quarta-feira, 24 de junho de 2026

As danças em Vilarinho da Furna

 


Na noite de S. João em Campo do Gerês, a festa foi inicialmente animada com a actuação do Rancho Falclorico de Guardenha que presenteou a vasta assistência com várias danças típicas do Minho.

Não me recordo de escutar histórias de um grupo de danças em Campo do Gerês, mas recordei-me de uma passagem do livro "Vilarinho da Furna - Uma Aldeia Comunitária", de Jorge Dias, que é dedicada às danças que se faziam na aldeia mártir (e, penso eu, que seriam semelhantes no Campo do Gerês).

Jorge Dias refere, "as danças conhecidas em Vilarinho são as três, talvez, mais populares de todo o Minho: o malhão, a cana verde e o vira. Não é aqui lugar para fazer a descrição dessas danças que, aliás, não são executadas com o brilho que lhe conhecemos noutras regiões. O vira, que é uma dança muito espalhada, tem contudo variantes, dançando-se às vezes, na mesma terra, de duas maneiras. A melodia do vira é a mesma usada para o fandango e para a jota noutras regiões do Alto Minho ("A Poesia na dança e nos cantares do Povo Português", Pedro Homem de Melo, Porto, 1941), mas os passos e as figuras coreográficas variam dumas danças para as outras, e de região para região. Em Vilarinho dança-se o chamado vira do Gerês. Os pares colocam-se todos em bicha, uns atrás dos outros, ficando à esquerda a fila dos homens, que dão a direita à mulheres.

Depois, segundo o ritmo da música, os pés fazem os movimentos habituais desta dança, virando-se os homens e as mulheres uns para os outros, outras vezes ficando todos virados para a fila, deslocando-se toda a coluna para cima e para baixo, de tempos a tempos, conforme as voltas da música. Se bem que seja uma dança bonita, quando bem dançada, não tem o brilho do vira solto e individual, que representa quase um diálogo coreográfico entre o homem e a mulher; por vezes, uma espécie de luta amorosa, em que o homem procura conquistar o seu par, excedendo-se em elegância e beleza, defendendo-se esta com desdém, apoiado numa não menor leveza de movimentos.

Em Vilarinho, ao contrário do Minho da ribeira, só a mocidade dança. Depois duma certa idade, a austeridade de carácter impede as pessoas de se entregarem a esses prazeres profanos. Mas a mocidade terá que pagar o seu tributo aos deuses da terra, e quando a ocasião se presta, depois duma festa qualquer, em que os ânimos dos pais estão mais tolerantesm lá se organiza uma dança, e os pares rodopiam livres e contentes ao som dos instrumentos tradicionais."

Texto extraído de "Vilarinho da Furna - Uma Aldeia Comunitária" (Jorge Dias, Porto, 1948)

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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