sexta-feira, 17 de abril de 2026

O «tesouro» megalítico da Lomba de Pau na Serra do Gerês?

 


Recentemente, tive a oportunidade de acompanhar o Ricardo Silva (arqueólogo do Município de Terras de Bouro) numa incursão à Lomba de Pau, na Serra do Gerês.

Este foi um desafio lançado para tentarmos desvendar as minhas suspeitas sobre a existência, ou não, de um monumento megalítico naquele local. Enviadas algumas fotografias ao Ricardo Silva - assim para «espicaçar»  o interesse e a curiosidade intrínseca de um apaixonado pela História e pelo passado do concelho de Terras de Bouro -, o isco estava lançado!

A jornada serrana começou na Portela de Leonte, local da inauguração em Outubro de 1970 do Parque Nacional da Peneda-Gerês e local onde foi implementada uma das primeiras Casas Florestais (ou Casas do Guarda) pelos Serviços Florestais em finais do século XIX. É nestes sítios onde nós vemos o potencial que o concelho tem para tirar partido da História que brota por todos os lados. Agora abandonada e em ruína progressiva, aquele velho edifício (na verdade, o segundo que ali foi construído) poderia ser aproveitado para uma exposição permanente sobre a presença dos Serviços Florestais na Serra do Gerês. Fica a ideia!



Encetamos caminhada carreiro acima. O caminho vai vencendo a Costa do Morujal e em pouco tempo chegamos a uma magnífica calçada que durante algumas dezenas de metros nos ajuda a conquistar altitude. Não sei quando a calçada terá sido construída: será de muitos séculos? Será uma obra dos Serviços Florestais em benefício das velhas vezeiras? Os registos são inexistentes e a memória destas obras turva-se no passado, perde-se assim a História.

Ziguezagueando encosta acima, o Pé de Cabril vai-se afundando na paisagem à medida que o horizonte se alarga para as serranias. O olhar vai abranger os contornos suaves da Serra Amarela e perder-se nos seus fundos vales ao mesmo tempo que as corgas mais próximas se tornam rasgos profundos a pouca distância. Nos nossos dias, ser-nos-á difícil entender a luta de verdadeira sobrevivência dos povos que por aqui andaram, aproveitando cada espaço, cada fértil chã para dali tirar algum sustento com o centeio ou com a pastagem dos seus animais.

O Prado do Vidoal é um belo exemplo disso mesmo. Como que um oásis verde por entre a rudeza do granito, ali surgem sinais de antigas ocupações. O actual abrigo pastoril, uma pequena cabana de pedra em duas águas, foi certamente um aproveitamento (em 1953) de um edifício mais antigo muito provavelmente construído pelos Serviços Florestais na sua tentativa de criar pela serra pequenos abrigos para os seus funcionários (caso semelhante existe nos Currais de Lamas de Homem e, o mais evidente, nos Prados da Messe - A casa dos Serviços Florestais nos Prados da Messe, 17 de Novembro de 2022). Com o passar dos anos e as diferentes orientações e políticas florestais, estes pequenos edifícios desapareceram, degradaram-se e foram sendo esquecidos ou aproveitados (Prados da Messe) para aumentar os abrigos pastoris.




Ainda no Prado do Vidoal são visíveis restos de outros construções ainda mais antigas (Notas soltas sobre os abrigos pastoris do Prado do Vidoal, 12 de Dezembro de 2024).

Passando o Vidoal, e fazendo ainda referência aos Currais do Cubato e de Lavadouros, agora abandonados, seguimos na direcção do Colo da Preza, tomando depois caminho para a Chã da Fonte. Este topónimo é interessante e, na verdade, poderá surgir noutros locais no Parque Nacional (Serra Amarela, por exemplo). Porém, neste local a sua explicação poderá parecer óbvia devido à presença de uma fonte um pouco mais acima já perto da Portela de Sineiros. Na verdade, não é essa a fonte (a Fonte da Borrageirinha) que dá o nome ao local, mas sim uma fonte que ali terá existido e que agora está abandonada porque está seca ("Chã da Fonte" - a razão de um nome?, 17 de Abril de 2023).



O nosso objectivo já não estava longe, porém ainda teríamos de passar a Portela de Sineiros e descer para as Lamas de Borrageiro, seguindo depois para a Chã do Caçador à sombras das Torrinheiras e finalmente, descer para a Lomba de Pau.



Sobre o tema da possível anta na Lomba de Pau, já havia elaborado um texto neste blogue, vide Um estudo descontraído do dólmen (ou cista) da Lomba de Pau (2 de Abril de 2025). Depois da «descoberta», o local tornou-se, de certa forma, um ponto de visita frequente, levando-me a escrever outros textos, tais como O primeiro abrigo pastoril do Curral da Lomba de Pau (25 de Fevereiro de 2026). O local é todo ele um potencial de História, pois já tinha sido alvo dos textos A Mina de Lomba de Pau (26 de Fevereiro de 2019) e Pequenas explorações mineiras na Serra do Gerês (2 de Abril de 2021), na temática da história mineira na Serra do Gerês.

Ora, em "Um estudo descontraído do dólmen (ou cista) da Lomba de Pau", referia que já há "muito tempo que considero que os restos de um velho abrigo pastoril na Lomba de Pau, na Serra do Gerês, são na realidade os restos de um dólmen, ou cista, não estudado ou mesmo referenciado."

Na altura chegava "a esta conclusão através da análise visual do local e pelo facto de o abrigo pastoril que se encontra nas proximidades, apesar de apresentar a normal estrutura em falsa cúpula típica dos abrigos pastoris da Serra do Gerês, ser construído utilizando grandes blocos graníticos, ao contrário das inúmeras pedras que constituem os variados abrigos pastoris que podemos apreciar nas serranias geresianas. Estes grandes blocos graníticos terão sido canibalizados do dólmen anexo."






Encontrando-se perto do marco triangulado de mesmo nome, a Lomba de Pau é uma chã de pastoreio localizada a 1.330 metros de altitude no maciço central da Serra do Gerês, tendo uma área de cerca de 5.900 metros quadrados, a zona caracteriza-se por uma área de pastoreio e por várias zonas húmidas de turfeira. Presentemente, o Curral da Lomba de Pau não se encontra limitado por um muro de pedra solta, havendo no entanto vestígios deste, mas está servido por um forno pastoril cujas pedras foram consolidadas por cimento (possivelmente já nos anos 50 do século passado).

Na visita que foi feita ao local com o Ricardo Silva, de imediato lhe chamou a atenção vários pormenores que possam ter constituído estruturas megalíticas já degradadas, mas outras que possam constituir estruturas dolménicas não estudadas e ainda intactas. No total, aponta-se para quatro ou cinco locais que podem fazer daquela chã um interessante local de estudo arqueológico.

Em relação à estrutura mais evidente, e que foi o foco da sua atenção, é mesmo possível que - apesar de em tempos ter certamente sido utilizada como abrigo pastoril - esta não tenha sido estudada (certamente que não o foi) e como tal não ter sido escavada de forma científica.

Estamos assim perante um verdadeiro «tesouro» megalítico na Serra do Gerês? Bom, na verdade não será fácil dizer sem que o local tenha a atenção que merece! Sabemos que a atenção que foi dada ao que foi estudado, limita-se a duas características: já há muito que está «à vista» e está dependente dor orçamentos existentes! É a nossa triste realidade...

Seria interessante vermos uma decisão que levasse a que o local fosse estudado de forma séria e talvez tentar estudar a possível relação com as figuras que a 11 de Julho de 2012 tive a felicidade de descobrir e que constituem uma série de figuras rupestres até então desconhecidas (veja-se o texto As figuras rupestres de Absedo, 26 de Maio de 2016). Datadas entre IV e o I milénios a.C., estas figuras rupestres são um dos grandes enigmas da Serra do Gerês.

No dia em que pela primeira vez vi as figuras de Absedo vivi o êxtase da emoção da descoberta e a prova definitiva que a Serra do Gerês tem muitos segredos para nos revelar. O mesmo volta a repertir-se com o dolmén da Lomba de Pau e em todas as caminhadas que faço às Minas dos Carris que será sempre uma História por contar.

Há alguns anos, e em visita ao (curral do) Prado disse ao jovem Francisco Ascenção - a propósito das ruínas dos velhos abrigos pastoris lá existentes -, que não devemos ter receio de (por vezes) deixar a imaginação voar e de especular. Depois podemos até chegar à conslusão de que o tema da nossa imaginação e consequente especulação, pode não nos levar a lado algum, mas assim não se perdeu a oportunidade da descoberta de algo de novo e de ajudar a completar o puzzle da História deste território.

Agradeço ao Ricardo Silva a confiança que me deu ao me acompanhar nesta visita à Lomba de Pau, após a qual estão prometidas outras visitas a locais onde a imaginação voa e o fascínio da História nos oferece o extâse da descoberta.





Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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