quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"Resgates pagos no Gerês"


Um artigo de opinião de Paulo Roxo, autor do livro "Serra da Estrela - Montanhismo e escalada invernal", sobre a recente notícia que revela a intenção por parte dos autarcas da área do Parque Nacional da Peneda-Gerês de propor o pagamento dos resgates de montanha na Serra do Gerês.

E pronto, anda na boca da imprensa medíocre (Correio da Manhã), que irá ser implementado o regime de pagamento dos resgates no Gerês. Obtusamente, o autarca da câmara de Montalegre David Teixeira atira para o ar sugestões emblemáticas, só tidas em conta num país onde os órgãos responsáveis, ajudados por uns quantos elementos de um povo inculto e sedentário, estão enclausurados numa espécie de redoma de vidro, esquecendo que, lá fora, o mundo não funciona assim. Os locais do mundo (dito desenvolvido) em que os resgates são pagos pelos resgatados, estão inseridos num contexto de grupos de resgate profissionais, bem treinados e bem equipados, em consonância e equilíbrio com seguros efectivos onde esses resgates estão previstos e podem ser cobertos.

A nossa realidade não é essa! Lamento, mas a foto que ilustra o artigo do JN acerca deste assunto, revela uma imagem de mediocridade e tristeza nos nossos grupos de resgate. Sinceramente, na foto, os senhores resgatadores, com os seus "kispos" do chinês e botas da tropa encharcadas, parecem uns mendigos e o equipamento está longe de ser o adequado (atenção que eu não falo da boa vontade e espírito de ajuda e sacrifício dos elementos dos bombeiros e policia envolvidos, isso é algo que admiro). Por causa disto, temos resgates ridículos envolvendo mais de 80 pessoas (!!!!!!!), muitos mal treinados, que mal conseguem caminhar num trilho onde qualquer pessoa com um mínimo de experiência em caminhadas não teria qualquer problema.


Fotografia: © Paulo Jorge Magalhães / Global Imagens

Será que sou só eu que vê uma tremenda injustiça na cobrança de um resgate desta natureza? Se eu me aleijar, terei que pagar pela ineficácia gritante do sistema? Claro, por cá, a solução para contornar a falta de profissionalismo e meios é: "criar corredores de emergência", como sugeriu o autarca David Teixeira, ou seja, abrir estradões em plenos parques naturais (neste caso, no Gerês) para que os bombeiros possam chegar comodamente de jipe! Portanto, estas medidas espectaculares irão contribuir ainda mais para a degradação das nossas serras.

Quando outros países já chegaram à conclusão que se as pessoas procuram cada vez mais as montanhas e a Natureza há que educar, aconselhar e investir na prevenção em larga escala, através da pedagogia, formação e informação, por cá continuamos com a repressão, os castigos e as multas, tendo como alvo precisamente as pessoas que desejam admirar a natureza. A cultura do medo impera e é a solução ideal! Espanta-se toda a gente dos nossos parques, sobretudo gente esclarecida, e depois espera-se que as pessoas queiram proteger e respeitar a natureza... através dos programas da National Geographic. Com esta excelente pedagogia espera-se então que a seguinte geração saia educada e preparada para preservar as nossas montanhas. Claro, Vai funcionar! Parabéns ao senhor autarca David Teixeira e demais equipa decisora por estas ideias tão eficazes e que irão decerto, acabar com os acidentes. CLAP! CLAP! (Palmas).

Fotografia: © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

3 comentários:

Suevo disse...

Antes de mais, os meus parabéns pelo excelente blog que é uma referência sobre o Gerês. Não podia estar mais de acordo, é absolutamente ridicula toda esta história dos resgates pagos e todo o circo mediático montado à sua volta. Só possivel, num país onde, para muita gente sinónimo de exercício é dar umas voltas num centro comercial e o contacto com a natureza se resume a ficar sentado no sofá vendo um documentário sobre vida selvagem. Se nada desculpa a estupidez de quem por irresponsabilidade arrisca a sua integridade física, limitar o acesso e colocar restrições de forma generalizada a todos aqueles que adoram a montanha e procuram fazê-lo de forma responsável não faz qualquer sentido.

Saudações montanheiras,

Suevo
http://viapedestre.blogspot.pt

Suevo disse...

Antes de mais, os meus parabéns pelo excelente blog que é uma referência sobre o Gerês. Não podia estar mais de acordo, é absolutamente ridicula toda esta história dos resgates pagos e todo o circo mediático montado à sua volta. Só possivel, num país onde, para muita gente sinónimo de exercício é dar umas voltas num centro comercial e o contacto com a natureza se resume a ficar sentado no sofá vendo um documentário sobre vida selvagem. Se nada desculpa a estupidez de quem por irresponsabilidade arrisca a sua integridade física, limitar o acesso e colocar restrições de forma generalizada a todos aqueles que adoram a montanha e procuram fazê-lo de forma responsável não faz qualquer sentido.

Saudações montanheiras,

Suevo
http://viapedestre.blogspot.pt

João Francisco disse...

Subscrevo. Nesta matéria o país está cheio de decisões desfasadas da realidade, reflexo da falta de cultura de quase todos os intervenientes no turismo de natureza português.