terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Trilhos seculares - A Costa de Bargiela

 


Percorrer a Costa de Bargiela (Varziela), Serra do Gerês, é uma experiência para os sentidos que nos faz embrenhar na solidão dos profundos bosques, na tranquilidade do leve balancear das folhas à brisa fria da manhã e na imensidão dos espaços quando os horizontes se perscrutam por entre as ramadas ou numa qualquer clareira.

Cada percurso deveria ser percorrido pelo menos quatro vezes por ano, pois em estações diferentes a paisagem transfigura-se, levando-nos a experimentar sensações só possíveis nesses tempos diferentes. Se no Verão a intensidade da folhagem e a profundidade dos verdes nos absorve por completo, no Inverno o castanho esbatido do restolhar das folhas e os retorcidos ramos nus levam-nos a roçar a melancolia dos dias.


Com o passar das estações, o trilho que antes estava bem visível, agora dissipa-se da memória e o seu ziguezaguear encosta acima fica esquecido. As velhas mariolas vão ajudando a relembrar o percurso onde árvores caídas e a intensa vegetação vai tomando o seu lugar em tempos remetido à passagem do Homem. Aqui e ali, notam-se as correrias dos pequenos animais e outros de maior porte vão remexendo a terra em busca de alimento.

Iniciando junto dos antigos Viveiros das Trutas na Albergaria, o carreiro vai subindo de forma decida a encosta. O Rio Maceira e o Rio Homem confundem-se num cantar ao desafio que se vai tornando mais ténue à medida que vamos subindo e embrenhando num emaranhado de sensações: ora a brisa e a ramada que nos arrepia a pele, ora os sons dos bosques que nos fazem estar atentos por entre o caos da folhagem, ora o restolhar dos pequenos animais ou pássaros nos fazem estancar na esperança de algo maior.


Subindo, subindo, o carreiro vai-nos levar a passar por algumas clareiras que nos permitem o vislumbre dos picos serranos que dominam o Vale de Leonte voltado para a Albergaria: ora é a Corneda, ora é o Pé de Medela e Carris de Maceira, ou então tenta-se distinguir algo por entre as árvores do Peito de Albergaria. No horizonte a Este, o Cabeço do Cantarelo desafia-nos para uma visita! A Norte, a Portela do Homem quase que delimita o Vale do Homem e a Oeste vai-se estendendo o resto da serra até se misturar com a Amarela. O chão deste estranho quadro invernal reveste-se das matas de Albergaria e Palheiros.

Continuando, chega-se à Chã de Bargiela com o seu velho abrigo pastoril alagado. Em tempos, existia uma placa que assinalava o local... deverá agora servir de elemento decorativo na casa de algum egoísta. Da Chã de Bargiela segui a Nascente, descendo para o Curral Velho e daqui, por entre o mato que se vai adensando, para o Colado Seco. Continuando pela Encosta da Bemposta, descia até ao Ribeiro da Água da Adega bem perto onde este se junta ao Rio Maceira e continuei pela estrada até à Albergaria.








































Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Sem comentários: