma pequena construção com tijolos de cimento que nos dá a ideia de ser uma pequena guarita, mas que já foi referenciada como um pequeno abrigo dos cantoneiros que mantinham o estradão em estado de circulação. Esta zona antecede uma ponte de pedra. Toda este lugar é extremamente peculiar e bucólico.



Na Água da Pala iniciava-se um trilho de pé posto que atravessava o Rio Homem e subia ao longo do rio pela sua margem direita no sopé da Encosta do Sol até atingir o topo do Cabeço do Modorno, algumas centenas de metros após atravessar novamente o Homem sensivelmente à cota de 1050 metros de altitude. Não havendo registos cartográficos deste trilho em direcção a Carris, documentos fotográficos atestam a sua continuação para as zonas mais elevadas da serra. Quem observa a Encosta do Sol a partir da Água da Pala, terá a sensação de ainda poder vislumbrar o traçado deste pequeno trilho que, sem dúvida, nos proporcionaria uma visão distinta do vale. Porém, e após várias tentativas de observar no terreno a sua progressão, cheguei à conclusão de que este trilho já desapareceu e será extremamente difícil tentar seguir o seu antigo percurso, senão mesmo impossível.

Após passar a Água da Pala, o trilho para Carris entra numa zona mais plana. Até aqui, e olhando para a nossa direita, temos a oportunidade de observar os picos escarpados que delimitam os Prados Caveiros. Esta fase mais plana do trilho segue pela Ponte do Cagarouço sobre a Ribeira do Cagarouço, um pequeno afluente do Rio Homem que parece surgir das escarpas da Ravina do Cabeço da Porca. É nesta fase que o caminho se volta a inclinar ligeiramente e ouvimos o rugido do jovem rio a poucos metros de distância. Por entre a vegetação é por vezes fácil ter um olhar sobre lagoas que no Verão são sempre uma forma de retemperar forças.

O trilho ultrapassa a cota dos 1.000 metros de altitude, a poucos metros de entrarmos numa fase do caminho onde vamos superar vários metros de altitude em pouca distância, ultrapassando assim um bom declive. Em Carvalhas Vrinhas, o percurso flecte para a direita no que são conhecidas como as ‘Curvas do Febra’ e em pouca distância subimos 30 metros em altitude antes de flectir para a nossa esquerda. Nesta parte do caminho podemos ter uma imagem do Vale do Homem só superada pela paisagem que nos aguarda poucos metros após a passagem da Ribeira do Modorno. Poucos metros mais à frente entramos numa parte do caminho que é ladeado, à direita, por uma parede sólida de granito e, à esquerda, por uma queda de 50 metros que termina no Rio Homem. O declive aqui é acentuado e notório, mas o esforço para chegar à meia distância merece a pena.



Somos chegados a meio do caminho e o descanso na Ponte do Modorno é merecido. A água da ribeira é sempre fresca e corrente, mesmo no Verão. Ao entrar neste pequeno vale temos a visão de uma pequena queda de água por debaixo da ponte e são poucos os que resistem a uma fotografia. Situados na ponte em direcção ao final do vale, por onde vemos o Rio Homem, temos à nossa direita o imponente Cabeço do Modorno, uma escarpa granítica que atinge os 1.317 metros de altitude. Conheci todas as pontes até ao Modorno já em cimento, mas o meu fascínio por estes espaços começou a ser despertado pelas velhas pontes de madeira que antigamente permitiam a passagem célere e um tanto ou quanto aventureira.

Logo após abandonar a Ponte do Modorno e seguindo o velho caminho mineiro, vamos encontrar uma das mais fantásticas paisagens que a Serra do Gerês e o Parque Nacional têm para nos oferecer. É com deslumbre que observamos o Vale do Alto Homem e a forma como este se projecta no céu. O seu delimitar pelos picos das serras leva-nos a imaginar, sonhar um mundo antigo. É aqui que nos começam a faltar as palavras... Ao longe vemos a Serra Amarela e com bom tempo facilmente se vislumbram as antenas do Muro localizadas em Louriça, bem como o Alto das Eiras e a Cruz do Touro, já nos extremos Geresianos, ou a magnificência da Quelha do Palão e da Água dos Vidos. Saindo do pequeno vale da Ribeira do Modorno entramos novamente no vale do Alto Homem e logo ali à nossa frente observamos uma estreita queda de água com uma altura superior a 110 metros, a Água da Laje do Sino. Toda este zona nos dá paisagens deslumbrantes em, ou após, dias de chuva com as paredes rasgadas pelos cursos de água que se precipitam no vale, ou então nos frios dias de Inverno com a imagem das quedas de água geladas que se amarram às paredes graníticas.

Prosseguindo ao longo do vale vamos ganhando altitude, atingindo os 1.200 metros de forma suave. Nesta fase o trilho chega a complicar-se devido ao estado do «pavimento». O Rio Homem é, nesta fase, constituído por uma série de pequenos ribeiros que têm origem nos inúmeros vales que golpeiam o topo da serra. Aos 1200 metros de altitude, na zona do Teixo, o trilho flecte ligeiramente para a direita seguindo um dos pequenos riachos que, juntamente com o riacho do Corgo dos Salgueiros da Amoreira, irá mais tarde formar o Rio Homem. O caminho segue a base da Rocha da Água do Cando, passando pela Ponte das Águas Chocas (1285 metros) e entrando nas Abrótegas até atingir a Ponte das Abrótegas (1325 metros). As Abrótegas definem, juntamente com o Outeiro Redondo, um pequeno planalto que é atravessado pelo trilho até atingir e seguir ao longo da base do contraforte de Carris. Foi neste planalto onde esteve montado nos dias 17 a 19 de Setembro de 1908 o acampamento da primeira expedição venatória levada a cabo na Serra do Gerês. Neste planalto têm origem vários trilhos de pé posto, sendo o mais interessante aquele que segue para as Minas das Sombras (Galiza, Espanha) e para os Cocões do Coucelinho (através das Lamas de Homem) e, mais tarde, Minas de Borrageiros e Lago Marinho.

Na Ponte das Abrótegas somos interrogados por umas peculiares construções semelhantes a pequenos pilares de rocha e cimento que tinham essa mesma função. Estas construções serviriam de ponto de apoio, certamente de uma conduta metálica para transportar água desde uma pequena represa ali existente até à lavaria nova situada no topo da Corga de Lamalonga. A paisagem aqui permite-nos observar o marco geodésico de Carris (1508 metros), o Altar de Cabrões ou Altar dos Cabros. Neste planalto podemos também observar vários currais destinados às pastagens de altitude (Curral das Abrótegas e Curral de Cabanas Novas) e à transumância ainda levada a cabo na Serra do Gerês.



A zona das Abrótegas permite o descanso antes da subida final, verdadeiro calvário para quem já está cansado da subida. Ao percorrer o início da subida, um pormenor passa despercebido à quase totalidade das pessoas. Logo no início do declive a antiga estrada dividia-se em duas, com uma a seguir a direcção do Salto do Lobo, local onde decorreram as primeiras extracções de volfrâmio tirando partido do aluvião vindo da Corga da Carvoeirinha. No terreno é difícil vislumbrar sinais desta parte da estrada e só andando alguns metros no caminho principal que segue em direcção à mina, e depois olhando para trás, é que se vê a antiga estrada já coberta de vegetação. Nesta área não existem construções ou edifícios, exceptuando uma ou outra pequena construção de pastores (os formos) ou outros abrigos. Esta zona provavelmente teria o apoio de edifícios de madeira dos quais não existem quaisquer sinais. Por esta zona deveria passar uma conduta de água que teria a sua origem numa pequena represa próximo da Ponte das Abrótegas e que, apoiada em pilares feitos com aglomerados de pedra, atravessava o pequeno planalto para lá das Abrótegas. Mais pilares são visíveis no extremo deste planalto, que serve de pastagem de altitude ao gado que nos meses da vezeira passeia pela serra, já próximo do caminho antes deste flectir para a esquerda para iniciar a subida final. Seguindo o prolongamento deste caminho secundário e depois entrando em trilhos de pé posto, chega-se às Minas dos Carris pela sua zona inferior junto da lavaria nova, no extremo topo do vale da Corga de Lamalonga.

A parte final da estrada vence um declive de 70 metros ao longo da Corga da Carvoeirinha e sem dúvida que é para muitos a parte mais complicada de todo o trajecto. No entanto, o final do árduo caminho é sempre uma motivação forte para vencer estes últimos metros.

No troço final o declive torna-se menos intenso, com a estrada a tornar-se quase plana mesmo a chegar ao muro que delimitava a entrada no complexo mineiro dos Carris.

A demanda por Pitões das Júnias

Vencido o Vale do Homem, iniciamos então uma verdadeira demanda por Pitões das Júnias. Neste tipo de caminhadas, onde o percorrer quilómetros para se atingir o objectivo se torna a prioridade, a concentração é um doa spectos mais importantes a ter em conta. saber dosear o esforço tanto a nível físico, como a nível psicológico (sendo este talvez o mais importante) é o segredo para atingir o final. Isto trona-se particularmente importante num dia quente, onde por vezes a brisa (ou a falta dela) constitui um obstáculo extra a transpor.



Por outro lado, o surgimento da «moda das caminhadas» nos últimos anos levou ao aparecimento de um grupo de pedestrianistas que estão confortáveis em percursos «limpos» e relativamente planos, onde o esforço de um «sobre e desce» quase não existe e não estando preparados para a travessia psicológica da montanha. Isto, associado a uma falta de espírito de grupo, pode levar a uma quebra pessoal na parte mais importante de uma jornada na qual o fim, por mais próximo que esteja, parecerá eternamente longínquo.

Ainda em relação à travessia que se quer fazer entre a Portela do Homem e Pitões das Júnias é importante referir o total desconhecimento por parte do Instituto da Conservaçlão da natureza e das Florestas e do Parque Nacional da Peneda-Gerês, do estado dos carreiros de montanha. A utilização abusiva e viciantemente aditiva das ferramentas de escritório e o desconhecimento do terreno, leva a que por vezes se proponha a quem desejar fazer uma actividade deste tipo, trajectos que não são os mais aconselhados. Com a justificação de que "não se devem abrir novos caminhos", proponhem-se traçados de percurso que não são utilizados há muitos anos, levando a uma perda de tempo e um dispender de esforço nestas actividades que não é aceitável.

Neste dia, prosseguindo pelos velhos carreiros e tomando a orientação das mariolas, seguiu-se na direcção do Salto do Lobo percorrendo a sua margem direita até descermos a Corga de Lamalonga. Daqui, seguimos para o Curral de Lamalonga (Curral do Teixeira) e iniciamos a descida para os Currais da Matença, atravessando de seguida a Ribeira das Negras em direcção à mariola bifurcada. Neste ponto, seguimos para o Curral das Rochas de Matança e, caminhando na margem direita da Ribeira de Biduiças, chegavamos enfim ao Curral de Biduiças. Estavamos assim num mundo de quase silêncio onde os grandes blocos de granito compunham a paisagem por entre o caos e a saudade

Descansados os corpos e saciada a sede, iniciamos a parte mais dura do percurso. Atravessando a Ribeira de Biduiças, seguimos para o Curral do Poço Verde e depois para o Curral de Fornalinhos de Baixo, onde fizemos um pequeno descanso à sombra dos seus fondosos carvalhos. 

Sempre com o colosso dos Cornos de Candela à nossa esquerda, entrou-se na Corga de Pala Nova e seguimos em direcção ao velho curral Curral d'Arrabeças e daqui subimos para Currachã, perante a magnífica paisagem que nos proporcionavam os Cornos da Fonte Fria e os campos de Pitões das Júnias. 

Atravessando-se o Ribeiro de Teixeira já com os olhos postos no objectivo final da caminhada, faltava ainda a passagem pelo Fojo de Pitões das Júnias (um belo fojo de cabrita) e entravamos no Carvalhal do Teixo, seguindo depois a Sul do Castelo (Soengas) para o Porto da Lage, iniciando então a «interminável» subida para Pitões das Júnias.

Ficam as memórias e algumas fotografias do dia...






Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 23 de junho de 2023

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Resolução da Assembleia da República n.º 68/2023 - Recomenda ao Governo que proteja o Parque Nacional da Peneda-Gerês investindo em mais fiscalização, ordenamento e restauro ecológico

 


Foi publicada a 20 de Junho de 2023 em Diário da República, a Resolução da Assembleia da República n.º 68/2023 que recomenda ao Governo que proteja o Parque Nacional da Peneda-Gerês investindo em mais fiscalização, ordenamento e restauro ecológico.

A resolução pode ser acedida aqui.

Aprovada a 12 de Maio de 2023, a resolução recomenda ao Governo que:

1 - Reforce as ações de fiscalização e vigilância no território do Parque Nacional da Peneda-Gerês, disponibilizando mais meios humanos e financeiros para estas missões, controlando a caça ilegal e outras atividades que afetem as populações de espécies selvagens.

2 - Garanta que os proprietários ou criadores de gado com prejuízos atribuídos ao lobo-ibérico são indemnizados de forma célere e agilizada, reforçando-se os apoios para aquisição e treino de cães de proteção de rebanhos.

3 - Defina um programa plurianual de controlo de plantas exóticas invasoras para mitigar a sua proliferação.

4 - Reforce a cooperação com as autoridades espanholas no âmbito da Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, para assegurar a proteção e a valorização do território.

5 - Conclua o Programa Especial do Parque Nacional da Peneda-Gerês, assegurando o reforço dos regulamentos e das medidas de conservação da natureza.

6 - Assegure que a Comissão de Cogestão do Parque Nacional da Peneda-Gerês tem os recursos necessários ao cumprimento da sua missão, abrindo a possibilidade de ser designado um diretor executivo para reforçar o nível de intervenção.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Caminhada do Solstício de Verão pela Serra do Gerês

 


Para marcar o Solstício de Verão 2023, decidi fazer uma longa jornada pela Serra do Gerês ligando o Campo do Gerês e as Caldas do Gerês. Foram mais de 39 km por paisagens únicas em Portugal que me levaram por diversos aspectos do Parque Nacional da Peneda-Gerês, marcando a sua história, fauna e flora, e a presença humana milenar por estas serranias.

O dia já clareava quando deixei a pacatez matinal do Campo do Gerês. Tirando os cães que me saudavam à minha passagem e o chilrear matutino da passarada, a tranquilidade reinava por entre o casario. Em pouco tempo chegava à Estrada da Geira e a paisagem da Serra Amarela e da albufeira da Barragem de Vilarinho das Furnas ia fazer-me companhia nos primeiros quilómetros.



Os sons do bosque serviam de fundo aos meus passos à medida que passava pela Bouça da Mó, Bico da Geira, Vale dos Porcos, Volta do Covo e Balsada, antes de atravessar as pontes de madeira sobre o Maceira e o Forno, já na Albergaria. Seguindo o traçado da Geira Romana até Ponte Feia, segui depois para a estrada para depois entrar na subida da Costa de Sabrosa e ganhar altitude até à Lameira das Ruivas. Deixando a paisagem da Mata de Albergaria e do Vale do Rio Homem enquadrada pela Costa de Varziela e Calvos, o cenário era agora das grandes penedias graníticas com o Cabeço do Cantarelo e o Cantarelo a dominar a paisagem à medida que me aproximava da Lomba de Burro depois de passar a Corga dos Vidros. Da mesma forma, e a qualquer hora do dia, a profundidade e as vertentes do Vale do Rio Forno encimadas pelo Pé de Medela, pelas Albas e pelo Corno Godinho, espantam e assombram à passagem.



Passando a Lomba de Burro iniciou-se a descida para os Prados da Messe com a sua velha ruína dos Serviços Florestais. Estas ruínas fizeram parte de um edifício construído pelos Serviços Florestais que foi finalizado em Setembro de 1908. A prova disso encontra-se no livro "Mata do Gerês" (Tude Martins de Sousa, 1926, regente florestal à época) onde é referido (pag. 132), "Não havendo nenhuma casa, ou abrigo, para o pessoal florestal na extensa zona da serra alta, desde a Pedra Bela aos Prados, havia sido solicitada a construção de uma pequena casa no curral dos Prados, que foi feita neste ano (1908). Sendo certo que nenhuns trabalhos haviam sido ainda por ali realizados, não era menos certo que aquela parte da serra era de elevada importância, por ser um dos mais aproveitados centros de pastoreação dos gados vizinhos e ainda por ter a curtas distâncias bons núcleos de arborização espontânea. Ao mesmo tempo, aproveita-se a oportunidade de prestar um bom serviço aos vezeiros de Vilar da Veiga, a quem o usufruto do curral pertence e cujas boas relações de vizinhança convém absolutamente manter, proporcionando-se lhes melhor acolhida do que a que o seu forno lhes dá, o que se fez, destinando-se-lhes metade da referida casa, que em Setembro ficou já concluída."

Após uma curta paragem junto do abrigo pastoril dos Prados da Messe, encetei caminho para o meu próximo objectivo, o Alto do Borrageiro. Seguindo os trilhos carreteiros, passaria nas imediações do Curral da Pedra para chegar ao Porto de Vacas e iniciar a subida para o Curral do Conho, seguindo depois para os Portelos do Conho e Lomba de Pau. Aqui, fui agraciado com a presença de várias cabras-montesas que agora povoam tranquilamente a serra, seguindo depois pelas Lamas de Borrageiro para o Alto do Borrageiro com a sua magnífica panorâmica sobre todo o Parque Nacional.



Não estive muito tempo nas alturas, iniciando então a descida para o Curral de Roca Negra, à sobra do colosso do mesmo nome, e segui de imediato para o Curral de Rocalva onde tive a oportunidade de observar as maravilhosas bolas-de-algodão que ainda vão resistindo nas zonas mais húmidas.

Descendo para o Vale do Cando, o Homem reverencia-se perante a visão da Roca Negra que se eleva altaneira com as suas vertentes alcantiladas sobre o imenso vale. Seguindo pelo carreiro na Encosta do Cando, chegaria à visão da imensa Roca de Pias e da Quina do Meio, à medida que o próximo desafio se ia perfilando na paisagem. Perdendo por momento a visão do vale, este voltaria a surgir no colo junto da Arrocela quando - e tendo às minhas costas a Corga Giesteira - a vista se afunda para Entre Águas e percorre, encosta acima, o carreiro que desde lá do fundo me levaria ao Estreito.


Passando os seculares teixos, a descida fez-se de forma compassada e cuidada pela vertente. Por esta altura, o dia continuava ameno, mas a ameaça de chuva era cada vez mais presente. Esta tornava-se real quando na chegada ao Estreito, a visão das pesadas nuvens cor de chumbo fizeram-me pensar no próximo refúgio que seria a paragem do almoço, nas planuras de Pradolã. A paisagem do Estreito é daquelas paisagens que não deixa ninguém indiferente! A profundidade do vale e a violência das vertentes, quais muralhas intransponíveis de um imenso castelo cujas torres se elevam nas alturas da Amarela e do Iteiro d'Ovos, fazem surgir exclamações de espanto, assombradas pelo quadro terrorífico de um céu que se enche de fúria. Porta Roibas, verdadeira entrada para o Mundo Maravilhoso, faz corar de inveja os melhores cenários de Tolkien e George R. R, Martin, e o longínquo perfil de Borrageiros faz-nos lembrar que por muito que se conheça, haverá sempre muito mais para conhecer nas paisagens que não nos são estranhas!

A chegada a Pradolã trouxe um já merecido repasto e um descanso de muitos quilómetros. Com o suor a empapar a roupa, a necessidade de hidratação torna-se quase imediata e a partir daqui foi quase uma constante. Curiosamente, o cérebro encarrega-se de lembrar ao corpo que, mesmo não havendo sede, a necessidade de beber água é premente e cada vez mais presente.

Conselho de leitura: A Complete Guide to Solo Hiking.

Conselho de leitura: Solo Hiking: What You Need to Know to Hike Alone.



Com o percurso traçado para os próximos quilómetros, deixava Pradolã e iniciava a descida para Pousada, seguindo depois pelo bosque em direcção a Pinhõ, Ponte de Servas e Tribela. Aqui, tive o prazer de ajudar alguns turistas que já demandavam o Poço Azul, pois aparentemente, todos eles traziam um track de GPS que os fazia seguir em frente na Tribela, não virando à esquerda para a Ponte de Servas. No total, terão sido uns seis ou sete grupos com o mesmo percurso...

Passando o Curral dos Portos e o Curral da Malhadoura, chegava então ao Arado e no entroncamento das Rocas decidi seguir pelo traçado da GR50 Grande Rota da Peneda-Gerês, passando pela Pala do Cando de Cima, Curral de Espinheira e chegando ao cruzamento da Pedra Bela, já após ter abandonado o traçado da GR50. Daqui, segui pela Encosta do Cocuruto e Encosta do Azeral, entrando de novo no traçado da GR50 e descendo pelo Forno Novo para a Fonte do Azeral, seguindo pelas Voltas do Azeral para Pentelhas e baixando para o Rigor, chegando então às Caldas do Gerês no momento em que a chuva, após tantas ameaças, fazia o seu aparecimento após um trovão!

Foram mais de 39 km e mais de 1.500 m D+, na minha maior caminhada do ano... por enquanto.

Ficam algumas fotografias do dia...


































Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)