sábado, 1 de setembro de 2012

Trilhos seculares - Porta Ruivas... no coração do Gerês

Haveria melhor maneira de terminar o mês de Agosto do que com uma caminhada destas? Talvez, mas visitar o coração do Gerês e sentir o seu lado mais «selvagem», o seu lado mais «wilderness», foi como que voltar aos tempos da descoberta e da aventura. Porém, não é isso que cada caminhada na Serra do Gerês representa?

Porta Ruivas esteve desde sempre nos horizontes do Gerês que eu conhecia. Sim, porque eu não conheço o Gerês... vou conhecendo e preenchendo as peças que vão faltando deste puzzle. Mas mesmo assim, a cada caminhada, a cada passeio, a cada aventura (e por contradição que pareça), parece que fico a conhecer cada vez menos!!! Isto faz-me lembrar um filme de ficção-científica relacionado com o tempo e o espaço em que cada pessoa vivia. havia os construtores do espaço que estavam sempre uns segundos à nossa frente e que iam construindo os locais onde nós estávamos em determinado tempo. Como estávamos num determinado sítio, eles não se preocupavam em construir os locais para onde cada um de nós não ia. Era algo do tipo "se não o vês, é porque não existe..." ou algo semelhante.

Muitas vezes as coisas passam pelos nossos olhos e nós continuamos sem vê-las. Por isso, é que cada caminhada aos Carris é sempre uma novidade. Quer se queira quer não descobre-se algo novo. E quando visito o Gerês (ou outra montanha qualquer) tento sempre descobrir algo de novo... bom, quanto mais não seja algo de novo para mim!




Como estava a dizer, Porta Ruivas esteve sempre nas minhas recordações visuais do Gerês, algo de icónico que marca uma zona. «Enganado» pelas cartas militares, chamava-lhe de 'Sombrosas' e o orónimo 'Porta Ruivas' foi surgindo pelo contacto com as gentes locais, verdadeiros mestrados e enciclopédias da serra que guardam com eles os segredos de uma micro-toponímia em risco de se perder. Assim, já há muito tempo que estava decidido um dia visitar aquela zona, e o dia chegou, bem como a oportunidade, no último dia de Agosto de 2012.

De facto, visitar Porta Ruivas implica uma caminhada difícil (e algo longa dependendo do local de onde se inicie). Escolhemos começar bem cedo desde a Portela de Leonte, local de partida de tantas caminhadas. O trajecto inicial é muito conhecido: a subida em zig-zag até ao Vidoal tendo o Pé de Cabril pelas costas e a sensação maravilhosa de ver a nascer da Terra os píncaros de Pé de Medela e dos Carris de Maceira. Já vencido o desnível, a primeira paragem (vou-lhe chamar Chã da Caveira que me desculpem as gentes do Gerês!), permite-nos ter uma visão ampla da parte Oeste do Vale do Rio Gerês até à albufeira da Caniçada, com o olhar a percorrer as encostas de Iztriz, Pé de Cabril, Leonte, Albergaria e lá longe a Serra Amarela com as suas antenas do Muro na Louriça.

Continuando o percurso em pouco tempo chegamos ao Vidoal com a sua cabana de pastores e os dois carvalhos característicos. O trajecto leva-nos de seguida à Preza (Freza), com a sua vista para o Camalhão e Teixeira, e depois à Chã da Fonte. Ainda na Preza notei a saída de umas curiosas mariolas para o lado esquerdo do vale... razão (se é que precisasse) para mais uma visita! A Chã da Fonte é a base de partida para o «ataque» final ao que será um dos pontos mais altos de todo o percurso. Seguindo as velhas (e não tão velhas) mariolas, aquele velho trilho vai-nos fazer passar pelas Lamas do Borrageiro e de seguida pela Lomba de Pau, antes de iniciarmos a descida para o Curral do Conho. É no início desta descida que vislumbramos pela primeira vez no percurso o nosso destino final, Ponta Ruivas! Daqui, a paisagem é soberba e a pujança do Gerês atinge um de muitos esplendores. Desde o marco triangulado da Lomba de Pau passando pelas Albas, Cantarelo, Torrinheira, Cidadelhe, Borrageiro (Borrageiras), Porta Ruivas até à vizinhança dos píncaros próximos da Meda de Rocalva, a paisagem é um quadro natural de beleza estonteante. Diz-se que os corações mais fracos não aguentam tamanha afronta de sensações de espanto... o Gerês tem destas coisas!



O Curral do Conho, tal como muitos dos currais na Serra do Gerês, é como que um oásis no meio do caos granítico da serra. Desta feita um oásis pleno de vida e foi aqui onde avistamos um esguio corço que se abrigava do vento por detrás do rochedo que dá o nome ao curral. O corço fugiu, ligeiro, à nossa aproximação... Depois de uma curta paragem, retomamos o percurso descendo até ao Ribeiro do Porto das Vacas e daqui passando entre o Curral da Pedra e os Prados da Messe, dirigimo-nos para a passagem que marca como que uma fronteira para o outro Gerês. Quem faz este percurso que se inicia nos Prados da Messe e nos leva para os domínios do Borrageiro e Lagoa do Marinho, não deixa de notar a sensação de estar a deixar para trás uma parte do Gerês, entrando no entanto numa outra parte mais agreste. É aqui que o Gerês se torna mais selvagem, mais rude, mais bruto... uma terra onde paira o nada e o silêncio preenche os espaços não deixando lugar para nada mais. Aqui, somos como que estranhos numa estranha terra, onde os abrigos surgem deslocados do lugar, onde as mariolas marcam locais sem que isso nos faça sentido.

Se muitos dizem que em Portugal não existem os grandes trilhos de montanha que vemos nas grandes cordilheiras noutros países, é porque nunca percorreram aquele chão; nunca se espantaram com as escarpas das Fechinhas que vão ganhando forma e altura, saindo da linha do horizonte; ou imaginaram os velhos faróis de outros contos acesos no alto da Meda de Rocalva. Por este trilho, todas essas sensações nos invadem a alma e o espírito da descoberta vai-se renovando a cada passo que damos, a cada curva no caminho, a cada horizonte próximo que vencemos só para constatar que por detrás deste estará um mais difícil de vencer. Caminhar no Gerês é isto... a descoberta no seu estado puro!




Atravessando o coração do Gerês, o caminho deixa para trás os Prados da Messe onde ruidosas manadas de vacas vão pastando pachorradamente. O nosso objectivo está mais próximo e desloca-se à nossa direita. De facto, não sabia com certeza o caminho para lá... teríamos de descobrir as seculares mariolas que nos indicariam o caminho. Mas tendo o objectivo no horizonte, a coisa tornava-se mais fácil... ou pelo menos era isso que pensávamos. A uma primeira tentativa, deparou-se perante nós um imenso vale ao qual teríamos de rodear para começarmos a nos aproximar de forma definitiva. No entanto, um olhar de lince do grande Moreira fez vislumbrar esquecidas mariolas no outro lado da encosta... e no nosso lado também!!! O velho trilho ficava assim para trás e a abordagem que havia pensado foi esquecida em troca de uma outra que sem dúvida traria perspectivas desconhecidas. Ao iniciar a descida lá reparei num velho abrigo de pastores já há muito tempo abandonado e próximo deste um curral conquistado pelos fetos e pela vegetação. Não sei o nome daquele curral junto da nascente de um dos ribeiros que mais lá para o fundo vão dar origem ao Rio da Touça.

Atravessado o ribeiro, e refrescada a sede, iniciamos então a subida final para Porta Ruivas... e que subida foi esta. O engenho dos homens serranos tornou um declive acentuado num percurso que se vai vencendo sem dificuldade através de um carreiro escondido pela vegetação rasteira, mas marcado por mariolas seculares. Em longos minutos de contemplação da paisagem que se ia formando aos nossos pés, fomos ganhando altitude e finalmente chegávamos a Porta Ruivas, a crista granítica que há muito desejava visitar. Agora via a paisagem os locais que me permitiram ver o outra lado do Gerês e o Vale das Fechinhas ganhava ali um lugar de destaque nunca imaginado. Quem o percorre dificilmente se apercebe da sua forma em 'U' perfeita, marcas dos glaciares que em tempos há muito idos rasgaram e marcaram a paisagem geresiana.


Porém, faltava ainda uma última descoberta... o Curral de Porta Ruivas. Este acabaria por surgir umas centenas de metros mais adiante à sombra dos picos graníticos que tanto caracterizam aquela zona da montanha. O curral em si é um lugar mágico com o seu pequeno velho carvalho de pequenas folhas e um riacho que nos dá uma água fresca, verdadeiro ouro na montanha e em dias quentes. Sem dúvida um lugar único de pernoita que nos faz voltar para uma noite de Inverno estrelada!

A partir do Curral de Porta Ruivas podemos vislumbrar muitas características peculiares da Serra do Gerês. Desde o promontório granítico do Borrageiro e das Quinas de Arrocela até ao Fojo de Alcântara, do alto de Palma até ao domínios de Fafião, dos Ovos à Meda de Rocalva e Roca Negra, do Curral do Conho às Albas e Fichinhas lá no fundo do vale, dos limites do Cantarelo a Cidadelhe passando pela Torrinheira e voltando de novo ao Borrageiro. Depois uma imensidão a perder de vista, uma paisagem de nos cortar a respiração e um mundo de sensações sem fim... isto é o Gerês!



Depois do repasto montanheiro no pequeno curral, era chegada a hora do regresso. Optámos por seguir o caminho que estava originalmente previsto para a chegada (uma outra opção era descer em direcção ao estradão florestal que nos levaria ao Porto da Lage). O caminho abandona o curral em direcção a Norte e acompanha paralelamente a Corga de Valongo deixando esta para trás em certo ponto e entroncando no carreiro que liga os Prados da Messe e a Corga da Arrocela (seguindo então para a Corga das Mestras e depois para o Borrageiro).

Este caminho não apresenta grandes declives e os poucos e pequenos que vão aparecendo surgem ao atravessar as pequenas corgas. O caminho acompanha pequenos vales e bordeja a meia encosta as elevações que vão surgindo, ganhando ou perdendo altitude à medida e onde a progressão será mais fácil. Foi num destes pequenos vales que há muitos anos os homens serranos construíram uma pequena casa que nesta altura será difícil adivinhar a sua função. Abrigo? Pequeno armazém? Moinho aproveitando o pequeno ribeiro? Não sei, mas são estes segredos que ajudam a tornar o Gerês numa montanha única em Portugal.

Depois de voltar a atravessar a «fronteira» para o Gerês «de cá», decidimos não fazer o regresso através do Curral do Conho e enveredamos pela Corga do Ribeiro do Porto das Vacas. Ao cimo, tomámos o caminho para Sul em direcção ao Curral de Lomba de Pau passando ao lado do extremo Oeste do íngreme Vale de Maceira. No Curral de Lomba de Pau, o abrigo dos pastores estava pronto para mais uma noite de frio dando abrigo aqueles que mantêm a secular função de guardar o gado da vezeira ancestral. Após uma pequena paragem, encetamos o caminho final atravessando a Lomba de Pau, chegando às Lamas de Borrageiro, descendo à Chã da Fonte e Preza, e passando pelo Vidoal onde as sombras já se alongavam no chão com o Sol a cair para Poente e a sua luz do final da tarde a inundar os vales atrás de nós.

E foi assim, mais um dia pelas serranias geresianas. Ficam mais algumas fotografias...






































Fotografias: © Rui C. Barbosa

1 comentário:

M.Orosa disse...

Relato extraordinário de mais um dia glorioso no Gerês profundo. Obrigada, Rui, pela partilha.
Ao ler estas linhas senti como se tivesse lá estado, mas com pena de que a realidade fosse outra.
Abraço.