Esta foi uma caminhada que nos levou a atravessar todo o maciço central das montanhas do Gerês, iniciando na aldeia de Pitões das Júnias e terminando na fronteira da Portela do Homem, num total de 24,9 km e 1.036 m D+. A caminhada seguiu por antigos carreiros de pastoreio, atravessando cenários únicos de montanha e mergulhando na História da Serra do Gerês.
A noite havia sido de chuva e trovoada, para isso testemunhando o ar quente que já de manhã cedo se fazia sentir. Se em anos anteriores fora o calor a marcar presença durante quase todo o dia, desta vez sabíamos que os céus cinzentos seriam a marca dominante e assim foi, com a trovoada a ser a banda sonora do dia intercalada com o correr dos pequenos ribeiros e o cantarolar da passarada a insistir em dominar os prados.
Concentração na Portela do Homem e de seguida um transfer para Pitões das Júnias. A caminhada começaria após uma passagem pela Padaria de Pitões de onde se observava os píncaros graníticos a recortar os céus escuros. "Devem cair algumas pinguinhas!," comentou a D. Gracinda... e certamente que cairiam.
Saindo de Pitões das Júnias pela calçada voltada a Poente, enveredamos de seguida por entre lameiros e entramos no Beredo calcorreando a penedia escorregadia e por entre o carvalhal. O caminho levarnos-ia a passar junto do Castelo e não muito longe das «misteriosas» ruínas que por ali jazem.
O Castelo é uma elevação que se encontra a pouca distância da aldeia de Pitões das Júnias e que exibe as marcas do que poderá ter sido uma fortificação que existiria há época da aldeia Medieval de Sancti Vincencii de Gerez, referida nas Inquirições Afonsinas de 1258, cuja ocupação se terá desenvolvido durante a Idade Média até inícios da Idade Moderna.
A cerca de 1.000 metros para Sudoeste da aldeia de Pitões das Júnias e camuflado por um denso carvalhal encontra-se este povoado. Aqui conservam-se vestígios de cerca de 40 casas de planta quadrangular, construídas com blocos graníticos, alguns toscamente aparelhados. Os arruamentos entre as casas estão também bem conservados, sendo que ainda mantêm o lajeado. O espaçamento entre as casas é de cerca de 3/4 metros, algumas conservam pouco mais de um metro de parede, mas consegue-se imaginar, sem grandes esforços a arquitectura desta aldeia. Os carvalhos vão invadindo, pouco a pouco o interior de cada casa, conferindo a este sítio uma beleza rara. Situa-se na encosta do monte do Castelo, relativamente abrigada e rodeada de linhas de água.
Passando Soengas, o carreiro levou-nos a entroncar no caminho que nos levaria até às proximidades da Capela de São João da Fraga, passando antes pelo Carvalhal da Tulha e salvando o ribeiro do mesmo nome usando uma pitoresca ponte de madeira. O cenário é todo ele medievo por entre o carvalhal, a visão dos fraguedos da capela e o (não muito longínquo) Fojo do Lobo de Pitões das Júnias. Semelhante ao Fojo da Portela da Fairra, Parada de Outeiro, o Fojo do Lobo de Pitões das Júnias tem um desenho circular no interior do qual era colocado um cabrito que se sentindo indefeso começava a balir, chamando assim a atenção aos lobos. Estes, saltavam para o interior do recinto murado, mas não conseguiam sair, sendo posteriormente abatidos. Hoje em desuso, os fojos existentes na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês são monumentos à eterna luta entre o Homem e os rudes elementos que o foram moldando ao longo dos milénios de ocupação do território.
Passando a pouca distância da Capela de São João da Fraga, iniciamos a descida do imponente colosso granítico contornando os blocos e seguindo as mariolas que nos levariam ao Curral das Touças e, pouco depois, ao Curral de Currachã.
À medida que nos afastamos de Pitões das Júnias, e com os titânicos Cornos de Candela a ganhar corpolência, o cenário que ficava atrás de nós ia-se alterando numa metamorfose de tons plumbeos. Os céus rosnavam e ao longe os relampagos iam cruzando as nuvens, ecoando nas montanhas que se projectavam quase como que «a preto e branco» na linha do horizonte. Os Cornos da Fonte Fria desenhavam-se a tinta da China e os altos mais próximos tomavam tons de guerra.
Por vezes, o vento soprava mais forte arrastando consigo a chuva composta de grossas gotas que - de certa maneira - iam ajudando a marcha. Em parte do dia foi um constante "veste e tira" de impermeáveis que faziam aquecer os corpos.
Passando Currachã, entravamos no Corgo de Pala Nova, seguindo depois pela sua margem direita. A Capela de São João ia-se tornando num ponto branco em contraste com o horizonte escuro, uma âncora que humanidade por entre as paisagens selvagens e agrestes pelas quais já caminhavamos.
O carreiro ladeava então as encostas dos Cornos de Candela e perante nós surgia já um cenário de imensidão! Mesmo conhecendo aquelas paragens, com o Vale de Biduiças à nossa frente, a paisagem surge sem qualquer vestígio de intervenção humana. Na volta da montanha, despedimo-nos do cenário pitonense e entramos no embiente «selvagem» na Serra do Gerês. Todos aqueles lugares foram em tempos lugares de uma presneça humana quase constante: ora as vezeiras e a criação de gado moldava a paisagem, ora a queima das torgas nos dias do carvão, ora ainda o murmurinho longínquo da mineração e o calcorrear dos espaços por quem por ali procurava sustento; todas estas actividades iam moldando a paisagem, tornando-a especial e única que até mereceu ser distinguida como "Parque Nacional"!
Hoje, porém, são espaços de um silêncio profundo onde os currais e os carreiros são tomados pelo passar do tempo, pelo esquecimento e pela vegetação. São caminhos de uma memória que se perde e não se preserva, porque a quem dirige o "Parque Nacional" não lhe deve interessar a preservação História das vidas que por ali passaram. E assim se vai perdendo património e histórias de vida que moldaram a paisagem.
De certa forma, quando voltamos a encosta em direcção ao Curral de Fornalinho de Baixo, entramos numa paisagem que pode ser avassaladora para quem não esteja habituado a um certo desapego pelo conforto do dia à dia; e o que eu chamo de "Síndrome do Imenso" Ali, as marcas do Homem são escassas e o conhecimento do local acaba por fazer a diferença, pois mesmo os velhos carreiros vão-se escondendo e a confiança nas aplicações de horientação é baseada na boa fé e nos caprichos de quem vai criando os caminhos.
Por entre a paisagem rochosa na qual caminhamos, e seguindo já no Corgo de Candela, surge então o Curral de Fornalinho de Baixo, local para o já merecido repasto e descanso que iria retemperar as forças para a segunda parte da jornada que nos levaria até ao Salto do Lobo, já no cenáruio mineiro dos Carris.
Descansados, mas ainda com muito caminho a percorrer, seguimos para o Curral de Fornalinho de Cima, à vista dos caprichosos cornos graníticos de Candela. Ladeando o Outeiro de Cervas, passavamos então perto do Curral de Céu Rubio e entravamos no Corgo de Baltemão por entre um cenário de grandes carvalhos que resistem junto dos pequenos ribeiros. O caminho levou-nos depois para o Curral de Lamelas de Cima e entrar no Corgo de Lamelas onde corre o Ribeiro de Lamelas (que mais adiante irá tomar o nome de "Ribeiro de Biduiças"). Chegavamos então às proximidades dos Currais das Negras, mas o nosso objectivo não era subir para as Minas dos Carris. Assim, tomamos um carreiro que percorre a parede granítica sobranceira ao Marco G e ladeavamos os Currais de Matança, entrando depois na parte superior da Lamalonga.
As velhas mariolas levar-nos-iam à Corga de Lamalonga a partir da qual iniciavamos a subida para a margem direita do Salto do Lobo. Em 1941 as montanhas geresianas eram percorridas a pente fino na busca do volfrâmio. Em muitos locais o ouro negro acabaria por ser descoberto por entre o desespero dos dias de uma miserável existência. No entanto, a esperança de uma vida melhor desvanecia-se quando tamanho do filão não passava de pequenas amostras.
Tal não aconteceu no Salto do Lobo onde o filão era suficientemente grande para uma exploração economicamente viável e que mais tarde levaria às Minas dos Carris. No entanto, os primeiros meses ou a estadia de muitos nos píncaros serranos era passada em pobres abrigos de pedra solta à mercê dos elementtos.
Esta foi a última grande subida do dia, mas a felicidade das pernas foi de pouca duração ao saber que ainda nos esperavam cerca de 9 km de um caminho miserável que, descendo o Vale do Alto Homem, nos levaria - fibalmente - ao término desta jornada promovida pela RB Hiking & Trekking, na Portela do Homem.
Ficam algumas imagens do dia...
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)


























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