segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Trilhos seculares - De Germil a S. João do Campo


Segundo dia de caminhada nesta travessia entre Lindoso e Fafião, tirando proveito do Trilho da Serra Amarela.

Antevia-se um dia quente e como tal, decidimos madrugar. O Sol ainda se escondia atrás das vertentes a nascente de Germil quando deixamos a aldeia que aos poucos, tal como nós, acordava do turpor de uma noite de Verão. Os cães olhavam-nos sem interesse ainda adormecidos nas soleiras das portas e os gatos eram totalmente indiferentes à nossa passagem. Germil ainda dormia e nós iniciávamos a «longa» travessia pela Serra Amarela.


Deixamos Germil para trás e em pouco tempo estávamos na aridez granítica a caminho das misteriosas Casarotas. Este conjunto de construções ainda hoje é tema de debate: terá sido uma branda pastoril ou um posto de defesa na nacionalidade? A impressão inicial submerge-nos num tempo abandonado por entre construções em ruínas. O mistério e o debate sobre a função destes abrigos de montanha mantém-se nos nossos dias. Citado na obra "O Gerês - De Bouro a Barroso", de Rosa Fernanda Moreira da Silva, Jorge Dias refere "(...) haver uma relação com as cabanas dos pastores e talvez fosse conduzir a uma curiosa solução, que traria também um elemento de grande interesse para a Etnografia. Poderia ser uma antiga branda dos pastores de Vilarinho. Uma branda há séculos abandonada, porque os habitantes da região descobriram uma maneira mais cómoda de aproveitar as pastagens altas, mediante uma organização colectiva, em que dois pastores substituídos diariamente por outros dois, à vez por todos os vizinhos, só precisam de passar uma noite na serra, para que lhes basta uma cabana em cada local de pernoita. Parece-me esta a hipótese mais plausível, mas, como disse, só depois de se fazerem escavações teremos talvez a solução" (in, "As Casarotas na Serra Amarela - construções megalíticas com uma inscrição" - 1946).


Assim, segundo Jorge Dias, as casarotas teriam uma função relacionada com a pastorícia na Serra Amarela. Porém, Rosa Fernanda Moreira da Silva tem outra interpretação para a função destas peculiares construções. Na página n.º 90 da sua citada obra lê-se "Somos de opinião que as Casarotas foram um dos elementos da célula defensiva das Portelas que, além dessas pequenas construções incluía, pelo lado Norte, uma pequena Trincheira, com o comprimentos de algumas dezenas de metros. Estes elementos estão estrategicamente localizados numa rechã inacessível do lado nascente. Mas perfeitamente enquadrados em relação às restantes edificações defensivas do vale do Homem, ou seja, as Casas do Facho, das Peças e da Guarda. De acordo com os argumentos apresentados as Casarotas foram um dos elementos da célula defensiva da Portela da Serra Amarela. Entretanto, seria muito enriquecedora a concretização de estudos sobre esta temática que, ao alargarem a análise temporal, poderiam contribuir para o equacionar de novas teorias sobre o passado."



No seu romance "Rio Homem", André Gago relata a jornada de Rogélio Pardo e Alda até aquele local num dia de calor. Refugiando-se no interior de uma daquelas construções, os dois irão consumar um amor há muito desejado nas páginas do livro. Assim, por entre o silêncio e o vento cinematográfico que percorre aquelas alturas, podemos imaginar esta passagem do romancista.

Ali perto, jaz silencioso o Fojo de Vilarinho. Monumento aos habitantes da aldeia mártir, é um exemplo da eterna luta pela sobrevivência do Homem nestas serranias agrestes e duras.

Deixando o fojo para trás, chegávamos ao Curral do Muro e daqui percorremos a vertente Sul da Louriça até chegar à Casa das Neves, descendo depois para os lados do Ramisquedo e seu curral, onde fizemos uma longa paragem para descanso.

A hora do calor aproximava-se e então prosseguimos até Vilarinho da Furna passando por Toutas e descendo pelo Fundo do Peito da Rocha, chegando aos campos de Vilarinho. Um pouco mais adiante, por entre o vozeiral de uma tarde quente de Sábado, fizemos uma paragem para refrescar os corpos. Cada visita a Vilarinho da Furna é uma elegia, uma homenagem à luta de um povo contra o opressor que se materializou em forma de um muro de betão, fazendo a humilhação suprema com o aprisionamento das águas do Rio Homem.

Visitar Vilarinho da Furna é sentir a aldeia e fazer o esforço de a imaginar viva e alegre. Visitar Vilarinho da Furna é sentar junto das suas ruínas e escutar o silêncio quase sepulcral.

E como entender o sentimento dos homens e mulheres de Vilarinho da Furna, abandonados por tudo e por todos? Aqui, recordei-me de um episódio vivido aquando da apresentação do romance "Rio Homem". Neste dia, e depois da apresentação no Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, fez-se uma visita às ruínas da aldeia. Alguém levava um acordeão, porém a relutância e a tristeza do que deveria ser uma música Minhota a ecoar por entre as ruínas, estava espalmada nos olhos lacrimejantes dos tocadores, antigos habitantes da aldeia.

Depois do descanso, seguimos para S. João do Campo atravessando a imensa parece de betão que retém as águas do Rio Homem. Lembro-me das últimas horas de Rogélio Pardo (extraído de 'Rio Homem', de André Gago - Edições ASA, Dezembro de 2010.)...

"A água no talvegue começava já a subir consideravelmente. Rogelio não ia esperar mais. De olhos postos no chão, tentava a custo dominar a ansiedade que o paralisava. Sentiu de repente uma sucessão de pequenos golpes frios na cabeça, como picadas, a que logo parecia suceder a sensação de uma gota de sangue escorrendo pela pele do crânio. Passou a mão pela testa e olhou para cima: tinha começado a nevar, e da bruma que as luzes indistintas ofuscavam via surgir uma sucessão de pequenos flocos brancos que lhe acertavam no rosto. Essas pequenas carícias de frio ardente produziam nele uma comoção inesperada, como se o seu aparecimento fosse a manifestação de uma evidência que viria completar a jornada, selando os campos e paralisando a vida e tudo o que naquele vale se erguera. Antevia, no espesso manto branco que se avizinhava, a barragem arruinada e inútil, e o vermelho do seu sangue derramado sobre ele, no local onde a sua vida chegaria ao fim. As lágrimas começaram a correr-lhe, quentes, pelo rosto. Os seus olhos, que há muito não choravam, derramavam agora todas as tristezas e alegrias de que Rogelio era feito, destiladas num longo processo através das espirais de sangue e soros que lhe serpenteavam pelo corpo todo até alcançarem a cabeça envelhecida que, como a figura de proa de um navio fustigado, se arqueava para cima, para a neve que caía, esboçando um esgar impreciso, no qual um sorriso e um grito pareciam confundir-se.

Então, quase exausto desse êxtase, debruçou-se a custo sobre a primeira carga de dinamite e, apertando-a contra o peito, começou a caminhar, entrando com os pés na água gelada. Ouviu o rumorejar das águas que os seus passos incertos provocavam. No negro sem fundo do seu espelho reflectia-se o vapor irreal do nevoeiro e o clarão das lâmpadas descrevendo um arco na abóbada celeste que se elevava em direcção às profundezas insondáveis da noite. O frio mordia-lhe os tornozelos, entranhava-se na carne, enroscava-se nas pernas, instilava o seu veneno azulado, buscando inexoravelmente atingir o osso. Rogelio fechava os olhos e respirava em soluços, sentindo estalar as cordas do coração, apertando contra o peito a dinamite que esperara tantos anos por rebentar. No fundo desconhecido do Homem, aprisionado contra o betão que lhe serviria doravante de cárcere, espigavam-se rochas afiadas, restos de escombros que agora se submergiam e que o curso livre das águas jamais rolaria até converter nos seixos polidos sobre os quais muitas vezes Rogelio, de pés nus, caminhara, atravessando as águas transparentes e primaveris do rio com o qual partilhava a condição.

Os pés feriam-se nas profundezas aceradas e invisíveis, e por todo o corpo se espalhava um turpor gelado que lhe paralisava os músculos. Rogelio sentia que algo dentro de si se petrificava. Um ruído metálico parecia ressoar algures nas profundezas do seu corpo, como o do casco de um navio rasgando-se ao longo de uma barreira de recife. A boca de descarga estava à sua frente. Alguns metros mais e alcançá-la-ia. Teria ainda de se içar para dentro dela. Parou um instante para repousar. Inesperadamente, lembrou-se de Alda. Sorriu, pensou que no fundo o que estava a fazer fazia-o por ela. Fechou os olhos. Uma espécie de sono poroso invadiu-o, como um borrão negro espalhando-se no papel. Então a água começou a subir, de repente, dentro dele, invadindo-lhe o corpo, ascendendo ao longo do abdómen, inundando-lhe o peito, espalhando-se na floração dos pulmões. Survia-a pela boca, pelas narinas, numa derradeira inspiração amniótica. O rio entrava-lhe pelos ouvidos, liquefazendo-lhe os olhos, bailando-lhe nos cabelos, até encher e transbordar por completo toda a represa do seu corpo, acolhendo-o suavemente no seu seio."














Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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