quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O património perdido da Peneda-Gerês (III)

Será uma das casas abrigo ou casas florestais mais conhecidas em todo o Parque Nacional da Peneda-Gerês e devido à sua visibilidade parece-nos um edifício quase eterno. Porém, isto é o que acontece quando nos habituamos a ver algo sempre que passamos por um determinado local; tal como acontece connosco, o tempo vai deixando lentamente as suas marcas e para nós a casa sempre esteve assim.

Infelizmente a marca dos anos, e não só, está lá. As paredes vão-se degradando, portas e janelas vão caindo tanto por efeitos dos elementos como, e quase principalmente, por efeitos do pequeno (e grande... será que se pode dizer assim?) vandalismo.

A porta partida permite-nos visualizar o seu interior e notar que ali só a passagem dos dias, das estações tem cobrado os anos ao edifício A ruína vai ganhando lugar e o estuque das paredes vai desnoronando. Lentamente é o nosso património que se vai perdendo. Sim, porque aquele património não é só da Peneda-Gerês, é da nossa memória colectiva... é algo que, voluntariamente e de conscientemente, vamos deixando degradar como se fosse a coisa mais natural do mundo. Alguém disse que "...este país não é para velhos"; eu também digo "...este país não é para coisas velhas, nem que seja a nossa memória!"

A Casa de Leonte está situada na Portela de Leonte no final da Vale do Rio Gerês e no início do Vale de Albergaria, coração e pulmão do PNPG. É ali que começamos a ter a sensação de estarmos a entrar em algo único, precioso. É ali que a Natureza começa a mostrar a sua grandeza.

Habitável até há cerca de 10 anos, foi abrigo das denominadas 'Brigadas de Voluntários', grupos de estudantes que voluntariamente no Verão auxiliavam o PNPG em diversas tarefas, mesmo na primeira fase das mal fadadas portagens de acess à Mata da Albergaria. O seu estado já na altura não era muito bom o que levou mesmo a transferência dessas brigadas para o antigo edifício do Vidoeiro onde existiam camaratas para grandes grupos.

A Casa de Leonte foi degradando. Em tempos residência de um guarda florestal, não conserva hoje um resquício da sua memória vítima de um alzheimer forçado.

Está situada a 41º 42'02N - 8º 08'50O a uma altitude de 877 metros (GPS).

Fotografias: © Rui C. Barbosa

1 comentário:

Alexandre Matos disse...

As minhas melhores memórias de infância, passam por esse sítio e essa casa, na zona do antigo parque de campismo, onde com os meus pais há cerca de 35 anos acampava regularmente, e ainda me lembro de junto dessa casa, sentado num tronco, ver uma víbora enrolada em cima dele, ao meu lado. Chamei o guarda, que morava nessa casa com sua mulher que apanhou a bicha e colocou dentro de um frasco para eu ver. O cheiro do pão feito nela e a lenha queimada, impregnou-se em mim por toda a vida, e quando muitos anos mais tarde voltei ao Gerês, tudo aflorou,...agora não mais haverá separação.Se eu conheço magia, essa mata, a água as pedras as árvores e os cheiros, são isso.Naturalmente partilho do teu sentimento, Rui, de perda, ao ver certas coisas tão bonitas irem-se desgastando assim numa zona onde isso não devia ser possível. A casa de leonte é um símbolo impregnado no meu código de infãncia, e como tal, sempre terá um lugar especial.Obrigado pelo post e abraço.