A Lua Cheia de Julho nasce nas serranias próximas do Campo do Gerês.
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
A Lua Cheia de Julho nasce nas serranias próximas do Campo do Gerês.
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Porque passado mais de um mês somente uma das entidades às quais foi enviado este texto me respondeu, decidi aqui publicá-lo na vã esperança que isso possa ajudar a salvar vidas, fazendo um pouco de pressão para que alguma atitude seja tomada em relação a este problema.
Ex.mos Senhores (as)
Recentemente, alertei os serviços do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) para a perigosidade da existência de um poço mineiro a céu aberto entre as ruínas das Minas dos Carris.
Em boa hora, os serviços do ICNF/PNPG procederam à colocação de avisos de perigo junto deste poço, com uma profundidade de cerca de 150 metros, além de procederem à acomodação da frágil rede existente em volto do mesmo.
Porém, e, na verdade, estas acções são apenas «um penso rápido numa fractura exposta», pois o local continua - cada vez mais - a constituir um perigo para quem visita o local e para os animais (selvagens ou domésticos) que percorrem aquelas paragens. Sabendo ainda que cada vez mais assistimos a um aumento do número de visitantes não preparados para actividades de montanha e com uma diminuída noção de risco, a situação torna-se num acidente à espera de acontecer.
Recentemente, e durante uma visita guiada que tive oportunidade de realizar no velho complexo mineiro, explicava aos meus clientes o perigo que aquele local representa, nomeadamente as duas colunas que faziam parte do sistema do velho guincho de extracção ali existente no tempo da mineração. A base de suporte destas colunas é já quase inexistente e o mais pequeno contrapeso fará com que se despenhem no poço.
Ora, minutos após explicar o perigo do local e de citar um possível exemplo de como alguém poderia subir uma das colunas para uma fotografia no Instagram ou Facebook, fui deparado com um momento arrepiante onde um incauto visitante subia a uma dessas colunas para observar o poço e fazer fotografias com o seu telemóvel, além de outros passarem a rede e se aproximarem sobre o poço! As fotografias que envio mostram o sucedido.
Penso que seria pertinente aumentar a segurança do local ao fazer despenhar as colunas e ao colocar uma vedação mais alta em torno da área em questão, colocando também sinalética de perigo adequada. De notar que a vedação existente não protege a parte Poente do poço, apenas tentando impedir o acesso ao mesmo pela parte Nascente.
Espero assim contribuir para a melhoria da segurança do local e melhorar a visitação do Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Com os melhores cumprimentos,
Este correio electrónico foi endereçado com conhecimento ao:
- Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas
- Parque Nacional da Peneda-Gerês
- Município de Montalegre
- Presidente da Câmara Municipal de Montalegre
- Município de Terras de Bouro
- Protecção Civil de Terras de Bouro
- Unidade de Emergência de Proteção e Socorro - Guarda Nacional Republicana
- Unidade de Emergência de Proteção e Socorro da Guarda Nacional Republicana - Posto de Busca e Resgate em Montanha do Parque Nacional Peneda-Gerês
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Uma caminhada curta, mas com um objectivo bem definido: tentar encontrar o possível abrigo pastoril existente em Mouruás, Serra do Xurés, que era utilizado por uma das vezeiras de Vilarinho da Furna.
A caminhada iniciou-se na Portela do Homem, Serra do Gerês, descendo por um dos caminhos existentes que bordeja as encostas d'As Xeadelas até se cruzar com o traçado da Geira Romana perto da mutatio de Mouruás. Nesta zona, uma larga chã, podemos encontrar o que parece ser um velho muro de pedra solta típico da delimitação de um curral. Assim, encetou-se a busca de um possível abrigo pastoril Não havendo muito sucesso na sua localização, chamou-nos a atenção um pequeno amontoado de pedras que poderá fornecer uma pista da possível localização de um abrigo pastoril.
O curral de procuramos, está indicado por Jorge Dias na sua obra "Vilarinho da Furna - Uma aldeia Comunitária" e por Manuel de Azevedo Antunes "Vilarinho da Furna - Memórias do Passado", sendo designado como "Curral de Mouroas" (Curral de Mouruás).
Continuando o percurso já em direcção à Portela do Homem através da Geira, passamos pelo Curral de Lamas do Picão, no qual encontramos o seu abrigo pastoril já alagado.
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Nos velhos postais identificada como "Cascata das Caldas", Serra do Gerês, e junto à vila das Caldas do Gerês no lugar do Zanganho, é também conhecida como "Cascata do Zanganho".
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Este foi um regresso aos caminhos percorridos pelos seculares trajectos das vezeiras serranas, marca indelével na montanha e testemunho milenar da presença do Homem no território que hoje faz parte do Parque Nacional da Peneda-Gerês.
A 'vezeira' é um movimento de transumância característico na Serra do Gerês que usualmente decorre entre Maio e Setembro e no qual a guarda dos rebanhos e manadas é feita à vez, juntando todos os animais pertencentes a uma comunidade. Movimento com profundas raízes nos povos serranos, marcou a montanha tirando partido dos currais e prados ali existentes, e criando-se uma rede de caminhos (carreiros, carris) que facilitam a deslocação entre estes locais.
Foi baseado nestes caminhos que há já vários anos a Vezeira de Fafião criou um percurso - o Trilho da Vezeira de Fafião - que permitia a visita a vários destes currais ao longo da área usualmente por ela utilizada para o apascento do gado. Assinalado apenas com mariolas, o percurso tem uma extensão de mais de 25 km e penetra profundamente nos vales dos geresianos, naquilo que os fafiotos designam como "Serra de Fafião".
A jornada deste dia teve como objectivo percorrer parte deste percurso, mas deixando de fora a passagem por Fechinhas, Rocalva e Vidoeirinho, fazendo a subindo do Vale do Rio Laço directamente para o Estreito.
O dia começou no estacionamento do Miradouro de Fafião (Portela do Monte) e depois seguimos pela estrada florestal que nos leva até ao abrigo do Vidoal passando pela Fonte do Galo. No abrigo do Vidoal, vamos tomar um carreiro mariolado que nos vai embrenhar no Vale do Rio Fafião.
Como quase em todos os caminhos, o início da jornada é sempre um pouco ingrato quanto mais não seja porque a parte inicial do percurso, que se faz por um manhoso estradão, não é meiga para a morrinha que ainda não se dissipara. Aos poucos, deixamos para trás os parcos sons da aldeia que aos poucos desperta.
A terra batida vai-nos levar cada vez mais perto do vale e aos poucos fica para trás o pinhal que adorna a paisagem. Ali ao lado, abre-se como um rasgão na Terra, o vale por onde o Rio Fafião se entretém a esculpir pacientemente a paisagem. De facto, para quem já fez o percurso, esta parte não trará nada de novo, mas a ânsia de horizontes mais vastos e de avistar os píncaros que rasgam os céus, impele-nos a chegar ao ponto onde a água jorra da rocha e num ápice todo o cansaço inicial parece desvanecer, não fosse a forte batida do coração do peito e os pingos de suor que já insistem em escorrer pelo rosto. Aqui é a Fontela do Galo, e Fafião não passa já de um aglomerado de casas imbuído na paisagem.
O caminho continua e leva-nos a chegar ao Vidoal onde subitamente termina para dar lugar à verdadeira rudeza da serra. Num equilíbrio nem sempre favorável ao seu lado, a serra deixou-se adaptar às condições do Homem que nas suas entranhas esculpiu passagens para os prados e lugares onde amanharia o seu sustento. Mais adiante, o Trilho da Vezeira de Fafião vai-se dividir em dois; decidi fazer o denominado 'Caminho das Vacas', criado devido à dificuldade em ultrapassar alguns passos que se foram formando no carreiro mais em baixo. Este caminho não será muito aconselhável aos mais sensíveis devido às vertigens ou à incapacidade de lidar com espaços curtos.
Não há fotografia que consiga transmitir a sensação de se estar a entrar nas entranhas de algo maior do que nós. Se lá, no fundo, o rio corre intensamente barulhento, lá no alto os cumes parecem faróis que nos indicam o caminho a seguir. O carreiro serpenteia pela encosta marcado com as velhas mariolas. Em certas zonas a vegetação começa a tomar o seu lugar e as torrentes de água poderão em certas alturas do ano dificultar a passagem em alguns regatos, mas rapidamente nos aproximamos do velho Curral do Porto da Lage que foi destruído para a construção da barragem que por momentos aprisiona o Rio da Pigarreira e o Rio da Touça. As águas, imaculadamente transparentes, permitiam ver o leito da pequena albufeira e as marcas dos animais estão por todo o lado.
Assim, ao caminharmos por este vale vamos ser sempre, mas sempre, surpreendidos por aquilo que iremos ver, pois as paisagens que nos oferece vêm na linha do que Fafião já nos habituou. Em tempos disse que ninguém deve dizer que conhece a Serra do Gerês sem conhecer estes domínios, pois é aqui onde o Gerês flecte os seus músculos. O estreito carreiro pelas vertentes - num constante sobe e desce cuidadosamente traçado na encosta - intercala-se com a visão do Rio Fafião e as suas lagoas no fundo vale, com a imensidão de Porta Roibas que parece o fechar e com o azul do céu em tons só ali apreciados.
Passando a pequena represa que ali existe, ultrapassou-se sem grande problema os escassos metros do leito do rio em direcção ao Curral da Touça onde surgiu o nosso descanso. A seguir seguiríamos pelo Vale do Rio Laço, passando pelo curral de mesmo nome e trepando a encosta final até ao Estreito, tendo por detrás de nós uma das paisagens que nos corta a respiração. Esta parte constitui o verdadeiro desafio de toda a jornada, com o carreiro a esconder-se por entre a vegetação que conquista o seu lugar natural e todo o vale parece se fechar sobre nós em paredes que por vezes se vão alcantilar em vertentes pálidas de tons de granito. Incessantemente procuramos nos altos o vislumbre de uma cabra guardião, mas este dia não nos abençoou com tamanha visão.
A «pouca» distância do topo o carreiro empina-se e a passada deve-se tornar cadenciada e forte para vencer o declive. Os metros finais são quase uma luta com a vegetação para ir descobrindo o carreiro que se esconde no chão. No entanto, a chegada ao Estreito dá-nos o prémio merecido e permite-nos ver a Roca Negra, a Rocalva e a Roca das Pias, bem como a Arrocela, o colosso de Iteiro d'Ovos e o promontório granítico da Meda de Borrageiros «logo ao lado» de Porta Roibas. Tudo é grande! Tudo é imenso! Tudo, mas tudo, é medonho para a nossa pequenez!
Voltávamos assim ao «traçado» do Trilho da Vezeira de Fafião que havíamos abandonado no Curral da Touça e seguíamos em direcção ao Curral de Pradolã, continuando a descida para Pousada à vista dos Bicos Altos e do Vidoal, local de passagem pela manhã no outro lado do vale. Na sua interminável descida o carreiro embrenha-se por um pinhal que nos levaria às Chãs de Touro Trigo e ao Salgueiro, e depois ao traçado da Grande Rota da Peneda-Gerês.
O caminho levou-nos então para a parte final da Corga de Carnicente que se despenha para o Rio Fafião e nos leva a atravessar para a sua margem esquerda na Ponte de Matança. O caminho irá mais adiante juntar-se ao estradão inicial que nos levará ao nosso destino, Fafião.
Ficam algumas fotografias do dia...
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
A sublime paisagem de Porta Roibas e Lagarinho, Serra do Gerês, pelos caminhos da Vezeira de Fafião.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)