Um evento como a Volta a Portugal em Bicicleta é inegavelmente um meio de promoção do território a nível nacional e internacional.
De facto, aproximando-se da sua centésima edição, até se questiona como não correu mais cedo por estas paragens? A resposta é óbvia: a Volta passa em locais onde o financiamento existe e não é pelos «lindos olhos do Gerês» que ela vem para cá.
Tornando-se a polécima do momento, o traçado da Volta quer levá-la a cortar a Mata de Albergaria, Reserba Biogenética declarada pela UNESCO, verdadeiro coração e razão de ser do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). Em dois ou três dias já se escreveu o essencial sobre as razões pelas quais não deve (e não pode) passar pela Mata de Albergaria: a Volta é essencialmente uma "enorme comitiva composta por dezenas e dezenas de automóveis da organização, das equipas, da comunicação social, das forças de segurança e de assistência, para além do inevitável afluxo de espectadores", acrescentando helicópteros a baixa altitude. Se a passagem é fugaz, a presença de milhares de pessoas num espaço limitado como é a Mata de Albergaria, a "área ecologicamente mais sensível do único Parque Nacional português" é razão suficiente para ter "bom senso" e determinar um percurso alternativo para a Volta que pode, seguramente, promover de melhor forma o concelho e o Parque Nacional.
Volta a Portugal em Bicicleta em Terras de Bouro e na vila do Gerês, óbviamente que sim! A passar na Mata de Albergaria, óbviamente que não!
Questiona-se também como é que se chegou a este traçado para a Volta em Portugal em Bicicleta sabendo de antemão que:
- 1) atravessa uma zona sensível do Parque Nacional,
- 2) sabendo que o Plano de Ordenamento do PNPG não o permite,
- 3) sabendo que o traçado seria polémico e que estaria sugeito a "constrangimentos".
Quem aconselhou a Organização da Volta em Portugal em Bicicleta 2026 e que garantias foi dada à Organização de que tal seria possível? Porque se apela a uma minimização de "constrangimentos"? Porque é que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas - ICNF - (supostamente) não foi consultado antes da divulgação do evento a 9 de Julho de 2026?
O que é a Mata de Albergaria? A Mata de Albergaria é uma extensa área florestal, localizada na zona central do PNPG ocupando uma área superior a 1.500 hectares, ao longo do Vale do Rio Homem. Tendo resistido a séculos de desflorestação por incêndios frequentes e pastorícia, a Mata de Albergaria é hoje um testemunho único dos bosques que outrora cobriam o noroeste da Península Ibérica: o carvalhal galaico-português. Representa o único carvalhal maduro de carvalho-alvarinho (Quercus robur) existente em Portugal. Os restante bosques de carvalho existentes em Portugal são de menor dimensão e, sobretudo, muito mais jovens.
O Parque Nacional da Peneda-Gerês está no limite, sem financiamento, sem Vigilantes da Natureza, ao abandono, mal tratado, enfim «sem rei, nem roque». Tal como referiu Hernani Carvalho, o Parque Nacional "tem uma ausência de estado grotesca nalguns aspetos, (...), e excesso de estado e de zelo em outros, que só o prejudicam" e citando Miguel Brandão Pimenta, "a legislação ambiental é invocada para limitar os cidadãos, mas pode ser ignorada quando estão em causa grandes eventos."
Define-se "Parque Nacional" como uma área que contenha maioritariamente amostras representativas de regiões naturais características, de paisagens naturais e humanizadas, de elementos de biodiversidade e de geossítios, com valor científico, ecológico ou educativo. A classificação de um parque nacional visa a proteção dos valores naturais existentes, conservando a integridade dos ecossistemas, tanto ao nível dos elementos constituintes como dos inerentes processos ecológicos, e a adopção de medidas compatíveis com os objetivos da sua classificação.
A autorização da passagem deste evento pela Reserva Biogenática da Mata de Albergaria por parte do ICNF é uma verdadeira machadada na sua autoridade e deita por terra qualquer credibilidade e autoridade na gestão do PNPG, com as óbvias graves consequências de daí advêm.
O Parque Nacional é de todos, "vamos juntos" protegê-lo!
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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