domingo, 4 de fevereiro de 2018
Paisagens da Peneda-Gerês (CC) - Restos de Outono em Germil
Restos de Outono nos carvalhais de Germil, Serra Amarela.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Uma história da vivência nas Minas dos Carris
Virgílio de Brito Murta (Chefe dos Serviços Técnicos) e José Antunes Inácio (Sócio gerente da Sociedade das Minas do Gerez) no dia da chegada das equipas que trouxeram mantimentos para as Minas dos Carris em Março de 1955.
A mina representava um universo à parte onde na escuridão das galerias se forjavam alianças e cumplicidades, e onde os problemas e as desavenças eram muitas vezes resolvidas com uma queda num abismo escuro.
Nas palavras de Virgílio Muta “a vida era muito dura e o vento Norte era um inferno. Entre Outubro e Maio, ou nevava ou chovia, e à noite no mês de Fevereiro, a temperatura chegava a baixar até aos 17º C negativos. Na mina, a perfuração era feita com martelos pneumáticos, cuja parte principal, e mais cara, era o cilindro. Por cada metro perfurado além duma certa metragem, os marteleiros e ajudantes tinham um prémio, que era muitas vezes superior aos próprios salários. Claro que eles não queriam perder tempo e, por isso, qualquer falha ou avaria os irritava demais. Ora, aconteceu que um dia, o mestre Angelino, que era o encarregado dos trabalhos subterrâneos, me participou que tinha aparecido um martelo com marcas de marretada no cilindro. Disse-lhe para ver se descobria quem fora o habilidoso, acreditando que isso nunca aconteceria, pois, nas minas subterrâneas, a delação era coisa rara e muito perigosa. Mas, ao invés do que eu desejava, o mestre Angelino um dia informou-me que já sabia quem tinha sido o autor da proeza. Era um marteleiro, e eu não tive outro remédio senão chamá-lo ao meu gabinete. O homem negou tudo, jurou pelas alminhas, deu a sua palavra de honra, etc., etc. O mestre Angelino foi então buscar o delator, que garantiu ser aquele companheiro o autor da dita marretada. Este, imediatamente confessou tudo, disse que estava irritado por o martelo se ter avariado e, impensadamente, fez o que fez. Que não confessara antes, porque queria saber quem tinha sido o filho da puta que o denunciara. Perguntei-lhe se sabia o que ia acontecer. Respondeu que sabia muito bem, que eu o ia despedir. E, de facto assim foi; com muita pena minha, porque ele era realmente um bom marteleiro. Perguntei depois ao denunciante, qual era a recompensa que pretendia: era um lugar de auxiliar do encarregado (vigilante). Disse-lhe que também ia ser despedido, o que de modo algum esperava, ficando extremamente ofendido pelo prémio que recebeu. O autor da marretada deu duas gargalhadas, despediu-se e foi ao escritório pedir a conta. O denunciante ainda ficou para ver se me convencia a mudar de ideias, que não esperava que lhe pagasse daquela maneira, que era muito meu amigo, etc., etc. Eu consolei-o dizendo que ele ainda me devia agradecer, porque, se continuasse a trabalhar, arriscava-se a levar um empurrão para dentro de algum poço, ou até uma marretada, o que seria um bocado desconfortável para ele e incómodo para a Companhia. E dessa vez, com toda a certeza, não haveria ninguém para contar como tinha sido… Lá se foi embora, não muito satisfeito, mas mais conformado.
O tempo passou e, numa noite do Porto, chuvosa e fria, lá pelas três da manhã, vinha eu descendo uma rua escura e estreita, quando vi dois indivíduos, com todo o aspecto de já terem bebido uns bons copos, subindo na minha direcção. Quando passaram por mim, pararam e interromperam aquela conversa de bêbados. Um deles voltou-se para o meu lado e disse «Deus o salve, meu senhor» – e eu achei que iria mesmo precisar da salvação Divina. «O Sr. se calhar já não se lembra de mim, mas eu lembro-me bem de si.»
Nessa vida de minas, lida-se com tantos trabalhadores, que é difícil a gente lembrar-se de todos. Mas daquele eu lembrei-me, e muito bem. Era o mineiro da marretada, que eu tinha despedido. Pensei cá comigo que «…agora é que a coisa ia aquecer…» O homem aproximou-se de mim, cambaleando um pouco, e eu encostei-me à parede esperando pelo pior, pois fugir era muito feio. Então, ele voltou-se para o companheiro e, apontando na minha direcção, contou, rindo às gargalhadas, o caso que se tinha passado na mina, e que atrás relatei. Disse-me que nunca mais tinha visto o denunciante, mas que ainda havia de ajustar as continhas com ele. «E comigo?» Pensei eu… Não é para me gabar (até porque não estava nada à vontade), mas fiquei muito satisfeito e muitíssimo aliviado, com o que ele a seguir disse ao companheiro, e que foi mais ou menos o seguinte «este foi o melhor chefe com quem eu já trabalhei. Ainda me farto de rir quando me lembro da cara daquele gajo que me denunciou, quando aqui este senhor lhe disse que também estava despedido…”
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
sábado, 3 de fevereiro de 2018
Paisagens da Peneda-Gerês (CXCIX) - Carvalhal de Paredes
O frondoso Carvalhal de Paredes, Carvalheira - Serra do Gerês, com tons de Inverno.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Caminhada guiada às Minas dos Carris a 17 de Março
O Parque de Campismo de Cerdeira está a levar a cabo uma série de actividades nas quais é possível visitar as antigas ruínas das Minas dos Carris.
Designada por "Caminhada aos Carris", esta actividade mensal tem como objectivo realizar uma visita guiada às minas com explicação dos aspectos mais importantes da actividade mineira na altura da II Guerra Mundial. A caminhada é feita ao longo do Vale do Homem.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Paisagens da Peneda-Gerês (CXCVIII) - Sombras em Germil
Sombras que se projectam em Germil - Serra Amarela, em final de tarde.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
GERESÃO já nas bancas
Já está nas bancas a mais recente edição do jornal GERESÃO.
Se desejar assinar o GERESÃO deve enviar um email para geresaojornal@gmail.com.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Germil
Um vale majestoso marcado por socalcos de vinha, demonstra o domínio hábil do homem naquele lugar, ladeado pela vegetação autóctone onde se distinguem carvalhos e castanheiros. Ao cimo, a aldeia de Germil na cota dos 600 metros, encaixada nos pequenos socalcos e que constitui um exemplo típico de uma povoação de habitat serrano. Germil é uma típica aldeia de montanha situada num dos muitos cumes da Serra Amarela, em pleno Parque Nacional da Peneda Gerês (PNPG) e a escassos quinze quilómetros da sede de concelho, Ponte da Barca.
A altitude (que varia entre os quatrocentos e os oitocentos metros) traçou Germil como sendo mais um daqueles locais de difícil acesso, isolada e voltada para si mesma. A aldeia é composta por apenas dois aglomerados populacionais e, como seria de esperar, sofreu ao longo dos tempos de um mal que afectou todo o país durante décadas: a emigração desenfreada. Por isso, a agricultura de subsistência, aliada ao pastoreio em regime extensivo fizeram de Germil uma aldeia auto-sustentavél e isolada.
Com a pedra de granito a dominar grande parte das construções, o visitante pode observar diversos aspectos da vida comunitária.
Bastante antigos, são alguns dos espigueiros em granito perto de uma igreja datada de 1880. Uma velha azenha, mais uma vez testemunha o aproveitamento das forças da natureza pelo homem. A recolha dos carros de bois puxados por barrosãs e ritmados pelo tilintar dos badalos, mostra que mais um dia de trabalho está a terminar. Galinhas e pintos passeiam-se pelos recantos da aldeia. A pequena estrada que continua aldeia dentro leva-nos até ao concelho de Terras de Bouro. Um pequeno bosque de carvalhos e castanheiros logo à saída de Germil aguarda por nós para um pequeno descanso antes de regressarmos.
Daqui, contempla-se também a bonita aldeia numa outra perspectiva.
Germil e a vivência comunitária
A pequena aldeia de Germil merece uma incursão a pé. O caminho até lá, estrada estreita a serpentear pela serra acima, deixa-nos imaginar como seria remoto aquele lugar antes de existirem modernas vias de comunicação e meios de transporte. Numa cota perto dos 600 metros, apercebemo-nos já das características que marcam uma típica aldeia serrana, onde um maior isolamento face a outras povoações, obriga a sua população a uma vida mais comunitária.
Um dos aspectos que o visitante deve ter em conta, é o facto de nas áreas de menor altitude existir uma maior dispersão de povoações e habitações. À medida que nos dirigimos para as cotas mais elevadas, não só a distância entre as povoações aumenta, como também as características das mesmas se transformam, passando a verificar-se uma maior concentração habitacional. A aldeia de Germil é um desses exemplos. Com uma estrada estreita que atravessa a aldeia em direcção a Terras de Bouro (só recentemente alcatroada), toda a aldeia se encontra aglomerada num pequeno núcleo de ruas muito estreitas, algumas delas cobertas por vinhas. O característico granito das habitações, apenas deixa de existir em casas mais modernas, geralmente de emigrantes.
Antigos espigueiros e uma azenha atestam também algumas das tradições ainda em uso nesta pequena aldeia. A recolha do gado ao fim do dia, assim como as pequenas áreas de cultivo em torno da aldeia, demonstram a forte componente rural que existe ainda hoje em Germil. Como numa boa parte destas aldeias, o vestuário negro é comum em muitas das mulheres idosas.
Texto retirado de "Venha descobrir a aldeia de Germil" in Aldeias de Portugal
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Paisagens da Peneda-Gerês (CXCVII) - De Germil para o mundo
De Germil para o mundo, as encostas da Serra Amarela e a Serra de Soajo vista desde Germil, Serra Amarela.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Final do dia desde Germil
O Sol já se esconde por detrás da serra visto desde a aldeia de Germil, nas encostas da Serra Amarela.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Estanho
O volfrâmio, o molibdénio e o estanho, eram os três minérios extraídos das concessões mineiras dos Carris: Salto do Lobo (volfrâmio, o molibdénio e estanho), Lamalonga n.º 1 e Corga das Negras n.º 1 (volfrâmio e molibdénio).
O estanho é um elemento químico de símbolo Sn e número atómico 50. A sua densidade é 7,3 gcm-3 e a sua temperatura de fusão é de 232ºC. Segundo António Moura as aplicações mais importantes do estanho são “latas e contentores, soldas (ligas com chumbo), bronzes (ligas com cobre) e peltre (ligas com antimónio, cobre, bismuto e chumbo). O estanho é ainda aplicado na galvanoplastia de cobre, alumínio, etc. As peças estanhadas são usadas em objectos para cozinha, na indústria alimentar e farmacêutica e na protecção de peças mecânicas. O SnF2 é usado em pastas dentífricas como agente anti-bacteriano e cariostático.” (Moura, António (2010) “Metais e semi-metais de Portugal”, Palimage, Coimbra, pág. 77.)
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
IX Mostra de Produtos Típicos de Pitões das Júnias
A decorrer entre 10 e 13 de Fevereiro de 2018 em Pitões das Júnias, a IX Mostra de Produtos Típicos.
Adormecer o meu ser
Sinto a escuridão como um peso nos ombros
A mágoa que me envolve ao toque do teu olhar
As paredes estão vazias de memórias e o tempo arrasta-se com a lenta cadência de um murmúrio no qual se transformou a tua voz
O tempo que nos afasta a cada dia que passa
Todos os dias a sombra se torna mais pesada
Num vislumbre do olhar tento aprisionar o seu rosto, mas não o consigo
Todos os dias a sombra se agiganta, negra e fria...
...por vezes, parecia brandir parte de si própria sobre mim e quando de relance me tocava, sentia o seu frio rasgar-me a pele e adormecer o meu ser.
Nesse momento, era uma sensação de tranquilidade e paz que banhava o meu corpo.
Tudo parava num momento de eternidade, uma sensação que me fazia ver-me a mim próprio de fora para dentro, mas sem sair de dentro de mim.
Olhava-me nos meus próprios olhos sem os ver reflectidos
Como uma visão etérea de mim próprio
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
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