Conhecer a História e compreender a História, ajuda-nos a compreender o mundo actual e entender o valor que a toponímia tem para a compreensão da História.
Campo do Gerês é uma das aldeias mais antigas do concelho de Terras de Bouro e a razão do seu topónimo abriga-se nas brumas do tempo e da História.
Ler e entender o que se lê ajuda-nos a compreender a História e a razão de ser muita coisa.
O texto a seguir é um extracto do livro “Estudo Histórico-Cultural das Freguesias de Campo do Gerês, Carvalheira e Covide”, da autoria de António Afonso, e explica a razão de ser do topónimo "Campo do Gerês". O capítulo é dedicado a "S. João Batista do Campo do Gerês". Leiam e aprendam...
"A tradição religiosa portuguesa tão arreigada no nosso mundo rural, aliada a um abalfabetismo ancestral existente até ao século XIX em que, apenas, alguns homens tinham um certo nível de instrução, determinou que as paróquias, em geral, fossem conhecidas, não pelo nome que atualmente consta nos registos oficiais, mas pelo orago principal da sua matriz. Esta situação verifica-se em Campo do Gerês que continua, também, a ser designada S. João do Campo. Esta denominação primitiva não só perdurou até aos nossos dias, mas também continua a ser usada pelo povo e encontra-se exarada em muitos documentos oficiais. Na feira de Covas (Terras de Bouro), quando alguém dizi que era de S. João, queria dizer que vivia na freguesia da Balança; ser de S. Mateus significava ser natural ou residente na paróquia da Ribeira, etc.
Desconhecemos, de presente, qual a razão que terá levado à mudança do nome da paróquia: S. João do Campo; S. João do Campo do Gerês e Campo do Gerês. O registo mais antigo do topónimo Campo do Gerês remonta a 1728, no texto do Pe. José de Matos Ferreira, «Thesouro de Braga descoberto no Campo do Gerez». De acordo com os registos paroquiais, generaliza-se a partir da década de 20 do século XIX, e poderá estar relacionada com a alteração do páraco nas décadas que se seguiram às invasões francesas. Em 6-12-1821, o Pe. José António Nunes, encomenda, regista, no assento de casamento, «S. João do Campo do Gerês». Entretanto, toma conta da paróquia o abade António José Lopes que, no assento de batismo de 16-8-1822, escreve S. João do Campo, todavia, no registo seguinte, a 28-9-1823, já refere S. João do Campo do Gerês, bem como nos que se seguiram. Discordamos, pois, do Dr. Fernando Cosme (2022: 155) quando afirma que «recentemente começou-se a adotar este nome, suponho que por influência da empresa de camionagem ao fazer a carreira de Braga para esta aldeia, sendo assim mais explícita quanto à sua localização». Desde os anos 20 d0 século XIX até 1911, que se usava «S. João do Campo do Gerês», embora, a 12-12-1822, o pároco tenha registado, apenas, «Campo do Gerês». Após a implantação da República, os republicanos procuraram apagar as marcas do cristianismo, tendo, inclusivé, obrigado alguns sacerdotes ao exílio, xcomo aconteceu no tempo do ministro Afonso Costa, também apelidado de «mata-frades». É neste contexto que S. João do Campo do Gerês perde o nome do seu orago.
A heráldica descreve-nos o seu brasão do modo seguinte: «escudo verde, com dois penhascos de ouro, realçados de negro, moventes da ponta e encimados por um corço de prata, realçado de negro, armado e ungulado de vermelho. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenfa a negro: "Campo do Gerês"». Trata-se de uma heráldica que nos remete para o brasão de armas conelhio, onde o cabrito montês é substituído por um corço, e onde o monte revestido de verde se desdobra em dois «penhascos de outro», numa clara alusão à serrania geresiana.
Em relação à palavra «Campo», os investigadores são praticamente unânimes na sua filiação ao vocábulo latino «campus», afirmando a sua origem romana, provavelmente de um acampamento militar, como se prova pelos vestígios arqueológicos encontrados na veiga de S. João ao lado da via militar XVIII (Via Nova) do Itinerário de Antonino, servindo, também, de aquartelamento na defesa da zona raiana pelos povos a isso obrigados."
Seria interessante em todos os aspectos, que o livro “Estudo Histórico-Cultural das Freguesias de Campo do Gerês, Carvalheira e Covide” estivesse disponível para compra. Infelizmente, e de momento, não é possível adquirir esta obra e o contacto com o Município de Terras de Bouro mostrou-se, até de momento, infrutífero.
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)




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