O dia 5 de Julho de 2026 foi marcado por um novo resgate na Corga de Sobroso (Sete Lagoas), Serra do Gerês, quando uma jovem de 19 anos sofreu uma queda no leito do rio.
Esta foi a segunda ocorrência em 24 horas na mesma zona ("Bombeiros em operação de resgate de 19 pessoas", pelo jornalista Pedro André Mendes, 4 de Julho de 2026), apesar de estar em vigor um estado de alerta durante o qual está proibido o acesso às zonas florestais assim definidas nos respectivos planos municipais.
A verdade, é que a situação não é nova e verifica-se todos os anos em condições semelhantes: simplesmente, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e o Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) não têm meios para proceder a uma vigilância efectiva de todo o território da área protegida. De facto, com uma área de cerca de 70.000 hectares existem apenas 12 Vigilantes da Natureza para cobrir essa área e cuja função não se limita à área do PNPG. Apesar do apoio que posssa vir das equipas de Sapadores Florestais, é manifestamente insuficiente e põe a nu as condições miseráveis do PNPG.
A situação do resgate vem despoletar o desconforto de algumas entidades encarregadas dos resgates, com o Comandante dos Bombeiros Voluntários de Salto, Hernâni Carvalho, a referir que "todos os dias temos tido situações destas," segundo noticia A Voz de Trás-os-Montes na sua edição digital ("Jovem de 19 anos resgatada nas Sete Lagoas apesar da proibição de acesso", pelo jornalista Pedro André Mendes, 5 de Julho de 2026).
Recorde-se que devido às condições meteorológicas extremas, foi declarada a situação de alerta em todo o território nacional continental entre as 00h00 do dia 3 de Julho e as 23h59 do dia 6 de Julho, estando proibido o acesso a espaços florestais, sendo proibido circular ou permanecer em zonas florestais, caminhos rurais ou vias que as atravessem.
No entanto, e com excepção da estrada que liga a Portela de Leonte e a Portela do Homem, não existe um controlo efectivo no acesso às diversas zonas florestais e mesmo na Portela do Homem assistiu-se à tentativa de entrada nesses espaços por parte de visitantes que, estacionando no lado galego da fronteira, tentam aceder às zonas ribeirinhas nas proximidades.
Mesmo o controlo da interdição no acesso à Mata de Albergaria está a ser feito pelos elementos contratados para a cobrança da taxa de acesso àquela zona, tal como testemunhei na manhã do dia 4 de Julho.
O Parque Nacional deveria ser dotado de um sistema de aviso semelhante ao que existe em zonas de montanha e através do qual se poderia informar os visitantes das condições que iriam encontrar. Por exemplo, à saída das Caldas do Gerês na direcção da fronteira ou à saída do Campo do Gerês em direcção à Mata de Albergaria, deveria existir uma sinalética electrónica com a informação sobre o estado do acesso, informação essa que teria utilidade tanto no Verão como no Inverno em dias de nevada ou de frio «extremo». Na Serra da Estrela existe uma informação simples que mostra a interdição (ou não) das vias de acesso à Torre. Porque não um sistema semelhante no PNPG?
Por outro lado, porque (aparentemente) nunca se viu uma coordenação entre o ICNF e a GNR para a vigilância do PNPG? Porque é que o PNPG não está dotado de elementos da Guarda Florestal no terreno? Porque é que - apesar de ser aconselhado - o ICNF não coloca a informação sobre as coimas em caso de desrespeito pelas regras de visitação? Talvez seja hora de efectivamente se passar dos conselhos aos actos e começar a responsabilizar quem desrespeita as regras de visitação e por parte de quem tenha uma actuação negligente.
Sabemos que a maior percentagem do turismo no PNPG nesta altura do ano provém dos visitantes que não querem visitar o PNPG, mas sim pretendem fazer praia na montanha ("Parque Nacional da Peneda-Gerês: não se pode ir para o Gerês como se vai para a praia", pelas jornalistas Patrícia Carvalho e Teresa Pacheco Miranda, 3 de Agosto de 2020 - exclusivo a assinantes). Apesar da consciência e da percepção do perigo das zonas ribeirinhas ter (aparentemente) aumentado, todos os anos se repetem as situações de quedas nas lagoas e lá vão surgindo as típicas notícias dos "resgates no Gerês". O trabalho de consciencialização deve ser feito por todos: ICNF, associações de promoção do território, hoteleiros, postos de turismo, etc. No entanto, o problema só se irá resolver quando os banhistas tiverem respeito por eles próprios e tomarem medidas preventivas para evitar o acidente. Tendo em conta o estado actual da consciencialização da sociedade, temo que o problema se irá agravar nos próximos anos.
A protecção do Ambiente e da Natureza em Portugal nunca foi a primeira, segunda ou mesmo terceira prioridade para os sucessivos governos nacionais. As áreas protegidas sobrevivem com escassos orçamentos que não lhes permite cumprir com os objectivos para as quais foram criadas. No caso do PNPG - que deveria ser a jóia da coroa da protecção da Natureza no nosso país e que aguarda há quase dois anos pelo novo Regulamento de Gestão e pelo seu Programa Especial - os sinais do seu definhamento estão todos aí para os que quiserem ver.
Relembro a catástrofe que atingiu o PNPG em Agosto de 2025 no qual um incêndio florestal dizimou quase por completo a Serra Amarela sem que o Governo fosse capaz de resolver a situação com um efectivo reforço de meios. Seguiu-se a visita da ministra e tudo ficou na mesma. O que se assistiu não foi um filme de catástrofe, foi a destruição de um território vivo; não foi apenas "mato", foi bosque, foi floresta, foi a natureza e foi o sustento de muitas pessoas. Ardeu por culpa da negligência.
Sem um verdadeiro reforço e uma mudança de paradigma na protecção da Natureza em Portugal, temo que estejamos a assistir aos últimos dias do Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Fotografia © Paulo "No Gerês" Figueiredo (Todos os direitos reservados)

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