quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Conquista do Inútil (1): A subida ao Cabeço do Rodondelo

 


"A Conquista do Inútil" é um livro do realizador Werner Herzog que é o testemunho do projecto louco que o levou ao desespero (1) durante a rodagem do filme Fitzcarraldo na selva amazónica. O título tem sido utilizado como uma metáfora comparativa da «conquista» humana dos picos e altos montanhosos, onde a vontade de vencer, o desespero e a irracionalidade, por vezes impulsionam o montanhista a conquistar aquilo que surge como uma inutilidade para a maioria, mas perfila-se como o mais alto prémio para ele.

Não querendo ser pretencioso com esta série de textos, irei tentar descrever as conquistas do inútil que se poderão fazer na Serra do Gerês e noutros lugares, tendo como pano de fundo a minha reconhecida incapacidade de alçançar alguns topos que me justifico como serem as "moradas dos deuses" e como tal, lugares que inalcansáveis para mim. Admito não ser escalador ou alpinista, e como tal, não ter proficiência necessária para feitos épicos. Por enquanto, fico-me com as minhas 400...

O "primeiro capítulo" nesta série que não terá uma publicação regular (serão escritos à medida que ocorrerem, acima de tudo, à medida que surja a vontade de as descrever!), leva-nos ao Cabeço do Redondelo.

Com os seus 1071,5 metros de altitude, o Cabeço do Redondelo projecta a sua sombra sobre o Vale do Rio Homem, delimitando a vertente esquerda do Covelo que se afunda desde os limites de Gamil e do Prado até à Bouça da Mó. A encosta direita do Covelo é a vertente da Cascalheira que se eleva até às Mesas.

Conheço dois acessos ao alto do Cabeço do Redondelo, sendo um deles vindo do Curral de Gamil (e do Covelo) e um outro através da encosta Norte do Redondelo, tendo como pano de fundo a albufeira da Barragem de Vilarinho das Furnas e a Serra Amarela. Nesta conquista do inútil, decidi subir esta encosta que, não tendo sido a primeira incursão, é sempre a mais espectacular e ousada.

Iniciei o percurso no Campo do Gerês (2, 3) seguindo o traçado do Trilho da Águia do Sarilhão (4, 5) na direcção Nascente (passando no Parque de Campismo de Cerdeira na direcção da Mata de Albergaria). Com a manhã não muito quente, notava-se já a diferença com o dia anterior onde o ar fresco animava a marcha. Iniciando cedo, previa terminar a jornada pelo meio-dia, o que veio a acontecer para não ser açoitado pelo calor infernal deste início de Verão.

Caminhando na tranquilidade matinal, em breve abandonava os limites do parque de campismo e entrava no bosque que antecede a paisagem de carqueja, tojos e pedra que me acompanharia nas próximas horas. O percurso leva-me através de um caminho rural que abandono ainda antes de chegar ao abrigo da antiga Grande Rota das Casarotas. Para seguir o carreiro quase escondido por entre a vegetação, deve-se ter atenção às pequenas mariolas. De tempos a tempos (de ano a ano, talvez), faz-se a limpeza desta parte do percurso, quando droga da matança do javali dá o seu chuto. No entanto, aqui a vegetação cresce rápido (sim, as nossas montanhas não são desertos de pedra) e o uso de calças é quase obrigatório para evitar uma esfoliação natural.





Subindo uma pequena corga, o caminho vai-se bifurcar mais adiante: a derivação à direita leva-nos para as Bitoreiras e ou quase directos para Gamil, assim tomamos o carreiro que segue a Nascente e começamos a percorrer as encostas do Redondelo. Talvez este fosse o caminho preferencial para chegar ao Covelo, sem testemunhos vindos do Campo do Gerês, é-me difícil perceber a origem do mesmo, mas penso que seria utilizadio para o pastoreio das cabras quando elas ainda existiam por aqui.

De novo, é a intensa vegetação que vai marcar o caminho. Este está marcado com mariolas, mas num ponto ou outro é necessária alguma atenção numa volta do caminho. À medida que ganhamos altitude, o vale afunda-se e a perspectiva torna-se mais vasta: as vertentes da Serra Amarela são vencidas pelo olhar e surge o desejo que uma próxima inutilidade (que na verdade foi adiada devido à previsão de dias tórridos; fica a promessa de uma subida em breve ao Alto da Louriça).





Em pouco tempo chegamos a uma zona «mais plana» na qual podemos fazer um curto desvio que nos leva à parte superior da Fraga do Sarilhão. Em tempos idos, a Fraga do Sarilhão era zona de nidificação da águia real que tormentos trazia aos criadores de cabras que contavam histórias que ver as grandes rapinas, «rapinar» os cabritos mais pequenos.

Nesta zona, o carreiro forma um "s" para vencer a encosta e seguir em direcção à Fraga de Cima. Em alguns pontos, o carreiro aproxima-se da vertente, devendo-se o cuidado necessário para evitar sustos (principalmente em dias húmidos). Vamos ganhando metros no altímetro e a paisagem emociona-nos. De facto, não é necessário uma grande caminhada para termos vastos horizontes e a sensação de uma «conquista» que, espasme-se, estava mesmo ali ao lado.




O carreiro percorre a parte superior da Fraga de Cima e leva-nos a entrar no profundo Covelo. Tenho uma lembrança de, há muitos anos, ter percorrido este fechado vale desde a Bouça da Mó, enveredando por um carreiro que iniciava na Estrada da Geira. A aventura, que se turva na memória, é acompanhada pela recordação de um matagal que se fechava à nossa passagem, mas que foi coroada pelo descanso no sopé do Pé de Cabril. Em tempos, estes lugares eram calcorreados ao longo de carreiros que ligavam os diversos pontos da serra. No entanto, o abandono de muitas actividades de pastorícia, levou à perda e desaparecimento destes caminhos que traçavam memórias dos tempos idos.

A entrada no Covelo proporciona uma ligação com o Prado e com o Curral de Gamil. Seguindo pela sua margem esquerda, vai vencendo a distância ziguezaguenado por entre a penedia até atingir uma primeira elevação: uma verdadeira varanda que permite ao olhar abranger quase todo o grande lago azul escuro que se estende aos nossos pés. A vertente Sul da Serra Amarela está à nossa frente e o olhar guia-se desde a Calcedónia e Curvaceira, passando pelas encostas de Sta. Isabel, Covide, Carvalheira, Campo do Gerês (abrigado pelas encostas do Pinhote e Picota) até à Mata de Palheiros.



Deixando esta magnífica varanda, prossigo para a conquista do inútil e aprecio os grandes blocos que parecem constituir as paredes do bojo que forma o cabeço que me desafia. Ladeando pela esquerda, o caminho empina-se por algumas dezenas de metros até chegar "à sua face Sul". Aqui, um conjunto de mariolas faz-nos descobrir as «secretas» (parece que isto é o que está na moda) passagens que nos levam, a cada passo, mais próximos do ponto mais alto do dia. Em alguns pontos, uma pequena destreza de braços ajuda-nos a ultrapassar um pequeno obstáculo rochoso, da mesma forma que a posição da bota nos dá a tracção necessária para o impulso. Não foi a primeira vez que cheguei ao topo do Cabeço do Redondelo, mas as pequenas conquistas trazem-nos a satisfação das grandes paisagens.

Não é difícil chegar ao ponto mais alto do Redondelo, mas como todas as caminhadas em montanha, esta deve ser feita com todo o cuidado e com a absoluta certeza de que a descida não nos irá trazer problemas. A boa gestão do risco que estamos dispostos a correr é, em si, uma conquista tão ou mais importante do que chegar ao ponto mais alto.

E pronto, estou no alto do Cabeço do Redondelo e aprecio a paisagem que se abre e espalha aos meus pés. Olho o Campo do Gerês e vejo a mestria com que a aldeia foi implantada ao abrigo dos ventos frios do Norte pelas encostas do Pinhote. A Sul, a Veiga de S. João tem as cores dos dias quentes de Verão que contrasta com o azul escuro das águas que afogaram Vilarinho da Furna que durante longos séculos olhou para este colosso ao lado do Pé de Cabril. Esses dias desapareceram debaixo das águas silenciosas e escuras do Rio Homem.

Após a contemplação, restava então a descida e o regresso ao ponto de partida. Porém antes de partir das alturas, olho o Covelo e penso que em breve deveria procurar o "Penedo das Pápas" e o "Buraco do Mouro", referenciando assim dois topónimos que não se devem perder na História desta milenar povoção de Campo do Gerês. Deixando então o cabeço para trás, chegava ao Curral de Gamil e enveredava pelo traçado do Trilho das Silhas dos Ursos (6, 7) já em gestão da água que ia consumindo para tentar esquecer o calor que já se havia indecentemente instalado. O caminho levou-me pela Boca do Rio e Manga de Tojeira, passando então pelo Vale do Meio antes de chegar à valiosa Fonte de Junceda. Os últimos quilómetros até ao Campo do Gerês foram feitos através do traçado da Grande Rota da Peneda-Gerês.

Ficam algumas fotografias do dia...















PS - Possivelmente, no título deveria ter escolhido "ascensão" em vez de "subida" para ter mais "likes".

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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