sábado, 2 de junho de 2018

Histórias do povo de cabril - As víboras, os medos do povo, suas superstições, lendas e mitos


As víboras, juntamente com os lobos sempre ocuparam um lugar de destaque nos medos e receios do povo.

No Parque Nacional Peneda Gerês, encontram-se referenciados duas espécies de víboras - vipera seoanei Lataste, 1879, víbora negra e vipera latasti Boscá, 1878, sub-espécie latasti, víbora cornuda.

Enquanto os adultos da vipera seoanei podem atingir um comprimento total de 60 centímetros, tendo um focinho pontiagudo e muito ligeiramente levantado, a vipera latasti, o adulto pode atingir um comprimento total de 72 centímetros, sendo a única víbora Ibérica que possui o focinho levantado.

A vipera seoanei Latasti distribui-se a noroeste da Península Ibérica tendo sido já observada em França na região Basca, enquanto em Portugal todas as referencias respeitam a região a norte do Rio Douro. No PNPG esta espécie é dada para Castro Laboreiro e Soajo, existindo ainda uma observação em 1983 em Tourém, entretanto existem na serra do Gerês outras observações a partir dessa data.

A vipera seoanei é bastante rara, contrariamente à latasti, que é frequentemente observada na Serra do Gerês, assim como um pouco por todo o país, sobretudo a norte do rio Douro e em locais de difícil acesso.

Durante as décadas de 60,70 e 80 do século passado, existiu um grande comércio de cabeças de víboras, sendo os pastores, um dos grandes responsáveis, mas havia também pessoas especializadas na sua captura, sendo os maiores compradores das cabeças de víbora oriundos da vila do do Gerês que já na altura pagavam quantias exorbitantes, chegando cada cabeça a valer 5.000 escudos, as cabeças de víboras eram utilizadas para diversos fins sendo um dos mais utilizados para fins de bruxarias e amuletos, o que levou a uma diminuição de ambas as espécies.

As víboras são de fácil observação durante a primavera e o verão e encontram-se activas de Março a Outubro, a reprodução tem lugar em Abril e a fêmea pare no mês de Agosto.

Durante muitos séculos as víboras foram consideradas como um animal que atacava e perseguia as pessoas e a sua picada como mortal, mas agora é do conhecimento que as víboras de Portugal, não são tão agressivas, apesar de a víbora ser mais um bocadinho, e só atacam para se defender, são animais que não atacam espontaneamente e não perseguem o seu agressor, apesar de já ter havido algumas perdas de animais devido a sua mordedura.

O veneno destas duas espécies pode ser fatal em determinadas circunstâncias, tendo uma acção do tipo proteolítico. Nunca tive conhecimento de nenhum caso mortal em seres humanos, mas se por acaso alguém tiver o azar de ser mordido deve imediatamente tomar as devidas precauções médicas.

Antigamente quando médicos não havia ou ficavam a vários quilómetros ,o povo criou as suas mezinhas e medicina popular para as mordeduras ,uma delas era esfregar com Freixo ou azeite, ou então untar com óleo de rã derretido,também se encontra noutros lugares outras mezinhas:

-sangrar o animal e esfregar com uma mistura de azeite e vinagre 
-esfregar com gordura e vinagre 
-esfregar com carne gorda e ranço
-untar com leite de vaca e com folhas de Freixo cozidas 
-sangrar abundantemente a ferida. 

É de interesse desmistificar a agressividade e perigosidade das víboras que existem no parque, embora ressalvando as precauções médicas que se devem tomar em caso de mordedura.

Texto e fotografia: Ulisses Pereira

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