terça-feira, 1 de março de 2016

Vamos aos factos e às mentiras


Alguns factos e algumas mentiras relacionadas com o resgate do dia 9 de Janeiro de 2016 que ocorreu nas Minas dos Carris e no Vale do Homem...

Facto... três montanhistas iniciam uma caminhada na Portela do Homem em direcção ao Pico da Nevosa passando pelas Minas das Sombras;

Facto... Depois de passarem as Minas das Sombras e devido às más condições meteorológicas, os três montanhistas decidem não ir ao Pico da Nevosa e dirigem-se para as Minas dos Carris tentando-se abrigar da intempérie que vai piorando;

Facto... Depois de se abrigarem nas Minas dos Carris, os três montanhistas são surpreendidos pela chegada de três pessoas em muito más condições físicas, uma delas em quase desmaio;

Facto... Depois de prestarem auxílio a essas três pessoas (dando roupas secas, bebidas quentes e apoio anímico), solicitam o socorro através do número de emergência 112;

Facto... São accionados os meios de emergência e ao mesmo tempo (ou mesmo antes...) são avisados os meios de comunicação social com a falsa informação de que estão seis pessoas perdidas e a necessitar de resgate na Serra do Gerês - são accionados meios de Arcos de Valdevez, Braga, Fafe, Salto, Montalegre, Ribeira de Pena (!!!), Boticas (!!!) e Terras de Bouro;

Facto... Com a sede de sangue e movidos pelo sensacionalismo, são movidos para a Portela do Homem vários meios de comunicação social para fazer uma cobertura em directo;

Facto... Para resgatar «seis» pessoas são accionados 80 bombeiros e dezenas de viaturas;

Facto... Parte do dispositivo accionado é enviado para a zona da Lagoa do Marinho e a partir daqui é enviada uma equipa de bombeiros para socorrer as pessoas nas Minas dos Carris;

Facto... Os bombeiros vão mal preparados para o resgate e depois no local chegam à conclusão que terão de descer o Vale do Homem, pois a evacuação pelo Curral de Lamas de Homem - Quelhão - Coucelinho - Couce, é impraticável por razões de segurança e mobilidade do resgate;

Facto... Os três montanhistas que prestaram o socorro inicial aos três elementos em apuros têm de auxiliar os bombeiros no transporte de um dos elementos deste grupo;

Facto... As condições meteorológicas vão piorando!

Facto... É iniciada uma descida pelo Vale do Homem, o resgatado em maca pesa mais de 100 kg e bombeiros e montanhistas revezam-se no transporte da maca;

Facto... Os montanhistas prestam auxílio ao membro mais novo do grupo resgatado;

Facto... A descida do Vale do Homem é feita em condições difíceis devido ao miserável estado do antigo estradão mineiro, devido ao cansaço dos bombeiros e devido às más condições atmosféricas;

Facto... Os jornalistas são afectados pelo 'síndroma do Correio da Manhã';

Facto... Após várias horas. o GIPS é accionado para auxiliar no resgate;

Facto... Após várias horas de esforço, o grupo finalmente chega à Portela do Homem para gáudio dos jornalistas já aborrecidos pela falta de sangue!

Facto... Os três elementos que prestarem socorro inicial às três vítimas são identificados pela GNR que os informa que é uma situação normal ("...formalidades e burocracias...");

Facto... A GNR elabora um auto de notícia por contra-ordenação sem escutar os factos que deveriam ser relatados pelos intervenientes e solicita informações ao ICNF, IP tendo por base fantasias...;

Mentira... Os três caminheiros não foram identificados a caminho dos Carris pela GNR, mas sim na Portela do Homem já depois de colaborarem na evacuação dos três sinistrados;

Mentira... A GNR parte do princípio que os montanhistas utilizaram o caminho mineiro do Vale do Homem para chegar às Minas dos Carris, coisa que não aconteceu e como tal não deveriam ter solicitado a respectiva autorização ao ICNF, IP;


Constatação... No Artigo 12º, Ponto 1, alínea i) do Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês, é indicado que "Nas áreas de protecção total a actividade humana só é permitida: (...) Situações de risco ou ocorrência de acidente grave ou catástrofe." Isto é, em condições de emergência a zona de protecção total pode ser percorrida sem haver a necessidade de se solicitar uma autorização prévia ao ICNF, IP!


Facto... o ICNF, IP executa um Processo de 'Contraordenação' tendo por base as informações inverdadeiras prestadas pela GNR;

Facto... o ICNF, IP acredita em mentiras e fantasias, e como tal não tem o cuidado de escutar os intervenientes nas ocorrências;

Tendo em conta tudo isto... tenham vergonha na cara e peçam desculpas!

Fotografia © Global Imagens

8 comentários:

Mauro Gonçalves disse...

Inacreditável. Todos os envolvidos na mentira deviam ser identificados, e eles sim alvo de processo disciplinar... Que vergonha.

Carlos M. Silva disse...

Olá Rui.
Se de facto essa é a descrição factual, reitero o comentário da entrada anterior.
Suponho que o processo acabará arquivado, confirmando-se o que escreves, pois que imagino que a abertura de auto de contra-ordenação seja um passo apenas para o posterior arquivamento, já que essas coisas seguem escadas íngremes de hierarquia.
Se não acabar ...imagino que se tenha de fazer algo, como petição, ou algo mais drástico, pelos próprios e/ou com outros.
De todo o modo, na tua descrição há uma coisa que na primeira e segunda leitura me espantou: alguém de 100 kg foi para o Gerês naquelas condições climatéricas (dou de barato o caminho que fez..)? desculpem a expressão, mas só posso imaginar que metade do peso fosse do cérebro? ok ..há muita gente de 100 kg de músculo, mas com músculo ou sem ele, a gravidade, a maldita gravidade (desconto a neve!!, e o frio), está sempre presente. E cada kg ..ainda é um kg. Um kg a subir ..continua a ser um kg a subir! Qual Sisífo!!!
Carlos

Gmvr Gmvr disse...

Boa noite Chamo-me Carlos Gomes e desempenho neste momento funções de Presidente da FPME.
Li com atenção o relato que fez sobre o "resgate" realizado na proximidade dos Carris, Gerês e que tanta barulho provocou nos "média" portugueses". Este acontecimento noticiados, creio eu, levianamente, dramatizando e alterando os factos, tem prestado um mau serviço a todos aqueles que com, regularidade, continuam a fazer da prática do montanhismo o seu desporto favorito.
Estas situações que deverão ser evitadas são uma oportunidade importante para alguns lóbbys se afirmarem em Portugal.
Para o ICNF é certamente uma arma importante para aumentar a restrição da prática do montanhismo nas AP. Esquecendo que a legislação publicada sobre esta matéria nos últimos anos tem sido o factor principal no aumento de algumas situações de risco.

Nesse sentido e dado que apreciei de forma muito positiva seu relato pergunto-lhe se autoriza que o coloque no site das FPME acompanhado de um curto comentário que não será muito diferente do que escrevi.
Muito obrigado
Cordiais cumprimentos
Carlos Gomes

Rui C. Barbosa disse...

Com certeza, Carlos!

Gmvr Gmvr disse...

Obrigado Rui Barbosa
Como não consigo copiar o texto será que o pode enviar para o meu mail: passamontanhas@hotmail.com
Obrigado Carlos Gomes

Reinaldo Baptista disse...

Julgo que seria louvável pedir aos meios de comunicação para reporem a verdade sobre essa situação-

Ricardo Lopes disse...

Boa noite. Chamo-me Ricardo. Gostaria de fazer o seguinte comentário, atribui veracidade a tantos factos, que até dá a ideia que também esteve no local e que acompanhou todos os acontecimentos ao segundo. Se não esteve presente, não percebo qual a ciência exacta que pratica para concluir pela certeza de tantos factos. Ou será que é amigo dos montanhistas e ficou incomodado com a notificação da coima. Se os montanhistas apenas se deslocaram à zona de protecção total para apoiar o resgate, poderão argumentar esse facto em sede de defesa no âmbito do processo contraordenacional. Parabéns pelo seu blog. Cumprimentos

Rui C. Barbosa disse...

Caro Ricardo

Estive no local, percorri o Vale do Homem nesse dia e sim, segui os factos quase ao segundo. Depois disso, tive o cuidado de me informar sobre o que aconteceu junto dos montanhistas que prestaram o socorro, coisa que a GNR não fez e o ICNF muito menos. Confirmei a dificuldade que os bombeiros tiveram e a resolução de parte do problema por parte do GIPS.

Os montanhistas não se "deslocaram à zona de protecção total para apoiar o resgate," os montanhistas efectuaram o resgate inicial e alertaram o socorro necessário. Posteriormente, os bombeiros solicitaram ajuda aos montanhistas para transportar a maca e dar apoio às operações de resgate.

Obrigado pela suas palavras sobre o blogue.