quarta-feira, 15 de julho de 2026

"ICNF diz que não lhe cabe multar quem ignora restrições no Gerês, onde GNR identificou 47 pessoas nas Sete Lagoas"

 


Notícia do Observador para ler aqui.

A presidente da Câmara de Montalegre defende a aplicação de multas para resgates em zonas de alerta de incêndio devido ao incumprimento das regras. O ICNF diz que não lhe cabe aplicar sanções.

Fotografia © Pedro Sarmento Costa/LUSA

V Encontro de Escaladores no Campo do Gerês


No fim de semana de 26 e 27 de Setembro de 2026, vai realizar-se o 5° Encontro de Escaladores do Campo do Gerês!

Em breve mais novidades, informações e a abertura das inscrições!

Falta de água na "serra alta"

 


A pouca quantidade de chuva que tem caído nos últimos meses, não foi suficiente para renovar os aquíferos a maior altitude na Serra do Gerês.

Muitas das nascentes ou fontes encontram-se com pouco caudal e a recolha de água dos ribeiros pode ser problemática, pois com a presença das vezeiras na serra, a qualidade é duvidosa que mesmo as pastilhas purificadoras e desinfectantes ou os filtros de água poderão não ser suficientes para a tornar potável.

Por exemplo, se em 2025 a Fonte do David - nas Minas dos Carris - acabaria por secar em meados de Agosto, no corrente ano a fonte já quase não tem água, que cai a gotas e em breve estará seca. Para quem caminha pelo Vale do Alto Homem, a única fonte é a Fonte da Abilheirinha, no início do percurso. A Fonte da Portela do Homem apresenta um escasso caudal.

O mesmo se verifica noutras fontes (na zona do Arado, Vale do Rio Conho,) com pequenos ou inexistentes caudais, e mesmo algumas estando já secas (a caminho de Pradolã, logo após Pousada; e a Fonte do Curral de Rocalva).

Para as grandes travessias (por exemplo, Prados da Messe para Borrageiros), existe água na Fonte de Premuinho (a poucas dezenas de metros do Curral de Premuinho) e possivelmente (com pouco caudal) haverá água na Fonte de Arrocela (perto das velhas minas). Para a travessia para Pitões das Júnias aconselha-se que levem pelo menos 3 litros de água, pois não há fontes ou nascentes de confiança disponíveis.

Caso tenham alguma informação sobre as fontes ou nascentes com «bom» caudal ao longo dos percursos, por favor compartilhem?!

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Sobre os «polémicos» resgates, os custos dos mesmos, da responsabilidade individual e a gestão do Parque Nacional

 


Os resgates que ocorrem na Serra do Gerês (os outros não merecem tanta divulgação mediática) são sempre tema nos dias de Verão ou quando a meteorologia brinda a paisagem com os dias soalheiros.

A cada resgate surge uma legião de impertigados a exigir o pagamento dos mesmos, seja em que circunstância ocorram; desde "ovelhas não são para mato" até a "irresponsáveis", lê-se de tudo. O cenário é o reflexo do tipo de sociedade na qual nos tornamos: ódiosa, mal formada e informada, cada vez mais dependentes de uma IA que, eventualmente, nos vai dominar, mas que para muitos será uma ferramenta de conhecimento vazio e ôco.

A situação é tal que o Comandante dos Bombeiros Voluntários de Salto, Hernâni Carvalho, «se viu obrigado» a publicar um interessante esclarecimento na sua página da rede social Facebook...

De forma resumida:

1) "Eu não acompanho a ideia de que as pessoas que são socorridas no Parque Nacional da Peneda do Gerês, tenham de pagar multas ou custos Associados ao Socorro. Em Portugal, o socorro é gratuito e não pode ser diferente para os visitantes deste Parque. (...) ninguém paga uma ambulância que leva um cidadãos alcoolizado ao hospital. Portanto, no Parque, há-de ser como é no resto do País."

2) "Eu não tenho nenhum interesse que as pessoas que não cumprem as declarações de alerta, ou o regulamento do Parque, sejam multadas. (...) Aquilo que defendo, é mais responsabilidade individual, atitudes preventivas que visem a segurança coletiva e previnir acindetes. Defendo sim, que as entidades que têm responsabilidade de ordenar o território, tivessem mais informação disponível, portas e pontos físicos de difusão de informação oficial e uma malha de vigilantes que, no território, informassem as pessoas."

3) "(...) quem não respeitar o PNPG e as suas gentes, não o merece conhecer."

4) "Assumo que sou mais um apaixonado do Parque Nacional da Peneda do Gerês. Gostava de ver este diamante bruto melhor gerido, não só com respeito pela natureza e por este património natural ímpar, mas sobrerudo com mais respeito por quem lá vive. (...) ...mas não me canso de dizer que o Parque tem uma ausência de estado grotesca nalguns aspetos, como este, e excesso de estado e de zelo em outros, que só o prejudicam."

A declaração completa pode ser lida aqui.

Fotografia © Hernâni Carvalho (Todos os direitos reservados)

A Volta a Portugal no Gerês

 


Um evento como a Volta a Portugal em Bicicleta é inegavelmente um meio de promoção do território a nível nacional e internacional.

De facto, aproximando-se da sua centésima edição, até se questiona como não correu mais cedo por estas paragens? A resposta é óbvia: a Volta passa em locais onde o financiamento existe e não é pelos «lindos olhos do Gerês» que ela vem para cá.

Tornando-se a polécima do momento, o traçado da Volta quer levá-la a cortar a Mata de Albergaria, Reserba Biogenética declarada pela UNESCO, verdadeiro coração e razão de ser do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). Em dois ou três dias já se escreveu o essencial sobre as razões pelas quais não deve (e não pode) passar pela Mata de Albergaria: a Volta é essencialmente uma "enorme comitiva composta por dezenas e dezenas de automóveis da organização, das equipas, da comunicação social, das forças de segurança e de assistência, para além do inevitável afluxo de espectadores", acrescentando helicópteros a baixa altitude. Se a passagem é fugaz, a presença de milhares de pessoas num espaço limitado como é a Mata de Albergaria, a "área ecologicamente mais sensível do único Parque Nacional português" é razão suficiente para ter "bom senso" e determinar um percurso alternativo para a Volta que pode, seguramente, promover de melhor forma o concelho e o Parque Nacional.

Volta a Portugal em Bicicleta em Terras de Bouro e na vila do Gerês, óbviamente que sim! A passar na Mata de Albergaria, óbviamente que não!



Questiona-se também como é que se chegou a este traçado para a Volta em Portugal em Bicicleta sabendo de antemão que: 

- 1) atravessa uma zona sensível do Parque Nacional,

- 2) sabendo que o Plano de Ordenamento do PNPG não o permite,

- 3) sabendo que o traçado seria polémico e que estaria sugeito a "constrangimentos".

Quem aconselhou a Organização da Volta em Portugal em Bicicleta 2026 e que garantias foi dada à Organização de que tal seria possível? Porque se apela a uma minimização de "constrangimentos"? Porque é que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas - ICNF - (supostamente) não foi consultado antes da divulgação do evento a 9 de Julho de 2026?

O que é a Mata de Albergaria? A Mata de Albergaria é uma extensa área florestal, localizada na zona central do PNPG ocupando uma área superior a 1.500 hectares, ao longo do Vale do Rio Homem. Tendo resistido a séculos de desflorestação por incêndios frequentes e pastorícia, a Mata de Albergaria é hoje um testemunho único dos bosques que outrora cobriam o noroeste da Península Ibérica: o carvalhal galaico-português. Representa o único carvalhal maduro de carvalho-alvarinho (Quercus robur) existente em Portugal. Os restante bosques de carvalho existentes em Portugal são de menor dimensão e, sobretudo, muito mais jovens. 



O Parque Nacional da Peneda-Gerês está no limite, sem financiamento, sem Vigilantes da Natureza, ao abandono, mal tratado, enfim «sem rei, nem roque». Tal como referiu Hernani Carvalho, o Parque Nacional "tem uma ausência de estado grotesca nalguns aspetos, (...), e excesso de estado e de zelo em outros, que só o prejudicam" e citando Miguel Brandão Pimenta, "a legislação ambiental é invocada para limitar os cidadãos, mas pode ser ignorada quando estão em causa grandes eventos."

Define-se "Parque Nacional" como uma área que contenha maioritariamente amostras representativas de regiões naturais características, de paisagens naturais e humanizadas, de elementos de biodiversidade e de geossítios, com valor científico, ecológico ou educativo. A classificação de um parque nacional visa a proteção dos valores naturais existentes, conservando a integridade dos ecossistemas, tanto ao nível dos elementos constituintes como dos inerentes processos ecológicos, e a adopção de medidas compatíveis com os objetivos da sua classificação.

A autorização da passagem deste evento pela Reserva Biogenática da Mata de Albergaria por parte do ICNF é uma verdadeira machadada na sua autoridade e deita por terra qualquer credibilidade e autoridade na gestão do PNPG, com as óbvias graves consequências de daí advêm.

O Parque Nacional é de todos, "vamos juntos" protegê-lo!

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

"A Volta a Portugal em Bicicleta Invade o Nosso Único Parque Nacional"



Comunicado da FAPAS sobre a possibilidade da Volta a Portugal em Bicicleta passar pela Mata de Albergaria na sua edição de 2026.

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A FAPAS - Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade, vem manifestar a sua profunda preocupação com as recentes notícias da passagem, no próximo dia 13 de Agosto, da Volta a Portugal em Bicicleta 2026 no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), classificado pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera.

Nada nos move contra a Volta a Portugal, mas muito nos mobiliza em defesa do nosso único Parque Nacional: a biodiversidade, a paisagem, a cultura local, o turismo rural, entre muito outros valores que o Parque Nacional deve acautelar.

O site oficial da Volta a Portugal indica que a 7.ª etapa partirá de Vieira do Minho, passará pela Caniçada, Rio Caldo e Vila do Gerês, subirá à Portela de Leonte pela EN308-1 e atravessará depois a Mata da Albergaria, pela estrada florestal até à Portela do Homem. 

Não serão só os ciclistas a atravessar a Mata de Albergaria, uma das áreas mais sensíveis do PNPG, mas também uma numerosa e ruidosa comitiva de acompanhamento constituída por automóveis, motos, altifalantes, sirenes, espectadores, etc.

Depois de inúmeras atrocidades feitas e tentadas no PNPG faltava esta atividade, de resto sujeita a parecer do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), entidade que gere o PNPG.

Esta área protegida rege-se pelo Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês (POPNPG) aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 11-A/2011 de 4 de fevereiro.

Ora esse Plano determina, no seu Artigo 8.º (Actos e actividades condicionados) que "[...] na área de intervenção do POPNPG ficam sujeitos a parecer do ICNB, I. P., os seguintes actos e actividades, quando realizados em áreas sujeitas a regimes de protecção [como é o caso da Mata de Albergaria]: "e) A prática de actividades desportivas e recreativas não motorizadas [...] bem como a realização de eventos desportivos ou recreativos, [...] excepto se previstas na Carta de Desporto de Natureza;", o que não acontece.

Não faltam locais montanhosos em Portugal onde esta competição se poderia realizar, mas acetaram logo numa área protegida, o que mostra, por um lado, a profunda iliteracia ambiental e, por outro, o enorme recuo das medidas e ações de conservação da natureza

A FAPAS solicita à Senhora Ministra do Ambiente e ao ICNF que divulguem publicamente o parecer que o ICNF deu (se é que deu!) sobre esta a travessia da Mata de Albergaria pela ruidosa Volta a Portugal em Bicicleta 2026.

É que, se o ICNF não deu parecer, então a situação é mais grave!

terça-feira, 14 de julho de 2026

"A Volta a Portugal não está acima da lei", um texto de Miguel Brandão Pimenta

 


O site oficial da Volta a Portugal 2026 é claro: a 7.ª etapa partirá de Vieira do Minho, passará pela Caniçada, Rio Caldo e Vila do Gerês, subirá à Portela de Leonte pela EN308-1 e atravessará depois a Mata da Albergaria, pela estrada florestal até à Portela do Homem. 

Não passará apenas o pelotão. Segui-lo-á uma enorme comitiva composta por dezenas e dezenas de automóveis da organização, das equipas, da comunicação social, das forças de segurança e de assistência, para além do inevitável afluxo de espectadores. Tudo isto no coração da área ecologicamente mais sensível do único Parque Nacional português.

Esta decisão é incompreensível. E é ainda mais grave porque o Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês é claro ao não permitir a realização de provas desportivas na Área de Protecção Parcial, onde se integra a Mata da Albergaria.

Portugal tem milhares de quilómetros de estradas e inúmeras alternativas para traçar uma etapa da Volta. Não havia qualquer necessidade de fazer passar a prova precisamente pelo sector mais sensível e mais protegido do Parque Nacional, que é simultaneamente Reserva Biogenética da Europa.

A passagem da Volta em Albergaria será um lamentável retrocesso e mais um sinal de que a legislação ambiental é invocada para limitar os cidadãos, mas pode ser ignorada quando estão em causa grandes eventos.

O ICNF e a organização da Volta a Portugal têm o dever de esclarecer publicamente em que disposição legal fundamentam esta decisão. Se a lei permite esta etapa, indiquem o artigo. Se não permite, expliquem por que razão entendem não estar obrigados a cumpri-la.

Fotografia © Miguel Brandão Pimenta (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCCXVI) - Cancela

 


As paredes aprumadas do maciço de Cancela são aqui fotografadas na descida do Vale do Alto do Homem após a passagem do Modorno, Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

"Volta a Portugal quer entrar no coração do Gerês, mas ICNF ainda não aprovou a etapa"

 


Notícia do jornal PÚBLICO pela jornalista Andrea Cunha Freitas para ler aqui.

Passagem inédita pela Mata de Albergaria, uma das áreas mais sensíveis do Parque Nacional da Peneda-Gerês, gera contestação. Autoridade ambiental confirma que processo está em análise.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Postais do PNPG (CCLXXII) - "GEREZ - Estrada para as Salas"

 


Um aspecto da estrada para as Salas que liga as Caldas do Gerês ao Campo do Gerês, num postal da primeira metade do século XX.

O postal (não circulado) é uma edição Neogravura, Lda (Lisboa) e baseado numa fotografia da Foto Zalez (Edição Loja Espanhola).

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Minas dos Carris, 13 de Julho de 2026

 


A paisagem vista das Minas dos Carris ne tarde do dia 13 de Julho de 2026, com o Pico da Nevosa e a Garganta das Negras. 

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados) via Carlos Araújo / EMC

"Apesar do risco de incêndio, 47 pessoas foram identificadas no Gerês em zonas interditas"

 


Notícia da SIC Notícias pela jornalista Manuela Carneiro e Miguel Costa, para ver aqui.

As 47 pessoas identificadas pela GNR incorrem em coimas, de acordo com as circunstâncias e a legislação em vigor.

Imagem: SIC

domingo, 12 de julho de 2026

"Volta a Portugal 2026: ZERO exige clarificação sobre etapa da prova que passa em zona crítica do Parque Nacional da Peneda-Gerês"

 


A ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável tomou conhecimento, através da apresentação do percurso da 87.ª Volta a Portugal em Bicicleta, de que a 7.ª etapa (13 de agosto, Vieira do Minho – Termas do Gerês) atravessa o Parque Nacional da Peneda-Gerês, incluindo a subida inédita a Germil e uma incursão em território espanhol junto à fronteira.

Leia o texto completo aqui.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (MDCCXV) - A Roca das Pias

 


O cume da Roca das Pias (ou Cutelo de Pias, como é designado na aldeia da Ermida), Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sábado, 11 de julho de 2026

A Conquista do Inútil (2): A subida ao Borrageiro

 


A subida ao alto do Borrageiro é uma caminhada relativamente fácil, apesar de exigir um esforço de ascensão quase desde o princípio. A paisagem da Serra do Gerês, inicialmente escondida nos pequenos vales, revela-se a cada passo através dos carreiros seculares que nos levam às relativas planuras graníticas.

De desespero para alguns, estes pequenos percursos ajudam-nos a revelar a essência de um mundo que se pode tornar uma paixão. As grandes jornadas exigem um sacrifício a que muitos não estão dispostos; as pequenas jornadas podem tornar-se gramdes desafios. De facto, e em todas estas jornadas longe do rebuliço sazonal - e parafraseando Edmund Hillary, "não é a montanha que conquistamos, mas a nós mesmos." Esta satisfação da «nossa própria» conquista tem ainda uma maior dimensão quando vemos os mais novos a saborear em pleno os prazeres da Natureza e onde o "Imenso" se torna nas suas conquistas.





"O cume é para o ego, a jornada para a alma"

A nossa jornada começou na Portela de Leonte. Manhã tépida e a prometer um desafio quando as resteas de orvalho se evaporarem ao Sol, iniciamos a subida da Costa do Murjal seguindo pela velha calçada que nos ajuda a ir ganhando altitude até à Chã do Carvalho (ou Chã do Carvalho de Leonte).

Caminho inumeras vezes calcorreado, o Pé de Cabril serve de guardião da paisagem que se revela a cada passo por entre a vegetação a contar os dias para a chuva (que, espante-se, até nos iria brindar mais tarde). O caminho ziguezagueia (en)costa acima por entre uma infinidade de arvoredo de onde espreitam os pequenos carvalhos, medronheiros, azevinhos e os tímidos teixos, além de outras árvores que prenunciam, noutras direcção, a entrada no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Quando nos habituamos a ter por derto aquilo que nos é próximo, não nos apercebemos que um mais pequeno descuido pode, em poucos minutos, destruir o que levou  séculos a criar. É esta a sensação que eu tenho sobre as considerações de muita gente acerca do valor do património natural que nos banha a retina quando, passados a Chã do Carvalho, se nos abrem os vales tapeteados da Mata de Albergaria. Muitas vezes são «os de fora» que valorizam aquilo que vemos, numa tomada de consciência sobre algo que não esperavam ver.





Em 1792, Link comparava os arvoredos da Albergaria à grandes florestas da sua Alemanha natal "e até mesmo às da Inglaterra," tal como nos relata Ricardo Jorge no seu "Guia Thermal" (pág. 10, 1891).

Antes da chegada ao Prado do Vidoal, a paisagem presenteia-nos com o Vale do Rio Maceira coroado pelo Pé de Medel, Carris de Maceira e pelo Cabeço da Cantâra, numa paisagem enrugada que nos leva desde o Pé de Cabril, Cancelo, Costa de Bemposta, Colado Seco, navegando pelo mar verde da Albergaria, Corneda, Roca d'Arte, Cabeço de Lavadouros e Outeiro Moço. Isto é Natureza e História em toda a sua planitude.

A passagem no Prado do Vidoal dá-nos o testemunho da ocupação secular do território pelas vezeiras. O olhar atento irá certamente descobrir os diferentes abrigos que por ali foram utilizados ao longo de inumeros verões; nos nossos dias, resta o abrigo pastoril que terá sido edificado com a ajuda dos Serviços Florestais para dar abrigos aos seus trabalhadores e aos pastores que nas vezeiras velavam os animais.





Com o dia a aquecer, mas com uma brisa a ajudar pela manhã, a jornada continuou em direcção ao Colo da Preza, ladeando-se o Outeiro Moço com a sua forma característica que lhe dá o nome. Com um céu azul e uma refrescante brisa, a chegada à Preza maravilhou-nos com a paisagem do Vale de Teixeira - nosso eventual destino. Até lá, faltava ainda uma légua que nos faria passar pelo alto do Borrageiro, com o seu decrépito marco geodésico e os restos de uma velha antena de comunicações que há muito já deveria ter sido dali removida.

Tomando um carreiro que se inicia pouco depois do velho marco delimitador do perímetro da Mata Nacional do Gerês, as pernas sentem o esforço da subida que se faz de forma pausada. A cada passo, a paisagem afunda-se na profundidade do olhar que já abarca os limites castrejos da área protegida. Passando a Chã da Fonte, continuamos a subir com o objectivo de chegar à Fonte da Borrageirinha cuja água fresca já nos acalma a pele e dá-nos o alento para conquistar o inútil.

Estamos agora nas proximidades da Portela de Sineiros e seguimos em direcção ao Arco do Borrageiro. Esta estrutura natural é resultante dos efeitos da erosão natural e era já um ex-líbris do Gerês clássico, surgindo em alguns velhos postais. Curiosamente, existe uma estrutura que eventualmente poderá dar origem a um novo arco após eras de erosão... já não será para os nossos olhos.





Sendo denominado "Arco do Borrageiro" - o nome vem certamente da sua atribuição nos tais postais de finais do século XIX, princípios do século XX -, este encontra-se um pouco afastado do alto do Borrageiro. Assim, será que em tempos a sua designação teria sido outra? É algo para reflectir em algum momento...

Deixando o Arco do Borrageiro, segue-se então para o pináculo altimétrico da nossa jornada: o cume do Borrageiro. No grupo, dois valorosos montanhistas de 8 e de 12 anos. A partir de certo ponto no caminho, foram eles que seguiram na frente, orientados pelo guia da RB Hiking & Trekking. Conquistando cada declive, salvando cada salto, seguindo cada mariola, a subida fez-se de desejo da conquista. A jornada até lá estava já na alma, faltava saciar o ego! O cume foi vencido às 12h37 quando o velho marco geodésico testemunhou a alegria da conquista e a satisfação e plenitude da ânsia de tudo abarcar com o olhar. A sensão do imenso envolve os irmãos e as montanhas não têm já limites para os seus desejos e conquistas.

Esta parte da jornada estava feita! Faltava o resto, e que resto seria. Iniciando a descida do Borrageiro, seguiu-se em direcção à Chã de Roca Negra, antigo curral à sombra do duplo cume que ainda guarda os restos do seu curral alagado. Dali, a visão da Meda de Rocalva, do colosso de Iteiro d'Ovos e do cume de Borrageiros, altivo à distância.





Caminha-se através do silêncio e até o restolhar da carqueja parece silenciar-se ao raspar nas botas. Por vezes, surge o eco das vozes na penedia e o vislumbre de velhos muros mostra que até os lugares mais recônditos tiveram a sua utilidade nos dias em que as noites de Verão se transformavam em infernos de Inverno ou na vertigem da fuga do contrabando.

Seguindo a Sul, começamos a calcorrear as vertentes altivas do Vale do Cando encimado pela Roca Negra com as suas paredes aprumadas. As vertentes mergulham no vazio em vertiginosas exclamações de espanto e olhar calcorreia a paisagem em busca de vida no vislumbre de uma cabra-montês que vigia a imensidão, marcando o seu território. O cenário compõe-se e vai-se alterando a cada passo com a perspectiva dos cumes que se deslocam em cenários de imensidão onde a montanha do Gerês - de Bouro a Barroso - ganha a pujança dos grandes espaços e que em nada fica trás das suas primas europeias. 

Mariolado, o carreiro leva-nos a passar junto do Cabeço do Cando (erradamente designado como "Chã de Pinheiro" no OSM) e Eira Bonita, onde flectimos à direita para seguir para a vasta vertente granítica que nos levará à Chã de Pinheiro e daqui seguir para a Corga de Fitoiros Negros que nos dá passagem para o Vale de Teixeira, local do já merecido descanso e repasto.

Entretanto, os céus haviam-se trasmutado de um azul puro para uma amalgama de nuvens carregadas de água e furiosas de electricidade. A nossa próxima passagem seria o Curral de Camalhão. Já ao longo do dia, havíamos testemunhado o efeito dos dias secos na serra: os regatos estão exangues de água, as pequenas fontes estão há muito secas e as árvores começam a sentir o stress de falta de água... em alguns sítios, parecia Outono ao caminharmos em tapetes de folhas secas. De facto, e com o calor que se faz sentir, não tarda teremos os sinais de um Outono antecipado, mas que ainda estará longe, quando os quitamerendas começarem a decorar a paisagem mais cedo do que é usual.





A passagem pelo Curral do Camalhão foi presenteada por um aguaceiro que acalmou o ambiente do calor abafado que se fazia sentir e alguns preferiram os espaços abertos ao abrigos dos carvalhos. As pesadas gotas de chuva surgiam como um alívio na pele quente. Porém, a chuva era efémera e depois de dois ou três trovões, voltou o calor e o desejo da água.

Passando o Camalhão de Baixo e chegado ao Curral de Camalhão, esvaiu-se a vã esperança de ali haver água. Os regatos estão secos e a fonte recorda com saudade a água fresca que nos oferece. Nestes dias, saber onde obter água nas jornadas serranas é um conhecimento valioso. Entravamos na Garganta da Preza por onde escorre, lamacento e ludoso, a triste memória do ribeiro que mais adiante alimentará o Rio Arado. Restam os chagos estagnados onde os pequenos anfíbios vivem na esperança de dias de chuva.

A subida era já penosa pelo cansaço que o calor da tarde infligia nos corpos. A água nos cantis era quente, boa para acalmar a sede, mas má para dar-nos a sensação de alívio de algo refrescante. Seguíamos então em direcção ao Curral do Junco onde sabia existir uma pequena zona alagada e um velho tanque que em tempo idos serviu o velho forno pastoril ali existente. Ora, havendo o pequeno tanque, seria uma questão de procurar a nascente que alimenta o charco e a zona húmida. Desviando alguma vegetação e brotando da rocha-mãe, a visão da água fresca a escorrer nas fendas graníticas deu-nos a mesma sensação da descoberta de ouro. Pacientemente, os cantis e pequenas garrafas foram cheias com a água que criava condensação e os corpos, finalmente, encontravam a satisfação e o prazer da frescura por entre o ambiente tórrido e abafado que se sentia.

Passando o Curral do Junco, chegavamos de novo ao Caolo da Preza e iniciavamos a descida que nos levaria de volta à Portela de Leonte passando o Prado do Vidoal e a Chã de Carvalho.

Ficam algumas imagens do dia...

















Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)