terça-feira, 6 de abril de 2010

O património perdido da Peneda-Gerês (XXV)

Já aqui dei vários exemplos da forma como se deixou degradar um património que há pouco mais de 35 anos dava abrigo a dezenas de guardas florestais que zelavam pelas nossas matas, bosques e florestas. Naquele tempo, e quando se visitava uma floresta, víamos que tudo se encontrava limpo, limpo de lixo urbano, limpo de mato, galhos e árvores caídas, limpo de vândalos. As populações rurais aproveitavam o que a Natureza lhes proporcionava enquanto que os guardas florestais zelavam por grandes zonas de florestas.

Essa rede de casas florestais foi abandonada com a quase «criminosa» remodelação dos serviços florestais em território nacional. Em pouco tempo a figura do quase temível Guarda-florestal desapareceu e as casas florestais ficaram abandonadas sujeitas ás intempéries e ao vandalismo. Algumas foram aproveitadas como sedes de Juntas de Freguesia outras requalificadas para aproveitamento como casas de turismo rural.

No Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) muitas destas casas foram também requalificadas e alugadas para que as pessoas pudessem ter um contacto directo com a Natureza e com o expoente nacional da sua conservação. Mais tarde estas casas ficaram na responsabilidade da ADERE Peneda-Gerês que após alguma manutenção continuou a alugar estas casas.

Porém, com o passar dos anos, já nem as reparações feitas sobre reparações conseguiam resolver os sérios problemas que as casas demonstravam. Uma manutenção deficiente, uma utilização abusiva por parte de muitos dos que alugavam essas casas, levou a que as mesmas deixassem de ser alugadas.

Outras casas nunca foram recuperadas e o abandono e vandalismo acabaram por traçar o seu destino. Este destino é um destino triste, um reflexo e uma imagem do que os que governam conseguem fazer com o nosso património.

No entanto, e se aqui já mostrei muitas casas florestais em ruínas, não deixa de ser preocupante a forma como as casas que até há pouco mais de dois anos estavam destinadas ao aluguer no turismo rural, se encontram agora. Se a Casa de Abrigo de Pitões das Júnias ou a Casa de Abrigo do Baleiral podem ser dois exemplos de uma degradação avançada, o exemplo da Casa de Retiro de Murça é um exemplo da má e péssima gestão que é feita destas casas. A Casa de Murça encontra-se na fase inicial de degradação com a sua porta principal sem uma fechadura que garanta a segurança interior do edifício. A porta principal é facilmente aberta permitindo acesso á cozinha e á sala de estar, e depois às restantes divisões da casa. As casas de banho parecem em relativo bom estado e dois dos quartos ainda contêm algum mobiliário, nomeadamente duas camas e um guarda-fatos. As infiltrações pelo tecto são bem visíveis na cozinha e o facto de alguns dos portados estarem abertos permite a entrada de humidade e chuva para algumas das divisões.


A questão que se coloca nesta altura é a de quem é a responsabilidade por este estado de coisas? Como é que edifícios em condições de habitabilidade até há pouco mais de dois anos chegam a este estado? Onde estão as autoridades no terreno e que tipo de vigilância e de conservação tem sido feita para se salvaguardar este património? Porque é que o PNPG e a ADERE Peneda-Gerês deixaram que as casas abrigo chegassem a este estado e qual o objectivo deste abandono?

São estas as perguntas que agora coloco e que gostava de ter algumas respostas.

A Casa Retiro de Murça está localizada a 41º 54'05N - 8º 15'45O e a uma altitude de 638 metros (GPS).

Em resultado deste texto, enviei uma cópia do mesmo ao PNPG e à ADERE Peneda-Gerês.



Onde é que já vimos esta obra ridícula?







Fotografias: © Rui C. Barbosa

6 comentários:

Pedro Pereira disse...

E ainda somos um país desenvolvido???....Não ,acho que não só formos desnevolvidos em destruição,em vandalismo e abandono...é triste ver a degrada ção das mentalidades!!!

SudEx disse...

Depois por favor informe/informa-nos de eventual respostas das respectivas entidades.. É realmente chocante, tanto uma como outra, nada fazerem em prol desse património que em tempos foi público e agora se perde a favor de ninguém...

DN

DuK disse...

... Um ponto sem retorno!

Deixaram chegar como está, agora dificilmente alguma entidade assume a responsabilidade de as recuperar pois o investimento é muito, mesmo muito e não deve haver garantias de retorno...

Que sirva de exemplo para outras situações semelhantes não acontecerem!

João disse...

Não tardará, algum do equipamento existente nestas casas, que as fotografias documentamé fatal, desaparecerá,para não fugir á regra,os culpados são os id~enticos salteadores que democráticamente têm vindo a saquear o paísde á uns anos a esta parte.

João disse...

Aconcelhava o autor do blogue, a fazer algumas incursões fora da área que habitualmente costuma comentar acerca de casas da floresta,por exemplo á serra de Anta, Monção - Arcos, viste a casa do Extremo, conheci-a nos anos 1968/70, inclusive o guarda da floresta que á altura a habitava,com o qual trabalhei como jornaleiro,JOSE MARIA DE SOUSA, em total abandono, mal se avista por entre a alta vegetação,que recentemente visitei e espanto meu quase intacta, coisa rara senão única,sem torneiras roubadas,vidros ou loiça sanitária partida ou roubada,nem vandalizada,será que a junta de freguesia do Extremo, não é capaz de fazer uma limpeza ao matagal,em redor, como é exigido por lei em redor os tais 50 metros que tanta se fartam de falar, como acontece em algumas destas casas existentes no concelho de Monção?, já não falo na camara que penso desconhecerá a sua existência, é que num eventual fogo já era, parabens aos habitantes do Extremo.

Rui C. Barbosa disse...

Caro João,

Um obrigado pelo comentário e pelo conselho. Apesar da ideia final ser a enumeração das casas florestais dentro da área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, sem dúvida que as restantes casas que possam existir fora e nas proximidades do PNPG também são de interesse.

Agradecia se me pudesse enviar um email pessoal com a(s) localização(ões) mais precisa(s) da(s) casa(s).