sábado, 11 de julho de 2026

A Conquista do Inútil (2): A subida ao Borrageiro

 


A subida ao alto do Borrageiro é uma caminhada relativamente fácil, apesar de exigir um esforço de ascensão quase desde o princípio. A paisagem da Serra do Gerês, inicialmente escondida nos pequenos vales, revela-se a cada passo através dos carreiros seculares que nos levam às relativas planuras graníticas.

De desespero para alguns, estes pequenos percursos ajudam-nos a revelar a essência de um mundo que se pode tornar uma paixão. As grandes jornadas exigem um sacrifício a que muitos não estão dispostos; as pequenas jornadas podem tornar-se gramdes desafios. De facto, e em todas estas jornadas longe do rebuliço sazonal - e parafraseando Edmund Hillary, "não é a montanha que conquistamos, mas a nós mesmos." Esta satisfação da «nossa própria» conquista tem ainda uma maior dimensão quando vemos os mais novos a saborear em pleno os prazeres da Natureza e onde o "Imenso" se torna nas suas conquistas.





"O cume é para o ego, a jornada para a alma"

A nossa jornada começou na Portela de Leonte. Manhã tépida e a prometer um desafio quando as resteas de orvalho se evaporarem ao Sol, iniciamos a subida da Costa do Murjal seguindo pela velha calçada que nos ajuda a ir ganhando altitude até à Chã do Carvalho (ou Chã do Carvalho de Leonte).

Caminho inumeras vezes calcorreado, o Pé de Cabril serve de guardião da paisagem que se revela a cada passo por entre a vegetação a contar os dias para a chuva (que, espante-se, até nos iria brindar mais tarde). O caminho ziguezagueia (en)costa acima por entre uma infinidade de arvoredo de onde espreitam os pequenos carvalhos, medronheiros, azevinhos e os tímidos teixos, além de outras árvores que prenunciam, noutras direcção, a entrada no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Quando nos habituamos a ter por derto aquilo que nos é próximo, não nos apercebemos que um mais pequeno descuido pode, em poucos minutos, destruir o que levou  séculos a criar. É esta a sensação que eu tenho sobre as considerações de muita gente acerca do valor do património natural que nos banha a retina quando, passados a Chã do Carvalho, se nos abrem os vales tapeteados da Mata de Albergaria. Muitas vezes são «os de fora» que valorizam aquilo que vemos, numa tomada de consciência sobre algo que não esperavam ver.





Em 1792, Link comparava os arvoredos da Albergaria à grandes florestas da sua Alemanha natal "e até mesmo às da Inglaterra," tal como nos relata Ricardo Jorge no seu "Guia Thermal" (pág. 10, 1891).

Antes da chegada ao Prado do Vidoal, a paisagem presenteia-nos com o Vale do Rio Maceira coroado pelo Pé de Medel, Carris de Maceira e pelo Cabeço da Cantâra, numa paisagem enrugada que nos leva desde o Pé de Cabril, Cancelo, Costa de Bemposta, Colado Seco, navegando pelo mar verde da Albergaria, Corneda, Roca d'Arte, Cabeço de Lavadouros e Outeiro Moço. Isto é Natureza e História em toda a sua planitude.

A passagem no Prado do Vidoal dá-nos o testemunho da ocupação secular do território pelas vezeiras. O olhar atento irá certamente descobrir os diferentes abrigos que por ali foram utilizados ao longo de inumeros verões; nos nossos dias, resta o abrigo pastoril que terá sido edificado com a ajuda dos Serviços Florestais para dar abrigos aos seus trabalhadores e aos pastores que nas vezeiras velavam os animais.





Com o dia a aquecer, mas com uma brisa a ajudar pela manhã, a jornada continuou em direcção ao Colo da Preza, ladeando-se o Outeiro Moço com a sua forma característica que lhe dá o nome. Com um céu azul e uma refrescante brisa, a chegada à Preza maravilhou-nos com a paisagem do Vale de Teixeira - nosso eventual destino. Até lá, faltava ainda uma légua que nos faria passar pelo alto do Borrageiro, com o seu decrépito marco geodésico e os restos de uma velha antena de comunicações que há muito já deveria ter sido dali removida.

Tomando um carreiro que se inicia pouco depois do velho marco delimitador do perímetro da Mata Nacional do Gerês, as pernas sentem o esforço da subida que se faz de forma pausada. A cada passo, a paisagem afunda-se na profundidade do olhar que já abarca os limites castrejos da área protegida. Passando a Chã da Fonte, continuamos a subir com o objectivo de chegar à Fonte da Borrageirinha cuja água fresca já nos acalma a pele e dá-nos o alento para conquistar o inútil.

Estamos agora nas proximidades da Portela de Sineiros e seguimos em direcção ao Arco do Borrageiro. Esta estrutura natural é resultante dos efeitos da erosão natural e era já um ex-líbris do Gerês clássico, surgindo em alguns velhos postais. Curiosamente, existe uma estrutura que eventualmente poderá dar origem a um novo arco após eras de erosão... já não será para os nossos olhos.





Sendo denominado "Arco do Borrageiro" - o nome vem certamente da sua atribuição nos tais postais de finais do século XIX, princípios do século XX -, este encontra-se um pouco afastado do alto do Borrageiro. Assim, será que em tempos a sua designação teria sido outra? É algo para reflectir em algum momento...

Deixando o Arco do Borrageiro, segue-se então para o pináculo altimétrico da nossa jornada: o cume do Borrageiro. No grupo, dois valorosos montanhistas de 8 e de 12 anos. A partir de certo ponto no caminho, foram eles que seguiram na frente, orientados pelo guia da RB Hiking & Trekking. Conquistando cada declive, salvando cada salto, seguindo cada mariola, a subida fez-se de desejo da conquista. A jornada até lá estava já na alma, faltava saciar o ego! O cume foi vencido às 12h37 quando o velho marco geodésico testemunhou a alegria da conquista e a satisfação e plenitude da ânsia de tudo abarcar com o olhar. A sensão do imenso envolve os irmãos e as montanhas não têm já limites para os seus desejos e conquistas.

Esta parte da jornada estava feita! Faltava o resto, e que resto seria. Iniciando a descida do Borrageiro, seguiu-se em direcção à Chã de Roca Negra, antigo curral à sombra do duplo cume que ainda guarda os restos do seu curral alagado. Dali, a visão da Meda de Rocalva, do colosso de Iteiro d'Ovos e do cume de Borrageiros, altivo à distância.





Caminha-se através do silêncio e até o restolhar da carqueja parece silenciar-se ao raspar nas botas. Por vezes, surge o eco das vozes na penedia e o vislumbre de velhos muros mostra que até os lugares mais recônditos tiveram a sua utilidade nos dias em que as noites de Verão se transformavam em infernos de Inverno ou na vertigem da fuga do contrabando.

Seguindo a Sul, começamos a calcorrear as vertentes altivas do Vale do Cando encimado pela Roca Negra com as suas paredes aprumadas. As vertentes mergulham no vazio em vertiginosas exclamações de espanto e olhar calcorreia a paisagem em busca de vida no vislumbre de uma cabra-montês que vigia a imensidão, marcando o seu território. O cenário compõe-se e vai-se alterando a cada passo com a perspectiva dos cumes que se deslocam em cenários de imensidão onde a montanha do Gerês - de Bouro a Barroso - ganha a pujança dos grandes espaços e que em nada fica trás das suas primas europeias. 

Mariolado, o carreiro leva-nos a passar junto do Cabeço do Cando (erradamente designado como "Chã de Pinheiro" no OSM) e Eira Bonita, onde flectimos à direita para seguir para a vasta vertente granítica que nos levará à Chã de Pinheiro e daqui seguir para a Corga de Fitoiros Negros que nos dá passagem para o Vale de Teixeira, local do já merecido descanso e repasto.

Entretanto, os céus haviam-se trasmutado de um azul puro para uma amalgama de nuvens carregadas de água e furiosas de electricidade. A nossa próxima passagem seria o Curral de Camalhão. Já ao longo do dia, havíamos testemunhado o efeito dos dias secos na serra: os regatos estão exangues de água, as pequenas fontes estão há muito secas e as árvores começam a sentir o stress de falta de água... em alguns sítios, parecia Outono ao caminharmos em tapetes de folhas secas. De facto, e com o calor que se faz sentir, não tarda teremos os sinais de um Outono antecipado, mas que ainda estará longe, quando os quitamerendas começarem a decorar a paisagem mais cedo do que é usual.





A passagem pelo Curral do Camalhão foi presenteada por um aguaceiro que acalmou o ambiente do calor abafado que se fazia sentir e alguns preferiram os espaços abertos ao abrigos dos carvalhos. As pesadas gotas de chuva surgiam como um alívio na pele quente. Porém, a chuva era efémera e depois de dois ou três trovões, voltou o calor e o desejo da água.

Passando o Camalhão de Baixo e chegado ao Curral de Camalhão, esvaiu-se a vã esperança de ali haver água. Os regatos estão secos e a fonte recorda com saudade a água fresca que nos oferece. Nestes dias, saber onde obter água nas jornadas serranas é um conhecimento valioso. Entravamos na Garganta da Preza por onde escorre, lamacento e ludoso, a triste memória do ribeiro que mais adiante alimentará o Rio Arado. Restam os chagos estagnados onde os pequenos anfíbios vivem na esperança de dias de chuva.

A subida era já penosa pelo cansaço que o calor da tarde infligia nos corpos. A água nos cantis era quente, boa para acalmar a sede, mas má para dar-nos a sensação de alívio de algo refrescante. Seguíamos então em direcção ao Curral do Junco onde sabia existir uma pequena zona alagada e um velho tanque que em tempo idos serviu o velho forno pastoril ali existente. Ora, havendo o pequeno tanque, seria uma questão de procurar a nascente que alimenta o charco e a zona húmida. Desviando alguma vegetação e brotando da rocha-mãe, a visão da água fresca a escorrer nas fendas graníticas deu-nos a mesma sensação da descoberta de ouro. Pacientemente, os cantis e pequenas garrafas foram cheias com a água que criava condensação e os corpos, finalmente, encontravam a satisfação e o prazer da frescura por entre o ambiente tórrido e abafado que se sentia.

Passando o Curral do Junco, chegavamos de novo ao Caolo da Preza e iniciavamos a descida que nos levaria de volta à Portela de Leonte passando o Prado do Vidoal e a Chã de Carvalho.

Ficam algumas imagens do dia...

















Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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